Socialista Morena
Direitos Humanos

Poeta Ernesto Cardenal pede ajuda a Mujica contra “terrorismo de Estado” de Daniel Ortega

Um dos nomes mais importantes da revolução sandinista conclama a esquerda a se afastar do regime "ditatorial" da Nicarágua

Ernesto Cardenal lê seus poemas em Santiago em 2009. Foto: Roman Bonnefoy
Da Redação
25 de junho de 2018, 16h14

O padre e poeta Ernesto Cardenal, de 93 anos, um dos nomes mais importantes da revolução sandinista, enviou uma carta ao ex-presidente uruguaio Pepe Mujica acusando o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, e sua mulher Rosario Murillo, vice-presidenta do país, de manter uma “ditadura” e praticar “terrorismo de Estado contra o povo”. Cardenal se afastou da Frente Sandinista de Libertação Nacional em 1994, por não concordar com os rumos dados à organização por Ortega.

O poeta, que assina o texto com duas jovens líderes estudantis dos protestos contra o governo que começaram em abril, pediu ajuda a Mujica e conclamou os movimentos de esquerda a parar de dar legitimidade ao regime nicaraguense. Segundo Cardenal, a repressão do casal presidencial já supera à do ditador Anastácio Somoza Debayle, arrancado do poder pelos sandinistas em 1979. É “a mais violenta repressão governamental que este país já viu em sua história”, diz. Leia:

Carta urgente da Nicarágua para Pepe Mujica

Por Ernesto Cardenal*

O mundo deve saber e se pronunciar sobre o que está ocorrendo na Nicarágua: uma verdadeira crise de direitos humanos e terrorismo de Estado.

Reconhecendo que você é um defensor dos direitos humanos e da luta pela dignidade e fonte de inspiração para toda a América Latina, nós, a juventude e o povo que luta nas ruas da Nicarágua, necessitamos que some sua voz à nossa causa, que é digna e justa.

Uma família inteira foi queimada em um incêndio provocado pelos esquadrões da morte do regime, em represália por não permitir que franco-atiradores entrassem em sua casa para, a partir dali, matar os que protestavam na rua

Desde abril de 2018, os jovens nicaraguenses voltaram às ruas para pedir democracia e liberdade. Cumpriram a profecia de um dos principais artífices da cruzada nacional de alfabetização na Nicarágua, o padre Fernando Cardenal, que nunca se cansou de falar que isso aconteceria. Lamentavelmente, o ímpeto e a determinação da juventude foram respondidos com a mais violenta repressão governamental que este país já viu em sua história.

Há dois meses, no dia 19 de abril, o governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo tirou a vida do primeiro de mais de 180 nicaraguenses, na maioria jovens e até mesmo crianças. Há mais de 1500 feridos, muitos desaparecidos e presos políticos. Estes números aumentam a cada dia que Ortega permanece no poder.

No sábado, 16 de junho, uma família inteira foi queimada em um incêndio provocado pelos esquadrões da morte do regime, em represália por não permitir que franco-atiradores entrassem em sua casa para, a partir dali, matar os que protestavam na rua.

Apesar da repressão, a mobilização cidadã se mantém firme, obrigando Daniel Ortega e Rosario Murillo a se sentar em um diálogo nacional com interlocutores além do grande capital. Pela primeira vez em 11 anos tiveram que se sentar com estudantes universitários, o movimento camponês e a sociedade civil.

A estratégia do regime orteguista tem sido parar o diálogo para desatar sua estratégia de terror nas ruas. Ainda é incerto se o diálogo nacional poderá dar resposta ao clamor popular que demanda que saiam imediatamente do poder e que se faça justiça.

Ortega e Murillo não podem seguir encontrando legitimidade nos movimentos de esquerda, a quem traiu com seus atos sem escrúpulos. Os heróis e mártires da revolução sandinista não merecem que sua memória seja manchada pelos atos genocidas de um ditador

A pressão popular também permitiu que se concretizasse uma visita de trabalho da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, cujo informe preliminar coincide com o da Anistia Internacional em relação às graves violações aos direitos humanos ocorridas na Nicarágua pelas mãos do regime orteguista. Ambos os organismos conseguiram documentar o uso excessivo da força e a violência por parte dos corpos de segurança do Estado e as forças de choque parapoliciais armadas, inclusive franco-atiradores que lançaram disparos mortais a inúmeras vítimas, como o jornalista Ángel Gahona e vários garotos.

Ortega e Murillo não podem seguir encontrando legitimidade nos movimentos de esquerda, a quem traiu com seus atos sem escrúpulos. Os heróis e mártires da revolução sandinista não merecem que sua memória seja manchada pelos atos genocidas de um ditador que os traiu. As vítimas de Ortega e Murillo merecem justiça.

*Assinam a carta Ernesto Cardenal e as líderes estudantis Enrieth Martínez e Lyris Solis, pela Coordenadoria Universitária pela Democracia e Justiça

 

 


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
(1) comentário Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

EUGÊNIO em 25/06/2018 - 19h46 comentou:

Canalhas, canalhas, canalhas….

No livro “A morte de Danton”, Büchner observa terrivelmente:

“A revolução é como Saturno, devora os próprios filhos”.

Não precisa ser uma revolução.

Pequenas reformas — temos visto — também devoram.

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Cultura

“Senhoras de Santana” hoje têm 20 anos e se chamam Movimento Brasil “Livre”


Um bando de garotas e garotos com cabeça de velhinhos igrejeiros do século passado conseguiu convencer o banco Santander a cancelar uma exposição de arte queer

Politik

Vítima esquecida do terror


Na CartaCapital da semana O caso da mineira Maria Celia de Mello Lundberg é uma daquelas histórias que a direita brasileira teima em ignorar quando se trata de avaliar as barbaridades cometidas pela ditadura. Celia…