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OPAS: epidemia de doença renal associada a agrotóxicos na América Central

Epidemia de insuficiência renal entre jovens agricultores em El Salvador, Honduras e Nicarágua tem origem desconhecida, mas já é uma das principais causas de morte na região

Jovem salvadorenho de 22 anos fazendo hemodiálise. Foto: Tom Laffay/Al Jazeera
Da Redação
31 de agosto de 2017, 21h06

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) divulgou um relatório alertando para a epidemia de uma misteriosa doença renal crônica que afeta comunidades agrícolas da América Central. A origem da doença é incerta, mas parece estar associada ao uso massivo de agrotóxicos, às condições de trabalho deficientes e à baixa ingestão de água durante a jornada laboral com temperaturas altas. O que se sabe com certeza é que a doença não está associada a diabetes ou hipertensão, como é mais frequente.

Os dados disponíveis indicam que as hospitalizações por doença renal crônica aumentaram 50% entre 2005 e 2012 em El Salvador e são a principal causa de hospitalização no país. Quase 1,5 mil dessas hospitalizações referiram-se a menores de 19 anos, um número excepcionalmente alto, alertou a agência da ONU. Entre 1997 e 2013, mais de 60 mil pessoas morreram devido a insuficiência renal na América Central.

No documento Epidemia de doença renal crônica em comunidades agrícolas da América Central: definição de casos, base metodológica e enfoques para a vigilância de saúde pública, a OPAS faz recomendações para ajudar os países da região a fortalecer ou criar sistemas de vigilância. O relatório inclui suas características epidemiológicas; os principais fatores hipotéticos de risco; uma descrição das características clínicas e patológicas; definições de casos para a vigilância; base metodológica e enfoques para vigilância de saúde pública.

Em El Salvador e na Nicarágua, morrem mais homens por esta doença renal do que por HIV/Aids, diabetes e leucemia juntos

Esse tipo de doença renal crônica associada a causas não tradicionais —fundamentalmente uma forma de nefrite intersticial crônica— alcançou proporções epidêmicas, afetando comunidades inteiras e saturando os sistemas de saúde da região. A doença se caracteriza pela aparição progressiva de insuficiência renal, e é em geral diagnosticada tardiamente, uma vez que os sintomas não surgem em suas etapas iniciais. Dessa forma, os pacientes precisam se submeter à hemodiálise para sobreviver.

Em 2013, representantes dos países da América Central e da República Dominicana realizaram uma reunião de alto nível sobre doença renal crônica de causas não tradicionais e emitiram a Declaração de San Salvador, na qual reconheceram a doença renal crônica como um problema grave de saúde pública que requer medidas urgentes.

A doença renal de origem incerta em comunidades rurais da América Central foi declarada um grave problema de saúde pública pelas autoridades de saúde no Conselho Diretor da OPAS em 2013. Nessa reunião, os ministros da saúde de toda a região das Américas expressaram sua preocupação, e se comprometeram a apoiar as iniciativas de investigação e mitigação. Também observaram que milhares de vidas foram perdidas, e instaram os países a redobrar seus esforços para investigar e abordar os fatores ambientais e ocupacionais que podem ser apontados como causa do problema.

Cada vez há mais estudos que apontam indícios de conexão entre a doença renal crônica e as práticas de trabalho agrícola, como o uso de produtos químicos, como o glifosato

Na publicação, a OPAS chama a atenção para a suspeita de que sejam os agrotóxicos os responsáveis pela enfermidade. “Cada vez há mais estudos que apontam indícios de uma possível conexão entre a doença renal crônica e as práticas de trabalho agrícola, como o uso de produtos químicos”, diz o texto. “A exposição a tóxicos também aparece como fator causal em outras regiões geográficas fora da América Central. Por exemplo, um estudo estadunidense recente com 32 mulheres casadas com aplicadores de pesticidas, as quais nunca haviam manipulado essas substâncias, revelou que seu risco de insuficiência renal extrema tinha uma correlação significativa com a exposição acumulada do cônjuge aos pesticidas, o que parece indicar que poderia estar implicada a exposição aos resíduos dos líquidos de fumigação sobre a roupa e a pele levados pelos homens a seus lares.”

Há alguns anos, o MST (Movimento dos Sem-Terra) vem alertando sobre a associação desta doença renal de origem desconhecida, conhecida como CKDu (Doença Renal Crônica de etiologia desconhecida), com o herbicida Roundup (glifosato), produzido pela multinacional Monsanto. No relatório da OPAS, o glifosato aparece associado à doença renal no Sri Lanka. “Em geral, a probabilidade de sofrer de doença renal crônica não tradicional foi quatro vezes maior entre os que haviam fumigado com glifosato em comparação com os que não o fizeram”, diz um estudo feito no país asiático.

Na cúpula da saúde de 2011, na cidade do México, os Estados Unidos rechaçaram uma proposta dos países da América Central, que teria listado a CKDu como uma das prioridades para as Américas. Hoje, a CKDu é a segunda causa de morte em El Salvador. Também nas vizinhas Nicarágua e Honduras é alto o número de mortes por doença renal crônica. Em El Salvador e na Nicarágua, morrem mais homens por CKDu do que por HIV/Aids, diabetes e leucemia juntos. Numa região rural da Nicarágua, morreram tantos homens que a comunidade é chamada “A Ilha das Viúvas”. Para os moradores da ilha, a causa é uma só: o veneno que jogam na cana-de-açúcar e na água sob o nome de “defensivo agrícola”.

No Brasil, campeão mundial no consumo de agrotóxicos, os casos de doença renal triplicaram em 16 anos: de 42 mil, em 2000, para 122 mil no ano passado. Em 2016, 5,7 mil pessoas fizeram transplante de rim no país, quantidade que vem aumentando, em média, 10% de um ano para o outro.

Com informações do site da ONU

 

 


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