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Os pais dos desenhos animados são quase todos idiotas –mas os homens nem ligam

Se tem uma coisa que me intriga é como não incomoda os homens que praticamente todos os pais dos desenhos animados sejam completos imbecis. Imaginem se fizessem isso com as mulheres: se todas as mães dos desenhos que nossos filhos assistem fossem burras, preguiçosas, desastradas e inúteis. Ia ser uma gritaria danada das feministas, com […]

Cynara Menezes
14 de outubro de 2016, 18h23
gumball

(A família de Gumball: a mãe Nicole e as crianças Anais, Gumball e Darwin; além do pai, Ricardo, dormindo)

Se tem uma coisa que me intriga é como não incomoda os homens que praticamente todos os pais dos desenhos animados sejam completos imbecis. Imaginem se fizessem isso com as mulheres: se todas as mães dos desenhos que nossos filhos assistem fossem burras, preguiçosas, desastradas e inúteis. Ia ser uma gritaria danada das feministas, com razão. Mas os homens aparentemente nem ligam de ser retratados de forma depreciativa, um anti-exemplo para as crianças em termos de figura masculina. Por que será?

Quem acompanha a nova safra de desenhos sabe do que estou falando. O caso mais recente de “pai idiota” é Ricardo, de O Incrível Mundo de Gumball, desenho superdivertido do canal Cartoon Network. Sim, Ricardo é amoroso e doce com os filhos Gumball, Darwin e Anais. Mas, ao mesmo tempo, é infantilizado até na voz, uma criança a mais da qual a mãe, Nicole, tem de cuidar. E não é por que Nicole trabalha fora e Ricardo toma conta das crianças que o torna um mané, mas o fato de ele ser uma pessoa adulta sem nenhum discernimento ou responsabilidade –por sinal, Ricardo aparece quase sempre dormindo no sofá, com a baba escorrendo pelo canto da boca, enquanto cuida delas.

ricardo

Um clássico do “pai idiota” dos desenhos animados é, claro, Homer Simpson. Todo mundo já conhece a peça, famosa por dizer a frase “quando eu cheguei já estava assim” para se defender das burradas que apronta. Homer é um péssimo pai, capaz de esgoelar o filho Bart quando ele, na verdade, repete suas molecagens. Não sabe nem sequer como se chama a filha mais nova, Maggie. Homer é tão idiota que virou parâmetro para o jornalismo da rede Globo: em 2005, o professor Laurindo Leal Filho revelou que o Jornal Nacional só transmite o que “os Homers”, como o telespectador médio do noticiário global era definido por William Bonner, é capaz de entender.

homerpizza

O mais interessante é que, em contraponto ao pai inútil, todas as mães são sensatas, inteligentes e responsáveis. Nicole, a mãe de Gumball, tem que estar sempre de olho no marido e por isso vive estressada. Sem Marge, a mulher de Homer, provavelmente os Simpsons já teriam sido presos e as crianças, dadas para adoção. E não são só os pais e maridos que são idiotas: a maior parte das figuras masculinas dos desenhos animados seguem os instintos enquanto as mulheres usam o cérebro. Anais, de Gumball, é a inteligente da casa; Lisa, de os Simpsons, idem. Clarêncio, o Otimista, coitado, é quase naïf; o Titio-Avô é um adorável paspalhão.

titioavo

A estrela-do-mar Patrick é talvez o personagem mais burrinho dos desenhos animados; o próprio Bob Esponja, protagonista do desenho, não é lá estes gênios todos, né? Já o esquilo Sandy Bochechas é espertíssima, luta karatê e é uma grande inventora.

bobesponja

É preciso lembrar que nem sempre as séries televisivas e os desenhos animados retrataram os homens como idiotas. Taí o número absurdo de super-heróis do sexo masculino que não me deixa mentir. Houve uma involução. Na minha primeira infância, as famílias das séries que eu assistia na TV eram formadas por pais e mães igualmente inteligentes e sensatos. Lembro de Perdidos no Espaço e Elo Perdido, sitcoms familiares dos anos 1970.

Ao que tudo indica, esta tendência de transformar o elemento masculino no idiota da turma começou com Al Bundy (Ed O’Neill), do seriado Married… with Children (Um Amor de Família no Brasil), de 1987, transmitido pela mesma Fox dos Simpsons, que estrearia dois anos depois, em 1989. O beberrão Bundy, além de tudo, é machista, ao contrário de Homer. Mas é um idiota igual –um idiota hilário, mas idiota.

bundy

Será que estes pais imbecilizados dos desenhos não terão alguma influência sobre esta geração de jovens do sexo masculino imbecilizados que vemos nas redes sociais? Meninos que só se preocupam em “zoar”? Não sei. Mas estes pais da ficção são inegavelmente significativos da paternidade, ou Homer não teria vencido uma pesquisa em 2012 no Reino Unido como “melhor exemplo de pai” (além de pai “mais embaraçoso” e “mais engraçado”).

Outra pesquisa feita em 2013 pelo site britânico Netmums revelou que 93% dos pais acham que a programação infantil não representa os pais da vida real. “Programas de televisão, livros e propaganda que depreciam os pais estão arruinando a percepção das crianças sobre a paternidade”, diz o site. Quase metade dos pais pesquisados (46%) dizem que desenhos animados como Peppa Pig, Simpsons e até mesmo os Flintstones mostram os pais como preguiçosos ou estúpidos.

“Cerca de um terço dos pais (28%) acham que isso é ‘uma forma sutil de discriminação contra os pais’, enquanto 18% foram mais incisivos, dizendo que esta programação faz as crianças acreditarem que os pais são ‘inúteis’ desde a mais tenra idade e que seria ‘um escândalo’ se isso fosse feito contra as mães.”

Não é verdade? Por que será que os pais não reclamam? Vejo tantos homens evoluindo como pais, se dedicando a modificar o papel que o pai sempre teve na família, mas não vejo preocupação deles sobre o conteúdo dos desenhos que seus filhos assistem como certamente aconteceria fosse com as mulheres. Será que acham que é só “engraçado”? Será que faz parte do perfil masculino não se importar com este tipo de coisa? A impressão que eu tenho é de que os homens não gostam de parar para pensar sobre si mesmos. Ou será que os homens possuem uma capacidade maior de rir de si próprios do que as mulheres?

Gostaria de ouvir algumas opiniões.

Um novo estudo, conduzido por Savannah Keenan, pesquisadora da Brigham Young University, nos Estados Unidos, mostra que 40% dos sitcoms para pré-adolescentes da Disney apresentam a figura paterna de forma depreciativa, “de maneira ridícula ou risível”. A cada 3,24 minutos um pai age como idiota nestes programas. A dúvida da pesquisadora é a mesma que a minha: será que estes programas não estão afetando a forma como as crianças do sexo masculino veem seus pais e consequentemente a eles mesmos?

“Nós sabemos como os pais são representados negativamente pela mídia”, disse Savannah em entrevista ao blog da BYU. “Mas não temos muitas pesquisas sobre como estes programas afetam na vida real o comportamento e as atitudes das crianças. Acho que a coisa mais importante que precisamos saber agora é: como isto está afetando nossos filhos? Se os programas de televisão estão retratando os pais como incompetentes –especialmente quando estão direcionados a um grupo em idade tão sensível quanto os pré-adolescentes– o que estas crianças vão pensar sobre seus próprios pais?”

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Riciane em 24/09/2017 - 11h43 comentou:

Talvez estejam certos mas isso naoi vai mudar pois a figura masculina nos desemnhos animados sao reprrsentados como idiotas enquanto as mulheres sao inteligentes fortes e trabalhadoras

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