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Nascido nos EUA, nacionalismo branco é agora uma ameaça ao mundo

Como os racistas e xenófobos norte-americanos usaram as redes sociais para transformar sua ideologia de ódio em produto de exportação

Marcha supremacista branca em Charlottesville em 2017. Foto: Anthony Crider/CC
The Conversation
27 de março de 2019, 11h20

Por Art Jipson e Paul J. Becker, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo

O recente massacre de 50 fiéis muçulmanos em duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, é a última confirmação de que a supremacia branca é um perigo às sociedades democráticas ao redor do planeta.

A despeito da insinuação do presidente Donald Trump de que o terrorismo nacionalista branco não é um problema grave, dados recentes das Nações Unidas, da Universidade de Chicago e de outras fontes mostram o contrário.

À medida que mais e mais pessoas abraçam uma perspectiva mundial xenófoba e anti-imigrantes, alimentam a hostilidade e a violência voltadas àquelas consideradas “forasteiras” –seja pela religião, cor da pele ou origem nacional.

A maior parte do mundo ocidental –da Suíça e Alemanha até os Estados Unidos, Escandinávia e Nova Zelândia– têm testemunhado uma forte tensão nacionalista que infecta a sociedade nos últimos anos.

Conduzidos pelo medo quanto à perda da primazia branca, nacionalistas brancos creem que a identidade branca deve ser o princípio organizador da sociedade ocidental.

“Todas as pessoas no mundo podem ter o seu próprio país, exceto as pessoas brancas,” disse William Daniel Johnson, do American Freedom Party (Partido da Liberdade Americana), ao Chicago Sun Times após o ataque na Nova Zelândia. “Deveríamos ter etno-estados brancos.”

No ano passado, nacionalistas brancos mataram pelo menos 50 pessoas nos EUA. Todos os perpetradores de violência extremista letal no país em 2018 tinham ligações com grupos nacionalistas brancos

Ao pesquisarmos para o nosso próximo livro sobre o extremismo –nossa área conjunta de especialização acadêmica– descobrimos que os crimes de ódio têm crescido lado a lado à propagação global do nacionalismo branco. Ataques racistas a refugiados, imigrantes, muçulmanos e judeus estão aumentando no mundo inteiro num nível alarmante.

Acadêmicos que estudam a internacionalização de crimes de ódio chamam este perigoso fenômeno de “transnacionalismo violento”.

Na Europa, a violência branca parece ter sido desencadeada pelo súbito aumento, em 2015, do número de refugiados que fugiam da guerra na Síria e em outras partes do Oriente Médio.

Ultranacionalistas em todo o continente –inclusive políticos nos mais altos escalões do poder– usaram a onda de migrações como evidência do iminente “genocídio cultural” das pessoas brancas.

Esta tendência internacional perturbadora, em sua encarnação moderna, nasceu nos Estados Unidos.

A primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern. Foto: Kirk Hargreaves/CC

Desde os anos 1970, uma pequena facção vociferante de supremacistas brancos norte-americanos têm procurado exportar sua ideologia de ódio. Racistas confessos como o líder da Ku Klux Klan David Duke, o fundador da Aryan Nations (Nações Arianas) Richard Butler e o autor extremista William Pierce acreditam que a raça branca está sob ataque no mundo inteiro por uma invasão cultural de imigrantes e pessoas negras e mestiças.

Os Estados Unidos estão se diversificando, mas continuam a ser 77% brancos. Os supremacistas brancos, contudo, há muito argumentam que as mudanças demográficas do país levarão a um extermínio da raça e cultura brancas.

A “alt-right” (direita alternativa ou extrema-direita) –um termo abrangente que descreve o movimento supremacista branco moderno online– usa a mesma linguagem. E tem expandido esta perspectiva mundial xenofóbica do século 20 para caracterizar refugiados, muçulmanos e progressistas como uma ameaça, também.

Líderes da extrema-direita como Richard Spencer, Jared Taylor e o editor do site neonazista The Daily Stormer, Andrew Anglin, também usam as redes sociais para compartilhar sua ideologia e recrutar membros mundo afora.

Eles acharam uma plateia mundial de supremacistas brancos que, por sua vez, também usam a internet para compartilhar suas ideias, encorajar a violência e difundir seus crimes de ódio no mundo inteiro.

“O ódio que levou à violência em Pittsburgh e Charlottesville está encontrando novos adeptos ao redor do mundo,” disse Jonathan Greenblatt, da Anti-Defamation League (Liga Anti-Difamação), uma entidade de defesa das liberdades civis, ao USA Today após o ataque na Nova Zelândia. “De fato, parece que este ataque não teve apenas a Nova Zelândia em foco; houve a intenção de ter um impacto global.”

Sabemos que o ódio aos muçulmanos do alegado atirador das mesquitas na Nova Zelândia era inspirado pelo nacionalismo branco norte-americano –ele mesmo confirmou isso no twitter.

O ódio que levou à violência em Pittsburgh e Charlottesville está encontrando novos adeptos ao redor do mundo. Parece que este ataque não teve apenas a Nova Zelândia em foco; houve a intenção de ter um impacto global

Seu “manifesto” online inclui referências a conflitos culturais que o autor acreditava que levariam, ao fim e ao cabo, os Estados Unidos a se dividir em orientações étnicas, políticas e raciais mais para a frente.

O alegado agressor também escreveu que apoia o presidente Donald Trump “como um símbolo da identidade branca renovada.”

Trump e outros políticos de extrema-direita, como a candidata à presidência da França Marine Le Pen e o líder da oposição holandesa Geert Wilders, têm colocado a culpa pelos problemas reais, próprios da vida moderna – progressiva instabilidade econômica, crescente desigualdade e decadência da indústria– nos imigrantes e negros.

Essa narrativa tem adicionado mais hostilidade à atual tendência de intolerância em sociedades cada vez mais multiculturais como os EUA. Crimes de ódio contra muçulmanos, imigrantes e negros vem crescendo nos EUA desde 2014.

Em 2015, o Southern Poverty Law Center documentou 892 crimes de ódio. No ano seguinte, foram 917 crimes de ódio. Em 2017 –o ano em que Trump assumiu o poder, alimentando o sentimento nacionalista com promessas de construir muros, deportar mexicanos e banir muçulmanos– os EUA assistiram a 954 ataques de supremacistas brancos.

Um deles foi um embate violento entre manifestantes e nacionalistas brancos acerca da retirada de uma estátua confederada em Charlottesville, Virginia. O protesto de 2017 “Unite the Right” (Unir a Direita), que matou uma pessoa e feriu dezenas delas, amplificou as ideias dos modernos nacionalistas brancos nacional e mundialmente.

Líderes da extrema-direita usam as mídias sociais para compartilhar sua ideologia e recrutar membros. Eles têm encontrado uma plateia mundial de supremacistas brancos que também usa a internet para compartilhar suas ideias, encorajar a violência e difundir crimes de ódio

No ano passado, nacionalistas brancos mataram pelo menos 50 pessoas nos Estados Unidos. Suas vítimas incluem 11 fiéis de uma sinagoga em Pittsburgh, dois consumidores idosos negros num estacionamento do supermercado Kroger no Kentucky e duas mulheres que praticavam ioga na Flórida.

Os anos de 2015, 2016 e 2018 foram os anos mais mortíferos dos Estados Unidos em relação à violência extremista desde 1970, segundo a Anti-Defamation League.

Todos os perpetradores de violência extremista letal nos EUA em 2018 tinham ligações com grupos nacionalistas brancos. Isso transformou 2018 em “um ano particularmente ativo para assassinos extremistas de direita”, diz a Anti-Defamation League.

O terror nacionalista é um perigo à segurança interna dos EUA e, como mostram as evidências, uma ameaça de terror mundial que põe em risco a própria natureza da sociedade democrática global.

Art Jipson é professor associado de Sociologia na Universidade de Dayton

Paul J. Becker é professor Associado de Sociologia na Universidade de Dayton

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