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Cultura

Nos EUA, escolas privadas subsidiadas ensinam que homens e dinossauros conviveram

Sem fiscalização, escolas fundamentalistas reescrevem a história a seu bel-prazer, a ponto de chamarem negros escravizados de "imigrantes"

Gravura de livro didático dos EUA mostra homens de roupa e dinossauros juntos
Cynara Menezes
10 de julho de 2018, 23h49

Um dos efeitos perversos da perseguição aos professores durante o macarthismo nos Estados Unidos, como deseja fazer aqui o famigerado projeto Escola sem Partido, foi a liberação completa dos currículos escolares: ao contrário do Brasil e da maioria dos países, os EUA aboliram a existência de um currículo nacional para a educação justamente no auge da guerra fria, em 1965.

Isso significa que as escolas privadas norte-americanas podem ensinar o que bem desejarem às crianças, sem fiscalização ou intervenção do Estado, ao mesmo tempo que ele financia parcialmente milhares delas. A imprensa dos EUA tem trazido à tona histórias escabrosas de como escolas evangélicas que surgiram nas últimas décadas estão modificando a história a seu bel-prazer, a ponto de colocar homens convivendo com dinossauros (sendo que os dinossauros foram extintos há 65 milhões de anos e o Homo sapiens começou a evoluir há 200 mil anos) e de chamar os negros trazidos da África para serem escravos de “imigrantes”.

Estudantes que aprenderam ciência neste tipo de ambiente não estão preparados para a universidade. Eles estariam em desvantagem, intelectualmente falando

O jornal Orlando Sentinel, da Flórida, pediu a educadores que revisassem o material didático das três editoras cristãs populares nas mais de 2 mil escolas do Estado que dependem de cerca de 1 bilhão de dólares subsidiados pelo governo para se manter. E descobriu diversas distorções de fatos históricos, frequentemente para se adequar ao que conta a Bíblia. Os livros de ciência vão contra a teoria da evolução e um deles mostra dinossauros e homens habitando a Terra no mesmo período, afirmando que Noé levou bebês dinossauros na famosa arca.

Livro de “ciência” tenta comprovar que homens e dinossauros conviveram

“Estudantes que aprenderam ciência neste tipo de ambiente não estão preparados para a universidade. Eles estariam em desvantagem, intelectualmente falando”, disse ao jornal a professora de Biologia da Universidade de Central Florida Cynthia Bayer, uma das educadoras que revisaram os livros “científicos” dessas escolas. No livro de Estudos Sociais, se afirma que “a maioria dos brancos e negros do Sul viveu durante anos em harmonia” até que “indivíduos ávidos por poder atiçaram as pessoas”.

Os porta-vozes das escolas defenderam o material pedagógico utilizado, dizendo que importante é transmitir o que a escola acredita ser verdade, mesma concepção do Escola Sem Partido, que prioriza “os valores de ordem familiar” sobre a educação. “Nós acreditamos que nossa forma de ensinar é a correta. Nós focamos em criacionismo porque é nisso que acreditamos”, disse o diretor de uma delas. O absurdo de tudo é que, na Flórida, ao mesmo tempo que dão dinheiro público a essas escolas, a secretaria de Educação é proibida de questionar o currículo delas.

Um dos livros afirma que a Ku Klux Klan perseguia negros e brancos igualmente e linchou pessoas não porque era racista, mas porque “achava a lei fraca”. O movimento pelos direitos civis é reduzido a seis parágrafos que não incluem o assassinato de Martin Luther King

O site The Root aponta que uma das publicações de ciência conecta a homossexualidade com a Bíblia para dizer que ser gay é “pecado”. “Algumas pessoas erroneamente acreditam que um indivíduo nasce homossexual e que sua atração pelo mesmo sexo é normal. Mas testes aprofundados mostraram que não há diferença biológica entre homossexuais e os outros, provando que a homossexualidade é algo aprendido. A Bíblia ensina que a homossexualidade é um pecado. No Velho Testamento, Deus mandava matá-los. Como Deus nunca mandou matar por atitudes normais ou aceitáveis, é tão racional dizer que a homossexualidade é normal quanto dizer que matar ou roubar é normal”.

Um livro destinado ao ensino médio transforma o genocídio dos índios norte-americanos em motivo de orgulho cristão: “como Deus usou o Trail of Tears (migrações forçadas) para levar muitos Cherokees até Cristo”. Diz ainda que a Ku Klux Klan perseguia negros e brancos igualmente e linchou pessoas não porque era racista, mas porque “achava que a lei era fraca ou lenta”. O movimento pelos direitos civis é reduzido a seis parágrafos que não incluem o assassinato de Martin Luther King ou qualquer conflito.

Segundo levantamento do Huffington Post, 75% das escolas privadas que recebem dinheiro público são religiosas. Desde que Donald Trump assumiu, sua secretária de Educação tem estimulado os Estados a financiar escolas privadas, que seriam uma alternativa às escolas públicas ruins (já vimos esse filme no Brasil…). Atualmente, 14 Estados e o Distrito de Columbia têm subsídios e 17 dão incentivos fiscais a escolas do gênero, a maioria evangélicas.

No Oregon, escolas fundamentalistas subsidiadas pelo Estado utilizam o material pedagógico das mesmas editoras, Abeka, Bob Jones University Press e Accelerated Christian Education (ACE). Um dos livros da ACE chama a escravidão de “imigração negra”, explicando: “Os escravos eram em sua maioria negros africanos e são os únicos imigrantes que nunca escolherem vir para a América livremente”.

(Fonte: Huffington Post)

O plano é esse: primeiro é a perseguição de professores e o cerceamento de seu direito à livre expressão, como pretendem os defensores da Escola Sem Partido. Depois é passar a ensinar inverdades para as crianças e reescrever a História, formando uma geração de ignorantes facilmente manipuláveis. Apoiado por organizações de extrema-direita como o MBL, o projeto Escola Sem Partido pode ser votado pela comissão especial que trata do assunto nesta quarta, 11 de julho.

 


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Rodrigo em 11/07/2018 - 01h36 comentou:

O monoteísmo quer ser a “única verdade do Universo”. Tem como missão fundamental converter todos os seres humanos pro seu domínio. Foi preciso ciência e filosofia pra dar um basta em mais de mil anos de obscurantismo religioso na Europa, culminando no Iluminismo que nos trouxe a democracia moderna. Agora, os chamados “posmodernos” atacam a ciência e lambuzam a filosofia, dando brecha para o fortalecimento dessas religiões, que jamais deixaram de ter o capital pra isso. Apenas cochilavam. E a esquerda insiste em acreditar que o posmodernismo é benéfico. Investiguem melhor. A esquerda precisa se unir, e esse nunca foi o objetivo dos posmodernos, pelo contrário, só falam de fragmentação, “cada um tem a sua verdade” e assim por diante…

Pra que eu escrevo isso aqui? Ninguém lê mesmo…

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Rodrigo em 11/07/2018 - 12h26 comentou:

E sobre o texto “Ser gay é pecado?”, Desmond Tutu não ajuda muito quando diz que “O Jesus que adoro *provavelmente* não colabora com os que vilipendiam e perseguem uma minoria já oprimida” Provavelmente? Por que sempre têm que dar margem aos homofóbicos?

“Para Tutu, a perseguição contra os homossexuais é uma das maiores injustiças do mundo atual, comparável ao apartheid contra o qual lutou na África do Sul.” Comparável? A África do Sul tinha cerca de 40 milhões de habitantes no fim do Apartheid, dos quais uns 90% negros, ou 36 milhões. Só as Américas têm cerca de 1 bilhão de habitantes, o que dá uns 100 milhões de homossexuais. Se contarmos o resto do mundo cristão (e islâmico!) o número de homossexuais sofrendo as mazelas da homofobia judaica é muito maior. Por que Tutu não diz que é uma injustiça MAIOR que a do apartheid? Se o Nobel fosse sério, teriam dado a Gandhi.

Outra coisa, citar Maria Madalena também não ajuda: “há várias passagens que demonstram a pregação de Jesus pela inclusão. Não só o conhecido ‘quem nunca pecou que atire a primeira pedra’ à adúltera Maria Madalena.” Não ajuda porque essa passagem termina com o famoso “vai-te, e não peques mais”. É a visão da Igreja Católica: pode ser gay, mas não faça sexo! Não peque mais!

Esperar que uma igreja imperialista (por definição!) resolva os nossos problemas é como pedir pra raposa cuidar das ovelhas. Poxa, eu esperava mais inteligência da Esquerda. Será pedir demais?

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John em 11/07/2018 - 20h24 comentou:

Olhem bem pra isso que em breve nosso país estará repleto de escolas “charters” uma escola particular com cara de publica e repleto desses absurdos, educação não é para pobre não.

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David em 12/07/2018 - 08h49 comentou:

Excelente texto

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Humberto Cotta Júnior em 12/07/2018 - 13h33 comentou:

Rodrigo. O que falta ai no seu discurso é uma percepção de contexto. O Papa, ou o Desmond Tutu, representam instituições que são conservadoras, e eles não podem dizer tudo que pensam. Mesmo porque são pessoas públicas. Eu já conversei com uma padre pesquisador do Vaticano, numa época ondeco Jesus histórico não era divulgado como hoje, ele me disse que a maioria dos cadernos do novo testamento foram escritos por outras pessoas a partir da tradição oral que, não conviveram diretsmente com Jesus. Os poucos apóstolos que escreveram diretamente, acho que Lucas e Paulo, não conheceram Jesus. E muita coisa se perde nisto. Além do mais há os evangelhos apócrifos, que não foram aceitos para fazer parte da Bíblia. Tipo o evangelho da Maria Madalena. Ela nunca foi prostituta, era a mulher de Jesus, e depois que ele foi crucificado, se tornou a lider dos apóstolos por ser a mulher dele. Os machistas apagaram isto da História e transformáram ela em prostituta.

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David Machado em 12/07/2018 - 14h08 comentou:

é nos estados unidos mesmo, quero mais que se froda…

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Rodrigo em 13/07/2018 - 11h36 comentou:

Humberto, sim, são instituições conservadoras até a medula, por isso mesmo a Esquerda deveria abandoná-las. Outra pesquisadora que teve acesso aos documentos do Vaticano, Uta Ranke-Heinemann, escreveu o maravilhoso “Eunucos pelo Reino de Deus”, onde mostra os incontáveis podres da igreja, principalmente em relação à mulher. De qualquer forma, o mundo tem mitologias demais, uma diversidade cultural incrível, no Brasil inúmeras culturas indígenas sendo destruídas pelo rolo compressor do monoteísmo imperialista, como escrevi no primeiro comentário. Sempre foram inimigos da democracia, e continuam sendo. Não é questão de contexto apenas, é simplesmente uma gigantesca mentira, uma mitologia que não admite ser mitologia, e por força de mentiras enfia goela abaixo leis draconianas (contra aborto, drogas, indígenas, homossexuais, prostitutas, meio ambiente, cultura…). Sem contar que tudo que Jesus disse de bom o taoísmo já tinha dito 500 anos antes, mas sem impor um inferno pra quem não crê. Ou seja, vamos continuar passando a mão na cabeça desse monstro chamado monoteísmo até quando?

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Rodrigo em 20/07/2018 - 00h51 comentou:

“The ultimate tragedy is not the oppression and cruelty by the bad people but the silence over that by the good people.”
“In the End, we will remember not the words of our enemies, but the silence of our friends.”
“The silence of the good people is more dangerous than the brutality of the bad people.”
“For evil to succeed, all it needs is for good men to do nothing.”
—Martin Luther King Jr.

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