Quando pais, irmãos e maridos votavam pelas mulheres: o filme As Sufragistas

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(Sufragista na janela de prisão na Inglaterra que suas companheiras de luta tentaram explodir. Foto: Getty Images)

 

Por Liliane Machado

O cinema inglês resgatou um momento ímpar das lutas feministas ao redor do mundo com As Sufragistas, em cartaz nos cinemas brasileiros. O título remete ao movimento iniciado ainda no século 19, por mulheres pertencentes à burguesia, de países da Europa bem como dos Estados Unidos, que reivindicavam o direito ao voto. A história concentra-se em 1912, em Londres, quando essa luta estava em plena efervescência. Parece absurdo que mais de dois séculos após a instauração da Idade Moderna as sociedades ainda limitassem o voto apenas aos homens, entretanto, as relações de gênero vigentes à época são resumidas de forma precisa pela frase de uma das personagens da obra e que representa o poder político masculino, ao afirmar: “as mulheres já são muito bem representadas por meio do voto dos seus pais, maridos e irmãos”.

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(Marcha de “suffragettes” em Londres em 1913. Foto: Getty Images)

A roteirista Abi Morgan foi perspicaz ao optar por narrar a história pelo ponto de vista de uma mulher do povo, ao invés de concentrar-se na cabeça do movimento, liderado por mulheres de condições financeiras abastadas. Foram mulheres como a personagem central, Maud Watts, funcionária de uma lavanderia na Inglaterra de 1912, que agregaram mais valor e força ao movimento, revelando a faceta desumana que a relação desigual entre os gêneros ocasiona à vida de meninas, garotas e mulheres maduras. O filme responde a várias questões que englobam a luta: por que lutar pelo direito ao voto? O que isso mudaria na vida cotidiana das mulheres? E de que forma essa luta poderia ser travada para que fosse reconhecida e operasse mudanças efetivas?

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(Sufragista Annie Kenney, presa e sorrindo. Foto: Getty Images)

As Sufragistas adentra a segunda década do século 20, em Londres, explorando as nuances do interior de uma grande lavanderia. O trabalho árduo é feito, principalmente, por mulheres: adolescentes, jovens e velhas. Vapores saem das caldeiras onde lençóis e outras peças são mergulhadas e mexidas pelas funcionárias; ferros enormes e pesados são levantados por mãos calejadas. Acidentes de trabalho ocorrem com frequência e a Coroa e o Parlamento Britânico fecham os olhos para as condições de trabalho semi-escravas. É o microcosmo fictício da situação real a que as mulheres estavam expostas no período em que começam a ser integradas à mão-de-obra do regime capitalista.

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(Crianças e mulheres trabalhando em fábrica de enlatados dos EUA no início do século 20. Foto: Lewis Hine)

A reconstrução de época é laboriosa, detalhista, permitindo ao espectador vislumbrar as ruas, o interior das casas; as vestimentas do período. Some-se a isso a interpretação intensa de Carey Mulligan como a operária Maud Watts. A personagem emana uma mistura de fragilidade física e força moral que captam a empatia do público. A história tem início quando ela, ao sair do trabalho, casualmente, assiste a um enfrentamento entre as manifestantes sufragistas e a polícia. Primeiro, os olhos de Maud são atraídos para uma mulher com um carrinho de bebê, do qual, alguns segundos depois, tira pedras que são atiradas às vidraças das lojas. Elas não estão para brincadeiras e o filme vai explorar esse e diversos outros embates entre as mulheres e a força policial de forma crítica. A polícia, ao invés de proteger os cidadãos, bate, espanca, chuta e prende. Elas, com seus vestidos e saias longas, chapéus enfeitados de renda e flores, não recuam, partem para cima dos policiais com bravura.

Nesse momento não é difícil para os brasileiros lembrarem-se de como a polícia civil e militar reprimiu diversos movimentos sociais nos últimos três anos. Professores espancados em Curitiba, Paraná; professores retirados à força por policiais, deitados ao chão e algemados, por policiais em Brasília, estudantes tratados como bandidos pela polícia paulista. Muda o século, o país e as causas, mas as reivindicações continuam sendo tratadas como ameaça, passível de punição, prisão e violência. O filme então ganha cores muito atuais e lança uma perspectiva sombria para os que ousam lutar pelos seus direitos.

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(Charges ironizam sufragistas com os mesmos argumentos machistas de hoje contra feministas: “feias”, “velhas”, “mal-amadas”…)

Quando retorna à casa, que divide com o marido e o filho pequeno, Maud relata o ocorrido. O marido franze o cenho, visivelmente contrariado. Os três são pobres, habitam uma casa minúscula, mas a diferença de gênero se impõe: ela cuida do filho, leva-o à escola, cozinha, faz as tarefas domésticas. Ademais, assim como as suas outras colegas de trabalho, seu turno na lavanderia é maior que o dos homens e o salário menor. Esse vislumbre inicial da condição a que Maud está exposta será acentuado à medida que vermos que ela sofreu abuso por parte do dono da lavanderia e tem que ver quieta o mesmo se repetir com uma funcionária de pouco mais de 12 anos. Sem adentrar profundamente à questão do abuso sexual, o filme permite-nos ver o suficiente para, de novo, fazermos conexões com o mundo atual, em que casos de abusos contra as mulheres continuam fazendo parte do cotidiano das pessoas do mundo todo.

Ao relatar para uma comissão de parlamentares a situação de trabalho a que está exposta desde criança, Maud ainda reluta em se declarar sufragista, nega a adesão com veemência. Sente-se atraída e, ao mesmo tempo, desconfiada daquelas mulheres. Helena Bonham Carter, no papel de uma farmacêutica engajada na causa, despertará nela a vontade de aderir definitivamente ao movimento. Em mais um papel em filmes de época –interpretou, ao lado de Emma Thompson, Howards End, assim como O Discurso do Rei–, Helena é sempre convincente. Não importa se faz o papel da Rainha Vermelha em Alice no País das Maravilhas ou a Bellatrix Lestrange, na série Harry Potter, imprime convicção aos papéis que interpreta.

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(Emmeline Pankhurst sendo presa em 1914. Foto: Getty Images)

Irônica é a escolha de Meryl Streep para interpretar a líder do movimento, Emmeline Pankhurst, que protagonizou o sufragismo na Inglaterra, o que lhe renderia sucessivas prisões. As ideias de liberdade, equidade e fraternidade que defendeu ao longo da vida vão de encontro ao que apregoou Margareth Thatcher, que Streep também interpretou e que lhe rendeu enormes elogios da crítica mundial. Thatcher, alguns poderiam ponderar, também foi uma mulher destemida. Mas não basta ser mulher e, como foi o caso da ex-primeira ministra britânica, defender um establishment que reitera as diferenças e promove as exclusões. Se era para aumentar a audiência, por que não convidar Emma Thompson para o papel? Seria muito mais coerente.

Outro ponto frágil do filme é a carga dramática emocional que quase empurra a obra para o gênero novelão. Isso acontece quando Max, o marido, expulsa Maud de casa e a proíbe de ver o filho pequeno. Felizmente, a personagem não recua da luta, o que para muitas mulheres, ainda hoje, seria uma afronta ao ideal da maternidade. Mulheres podem até separar-se do marido, porém, dos filhos, nunca. Felizmente, o filme optou por contrariar o senso comum. Talvez isso possa atrair a antipatia de algumas, mas, sem dúvidas, joga lenha na fogueira do fato de que não há ganhos possíveis para as mulheres sem que elas assumam suas causas e que lutem por elas. Nenhuma mudança social ocorreu sem lutas e, ao final, quando vemos discorrer a lista das datas em que países diferentes aprovaram o voto das mulheres, percebemos a extensão da causa feminista.

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(Charge de Raul Pederneiras de 1914 retratando as sufragistas brasileiras na revista Fon-Fon)

Lembremos que o Brasil, só para citar um exemplo que nos é próximo, aprovou o direito ao voto das mulheres em 1932, mais de uma década antes da França, país símbolo da luta pelos direitos humanos, pátria de Simone De Beauvoir. Aqui, tal como na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos e outros países, a vitória só foi obtida com o empenho das mulheres, que foram às ruas e empunharam a bandeira da causa numa época em que o espaço público era considerado território exclusivo dos homens. Bertha Lutz foi uma das líderes do sufragismo no Brasil, além de ter sido eleita para o parlamento brasileiro, onde defendeu a licença-maternidade, bem como o fim do trabalho infantil. Poderia ser tema de uma obra cinematográfica, assim como a própria Emmeline Pankhurst.  Note-se, entretanto, quea diretora e a roteirista optaram por retratar uma mulher simples, uma operária, desde a infância. A opção foi acertada pois retira do sufragismo a pecha que, até hoje, muitas pessoas ainda tentam impingir-lhe, o de que se trataria de um movimento liderado por burguesas desocupadas.

Essas burguesas se uniram a outras categorias de mulheres, operárias, mães de família que desenvolveram e aplicaram táticas de guerrilha que não deixaram nada a dever às lutas de outros segmentos. Foram mulheres decididas que viriam somar-se, décadas depois, às negras, indígenas, homossexuais e tantas outras categorias que lutam pelo fim das desigualdades e pelo direito às diferenças.

O filme faz jus à memória das heroínas desse movimento, que no enfrentamento com a força policial da monarquia parlamentarista inglesa, lançou as bases para um movimento que se ampliaria, paulatinamente, confirmando a frase profética de um dos personagens, representante da política vigente na Inglaterra (homem, branco, rico): “se dermos o voto às mulheres, elas não pararão nunca mais de reivindicar”. Só um reparo na profecia: o voto não foi dado às mulheres, elas conquistaram-no.

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As Sufragistas (Suffragette), Inglaterra, 2015. Direção: Sarah Gavron. Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Mery Streep.

 

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Publicado em 29 de janeiro de 2016