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Quem matou o diplomata brasileiro? Um mistério no Itamaraty da ditadura

Paulo Dionísio de Vasconcelos saiu de casa após o almoço e apareceu morto, num carro, na Holanda, em 1970. 40 anos depois, jornalista revela sua existência

o diplomata paulo dionísio de vasconcelos. foto: álbum de família
Cynara Menezes
14 de setembro de 2017, 16h54

Alto, charmoso, jovem, casado com uma bela mineira como ele, pai de uma menininha e com outra prestes a chegar, o diplomata Paulo Dionísio de Vasconcelos um dia saiu de casa depois do almoço e apareceu morto com um corte profundo no pescoço, dentro de um carro, numa esquina de Haia, na Holanda. Como Paulo Dionísio morreu?

O ano de 1970, um dos mais duros da ditadura militar, pleno governo Garrastazu Médici, não favorecia que casos como este fossem escarafunchados. Para o Itamaraty da época, empenhado em vender ao mundo uma imagem de “democracia” e “normalidade” para um regime de generais e em desmentir as denúncias de tortura em seus porões, era melhor não remexer muito naquele angu.

os governos do Brasil e da Holanda tinham pressa em encerrar o caso para evitar repercussões políticas. Não há dúvida de que houve falhas na investigação policial

Quarenta anos depois, a história não-contada de Paulo Dionísio caiu nas mãos de seu conterrâneo, o jornalista Eumano Silva, mineiro de Iturama, quando trabalhou na Comissão Nacional da Verdade, em 2011. Quem lhe contou o caso foi um colega, Romário Schettino. Naquele ano, Eumano não teve tempo de avançar nas apurações. Em 2015, retomou o caso para fazer a reportagem que originou o livro A Morte do Diplomata: um Mistério Arquivado pela Ditadura.

“Pode-se afirmar que os governos do Brasil e da Holanda tinham pressa em encerrar o caso para evitar repercussões políticas”, diz Eumano. “Não há dúvida de que houve falhas na investigação policial.” Os investigadores holandeses deixaram de responder perguntas básicas para o esclarecimento do crime, como: descobrir o que o diplomata fez após sair de casa; se encontrou alguém; ou como gastou o dinheiro que levara.

Para escrever o livro, o jornalista esteve em Haia para ver de perto o local onde o automóvel Lancia Fulvia, com placa do serviço diplomático, guiado por Paulo Dionísio foi encontrado, com ele dentro, por um casal de ciclistas. Mas as pesquisas foram feitas no Brasil, com o auxílio da repórter Maria Luiza Abott em Londres. A família do diplomata e o Itamaraty guardam cópias do inquérito produzido pela polícia holandesa. A narrativa é guiada pelos diários que o diplomata escrevia.

Paulo Dionísio resistia em colaborar no monitoramento de dom Helder, como queriam os militares. Sua morte teria algo a ver com esta resistência?

Enquanto segue as pistas, Eumano contextualiza a “política de relações exteriores” dos generais, sobretudo a atuação contra a indicação de dom Helder Câmara na disputa pelo prêmio Nobel da Paz, que envolveu diretamente a representação brasileira em Haia. “As pressões contra a premiação do arcebispo foram constadas e registradas em pelo menos três trabalhos de jornalistas e investigadores: os livros Dom Helder Câmara – Entre o Poder e a Profecia, de Nelson Piletti e Walter Praxedes, e A Ditadura Escancarada, de Elio Gaspari, e o relatório da Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Helder Câmara, de Pernambuco”, indica o jornalista.

A pressão contra dom Helder era um dos assuntos que angustiava Paulo Dionísio, que explicita este sentimento em seus diários. “O diplomata mineiro reclamava, nos últimos meses, das pressões que recebia do Itamaraty para acompanhar os movimentos do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, nas viagens pela Europa. Dom Helder tornara-se um dos personagens mais atuantes nas denúncias dos crimes da ditadura, como tortura e morte de adversários políticos. Paulo Dionísio resistia a colaborar no monitoramento do ‘bispo vermelho’, conforme determinado pela área de informações por meio dos canais internos de comunicação”, conta Eumano no livro. Sua morte teria algo a ver com esta resistência?

Como toda boa história policial, a solução do mistério virá no final. Ou não.

Livro: A Morte do Diplomata
Autor: Eumano Silva
Tema Editorial, 210 págs., 35 reais

 


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João Bosco da Mota Alves em 17/09/2017 - 07h17 comentou:

O resgate da história dos horrores da ditadura não é tarefa fácil. Sua disseminação é pior ainda. Bendita Internet. A regulação da mídia no Brasil há tempos já passou da hora. Por falar nisso, alguém sabe me dizer se ainda há proibição da exibição, no Brasil, do documentário Beyond Citizen Kane?

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