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Direitos Humanos

Presidente de direita do Chile condena fala de Bolsonaro sobre pai de Bachelet

Da esquerda à direita, classe política chilena condena fala elogiosa à tortura; só a extrema direita do país aprova

Bolsonaro e Piñera em janeiro. Foto: Marcos Corrêa/PR
Cynara Menezes
04 de setembro de 2019, 20h43

Bolsonaro vai seguindo em sua campanha pelo isolamento completo do Brasil, ao se indispor inclusive com governantes de espectro político similar ao seu. O presidente do Chile, Sebastián Piñera, que é de direita, condenou nesta quarta-feira as falas elogiosas do brasileiro ao assassinato do pai de sua antecessora, Michelle Bachelet, atual alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, pelo regime do general Augusto Pinochet. Contrário ao golpe que derrubou Allende em 1973, o brigadeiro Alberto Bachelet foi preso e torturado pela ditadura e morreu no cárcere no ano seguinte, aos 50 anos.

Não compartilho em absoluto a alusão feita pelo presidente Bolsonaro em relação a uma ex-presidenta do Chile e, especialmente, em um tema tão doloroso como é a morte de seu pai

Piñera disse que toda pessoa “tem direito a seu próprio julgamento histórico dos governos que tivemos nos anos 1970 e 1980. Sobre este tema é de conhecimento público meu permanente compromisso com a democracia, a liberdade e o respeito aos direitos humanos em qualquer tempo, em qualquer lugar e em qualquer circunstância. Mas, independentemente dos olhares distintos que podem existir em relação aos governos que tivemos na época dos anos 1970 e 1980, estas visões sempre devem se expressar com respeito pelas pessoas. Em consequência, não compartilho em absoluto a alusão feita pelo presidente Bolsonaro em relação a uma ex-presidenta do Chile e, especialmente, em um tema tão doloroso como é a morte de seu pai”.

É importante lembrar que o presidente de extrema direita brasileiro estava justamente ao lado de Piñera quando declarou, na semana passada, que se considera ideologicamente “de centro-direita”, situando outro desafeto internacional seu, o francês Emmanuel Macron, que é de centro-direita, na esquerda.

Não à toa, as declarações insultuosas a Bachelet foram condenadas por praticamente toda a classe política chilena, de esquerda, de centro e de direita. Só a extrema direita (claro) saiu em socorro de Bolsonaro. Será que após discordar do elogio à tortura feito por Bolsonaro o presidente Piñera também irá entrar para o rol dos “comunistas”?

O presidente do Senado do Chile, Jaime Quintana, da coalização de centro-esquerda La Nueva Mayoria, ligada a Bachelet, se pronunciou: “Presidente Bolsonaro, nós chilenos não aceitamos o que o senhor disse. A ditadura que o senhor aprova e reivindica torturou milhares de pessoas, entre elas o pai da presidenta Bachelet, que terminou perdendo a vida. Às vezes o senhor parece um ditador vestido com traje de democrata”.

Antes do rechaço público de Piñera, Quintana havia exortado o governo a uma “reação enérgica” diante da agressão de Bolsonaro a Bachelet. “Esperamos uma resposta contundente do presidente Piñera e do ministério das Relações Exteriores. É bastante violento ver o presidente Piñera apoiar permanentemente Bolsonaro, se solidarizar com ele, e por isso queremos uma reação muito enérgica ao que é uma afronta a todos os chilenos e chilenas”, declarou.

O deputado direitista Issa Kort, da UDI, criticou que Bolsonaro tenha apelado para o ataque pessoal e que use questões chilenas em disputas internas do Brasil. “Nós sempre acreditamos que as batalhas políticas são ganhas com ideias, não com insultos. Portanto, creio que um líder político sério deve utilizar argumentos, não ataques”, disse. “Nós nunca utilizamos a história do Brasil em nossa política interna, então não podemos aceitar que Bolsonaro utilize a história do Chile para assuntos de política interna. O que aconteceu no Chile fica no Chile, se resolve no Chile e outros presidentes não se intrometem.”

“Nós sempre acreditamos que as batalhas políticas são ganhas com ideias, não com insultos. Portanto, creio que um líder político sério deve utilizar argumentos, não ataques”, disse o deputado Issa Kort, de direita

O presidente da Renovação Nacional, Mario Desbordes, de centro-direita, também lamentou o golpe baixo de Bolsonaro contra Bachelet. “A alta comissária (Bachelet) está fazendo seu trabalho e é preciso respeitar o trabalho que fazem as Nações Unidas nestes assuntos. Não é a forma de responder a um informe das Nações Unidas. Os informes das Nações Unidas se rebatem com argumentos”, declarou.

Os únicos a apoiar Bolsonaro foram os representantes da extrema direita chilena. Loiro de olhos azuis e com certa semelhança física com o brasileiro, José Antonio Kast, quarto colocado na eleição presidencial de 2017 pelo Partido Republicano, pinochetista declarado, atacou Bachelet. “Bachelet tem usado seu cargo desde o primeiro dia para atacar e questionar o presidente Bolsonaro. Suas críticas não se baseiam em fatos, mas em sua postura ideológica e do seu candidato Lula, hoje preso no Brasil”, disse ao jornal La Tercera.

O ex-presidente Lula divulgou pelo twitter uma declaração em que presta solidariedade a Michelle Bachelet e ao povo do Chile pelas declarações de Bolsonaro, que “vomita ignorância e envergonha o Brasil perante o mundo”.

A defesa declarada da ditadura Pinochet, como fazem Jair Bolsonaro e seus aliados na extrema direita chilena, é um tabu mesmo entre os conservadores do país. Em agosto do ano passado, Piñera demitiu o ministro da Cultura, Mauricio Rojas, por declarações que relativizavam o regime militar. Rojas havia declarado que o Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago, que retrata o golpe de 1973 sob a ótica de suas vítimas, era “uma montagem”.

O Itamaraty divulgou nota em que acusa Bachelet de “mentir” sobre o Brasil e de ter uma visão “ideologicamente contaminada” em relação ao aumento das queimadas na Amazônia, confirmadas por imagens de satélite e até pela NASA

Na noite de quarta-feira, o ministério das Relações Exteriores do Brasil divulgou uma nota em que acusa Michelle Bachelet de “mentir” sobre o país e de ter uma “visão ideologicamente contaminada” em relação ao aumento das queimadas na Amazônia, confirmadas por imagens de satélite e até pela NASA. “O espaço cívico e democrático encontra-se vivo e em expansão no Brasil”, diz a nota. Bachelet havia declarado em entrevista em Genebra que houve “uma redução do espaço cívico e democrático” no país e lamentado o “discurso público que legitima as execuções sumárias”.

“Da mesma forma, o Brasil lamenta os erros factuais das declarações da Alta Comissária acerca dos incêndios que afetam a região amazônica. Esses equívocos transmitem visão equivocada e ideologicamente contaminada sobre a política ambiental brasileira, além de desconhecimento da realidade amazônica”, afirmou o Itamaraty, sem comentar o aumento das mortes causadas por policiais em nove Estados do país desde que Bolsonaro assumiu.

Com informações do jornal La Tercera

 

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Rodrigo Lopes em 04/09/2019 - 21h07 comentou:

Lamentável o comentário do capitão. Deveria se retratar publicamente.

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