Socialista Morena
Direitos Humanos

Proibição do véu só contribuiu para aumentar preconceito com muçulmanos

O banimento dos "símbolos religiosos" das ruas e escolas reflete a hipocrisia do europeu que não aceita burca, mas permite zombar de Maomé

Quadrinho de Marjane Satrapi na graphic novel Persépolis
Lili Martins
16 de outubro de 2017, 21h23

Vivi por quase dez anos em Paris, ainda mantenho laços de amizade lá e sinto admiração pela França. Durante meu longo séjour, aprofundei o pensamento socialista, mas, aos poucos, fui percebendo que o país da liberdade, da igualdade e da fraternidade tem um longo caminho a percorrer para conquistar esses lemas tão marcantes na sua história.

Sou filha de brasileira com ascendência indígena e africana e de brasileiro descendente de italianos e portugueses. Fui batizada na igreja católica, fiz a primeira comunhão, sabia que tinha tias espíritas e, no começo da vida adulta, conheci o candomblé e gostei; ou seja, sou filha de Iansã, frequentei centro espírita, mas sempre digo “graças a Deus”.

Quando cheguei à França, em 2006, o país já vivia uma crise de integração social causada, sobretudo, pelo preconceito dos franceses em relação ao islamismo. Eu ainda não havia me dado conta disso, só queria aprender tudo o que podia nas áreas social, política e midiática e a França era, para mim, um exemplo de igualdade, com programas de saúde universal, educação pública de qualidade, auxílio aos desempregados etc. Seria perfeito se não fosse a ameaça da direita radical com a família Le Pen, que destilava ódio a tudo o que não fosse francês: judeus, muçulmanos e imigrantes em geral não seriam bem vindos em um possível governo da FN (Front National, partido de extrema-direita francês).

A proibição da burca integral é aceitável dentro de estabelecimentos por medida de segurança, mas a proibição do véu não se sustenta

Só consegui enxergar o preconceito contra a comunidade muçulmana no dia em que um projeto de lei lançou o debate sobre a proibição da burca integral nas ruas. Era uma questão muito delicada, pois, por razões de segurança, a lei propunha a proibição da dissimulação da face. Até aí, tudo parecia razoável. O debate durou mais de um ano e a lei só foi aprovada em 2011, mas os problemas haviam começado. A proibição do uso de qualquer véu, integral e também o que cobre somente cabelo e pescoço, em escolas, creches, universidades e estabelecimentos públicos já constava de uma lei de 2004; mas havia certa tolerância, que foi diminuindo depois do debate sobre a proibição da burca integral.

Relatos de mães que não podiam mais entrar nas escolas para buscar seus filhos por estarem com a cabeça coberta ou de universitárias que tinham que tirar esse lenço de suas cabeças para entrarem em sala de aula ou auditório eram cada vez mais frequentes. A lei era clara: elas não podiam “ostentar símbolo religioso” em estabelecimentos públicos. O problema era que, em dezembro, durante as festividades de Natal, as escolas públicas francesas montavam árvores e presépios, símbolos do catolicismo. Os muçulmanos denunciavam esta falta de igualdade de direitos e, pouco a pouco, as escolas e prefeituras pararam de enfeitar seus estabelecimentos no Natal. Mas a perseguição ao véu muçulmano não parou e o ápice foi no verão de 2016, quando o burkini (mistura de burka com biquíni, usada pelas mulheres islâmicas) também foi proibido nas praias francesas.

Policiais multam muçulmana em Nice por usar burkini

As mulheres muçulmanas são as maiores vítimas da perseguição e do preconceito. A proibição da burca integral é aceitável dentro de estabelecimentos por medida de segurança, mas a proibição do véu não se sustenta. Para quem diz que é símbolo religioso, não é, é cultural: o véu que cobre a cabeça das mulheres apareceu antes do Islamismo. Maria, mãe de Jesus, sempre foi retratada com um véu na cabeça, assim como as mulheres daquela época.

Impor o não-uso de qualquer roupa ou acessório, proibir um item do vestuário, também é uma forma de repressão

Para quem diz que significa que a mulher que usa é submissa, também não é. Ou pelo menos não mais submissa que uma ocidental. Conheci mulheres que usavam o véu e nenhuma me pareceu submissa. Ouvi e li relatos de mulheres que denunciavam esse preconceito. Mulheres são minoria porque vivemos em sociedades patriarcais e machistas. Essa proibição e esse debate recaem sobre elas justamente porque as mulheres se vestem para um mundo de homens e são julgadas sob a ótica deles: se usam saia curta são vagabundas, se usam saia longa não são sexy, se usam véu são submissas, se não usam são revoltadas…

No Irã, por exemplo, as iranianas não eram obrigadas a cobrir suas cabeças na década de 1960; foi após a revolução islâmica, em 1979, que lhes foi imposto o uso de véus, burcas e roupas largas. Mas impor o não-uso de qualquer roupa ou acessório, proibir um item do vestuário, também é uma forma de repressão. Se os franceses se dizem tão feministas, deveriam ouvir e respeitar as mulheres de todas as culturas e dar liberdade às mulheres muçulmanas para escolherem, elas mesmas, o que vestir.

Outro debate importante aconteceu com as caricaturas do jornal satírico Charlie Hebdo, vítima de um atentado terrorista em 2015. A maioria dos franceses defende o jornal em nome da liberdade de expressão e alega que o Charlie também critica outras religiões, como a católica, e que isso seria uma forma de tratar a todos com igualdade. Nada justifica o atentado sofrido pelo jornal, claro, mas o argumento de que o Charlie também satiriza a religião católica não se sustenta. É fácil satirizar a religião mais rica e poderosa do mundo, justamente pelo poder que tem; difícil é atingi-la. E olha que no Brasil recentemente uma exposição foi censurada apenas por mostrar um Cristo de unhas pintadas. Imagine se o colocassem de quatro como o Charlie fez com Maomé…

A charge com Maomé que ofendeu os muçulmanos

A maior parte dos muçulmanos que vivem na França é pobre, e seus parentes vieram de colônias francesas. Apesar de terem nascido na França e terem o passaporte nacional, não se consideram franceses por não se sentirem aceitos. A política de integração europeia varia dependendo do país, mas nenhum deles propõe uma verdadeira e completa abertura para a vida dos imigrantes.

Na Alemanha, por exemplo, a política de integração ganhou força depois da chegada recorde de imigrantes em 2015, com a regulamentação de residência permanente e autorização ao trabalho. Em contrapartida, o direito à nacionalidade alemã poderá ser negado a seus descendentes, pois o direito do solo (jus solis) é restrito e o filho de estrangeiro precisa passar por vários procedimentos burocráticos; entretanto, para ter dupla nacionalidade sem problemas ou dificuldades, basta que um dos pais tenha nacionalidade alemã (jus sanguinis).

Apesar de terem nascido na França e terem o passaporte nacional, muitos muçulmanos não se consideram franceses por não se sentirem aceitos

Já na França, os filhos dos imigrantes nascidos em solo francês podem ter dupla nacionalidade sem muita burocracia. A política de integração, porém, é uma catástrofe até com os imigrantes vindos de suas próprias colônias e ex-colônias. Regulamentar documento na França é tão difícil para um argelino quanto para um brasileiro e muitos franceses nascidos nas colônias não se sentem integrados e reclamam do preconceito.

Ouvi alguns relatos sobre essa crise de identidade. Um aluno (eu era professora de português) nascido na Ilha da Reunião reclamava constantemente do racismo sofrido por sua família, e um dia me confessou que não se sentia francês, que sua nacionalidade era a cor de sua pele. Um taxista filho de argelinos dizia que, mesmo nascido e crescido na França, não se sentia francês, pois durante toda a vida lhe apontaram o dedo chamando-o de maghrebin –forma pejorativa para designar pessoas que vêm dos países muçulmanos do norte da África. Esse tipo de relato demonstra que de pouco vale um passaporte francês se a sociedade trata essas pessoas com racismo e xenofobia; assim como facilitar a entrada e depois dificultar a regulamentação dos filhos acaba sendo mais um paradoxo hipócrita do que uma forma de realmente acolher imigrantes.

A comunidade muçulmana faz parte de uma minoria marginalizada na Europa e, voltando ao caso do Charlie Hebdo, considero que satirizar uma minoria é politicamente incorreto e só gera violência por parte dos que se sentem oprimidos. Se as charges que causaram revolta por parte desta comunidade representavam seu Deus através de caricaturas ofensivas ficam expostas nas bancas de jornais, observo outro paradoxo hipócrita: em um país que tem orgulho de ser laico e afirma que religião é algo que devemos deixar em casa, por que os véus são proibidos e as charges religiosas são toleradas? Se não existe mais na França a liberdade de demonstrar religião em espaços públicos, a liberdade de expressão utilizando a religião dos outros também não precisaria de um limite ético? Assim como é proibido fazer piada com o que os judeus sofreram, por que é permitido fazer piada com os muçulmanos, que sofrem todos os dias racismo e preconceito?

Uma vez escrevi a um francês que fazia piadas misóginas no Dia Internacional da Mulher no facebook, dizendo que, na França, pode-se rir de tudo e de todos: “O dia em que pudermos rir da sua condição de homem, branco, de olhos verdes, burguês e europeu, aí sim, poderemos rir de tudo e de todos”.

 

 


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