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Questões jornalísticas: a morte do lide

Não se sabe bem quando o lide (em inglês, lead ou lede) jornalístico foi inventado. O que se sabe é que nasceu na imprensa norte-americana. Alguns autores sustentam que surgiu a partir da invenção do telégrafo, em 1844. Como os custos de telegrafar eram altos, era preciso que as reportagens dissessem logo do que se […]

Cynara Menezes
06 de maio de 2015, 23h08

journalism

Não se sabe bem quando o lide (em inglês, lead ou lede) jornalístico foi inventado. O que se sabe é que nasceu na imprensa norte-americana. Alguns autores sustentam que surgiu a partir da invenção do telégrafo, em 1844. Como os custos de telegrafar eram altos, era preciso que as reportagens dissessem logo do que se tratavam desde o primeiro parágrafo. Quanto antes o leitor fosse informado, melhor. Todo o resto da reportagem era só um complemento que, se chegasse truncado pela transmissão, não teria a menor importância.

Reza a lenda que o primeiro lide da história foi a notícia transmitida pelo telégrafo em 14 de abril de 1865 por um repórter da Associated Press (AP) sobre o assassinato de Abraham Lincoln: “The President was shot in a theater tonight and perhaps mortally wounded” (“O presidente recebeu um tiro no teatro esta noite e talvez esteja mortalmente ferido”). Não havia mesmo como florear um fato assim.

A linguagem rebuscada porém autoral dos primeiros repórteres foi substituída, principalmente a partir dos primeiros anos do século 20, pelo texto de sentenças curtas, “telegráfico”, tornado célebre pelo escritor Ernest Hemingway. A fórmula da “pirâmide invertida” para se contar uma história foi glorificada: era preciso resumir tudo já nos três primeiros parágrafos. Responder aos cinco Ws (Who/Quem, What/O Quê, Where/Onde, When/Quando e Why/Por Que) e um H (How/Como) se transformou na fórmula mágica do bem escrever, ensinada em faculdades de jornalismo de todo o mundo ocidental.

Outra razão para os textos obsessivamente objetivos é a pressão industrial que ainda persiste no jornalismo impresso diário. Com a gráfica em cima do editor e este no cangote do repórter, é preciso escrever rápido para fazer o jornal chegar primeiro às bancas –primeiro que os outros, claro, e consequentemente vender mais exemplares. Um texto escrito a partir desta fórmula é, com certeza, muito mais fácil de redigir do que um texto elaborado. Eu apostaria que esta razão –chegar antes para vender mais– teve maior influência para o aparecimento do lide do que o telégrafo. Em seguida viria a crise do papel, diminuindo o tamanho dos textos e forçando editores e redatores afoitos a cortar tudo pelo pé, para exasperação dos repórteres.

lede

 

Sem dúvida a invenção do lide foi altamente benéfica para o lucro dos donos dos jornais, mas não o foi para o texto jornalístico, que virou uma coisa pobre, sem identidade, anódina, robotizada. A ideia era essa mesmo: padronizar as matérias em um estilo uniforme e sem firulas para que as reportagens fossem feitas em escala industrial. Algo como transformar textos em carrinhos de brinquedo numa linha de montagem. Nada de invenções: era só encaixar as peças e “mandar bala”. Logo viriam os manuais de redação, para ratificar a ideia do trabalho jornalístico enquanto produto patenteado pelos proprietários de cada veículo. O “furo” passou a ter prioridade diante da bela escrita, porque, claro, ajudava a vender mais.

Com o surgimento da internet e do jornalismo online, o lide e a pirâmide invertida tinham que ser profundamente questionados nas faculdades, que adotam como “pedagogia” os manuais de redação dos jornais em vez de repensar um modelo que está falindo. Para que lide se, pelo menos online, não existe pressão industrial alguma? Para que parágrafos inteiros “descartáveis” após o sublide, segundo a lógica da pirâmide invertida, se é possível escrever textos de qualquer tamanho na rede, já que não é necessário papel?

A crise do impresso deveria, em primeiro lugar, levar os jornais a se perguntarem por que as pessoas ainda os compram. Para saber de denúncias é que não é. Se denúncia ainda vendesse jornal, os jornais brasileiros deveriam estar saindo que nem pão quente, porque é só o que fazem desde que o PT chegou ao poder. E, no entanto, é o contrário que está ocorrendo, por uma razão lógica: quem, em sã consciência, pagaria por uma informação que pode obter grátis na internet? Acredito que as pessoas ainda compram jornais porque querem LER, simplesmente. E, sendo assim, o lide perdeu toda a razão de existir.

A pressa no fechamento só se justifica atualmente em relação a não mais que uma dezena de matérias urgentes em cada edição. E mesmo elas, a depender do tempo que houve para apuração, poderiam prescindir do engessado formato lide-sublide-etc.. O título e a linha fina podem muito bem substituir a suposta pressa do leitor, que estaria disposto apenas a se informar por alto e passar à próxima notícia. Essa concepção de leitor apressado, aliás, tem mais a ver com a internet do que com o papel. Se a pessoa tem tanta pressa assim e quer saber apenas superficialmente do que está acontecendo, é melhor ter um perfil no Twitter do que comprar jornal, não?

Para mim, quem ainda lê jornal impresso demanda cada vez mais um texto bem escrito, saboroso, único, autoral. Exatamente o oposto do que a superada fórmula do lide oferece aos leitores. Explicitado no título do que se trata a matéria, é perfeitamente possível ao texto jornalístico descrever a notícia de forma menos insossa. Ou seja: enfatizar muito mais o How/Como do que os cinco Ws. Óbvio que um texto jornalístico não pode ser prolixo. Escrever sempre será a arte de cortar palavras. Mas cortar as palavras que sobram de fato, e não tirar a graça e a elegância de um texto. A pirâmide invertida não é sinônimo de texto enxuto. É sinônimo de texto pobre.

Acredito num texto que capture a atenção do leitor do primeiro ao último parágrafo, sem hierarquia. Tão bem escrito que seja impossível abandoná-lo uma vez que se comece a leitura, como acontece com os melhores livros. Pouco importando se a “notícia” vai estar no início, no meio ou no fim. Sem desperdício de informação “mais” ou “menos” importante, algo subjetivo sobre o qual quem deve decidir não somos nós, jornalistas, mas o leitor.

Rasguem seus manuais de redação, senhores. A fórmula de vocês fracassou, é hora de rever tudo. E matar o lide.

 

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Danilo Borges em 01/08/2017 - 22h18 comentou:

MUITO BOM! Fico feliz em ler um texto com tamanha clareza!

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