Mountain Dew, o refrigerante que detona dentes nos EUA (e que a Ambev trouxe pra cá)

(No Brasil eles querem associar a marca à vida saúdável)

(No Brasil eles querem associar a marca à “vida saudável”)

Tem um refrigerante novo no mercado: Mountain Dew, uma bebida cítrica cuja embalagem mais parece a de um desentupidor de pia, “verde neon” que nem o Diabo Verde. E a impressão de que aquela garrafinha contém algo corrosivo não é só impressão. Este refrigerante, que começou a ser produzido no Tennessee no início do século 20, está associado a uma epidemia de dentes destruídos na região onde se encontra seu Estado natal. A Ambev fez o favor de trazê-lo, há cerca de dois anos, para o Brasil.

A região de onde vem o Mountain Dew, a Appalachia, perpassa, além do Tennessee, os Estados de West Virginia, Alabama, Kentucky, Virginia, North Carolina e Georgia. A Appalachia possui estatísticas dignas de “terceiro mundo”: extremamente pobre, pouco instruída e também a que tem os piores problemas dentários dos Estados Unidos. As crianças e adolescentes de lá tiveram os dentes estragados devido a um fenômeno que ficou conhecido como “Mountain Dew mouth” (boca de Mountain Dew), em “homenagem” ao refrigerante que a Ambev quer empurrar goela abaixo dos brasileiros.

Qual a diferença do Mountain Dew para os outros refrigerantes? Muito mais açúcar e muita cafeína. Uma garrafinha de 600 ml de Mountain Dew contém 290 calorias, 77 g de açúcar (ou 19,25 colheres de chá) e 91 miligramas de cafeína, mais do que qualquer refrigerante – a Pepsi, do mesmo fabricante, possui 250 calorias, 69 g de açúcar e 63 miligramas de cafeína. A combinação de tanto açúcar com o ácido cítrico é, de acordo com os dentistas, fatal para os dentes, sobretudo das crianças e dos adolescentes. O lado irônico é que Mountain Dew quer dizer “orvalho da montanha”.

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O Kentucky, maior consumidor de Mountain Dew do país, é também um dos campeões entre os Estados com piores dentes. É ainda o número um com pessoas acima de 65 anos sem dentes na boca. Para as pessoas que pensam que os EUA são só Miami, deve ser duro descobrir que o Kentucky é um Estado pobre, com um nível educacional baixíssimo: em um país rico como os EUA, apenas 23,3% da população conseguiram concluir a universidade, e o Estado tem uma das maiores taxas de desemprego no país.

O resultado do baixo nível educacional da região é que muitos pais não veem problema algum em dar Mountain Dew às criancinhas ainda na mamadeira, e pouco antes de colocá-las na cama. Como o acesso ao tratamento dentário é somente para os ricos no “país das oportunidades”, um em cada cinco norte-americanos não possui um só dente de verdade na boca; como tratar é caríssimo, a maioria prefere extrair de uma vez. Os tratamentos gratuitos, oferecidos por dentistas de bom coração, provocam filas quilométricas. Em nosso país, o Brasil Sorridente, criado pelo governo Lula em 2003, é o maior programa de saúde bucal do mundo.

Edwin Smith, um dentista do Kentucky que viaja em um trailer por toda a região da Appalachia fazendo tratamentos de graça, disse à CNN que encontrou por lá pessoas que nunca foram ao dentista na vida. “Vi um monte de crianças com a boca cheia de dentes podres”, afirmou Smith, que atribui a má dentição ao excesso de bebidas açucaradas. No Kentucky, ele encontrou bebês de dois e três anos com dentes de leite esburacados, crianças que não escovam os dentes porque estão com as gengivas inflamadas e adolescentes que arrancaram os próprios dentes podres usando alicates.

Parece mentira dizer isso sobre uma localidade dos EUA, mas muitas cidades do Kentucky não possuem rede municipal de abastecimento de água, e metade dos habitantes do Estado depende exclusivamente de água de poço ou cisterna, que não recebe flúor. A falta de confiança na água que bebem também influencia no fato de os habitantes da Appalachia beberem tanto refrigerante.

Este adolescente do documentário Açúcar! chega a beber 12 latas de Mountain Dew por dia. A primeira vez que ele tomou tinha 2 ou três anos de idade. Olhem o estado dos dentes dele.

Com 26% das crianças em idade pré-escolar com cáries e 15% dos jovens com pelo menos um dente extraído, a “boca de Mountain Dew” criou na região um dos piores problemas de saúde dental dos EUA. 65% das crianças da região possuem cáries, segundo a Robert Wood Johnson Foundation.

É preciso deixar claro que não é só o Mountain Dew que provoca cáries. De acordo com especialistas, uma pessoa que toma qualquer refrigerante em excesso e não cuida dos dentes pode ter uma boca tão deteriorada quanto a de um viciado em metanfetaminas ou crack. Enquanto os dentistas atacam os refrigerantes por causar danos aos dentes, a indústria de refrigerantes tira o corpo fora, dizendo que “isoladamente, bebidas não causam cáries”.

Há quem defenda que refrigerantes deveriam trazer um rótulo avisando dos danos aos dentes, assim como ocorre com o cigarro. No Brasil, o marketing do Mountain Dew pretende, ao contrário, associá-lo à vida saudável, em especial ao skate. Assim que chegou ao país, a marca logo contratou skatistas famosos como Luan Oliveira e Tiago Lemos para serem seus garotos-propagandas.

Felizmente, os brasileiros parecem ter melhor gosto para refrigerantes do que os norte-americanos: esta é a terceira vez que o Mountain Dew tenta entrar no mercado nacional.

(Com informações do Alternet)

 

 

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Publicado em 19 de junho de 2017