O reacionarismo enquanto nicho midiático

chrismason

(Social Climbing, Chris Mason, 2012)

Em tempos de salve-se quem puder no jornalismo, muita gente está descobrindo uma maneira de sobreviver e de ter algum sucesso na vida: virando um reaça feroz e publicando barbaridades nas redes sociais. Não, não é que os alpinistas de direita não sejam de direita de fato. Sim, eles são. Mas não custa exagerar para ganhar uns trocados, não é mesmo? Ainda mais quando se chega a certa idade e o que se tem pela frente é o ostracismo…

Vejam o caso de certo vlogueiro, que despontou na carreira fazendo vídeos espinafrando a saga Crepúsculo e cantores adolescentes, além de dar opiniões revoltadeenhas sobre questões do momento. Foi só a audiência dele começar a despencar, as visualizações minguarem, os compartilhamentos descerem ladeira abaixo e pimba! O cara virou o reaça da hora e passou a detonar Lula e o PT sem trégua, no twitter e no facebook.

Tem acontecido o mesmo com jornalistas em fim de carreira. Gente que nunca teve um só trabalho reconhecido, um só texto inesquecível na memória dos leitores dos jornais onde atuou, nem um furo sequer, por mixuruca que fosse, e que, graças à sua transformação em pitbull de direita, se tornou um nome de destaque na profissão. Não só jornalistas, justiça seja feita: tem sociólogos, historiadores, artistas e até “filósofos” nesse barco.

Também há os casos de jovens desconhecidos que saltaram do anonimato para a fama de uma hora para outra por entregar aos donos da mídia o que eles querem comprar. Claro, é uma regra do mercado: se existe oferta é porque existe demanda. Com a guinada dos jornais e revistas cada vez mais para a direita, passaram a chover empregos para gente que pensa assim. E quem enxergou o nicho, se deu bem.

É por isso que aquele coxinha com cara de que foi muito zoado quando guri, sem estofo intelectual algum, ganhou uma coluna na revista “mais vendida” do País. E que seu colega de site, o garotão carioca zona Sul que sempre foi mal na escola, agora virou guru intelectual da juventude reaça. A maior virtude deles como “escritores” não é, como já foi no passado, ter um texto brilhante, mas falar absurdos (de direita, óbvio). Quanto mais barbaridades eles escreverem, mais serão benquistos na casa.

Os sites dos alpinistas de direita pululam na internet, todos com o objetivo explícito de detonar a esquerda. Cada hora surge um novo, sempre impulsionado por alguma figura midiática defensora do politicamente incorreto e da opressão a minorias. Nas redações dos jornais, qualquer dia vão instituir o prêmio “jovem direitista do ano”: é ele hoje quem ganha a maior parte das colunas e das chefias das editorias. Nos almoços com a diretoria, está sentado ao lado do dono, porque é, antes de tudo, um capacho, um puxa-saco da pior espécie. Um carreirista por definição –que mal há nisso? Meritocracia, uai.

Enquanto tantos ótimos repórteres estão conhecendo o olho da rua, o alpinista de direita não corre esse risco. Bajulando e falando tudo que os patrões querem ouvir, seu emprego está mais do que garantido. Logo, logo, você o lerá no jornal, o verá na TV ou o ouvirá no rádio. Mais frequentemente, as três coisas juntas. Sobra trabalho para o reaça midiático. Falar mal da esquerda virou item do currículo dos profissionais de mídia. Pouco importa se for um plagiador, que tenha um texto sofrível ou que seja um sociopata.

Você me dirá: não tem os alpinistas de esquerda também? Claro, deve ter. Mas, ao contrário do alpinista de direita, quem se definir como de esquerda hoje no Brasil, em quase todas as redações do País, será demitido na hora. O reaça será promovido e rapidamente chegará aos cargos de chefia. Eis uma carreira em ascensão, amigos. Só não se sabe até quando.

 

 

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Publicado em 25 de junho de 2015