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O ditador mais parecido com Bolsonaro é Franco, “caudilho da Espanha pela graça de Deus”

Nem Hitler nem Mussolini: o paralelo mais significativo que pode ser feito com o Brasil de 2018 é com a Espanha pré-franquista

O ditador Francisco Franco
Cynara Menezes
06 de outubro de 2018, 16h03

Nem Hitler nem Mussolini: o paralelo mais significativo que pode ser feito com o Brasil de 2018 é com a Espanha pré-franquista. O ditador Francisco Franco, que isolou a Espanha do mundo e a mergulhou no atraso durante 39 anos, e o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro se assemelham em muitos aspectos.

Após as tropas de Franco ganharem a guerra civil e o “generalíssimo” chegar ao poder, as maiores inteligências do país foram embora. O poeta Federico Garcia Lorca foi assassinado. Toda a vanguarda artística espanhola partiu para o exílio no México, sob a proteção do presidente Lázaro Cárdenas. O cineasta Luis Buñuel, a pintora Remédios Varo, o escritor Max Aub… Franco proibiu até as línguas regionais, como o catalão e o euskera. E só passou o bastão, antes de morrer em 1975, para o rei Juan Carlos, que ele mesmo escolheu.

A Espanha começa a sair do atraso apenas a partir dos anos 1980, quando se inicia a transição para a monarquia parlamentarista que existe no país até hoje. Lá, como aqui, a ferida da ditadura nunca cicatrizou porque ninguém foi responsabilizado ou preso pelos crimes do regime franquista. Eles não sabem até hoje nem quantas pessoas exatamente o regime matou.

Em 2008, o juiz Baltasar Garzón tentou descobrir, recebeu uma lista com mais de 140 mil desaparecidos e acabou sendo alvo de uma perseguição judicial que culminaria com sua expulsão da magistratura quatro anos depois. A transição forçada tampouco resolveu os anseios de independência regionais sufocados por Franco, daí a crise recente com a Catalunha, onde o governo central acabou intervindo de forma autoritária, destituindo um governo eleito.

Como no Brasil, a ferida da ditadura nunca cicatrizou na Espanha porque ninguém foi responsabilizado ou preso pelos crimes do regime franquista. Eles não sabem até hoje nem mesmo quantas pessoas exatamente o regime matou

Outra similitude com Bolsonaro é que Franco também era um “milico do senhor”: se autointitulava “caudillo de España por la gracia de Dios”. Houve repressão moral fortíssima durante a ditadura, exatamente como se prevê que acontecerá no Brasil com os fundamentalistas religiosos que apoiam Bolsonaro no poder. Ao contrário das ditaduras latino-americanas, onde parte da igreja católica fez oposição ao regime, a de lá inteira aderiu.

O resultado de tantos anos de repressão religiosa na Espanha só veio à tona em anos recentes, com a revelação de que muitos padres abusavam de crianças nas escolas e internatos confessionais e que freiras sequestravam e vendiam filhos de casais pobres sem a autorização dos genitores. Uma geração inteira de homossexuais foi reprimida, o que só foi revertido a partir do final dos 1990. Outro aspecto onde o bolsonarismo e o franquismo se encontram é na defesa da monarquia. Não é à toa que a “família real brasileira” (sic) o apoia.

Encontro entre Hitler e Franco na França em 1940. Foto: Heinrich Hoffmann

Os fascistas espanhóis eram e são chamados de “falangistas”, em referência ao único partido político permitido no país durante o franquismo, a Falange Espanhola Tradicionalista. Assim como Hitler na Alemanha, uma das primeiras coisas que Franco fez foi acabar com o Partido Comunista, prendendo, torturando e assassinando seus membros. O filho de Bolsonaro, Eduardo, já tem um projeto na Câmara criminalizando o comunismo e que prevê prisão de um a três anos para quem fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos ou propaganda que utilizem a foice e o martelo.

Um nome adequado para os bolsonaristas seria “direita miliciana”. Seu outro filho, Flavio, candidato ao Senado no Rio, já propôs a legalização das milícias na Assembleia Legislativa, em 2007. O próprio candidato Jair Bolsonaro também defendeu a legalização dos paramilitares, embora hoje evite o assunto.

Houve racionamento de alimentos, hiperinflação, crescimento da miséria e uma recessão que levou à maior queda no bem estar dos cidadãos em 150 anos. Quando Franco morreu, em 1975, o PIB per capita da Espanha correspondia a 63% do francês, idêntico ao de 40 anos antes

Economicamente, a ditadura de Franco foi um desastre. Houve racionamento de alimentos, hiperinflação, déficit na balança comercial, crescimento da miséria, mercado negro e uma recessão que levou à maior queda no bem estar dos cidadãos em 150 anos. A situação só melhorou um pouco 23 anos depois que o generalíssimo chegou ao poder, a partir de 1959, quando uma equipe de tecnocratas da Opus Dei promoveu a liberalização da economia e a abertura do país ao exterior, sob as bênçãos do FMI.

Propagandeado pelo regime, o “milagre econômico espanhol”, porém, teve como efeito colateral o aprofundamento das desigualdades regionais e enorme destruição do meio ambiente. E, mesmo com o “milagre”, na época da morte de Franco, em 1975, o PIB per capita da Espanha correspondia a 63% do francês, idêntico ao de 40 anos antes, em 1935.

 


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(3) comentários Escrever comentário

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Jefferson em 06/10/2018 - 22h45 comentou:

Quando um estado do Sul ou sudeste for governado por um separatista de direita a senhora vai protestar veemente se o governo federal acabar com a pantomina.

Responder

Miranda em 08/10/2018 - 10h31 comentou:

Excelente paralelo, Cynara. Só senti falta de uma informação: Franco era tão entreguista quanto o bozo, que faz continência pra bandeira americana?

Responder

Ari em 08/10/2018 - 13h43 comentou:

Como é usual em ditaduras, a Espanha, nesse período, limitou-se a traduzir já que nada produzia

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