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Cultura

O boi que não aceitou bovinamente o seu destino e foi conhecer o mar

Baianos levaram na chacota a fuga de um boi que foi parar na praia em Salvador, mas ela é uma crítica severa à indústria agropecuária

Foto: Douglas Pedrosa/reprodução facebook
André Uzêda
30 de novembro de 2018, 21h02

A história do “boi afogado” em Salvador foi tratada como –mais– um caso jocoso do cabedal de histórias afeitas ao realismo fantástico desta cidade (a mais Macondo das urbes latino-americanas).

No entanto, enxergo essa narrativa bovina mais pelo viés do drama, do que por uma linha cômica e divertida, como usualmente acomete estas plagas.

Sigamos o fio por este pasto adubado.

O boi tinha 3 anos (idade que um animal desta monta já é considerado adulto). Veio da cidade de Teodoro Sampaio, no centro norte da Bahia. Era um boi de reprodução.

Ou seja, passava vida numa fazenda cruzando com outras vacas ou tendo o sêmen recolhido para produzir bezerros puros, fortes e saudáveis –na lógica dos produtores, não pode haver erro nestes cruzamentos. A gestação do boi é muito longa. 283 dias. 9 meses e meio (maior que do ser humano). E, diferente de outros mamíferos, não há ninhada. Apenas um filhote por vez. Daí o porquê dessa eugenia darwinista escancarada.

O boi queria a liberdade. Passou cinco dias vagando como um animal livre, vadio, se alimentando de mato selvagem. Quando o avistaram perto do aeroporto, a cavalaria montada da polícia foi chamada para a diligência. O boi correu para o mar

No último sábado, nosso herói de 600 kg foi levado para a Fenagro para ser exposto como um boi de reprodução. Num lance de até 12 mil reais. Estava lá como um produto a ser exposto e colocado em leilão. Esperto, aproveitou o vacilo do transporte no desembarque e fugiu.

Num primeiro momento, os donos até tentaram recapturá-lo, mas ele se embrenhou mata adentro para (desejo dele) não ser mais encontrado.

O boi queria a liberdade. Passou cinco dias vagando como um animal livre, vadio, se alimentando de mato selvagem (ao invés da ração proteica, balanceada e servida com hora marcada nas baias).

Quando o avistaram perto do aeroporto, a cavalaria montada da polícia foi chamada para a diligência. O boi correu para o mar (poético).

“Ele queria ver o mar”, canta Renato Russo. O mar aqui é uma metáfora da liberdade. A imensidão do oceano em contraste com a prisão interiorana em uma fazenda de corte, leite e curtume.

O boi preferiu o exílio da morte que a recaptura. O mergulho definitivo que ceifou sua vida arrebentou o último laço que o prendia. O suicídio era uma prática comum entre os escravos quando recapturados pelos capitães do mato.

“A gente conseguiu trazê-lo para a areia três vezes, mas ele voltava. Parecia que queria cometer suicídio”, disse ao jornal Correio o fotógrafo Douglas Pedrosa, autor das fotos e vídeos do animal que circularam Brasil afora.

A história, na verdade, é um libelo de liberdade e uma crítica severa à indústria agropecuária –animais alimentados para o abate, em cativeiro para reprodução continuada etc. A narrativa está pronta. Só precisa de alguém com talento para romancear e publicar.

Em seu último ato, o boi foi servido para uma multidão faminta que rasgou sua carne em cortes de açougue. Sua alma, no entanto, não foi repartida. Estava, finalmente, livre.

Parafraseando Mastruz com Leite, menestreis do cancioneiro popular:

No mar da liberdade: valeu, boi.

 


(21) comentários Escrever comentário

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Antonio Pacheco em 30/11/2018 - 21h21 comentou:

Bravos! Belo artigo. Observação profunda e sensível da realidade que os olhos vêem mas a razão nega distorcendo para comédia o que é inegável e doloroso drama. Parabéns!

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Thelma Gomes em 02/12/2018 - 00h48 comentou:

Que bela crónica. Esse boi representa muitos/as de nós nesse momento opressor e frustante do Brasil. Parabéns!

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Sônia Regina Teixeira da Silva em 02/12/2018 - 14h13 comentou:

Me fez chorar! O mundo está muito cruel, não o mundo, as pessoas.

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Marcelo Andrade em 02/12/2018 - 20h55 comentou:

Excelente e emocionante texto. Quisera eu ter talento para romancear essa triste história.

No mais, apenas uma dúvida. Na oração “A gestação do boi é muito longa. 283 dias.” não seria o correto “a gestação da vaca” ou “a gestação dos bovinos”? Usar o termo masculino para representar toda espécia não seria impropriedade como é usar “homem” para representar a humanidade?

Pergunto despretensiosamente, sem qualquer intenção de provocar polêmica (nesses tempos essa ressalva é necessária).

Abs

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Felipe Neves em 02/12/2018 - 22h53 comentou:

Uau! Me senti numa página de Jorge Amado. Obrigado.

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devana babu em 03/12/2018 - 10h36 comentou:

larga de humildade haha. alguém com talento já romanceou e publicou essas história: o autor do texto.

belíssimo. eu daria um boi para lê-lo e uma boiada para não parar de ler.

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André Ferreira em 03/12/2018 - 12h23 comentou:

É muito bom trazer à tona o debate das mazelas do agronegócio e o autor faz isso muito bem. A reflexão, mesmo óbvia, traz a possibilidade para alguns desavisados compreenderem o universo pop do agro. Porém me chama atenção a forma em que descreve a cidade de Salvador “a mais Macondo das urbes latino-americanas.”. Lindas palavras pra expressar a mais conhecida forma de preconceito e discriminação com as capitais do nordeste. “Vai tomar no verbo, seu filho da letra.”

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Marise Borges em 03/12/2018 - 12h29 comentou:

Muito bom o texto! Racional e reflexivo.

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Isabela Aparecida em 03/12/2018 - 12h53 comentou:

Isabela Aparecida Lula da Silva compartilhou uma publicação.
30 de novembro às 12:55 ·
Salvador-Ba: BOI SUICIDA
nelore baiano se recusa a levar vida de gado, e prefere morrer afogado nos braços de Iemanjá…

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Shirley Britto em 03/12/2018 - 13h10 comentou:

Quanta poesia e sensibilidade . Parabéns !

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LUCIANO ALVES em 03/12/2018 - 14h22 comentou:

Alfonsina y el Mar – Mercedes Sosa. https://www.youtube.com/watch?v=l4H-Jcet1M4

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karol em 03/12/2018 - 15h37 comentou:

Grande texto, quando li sobre essa trágica noticia, só me veio a cabeça a palavra suicídio.
Você conseguiu retratar o meu sentimento perante essa realidade.

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Gilmar em 03/12/2018 - 15h53 comentou:

No futuro 1quando o homem conhecer finamente o ímpeto dos animais este boi será lembrado assim como Spartacus, Zumbi, Conselheiro, Genghis Kam, João Cândido e tantos outros que não aceitaram o cativeiro e nós…sentiremos vergonha!

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Fabrício Procópio em 04/12/2018 - 08h09 comentou:

André Ferreira, sou mineiro e sei desse preconceito com as capitais do nordeste.
É foda, imagino só na verdade. Mas, cara… Ser a mais Macondo, pra mim, é elogio e sobrevivência. É tambem por ser assim, d i v e r s o…sabe? O fascismo quer tudo igualzin… todos iguaizinhos… se tiver “uniforme social” melhor ainda…sei lá. Quis comentar!

Texto massa de uma história magnífica.
Somos muitos desse boi. Um santo boi.
i n s p i r a d o r e importantíssimo, Boi.

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Veloso em 04/12/2018 - 10h38 comentou:

Texto muito bom, só não gostei da narrativa dos moradores cortando a carne do boi, escrita de maneira tão poética, parece um eufemismo. O animal morreu afogado e as pessoas, como urubus, violaram o cadáver do coitado. Essa atitude foi muito desrespeitosa, foi um ato de necrofagia. Acho que a barbaridade de como trataram o cadáver deveria ser destacada, para que fique claro que a causa da morte do animal não é somente da indústria agropecuária, mas também de quem alimenta as demandas dessa indústria.

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Gabriel em 04/12/2018 - 14h59 comentou:

Que texto incrivel! Parabens André Uzêda

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Poesia de Frida em 05/12/2018 - 13h16 comentou:

Um boi pode ver os homens
E mastigar seu pasto enquanto homens e mulheres ruminam seus destinos miseráveis
Mas homens e mulheres podem ver um boi atirar-se no mar
Atormentado com seu destino de funcionário do mês
Antes mesmo de uma cadeia de fast food qualquer o transformar em hambúrguer

Há quem diga que ele viveu no instante em que correu da Exposição Anual de Touros Reprodutores Exemplares
E se expôs ao mundo
Sem se preocupar com o abate

Há quem diga que bicho idiota desde quando boi sabe nadar
E eu digo que idiota somos nós
Quando não nos atiramos ao mar

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Maridásio Martins em 05/12/2018 - 18h42 comentou:

O boi, como de resto, os animais em geral, são criaturas infra-humanas, com direito ao gozo de uma experiência em estágio transitório, extra terreno…transitou na terra, a seguir no mar, e, por fim, foi “boi nos a(i)res”: viajou para o infinito, para alguns, incerto!
Com meu respeito, apesar do infeliz trocadilho…
Maridásio.

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Maridásio Martins em 05/12/2018 - 18h44 comentou:

Ok!

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Leonor Suarez em 07/12/2018 - 10h27 comentou:

A liberdade que ele preferiu foi a morte, sim a teria de qualquer forma, mas escolheu estar nas águas e não nas mãos de seres que se dizem humanos.

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Alvaro Frota em 10/12/2018 - 16h23 comentou:

Boi de reprodução passa a vida levando choque no cu para liberar o sêmen… Não foi a toa que esse preferiu a liberdade no oceano!

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