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Cultura, Direitos Humanos, Maconha

O bolinho de maconha de Alice B.Toklas

As norte-americanas Gertrude Stein (1874-1946) e Alice B. Toklas (1877-1967) formavam o casal mais querido da Paris dos anos 1930. Os jantares de sábado à noite em sua casa na rue de Fleurus 27 tinham convidados como Pablo Picasso (que pintou um célebre quadro de Gertrude), Ernest Hemingway, Jean Cocteau, Ezra Pound, Paul Bowles, Apollinaire… […]

Cynara Menezes
05 de dezembro de 2013, 12h19

(Alice B.Toklas e Gertrude Stein)

As norte-americanas Gertrude Stein (1874-1946) e Alice B. Toklas (1877-1967) formavam o casal mais querido da Paris dos anos 1930. Os jantares de sábado à noite em sua casa na rue de Fleurus 27 tinham convidados como Pablo Picasso (que pintou um célebre quadro de Gertrude), Ernest Hemingway, Jean Cocteau, Ezra Pound, Paul Bowles, Apollinaire… O sonho de qualquer fã de arte e literatura era ter estado lá –o diretor Woody Allen concretizou em seu filme Meia-Noite em Paris, de 2011.

O livro mais conhecido de Gertrude acabou sendo a A Autobiografia de Alice B.Toklas (1954), onde ela reconta os 25 anos de vida em comum com Alice tendo como narradora não a si mesma, mas a companheira. A própria Alice ficaria famosa anos após a morte de Gertrude, ao lançar um misto de livro de receitas com memórias. O Livro de Cozinha de Alice B.Toklas, atualmente só encontrável em sebos no Brasil, é uma obra para se ler degustando receita por receita, mesmo sem executá-las, porque cada uma delas contém uma história igualmente saborosa.

As vantagens dos norte-americanos diante dos franceses na cozinha, e vice-versa; o robalo que Alice decorou para Picasso e a ele lhe pareceu feito em homenagem a Matisse; o preparo de uma carpa recheada com castanhas para o almoço que ganha ares de romance de Agatha Christie.

“Uma faca afiada pesada me veio à ideia como a escolha clássica, perfeita, de modo que, agarrando com minha mão esquerda a mandíbula inferior da carpa, bem coberta por um pano de prato, já que os dentes poderiam ser afiados, e a faca na direita, cuidadosamente, deliberadamente achei a base de sua coluna vertebral e aí mergulhei a faca. Em seguida, larguei-a para ver o que tinha acontecido. Horror dos horrores. A carpa etava morta, matada, assassinada em primeiro, segundo e terceiro graus. Mole, caí numa cadeira; com as mãos ainda por lavar peguei um cigarro, acendi-o e esperei a polícia chegar e me levar presa. Depois de um segundo cigarro minha coragem voltou e eu fui preparar a dona Carpa para a mesa.”

Mas a receita que causaria sensação não era de Alice, mas de um amigo, Brion Gysin, e, reza a lenda, teria sido incluída no livro por engano: um “fudge” de haxixe, que na verdade é um bolinho, quase uma paçoquinha, feita de maconha. O puritanismo norte-americano excluiu o acepipe da primeira edição, mas a receita aparece na reimpressão de 1960, quando cai no gosto da geração hippie e inspira até um filme de Peter Sellers em 1968, I love You, Alice B.Toklas (aqui no Brasil, O Abilolado Endoidou).

No filme, o bolinho vira um brownie que será comido sem querer pelos pais do protagonista, um advogado careta que arranja uma namorada riponga. Veja a cena.

Quase 60 anos depois de lançado o livro, a receita transgressora ainda tem o poder de chocar alguns. Que cozinheiro famoso brasileiro se atreveria a falar de bolinho de maconha em um livro de receitas? Não sei se funciona (como cozinheira, acho que leva açúcar demais), mas o texto de Alice é divertidíssimo. Confira.

***

Fudge de Haxixe

(que qualquer um pode fazer num dia de chuva)

Essa é a comida do Paraíso –dos Paraísos Artificiais de Baudelaire; pode constituir uma merenda interessante em reuniões do Clube de Bridge de Senhoras ou num encontro do DAR (instituição de caridade). Em Marrocos, é tido como eficaz para evitar resfriado durante o inverno úmido e funcionaria mais se tomado com grande quantidade de chá de hortelã quente. Euforia e brilhantes cascatas de risos; devaneios extáticos e extensões de personalidade em vários planos simultâneos devem ser esperados com complacência. Praticamente qualquer coisa que santa Teresa fez, você pode fazer melhor, se puder ser arrebatado por “un evanouissement reveille”.

Tome de 1 colher (chá) de pimenta-do-reino preta, 1 noz moscada inteira, 4 paus de canela médios, 1 colher (chá) de coentro. Esses deverão ser todos pulverizados num pilão. Cerca de 1 punhado de cada, de tâmaras sem caroços, figos secos, amêndoas descascadas e amendoins: pique e misture-os. Um maço de Cannabis sativa pode ser pulverizado. Isso e as especiarias devem ser polvilhados em cima das frutas secas e nozes e trabalhados juntos. Cerca de 1 xícara de açúcar dissolvido em uma rodela de manteiga. Aberto como para um bolo e cortado em pedaços ou enrolados em bolas do tamanho de uma noz, deve ser comido com cuidado. Dois pedaços são mais que suficientes.

Obter a Cannabis pode apresentar algumas dificuldades, mas a variedade conhecida como Cannabis sativa cresce como mato, frequentemente sem ser reconhecida, por toda parte na Europa, Ásia e partes da África; além de ser cultivada para a manufatura de cordas. Na América, se bem que desencorajada, sua prima, chamada Cannabis indica, tem sido observada até em floreiras de janelas urbanas. Deve ser colhida e seca assim que der sementes e enquanto a planta ainda estiver verde.

A capa original do livro:


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(23) comentários Escrever comentário

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Érika em 05/12/2013 - 12h39 comentou:

Que bacana! Tô precisando de um Fudge desse para superar a morte inesperada do meu querido irmão Luis, aos 48 anos! E ele certamente também ficaria fã da receita (rss)!

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José Rocha em 05/12/2013 - 13h03 comentou:

Funciona que é uma maravilha. O único problema é que continua funcionando enquanto a comida estiver no organismo, o que pede levar mais de 8 horas…

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baioque em 05/12/2013 - 15h30 comentou:

Cynara sua página é minha preferida da internet

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luciano em 05/12/2013 - 16h04 comentou:

dá pra fazer muitas comidas com a maconha, ou com o thc, que se extrai esquentando a maconha num óleo ou manteiga – podendo-se jogar fora a bora de maconha, que não é boa de comer – e usando até numa omelete.
outra coisa: o tal meia noite em paris é até bonitinho, mas um filme infantil e megalomaníaco e bossal-aburguesado demais pra ser usado como referência.

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Maysa Blay em 05/12/2013 - 16h10 comentou:

Muito bom. Já comprei o Cook Book pela Amazon. Valeu. Beijos.

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Marcos em 06/12/2013 - 00h53 comentou:

Quanta consciência social por aqui, existe um site muito bom chama narcoblog é edificante o site.

Responder

Maurício em 06/12/2013 - 01h08 comentou:

O Livro de Cozinha de Alice B.Toklas tem no sebo Estante Virtual, só que é muito caro!!! em média R$110,00

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    maysablay em 06/12/2013 - 17h28 comentou:

    Vi na Estante também, imediatamente. Por isso comprei na Amazon. Com a entrega, saiu total R$ 55. Não gosto de importar coisas…mas não resisti!

Laura em 06/12/2013 - 01h17 comentou:

a Cynara é a melhor!

Responder

    maysablay em 06/12/2013 - 17h29 comentou:

    Concordo.

Ulisses Borges em 06/12/2013 - 03h22 comentou:

Que interessante, Cynara, deu vontade de experimentar! Há muito tempo, comi um bolo feito de maconha (não lembro da receita, mas sei que a maconha era misturada e fervida com manteiga antes de ser usada na massa do bolo) , e, além de ter achado gostoso, na época senti como se tivesse me dado, sim, um certo "brilho", uma certa leveza. Até minha avó, que nem fazia ideia do que havia na massa, acabou adorando e ficando aparentemente mais levinha. Eu já li a "Autobiografia de Alice B. Toklas", e agora fiquei curioso para ler o "Livro de Cozinha". Um abraço!

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Syk4 em 06/12/2013 - 05h41 comentou:

Adorei o vídeo. Ri demais. De quebra, o Youtube mostrou uma gravação feita pela própria Gertrude Stein, das praças de Paris. De 1:30 a 2:00 tem uma visão – sem cor, obviamente – da Paris que Renoir pintou. A identificação é automática. Segue o Link: http://www.youtube.com/watch?v=wX4NMuJGOsY

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medei ao assinar!! em 06/12/2013 - 14h37 comentou:

Fizemos um bolo de chocolate muito bom para uma competição esportiva universitária que virou uma pequena tradição que durou pouco mais de quinze anos, se é que acabou.
Mas quando "pessoas inocentes" ingerem quantidades maiores dos que as recomendadas para os chamados "cabeças-gordas", as consequências podem ser desagradáveis para essas vítimas involuntárias, embora sem grandes prejuízos reais. Por isso deve-se tomar cuidado com o produto obtido, pois à esse contratempo soma-se o terrível desperdício.

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Lucas em 06/12/2013 - 15h44 comentou:

Nada contra a postagem, mas porque o nome desse Blog tem o vernáculo socialista? Sério, o que tem de socialista aqui? As postagens da autora se assemelham mais as preocupações de um típico californiano, parisiense, londrino, sei lá. Tudo parece tão longe das preocupações de quem faz parte do proletariado. Será mesmo que o pedreiro, metalúrgico ou doméstica que chegar em casa hoje, vai estar preocupado em fazer um bolinho de maconha?
E os comentários então, são um caso a parte, vejam a amiga socialista aí de cima, já encomendou o livro dela na Amazon (maior site de compras americano), outro dia havia um colega socialista defendendo que o Reino da Suécia é o maior exemplo de socialismo.
É, realmente começo a acreditar que o socialismo esta perto da extinção, a falência intelectual dos que se apoderaram da ideologia é impressionante.

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    morenasol em 06/12/2013 - 17h20 comentou:

    socialismo é sinônimo de liberdade, inclusive cognitiva. a liberdade cognitiva é uma das bandeiras deste blog, que se propõe a alçar bandeiras de uma esquerda nova. essa sua ideia de socialismo baseada na proibição e na "ditadura dos temas" (só os que você aprova) é velha. mofada.
    além disso, o socialismo não tem dono. ou ele é seu? ele pertence a você para falar de que alguém "se apoderou" da ideologia? é por este tipo de pensamento, muquirana do conhecimento, que tantos jovens têm se distanciado da esquerda.

    Syk4 em 06/12/2013 - 21h16 comentou:

    Reaça detected no meu radar! ( " ' ! ' " )

    Dimas em 08/12/2013 - 03h32 comentou:

    Então um pedreiro, metalúrgico ou domestica não podem fumar um baseado, não podem gostar nem de bolo nem de maconha? Se fosse um bolo de cachaça você acha que teria mais a ver? Um proletariado pode fazer algo além de trabalhar e militar pela revolução? Ele pode ser um ser humano como qualquer outro com vontades, gostos peculiares e idéias próprias?

    morenasol em 08/12/2013 - 13h03 comentou:

    outro dia eu vi duas varredoras comprando um dichavador e comentando sobre sedas. o resto é preconceito, esquerda de cabeça antiga

chico em 06/12/2013 - 16h32 comentou:

Um baseado é um baseado é um baseado

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Chiquinha em 06/12/2013 - 19h25 comentou:

Faça um bolo com cobertura de chocolate. Para cobertura, derreta manteiga com um punhado de canabis, acrescente o chocolate (picado, ou em pó). Chá de erva-cidreira é um bom acompanhamento.

Não sei se as carpas na Europa tem dentes, mas: http://lliberal.no.sapo.pt/pesca/especies/carpa/c

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Luciano Lub em 07/12/2013 - 15h01 comentou:

Há uma outra forma de se preparar o brownie, que o torna ainda mais "saboroso". Ao invés de misturar diretamente a erva à massa, aqueça um punhado com manteiga ou azeite. Depois, coe o óleo e utilize-o na medida da receita. O princípio ativo se dissolve todo no óleo, e o seu aproveitamento é melhor. Bem melhor!

Responder

Bacellar em 07/12/2013 - 17h31 comentou:

Que bacana. Bom ressaltar que quando ingerida como alimento a cannabis potencializa muito seus efeitos psicotrópicos…Então não se empolguem demais na larica! Hehehehehe, e por favor cuidado para não largar uma receitinha especial na geladeira sem avisos, já vi alguns casos nada engraçados de caretas que comeram sem saber e passaram muito mal.
http://www.growroom.net/board/forum/26-culinaria/

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Laura Reiff em 07/12/2013 - 21h18 comentou:

Amei a matéria! O bolo ainda não comi…

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