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Por que Obama foi o melhor que os EUA tinham a oferecer; e por que Trump será pior

Hoje é o último dia de Barack Obama como presidente da nação mais poderosa do planeta. Vi muita gente de esquerda compartilhando estatísticas sobre como sua presidência foi tão assassina quanto as demais. O governo Obama matou mais civis inocentes em ataques de drones, inclusive crianças, do que seu antecessor, o republicano George W.Bush. Não […]

Cynara Menezes
20 de janeiro de 2017, 12h59
obamapete

(Barack Obama por Pete Souza/The White House)

Hoje é o último dia de Barack Obama como presidente da nação mais poderosa do planeta. Vi muita gente de esquerda compartilhando estatísticas sobre como sua presidência foi tão assassina quanto as demais. O governo Obama matou mais civis inocentes em ataques de drones, inclusive crianças, do que seu antecessor, o republicano George W.Bush. Não vou nem mencionar a descarada espionagem sobre outros países e o apoio ao golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff. Uma decepção para quem esperava algo diferente vindo do “império”.

Mas, com tudo isso, eu ainda acho que Obama e sua mulher Michelle foram o melhor que os EUA tiveram a oferecer ao mundo até hoje, em termos de governantes. Duvido que saia coisa melhor dali. Em primeiríssimo lugar, por haver representado uma inegável injeção de autoestima à população negra norte-americana e de todo o planeta. Yes, they can. Os negros podem. A chegada do charmoso e preparado casal Obama à presidência dos EUA foi um tapa na cara dos racistas de toda parte. São inesquecíveis as cenas da visita à Casa Branca de Virginia McLaurin, de 106 anos, que achou que ia morrer sem ver um presidente negro em seu país…

virginia

(O casal Obama dança com a centenária Virginia McLaurin na Casa Branca. Foto: Pete Souza)

Não é à toa que Donald Trump assume justamente com o apoio de supremacistas brancos e da Ku Klux Klan. É um fenômeno de certa forma parecido com o que acontece com o PT no Brasil: a direitona chega ao poder contra a ascensão dos excluídos. Aqui, são os pobres –embora a fúria reacionária contra as cotas raciais indique que os negros que ascenderam também são o alvo. Nos EUA, a extrema-direita representada por Trump venceu apoiada em um discurso racista contra supostos “privilégios” dos negros. “Imaginem, um nordestino/mulher na presidência” = “imaginem, negros na Casa Branca”.

Uma das primeiras ameaças do presidente empossado é acabar com o Obamacare, o programa que incluiu 20 milhões de norte-americanos pobres no acesso à saúde, que nos EUA era restrito a quem tivesse dinheiro para pagar um plano privado. A ditadura dos planos de saúde foi bem exposta por Michael Moore no filme Sicko: quem não podia pagar por assistência médica era abandonado no meio da rua. Não que o Obamacare seja perfeito, tem várias falhas; mas especialistas dizem que, sem uma opção melhor, seu fim causará a morte de milhares de pessoas.

Obama também foi bem em relação aos direitos LGBTs. Sob sua presidência, transexuais puderam entrar nas Forças Armadas; o casamento gay foi reconhecido pela Suprema Corte; foi proibida a discriminação de parentes homossexuais em hospitais; LGBTs foram contratados pela administração pública seguindo o exemplo da Casa Branca; acabou o esdrúxulo bloqueio de pessoas HIV positivas a entrar em território norte-americano que existia havia 22 anos; as chamadas “curas gays” foram condenadas publicamente; e os estudantes trans tiveram garantido o acesso a seus próprios banheiros nas escolas públicas, desde o jardim de infância. Tudo isso está ameaçado por Trump, e pode ser revertido para agradar à parcela de seus eleitores que, além de racista, é homofóbica.

E quem duvida que Donald Trump também resolva voltar atrás em relação à reaproximação com Cuba? Em novembro, o presidente eleito tuitou que, “se Cuba não estiver disposta a fazer um acordo melhor para o povo cubano, o povo cubano-americano e os EUA, como um todo, vão terminar o acordo”. Após o anúncio da morte de Fidel Castro, Trump, também pelas redes sociais, fez questão de chamá-lo de “ditador brutal”. Obama, ao contrário, ofereceu suas condolências à família e deixou o julgamento de Fidel “para a história”. A resposta de Raúl Castro a Trump foi um desfile militar nas ruas de Havana.

Vejo gente de esquerda espantosamente seduzida por Donald Trump apenas pela rejeição do establishment ao novo presidente e pelo apoio do líder russo Vladimir Putin. Ambas as razões me parecem uma ilusão. O establishment, tenho certeza, rapidamente reconhecerá Trump, um bilionário, como um dos seus. E Putin nunca foi nem será um homem de esquerda. Representa o que houve de abominável na era soviética: a KGB, a polícia que perseguia dissidentes. Ainda que Trump e Putin permaneçam aliados, o que duvido, o que de bom isso poderá trazer ao mundo? Não enxergo nada.

Trump será, como todos os seus antecessores, senhor das guerras –e com uma preocupação extra, porque é mais imprevisível. Sabe-se lá quem escolherá para ser inimigo. Ao mesmo tempo, à diferença de Obama, colocará em evidência o que há de mais atrasado em termos sociais e morais: o racismo, a xenofobia, a misoginia, a homofobia. Trump duvida até mesmo do aquecimento global… Se vocês acharam Barack Obama ruim, esperem só para ver Donald Trump em ação. Retrógrado, antiquado, arrogante, machista. E o que é pior: sem um décimo da simpatia e carisma dos Obama.

 

 


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Matheus Prado em 12/06/2018 - 09h50 comentou:

Ainda to esperando.

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