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O dia em que tornaram Lula inelegível (37 anos atrás)

A História se repete como farsa: em fevereiro de 1981, Lula era condenado a três anos e meio de prisão e impedido de ser candidato

Lula preso e fichado pelo DOPS em 1980
Cynara Menezes
06 de março de 2018, 15h15

Ah, o velho Marx e sua sacada imortal: “A História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Em 2017, no Brasil, a frase do século 19 cai como uma profecia, um pesadelo recorrente. Parece que entramos num eterno dia da marmota, condenados a estar para sempre presos num enredo que se repete e volta a se repetir, como as tramas das novelas da Globo.

No dia 25 de fevereiro de 1981, o sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, foi condenado à revelia, com outros dez sindicalistas, a três anos e meio de prisão sob a acusação de incitamento à desobediência coletiva das leis. Foram 13 os sindicalistas enquadrados na Lei de Segurança Nacional em plena “abertura”, 11 deles condenados por um tribunal militar, com “juízes” sem formação jurídica alguma, a não ser um deles, o “juiz togado”. 13, o número do PT.

Os sindicalistas enquadrados na LSN, Lula entre eles. Foto: FPA

Ninguém além dos militares, nem mesmo os acusados e seus advogados, compareceu ao julgamento. Um pedido de habeas corpus para que fosse adiado foi prontamente negado. O promotor acusou Lula de ter prosseguido na incitação à greve mesmo estando preso em 1980, “mandando recados por porta-vozes ou em matérias de jornal”.  Pela Folha de S.Paulo, o repórter Ricardo Kotscho, futuro secretário de imprensa do presidente Lula, acompanhava tudo na casa do então sindicalista que liderou as greves no ABC de 1978 e 1979, pelas quais era condenado. Sua mulher, Marisa, atendia ao telefone, recebia telegramas e servia as marmitas com a feijoada comprada num bar próximo. Na correria, não tivera tempo de preparar o almoço.

Espero o mandado de prisão com tranquilidade, um mandado que partiu de um sistema que não teve a coragem de acabar com a fome do povo brasileiro. Não sou um criminoso. Se com a minha prisão todos os problemas do povo fossem resolvidos, iria preso satisfeito

Lula estava otimista ainda. “Não estou pessimista, confio na absolvição. Já deve estar uns 15 a 0 para os homens, mas quem sabe a gente ainda vira o jogo…”, disse ele a Kotscho. Após a condenação e o abraço de Marisa, não conseguiu esconder a emoção e a indignação. “Não estão procurando ladrões. Estão procurando os últimos honestos”, protestou. “Vou preso sabendo que cumpri o meu dever. Não cometi crime nenhum. Espero o mandado de prisão com tranquilidade, um mandado de prisão que partiu de um sistema que não teve a coragem de acabar com a fome do povo brasileiro. Eu não sou um criminoso. Se com a minha prisão todos os problemas do povo brasileiro fossem resolvidos, iria preso satisfeito.”

As manchetes dos jornais em 1981

Sobre o futuro do partido, disse: “O PT não é um partido que depende de mim, é um partido que está espalhado hoje por todo o Brasil, e continuará crescendo, independente de nossa condenação ou não”. Frases que poderiam ser ditas hoje. A Folha, ao contrário, mostrava posição oposta à atual e, mesmo acusando os advogados de defesa de “fazer gestos espetaculares e propaganda partidária ou ideológica”, denunciava as razões políticas da condenação. “Se é verdade que todo processo judicial tem uma face política, este de que tratamos é político por inteiro, de corpo e alma”, dizia o jornal, em editorial. PMDB, PP e PDT soltaram notas em solidariedade a Lula.

Ninguém poderá impedir o surgimento de novos Lulas. Um dia haverá tantos Lulas neste Brasil que eles não conseguirão prender todos

Todos os 11 condenados perderam o direito de se candidatar a cargos públicos, e os jornais fizeram questão de destacar que Lula estava “inelegível” por pelo menos cinco anos posteriores ao cumprimento da pena. Mas Lula teve o direito de recorrer em liberdade e, um ano depois, foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar.

E agora? Irão finalmente prendê-lo? Mais importante: sua prisão conseguirá calar em milhões de brasileiros o desejo de justiça social que Lula encarna? O sindicalista do passado dá a resposta ao Lula de hoje. “Ninguém poderá impedir o surgimento de novos Lulas. Um dia haverá tantos Lulas neste Brasil que eles não conseguirão prender todos.”

Dessa vez, porém, Marisa não estará lá para abraçá-lo.

 

 


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(7) comentários Escrever comentário

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Paulo Cezar Soares em 06/03/2018 - 20h31 comentou:

Bela lembrança. Belo texto. A direita treme diante de líderes populares.
Perseguiram e contaram um monte de mentiras a respeito do saudoso Leonel Brizola. Agem da mesma forma com o Lula.
Mas serão inapelavelmente derrotados. Creia nisso!

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Joel De oliveira em 07/03/2018 - 20h38 comentou:

Uma condenação atravessada na minha garganta que não consigo me alimentar de esperança neste Brasil apequenado.

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João Junior em 07/03/2018 - 22h35 comentou:

Lula, em si mesmo, é um legado histórico do Brasil. É como Tiradentes e é como Zumbi dos Palmares, traído e perseguido pelas elites sanguinárias que, no passado, matavam e esquartejavam seus opositores. Na falta da proteção dada pela coroa portuguesa, o esquartejamento está sendo substituído pela perseguição judiciária, o lawfare state. Mas mais importante que a perseguição a Lula é o povo, como ele mesmo gosta de dizer. É a causa o que importa porque é pela causa que o perseguem. Estamos juntos nessa e não podemos perder essa por causa da prisão dele. A esquerda tem que voltar à presidência, com maioria no congresso, com urgência.

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OSVALDO PERES MANESCHY em 08/03/2018 - 04h38 comentou:

Apesar de condenado, Lula disputou a eleição para governador de São Paulo em 1982 – mesmo ano em que Brizola se elegeu governador do Estado do Rio de Janeiro apesar da tentativa de fraude eleitoral da Proconsult, para beneficiar o então candidato da ditadura (PDS) a governador do Rio, o ex-prefeito de Niterói Wellington Moreira Franco. Lula ficou em quarto ou quinto lugar na disputa e Franco Montoro se elegeu governador.

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Leonardo Couto em 09/03/2018 - 01h29 comentou:

O Brasil poderia aproveitar esta situação e promover uma revolução organizada e institucional e surpreender os imperialistas que querem nesse momento resignação a um destino nefasto ou uma reação violenta que torne o Brasil mergulhado na anarquia e na fragmentação para tirarem mais vantagens,sou favorável a uma revolução mas não como eles querem e sim como deveríamos fazer de modo inédito e ímpar algo novo e inspirador aos outros povos.

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Leonardo Couto em 09/03/2018 - 02h01 comentou:

O que acontece com Lula aconteceu com Getúlio Vargas,JK,e João Goulart e até um certo ponto com Itamar Franco mesmo com formação burguesa e de ideologias distintas tinham uma qualidade eram inovadores e tinham espíritos públicos,JK sinceramente não acredito mais em estímulo de capital externo mas tentou desenvolver o país e até um certo ponto no sentido econômico conseguiu ,mas o povo ainda continuou pobre, sem mexer na base social ninguém chega a lugar nenhum,João Goulart este para mim junto com Getúlio foram os dois maiores presidentes do Brasil ousou colocar o Brasil numa concepção de necessidade na reforma de base,analisando de modo profundo o que esta nação precisava,Getúlio com acertos e equívocos tentou não,criou uma base adequada para um verdadeiro sentido estado nação,tinha a clarividência do que precisava a nossa sociedade todo poder ou possível sentido para desenvolver uma base de Brasil potência veio com ele,Itamar foi insultado tratado como inepto,mas na verdade pegou um Brasil estropiado pela questão Collor e de modo adequado estabeleceu um equilíbrio até certo ponto satisfatório que FHC aproveitou mal,e por fim Lula também com erros e acertos fez uma política popular mesmo com desvios econômicos de caráter direitista procurou uma realidade que beneficiasse a população mais pobre,e assim incomoda a nossa direita e o poder financeiro internacional.

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Leonardo Couto em 09/03/2018 - 02h08 comentou:

O único estadista de direita que considero com certo respeito foi Geisel mas pagou um preço alto pelo massacre da Lapa e também por seu lado positivo tentou o nacionalismo com um projeto arrojado em obras de tecnologia e engenharia e lembramos teve certa ousadia e iniciar a abertura democrática no Brasil,começando a afastar a linha dura do exército, a seu modo teve ousadia mas adivinha quem o sabotou a nossa amada mídia ,neste sentido Geisel tem haver sim com Lula.

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