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O editor que leu demais

Um perfil do divertido fundador da CosacNaify, Charles Cosac, que parece ter saído das páginas de um dos livros que edita

Charles Cosac, fundador da editora CosacNaif. Foto: Olga Vlahou
Cynara Menezes
12 de dezembro de 2012, 14h55

Fazia muito tempo que eu escutava falar de Charles Cosac, o dono da CosacNaify. Amigos em comum o descreviam como uma figura inteligentíssima, por um lado, e por outro excêntrica ao extremo. Ou seja, o tipo de pessoa que eu ia adorar conhecer. Finalmente, em 2007, Charles concordou em me atender para uma rara entrevista. Foi divertidíssimo. Cosac é a encarnação viva de Oblómov, o personagem do romance de Ivan Gontcharóv que, aliás, sua ótima editora está lançando agora no Brasil, em tradução direta do russo. O título do perfil remete à impressão que tive: ler demais foi a sua ruína. No bom sentido.

***

Charles leu demais

Há dez anos, quando decidiu abrir a editora CosacNaify, o brasileiro descendente de sírios Charles Cosac quis conhecer um ídolo de quando era mestrando em História e Teoria da Arte na britânica Universidade de Essex: o publisher norte-americano George Braziller. Já octogenário, Braziller o recebeu em seu escritório em Nova York e contou que tinha feito dinheiro até os 35 anos com o Clube do Livro do Mês, espécie de livraria em domicílio, antes de fundar sua editora de livros de arte. “Agora”, disse, “estou perdendo tudo o que ganhei. Mas uma vez que você faz o primeiro livro, não consegue parar.”

Foi assim com Cosac. Herdeiro (ou “pensionista”, como ironiza) de uma família de mineradores, Charles passara 18 anos fora do país, estudando e viajando pela Inglaterra, Rússia, França, Noruega e Estados Unidos. Voltou ao Brasil porque, cansado de ser estrangeiro, queria ter uma casa. E encontrou na idéia de fundar uma editora de livros de arte uma solução para seu problema de… desemprego. “Quis uma editora basicamente para trabalhar nela. Não iam me dar trabalho. Meu português é ruim e eu não estava inserido no mercado”, explica.

Muita gente achou que não ia durar muito. Editar arte em um país que nem lê? Em 2001, o vaticínio quase se cumpriu: como Braziller, Cosac gastava tudo que tinha na editora, que dava um prejuízo de 500 mil reais por mês. Chegou a marcar data para fechar, até que um professor de Literatura da USP, Augusto Massi, se ofereceu para assumir o negócio. O idealista Charles não era nada prático em administrar uma editora. Massi, sim.

Sob sua batuta, a CosacNaify passou a publicar também clássicos da literatura brasileira e universal, livros infanto-juvenis e, mais recentemente, autores contemporâneos de culto. Hoje, não só saiu do vermelho como é uma das mais respeitadas do país em termos de catálogo, com edições impecáveis. O diferencial são os textos de apoio (como orelhas, prefácio e introduções), entregues em mãos de especialistas.

“A editora é do maior bom gosto”, opina Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record. “A CosacNaify era um joão-bobo. Massi deu esqueleto, pés”, reconhece o fundador, que, para sua felicidade, deixou de se preocupar com cadernos de contabilidade para fazer o que de fato queria desde o início: ser empregado. No caso, de si próprio. E pôde se dedicar ao máximo a sua vida quase monástica, mergulhado em arte e em livros.

Cosac, a pessoa, leu demais. Leu tanto que acabou se tornando um personagem, ou melhor, uma colagem de personagens que forma um todo singular. Um sujeito de 42 anos, pálido e alto (1m84), de cabelos negros compridos e meio calvo, sempre vestido com túnicas que vão quase até os pés e que lhe dão um ar sacerdotal. Não é alguém que se veja o tempo todo por aí, mas ele recusa o epíteto de “exótico”, fazendo blague. “O ridículo é relativo. Uma vez vi o Faustão e ele parece ter a bunda na frente. Se eu fosse igual a ele, me trancava no armário e nunca mais saía. E o Gugu, com aquele cabelo cor de ovo?”

Como a biblioteca de sua casa, a vida íntima de Cosac é plagada de referências. O apartamento duplex de mais de 1000 metros quadrados em Higienópolis, bairro tradicional de São Paulo, possui ambientes inteiramente vermelhos, do carpete até as paredes – influência de Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, que viu, jura, umas 150 vezes. Já foi comparado a Oscar Wilde e seu Dorian Gray, mas uma referência assumida é o menos conhecido Oblómov, do russo Ivan Goncharóv. Trata-se de um personagem que passa metade do livro tentando sair da cama, de onde dirige seu pequeno negócio de forma apática.

“Nenhum Cosac jamais fez exercícios”, ri Charles, alimentando o mito. “Minha avó nunca saiu da cama e minha mãe vive sentada.” Quando era pequeno, no Rio, proibido de tomar coca-cola em casa, jurou que quando ficasse adulto ia gastar “muito dinheiro” em refrigerante. Chegou a tomar 45 litros por dia e ganhou uma úlcera. “Tive que escolher entre a vida e a coca-cola. Escolhi a vida por dois dias e foi terrível”, dramatiza. Hoje toma “só” 8 litros de coca diet para acompanhar os três maços de cigarro diários. Carioca da gema, nunca tomou sol por influência materna. Lembra, pequeno, de ir à praia com a mãe, Hend, toda coberta, de véu, óculos escuros e túnica, protestando: “O sol é a pior invenção de Deus!”.

É difícil conhecer Charles Cosac sem lembrar da impressão que teve Sigmund Freud sobre o pintor surrealista Salvador Dalí: “Cândidos olhos de fanático”. Fanático no sentido religioso, mesmo. Charles é cristão ortodoxo e afirma acreditar ser parente de Jesus Cristo. Em sua imensa sala, sete imagens de Cristo barrocas, do século 18, refazem a trajetória do calvário à ressurreição. Aliás, examinar o editor seria um prato cheio para o criador da psicanálise: pai opressor, mãe possessiva e infância solitária são uma mistura explosiva para a psiquê de qualquer um. A propósito, desde os 12 anos Cosac vai ao psiquiatra. “Chanel 5 e Valium 5 são a mesma coisa para mim”, tenta simplificar. “Depressão é uma coisa química.”

Aos 13 anos, numa segunda-feira, Charles recebeu do pai um papel escrito “Maria”. Era um mistério, mas pressentiu que tinha algo a ver com sexo, e não errou. Maria era a dona de um bordel na Praia do Flamengo, no Rio.  Como o primeiro encontro estava marcado para o sábado, decidiu se preparar lendo três dos quatro volumes da Enciclopédia do Sexo. “Sempre pensei que a resposta estava nos livros”, assume. Ele conta que passou os dois anos seguintes indo lá “praticar sexo”. Mas, contrariando a expectativa paterna, não deixou de sentir-se homossexual.

Freudianamente, o pai de Charles, Mustafá, uma figura ausente que passava parte do ano incomunicável no sertão da Bahia cuidando das minas de quartzo, foi sempre buscado pelo filho em suas relações. “Nunca amei”, afirma o editor, mas é uma meia-verdade. Viveu várias paixões platônicas por pessoas mais velhas, como o artista plástico Farnese de Andrade (1926-1996), de quem foi amigo e cuja obra resgatou para a posteridade editando dois belos livros sobre ele na CosacNaify. A figura paterna se concretizaria em Marshall Naify, milionário produtor de cinema norte-americano, pai de seu sócio Michael, que por sua vez é casado com a irmã de Charles, Simone.

Charles e Michael se conheceram ainda na Universidade, em Londres. Mais tarde, se reencontrariam nos Estados Unidos, para onde Charles foi fazer um estágio como curador-assistente. “Mr. Naify” (pronuncia-se nêif), como o chama, achou-o perdido e o tratou como filho. Não há nenhum retrato do pai biológico de Charles por perto, mas há uma foto gigante de Mr. Naify em seu quarto e outra, estilizada pelo artista goiano Siron Franco à Andy Warhol, em seu escritório na editora.

Recentemente, a CosacNaify relançou Dener – O Luxo, sobre o costureiro que também é um personagem-fetiche para Cosac, não por suas roupas. “Quando, criança, o vi na TV, constatei que eu não era o único homossexual. Foi a mesma coisa com o Capitão Gay do Jô Soares: aquilo quebrou o gelo, colocou a palavra ‘gay’ de uma forma amistosa”, diz.

Charles sempre foi fascinado por indumentária. “Meu pai dizia que era coisa de mulher, mas minha mãe falava que vaidade e higiene são sinônimos. Eu, com minha cabeça rococó, levei isso aos píncaros.” Em seu quarto, as paredes são cobertas por enormes armários repletos de trajes, entre túnicas, camisas e ternos.

Ele conta que na adolescência um dia passou em frente à loja de Saint Laurent em Londres e viu um casaco de oncinha e gola de guaxinim que o deixou enlouquecido. Provou a peça gargalhando e perguntou para o vendedor: “O senhor acha muito gay?” O inglês não se abalou: “Não, sir, talvez um pouquinho flamboyant (cheguei)…” Entre seus guarda-roupas há o “armário da solidão”, repleto de pijamas cafonas, agasalhos de malha, cardigãs – para os dias de depressão, que não são poucos. Volta e meia ele liga para algum amigo anunciando: “Estou péssimo.” Então, qual Oblómov, não sai da cama para nada.

Outro personagem que o fascina é Des Esseintes, protagonista de Às Avessas, do francês J.K. Huysmans, considerado a bíblia do decadentismo. Des Esseintes é um nobre que se refugia em uma casa fora de Paris, cercado por sua coleção de pinturas e decidido a dedicar a vida à contemplação estética e intelectual, em um universo só seu. Puro Charles Cosac.

Ele tem pouquíssimos amigos. Para esta reportagem, listou exatamente sete além de seus fiéis cães pastores Odin e Farah, em homenagem a Farah Diba, mulher do xá Reza Pahlevi. (E também, diz, hilariantemente, “porque toda família árabe tem um médico chamado dr. Farah, que usa terno cinza, tem cabelo branco, come quibe e vai embora…”) Recebe os amigos sempre de um em um. De vez em quando, briga e depois reata, sempre por carta: é um missivista.

A galerista Luisa Strina vive em frente ao prédio de Cosac e só se falam assim. “Nos comunicamos sempre por carta. Às vezes regularmente, às vezes passamos um tempão sem nos falar”, diz Luisa. Um de seus melhores amigos, Siron Franco conta, divertido, que Cosac é capaz de escapulir pelo elevador da cozinha, que dá direto em seu quarto, quando uma visita não o agrada. “O Charles é uma pessoa que tem coragem de ser o que é”, elogia Siron, autor da maioria dos quadros que decoram as paredes do apartamento do editor, onde tem um quarto só seu – são amigos há 21 anos.

Além de Siron, Cosac possui obras de Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Tunga, Waltercio Caldas, Lygia Pape, Farnese e outros nomes da arte contemporânea brasileira, mas não se considera um colecionador. “É tudo auto-referente. Eu coleciono eu”, resume. “Adoraria ter um Volpi, por exemplo, mas é muito caro. Não sou milionário.” Sai pouquíssimo à noite e nunca para lugares da moda: sua única paixão de verdade é o trabalho, “uma obsessão”, em suas palavras.

Talvez por isso, e a despeito da aparente excentricidade, Charles Cosac tenha conquistado um respeito raro. O que se fala dele por aí não é “aquele cara da túnica”, mas “editor arrojado”, “que não faz concessões”, “objetivo”, “inteligente”, “cultíssimo”. No fundo, apesar da natureza dramática, ele reconhece seu valor, mas tem uma maneira Cosac de explicar o sucesso: “É preciso acreditar na própria loucura.”

(Perfil originalmente publicado na revista CartaCapital de 23/09/2007)



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Luciana Mendonça em 13/12/2012 - 13h24 comentou:

Há alguns anos, vi uma entrevista com o Charles Cosac, se eu não me engano, na Cultura. Fiquei completamente doida por ele, pela casa, pela esquisitice! Porém, nunca mais havia visto nada. Foi uma delícia lê-lo da forma como escreveu, pois foi bem diferente da maneira como eu o conheci. Que criatura fantástica, não? Obrigada por compartilhar!

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