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Rosário ao STF: “Ser agredida por este senhor causou prejuízos incalculáveis à minha filha”

Leia o chocante depoimento da deputada petista ao Supremo sobre as agressões que ela e sua filha adolescente têm sofrido por parte do deputado Jair Bolsonaro e seus seguidores nos últimos 14 anos

Rosário na entrevista após a condenação, ao lado das colegas Jandira e Jô Moraes. Foto: Álvaro Portugal/PCdoB
Katia Guimarães
24 de agosto de 2017, 12h23

O depoimento da deputada Maria do Rosário (PT-RS), nesta quarta-feira, 23 de agosto, ao Supremo Tribunal Federal (STF), deu a dimensão dos ataques sofridos por ela nos últimos 14 anos, desde que passou a ser alvo predileto do deputado Jair Bolsonaro (PEN-RJ) e de seus apoiadores, os chamados Bolsominions. Réu em duas ações movidas pela petista no STF por incitação ao crime de estupro e injúria, Bolsonaro foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) por danos morais na semana passada. Além de pagar multa, o parlamentar terá de se retratar publicamente, não só na mídia, mas em suas próprias redes sociais, de todas as ofensas contra Rosário.

Desde a condenação, a frequência e a virulência das perseguições dos fascistas atingiram números impensáveis, até mesmo contra simpatizantes e amigos da deputada. Só no facebook, foram 10 mil ameaças de toda ordem, inclusive de estupro e morte. O auge dos insultos foi a inclusão do número de celular de Rosário em mais de dez grupos de whatsapp de apoiadores de Bolsonaro, onde mensagens de ódio foram deixadas para a parlamentar. “Ele é o líder do ódio”, disse Rosário ao deixar o tribunal. A petista nem sequer cita o nome do parlamentar e procura deixar o plenário da Câmara dos Deputados todas as vezes em que o seu agressor faz uso da palavra.

Desde 2003 este senhor tem atitude agressiva contra a minha pessoa. Ele ficava dizendo: ‘eu sou estuprador? Grava aí que eu sou estuprador’. Ele me olhou de cima a baixo e disse: ‘eu jamais estupro você porque você não merece’. Me empurrou e disse que eu era uma vagabunda

Ao longo do depoimento, Rosário citou o nome do presidenciável do PEN duas vezes para desmentir notícias falsamente atribuídas a ela por esta turma. “Jamais chamei o deputado Jair Bolsonaro de estuprador”, afirmou. “Nem em 2003, quando fui agredida fisicamente e ofendida por ele, nem em qualquer outro momento”, reforçou, lembrando que, na época tinha dito que o parlamentar estava “promovendo a violência”.  “É a primeira oportunidade que estou tendo de mostrar que esse senhor, desde 2003, tem tido atitude agressiva contra a minha pessoa. Ele ficava dizendo: ‘eu sou estuprador? Grava aí que eu sou estuprador’. Ele me olhou de cima a baixo e disse: ‘eu jamais estupro você porque você não merece’. Ele me empurrou e disse que eu era uma vagabunda”, relatou.

Naquele ano, o debate sobre a redução da maioridade penal havia voltado à tona diante do crime brutal contra uma adolescente de 16 anos, Liana Friedenbach, que foi torturada, estuprada e morta por Roberto Aparecido Alves Cardoso, de apelido “Champinha”, enquanto ela e o namorado, Felipe Caffé, acampavam em Embu-Guaçu, na região metropolitana de São Paulo. Na época, Maria do Rosário se posicionou contra a redução da maioridade como solução para coibir a criminalidade envolvendo menores, mas jamais mencionou Champinha. Bolsonaro, porém, passou a usar a história de Liana para atacar Rosário, ironizando que a deputada devia contratar o menor como motorista de sua filha. A partir daí, o deputado, seus filhos e seguidores passaram a espalhar a notícia falsa de que Rosário “defende estuprador”.

Em 2016, diante da utilização da imagem de sua filha por Bolsonaro e seus seguidores, o pai da jovem, Ari Friedenbach, também se posicionou contrário à redução da maioridade e disse que o deputado de direita não conta com o seu apoio. “Primeiro, ele não defendeu a honra da minha filha. Qualquer discurso que não acrescente nada para a sociedade não é defesa. Pena de morte não é defesa! Fazer um circo para ganhar mídia é oportunismo, não é defesa!”, escreveu, em carta aberta. Ele também já pediu a Bolsonaro que pare de usar a tragédia de sua família para defender suas ideias. “Não autorizo o uso da minha história para fazer discurso de ódio ou tentar dar credibilidade a suas propostas insanas”, afirmou.

Em um outro trecho do depoimento ao Supremo, Maria do Rosário tentou ler alguns dos milhares insultos que vem recebendo, mas o nível das ofensas a impedia de continuar. “Não tenho condições de ler essa parte”, disse, emocionada. Ela chegou a mostrar o áudio em que um sargento das Forças Armadas a xingava. “Vou te rasgar ao meio”, ameaçou o seguidor de Bolsonaro. As mensagens de ódio são tão dilacerantes que a própria ministra Nancy Andrighi, relatora do caso no STJ, durante o julgamento se negou a repetir passagens como estas e que constavam em seu voto, pedindo que os ministros lessem.

“Em 2003, tive que explicar para minha filha o que era ‘vagabunda’. Ela tinha 3, 4 anos de idade”, contou, referindo-se aos xingamentos feitos por Bolsonaro

Na audiência, Rosário relatou os episódios em detalhes e chorou, principalmente ao falar dos ataques à sua filha adolescente, que teve suas fotos pessoais expostas em sites hospedados no exterior para fugir à legislação brasileira. “Em 2003, tive que explicar para minha filha o que era ‘vagabunda’. Ela tinha 3, 4 anos de idade”, contou, referindo-se aos xingamentos feitos por Bolsonaro. “As imagens da minha filha estavam em todo o mundo, em sites hospedados nos Estados Unidos e na Austrália. Isso causou prejuízos incalculáveis à minha filha, incalculáveis para a minha família! Ser agredida por esse parlamentar causou prejuízos incalculáveis à minha filha, insuportáveis para uma menina! Ser agredida permanentemente levou a minha filha a ter o nome vinculado ao desse senhor, na escola, na rua. ‘É a filha daquela que não era para ser estuprada’. Isso é insuportável”, disse a deputada, chorando.

E explicou porque acionou a justiça contra Bolsonaro: “Para que nenhuma mulher precise explicar para a sua filha o que é a palavra vagabunda. Nenhuma mulher seja humilhada da forma com que tenho sido em todo os lugares por esses seguidores, que são incentivados por seu líder, são incentivados ao ódio por seu líder”, afirmou. “Eu sou uma defensora dos direitos humanos, me filio com as posições das Nações Unidas, da Constituição, quero que se cumpra a lei para quem está preso. Não há lugar para quem defende isso no Brasil?”, indagou.

Ouça esse trecho da fala da deputada.

Exausta com o forte desabafo, Rosário falou que a sensação agora é de alívio, pois foi a primeira vez que pôde colocar tudo para fora, falar abertamente do caso. A batalha jurídica tem sido árdua: cada vez que Bolsonaro fala dela ou um fato novo ocorre, lhe rende mais e mais insultos diários. Fora as agressões na internet, em que até uma página com o nome ‘Maria do Rosário merece ser estuprada’ foi colocada no ar, a deputada é alvo de ofensas nas ruas. Outro dia, em pleno aeroporto, um sujeito machista, provavelmente um Bolsominion, chutou a cadeira em que ela estava sentada. A petista, no entanto, demonstra altivez e diz ter como único objetivo colocar um ponto final no “líder do ódio”.

Rosário explicou porque acionou a justiça contra Bolsonaro: “Para que nenhuma mulher seja humilhada da forma com que tenho sido em todo os lugares por esses seguidores, que são incentivados por seu líder, são incentivados ao ódio por seu líder”

Ao final do depoimento, Maria do Rosário deu um recado ao Judiciário, enfatizando que a cada 11 minutos uma mulher é vítima de estupro no país e que o crime de estupro é “um crime sobre o poder”, o poder de alguém que decide ou não estuprar ou matar uma mulher. E, por isso, busca a responsabilização de quem promove o ódio e a intolerância. “Isso aqui serve para que as pessoas saibam ter mais respeito pelas mulheres no Brasil. Esse é o meu objetivo. É para que se faça justiça diante de toda a incitação ao crime. O pronunciamento desse parlamentar gerou uma onda de ódio, temos que ter um ponto final”, afirmou.

“É um ‘Rosário’ contra o machismo, uma lição que ela está nos dando diariamente, às vítimas do machismo. Rosário teve essa coragem. Mas a resposta é essa. A luta nunca foi econômica. A luta é de resistência contra a cultura do estupro”, disse Cezar Britto, advogado especialista em direitos humanos e ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na saída do STF.

À tarde, por meio de nota, Maria do Rosário reafirmou a sua posição e disse que há uma clara tentativa por parte da defesa de dizer que ele reagiu a uma acusação que ela teria lhe feito há “alguns dias”. “Isto é uma mentira”. “Além da nova agressão dele ter acontecido contra a minha pessoa 11 anos depois da primeira, é falsa a afirmação que eu o chamei de “estuprador”, o que pode ser desmentido mesmo em vídeos editados, ou no original. É impossível colocar palavras como proferidas por mim, uma vez que não as usei”, afirmou referindo-se à entrevista ao jornal Zero Hora, em 2014, quando Bolsonaro voltou a fazer ofensas, desta vez ampliando os ataques em suas próprias redes sociais.

Veja um trecho da nota divulgada por Maria do Rosário:

“As diversas ameaças que recebi não atingiram seu objetivo, de coagir todas as mulheres brasileiras que lutam por respeito e dignidade. Historicamente esta luta é maior que qualquer ameaça. Procuro sempre realizar um bom debate, no âmbito respeitoso da política. O ódio não pode ter assento nos parlamentos, casas de diálogo e consensos que constroem a democracia. Em um País onde a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, jamais poderia me acovardar diante de todas estas violências. Sigo firme e intransigente na defesa dos direitos das mulheres e de todos e todas que têm os seus direitos e dignidade atacados”.

 

 


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(18) comentários Escrever comentário

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Rafael em 24/08/2017 - 15h05 comentou:

Esse sujeito é um porco, um anão que se sente gigante, o pior que diante do país imbecilizado em que vivemos ele pode se tornar presidente da República.

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    ANGELA TEREZA MENDES em 24/08/2017 - 16h56 comentou:

    Exatamente um desiquilibrando a mais nesta política quase totalidade suja . Este o tráfico cuida dele pois é metido a exterminador.

    Wagner Magalhães em 25/08/2017 - 11h48 comentou:

    Troca de acusações. Ok. Mas não tem santo nessa história não. Sou apolítico mas o que dizer da “maravilhosa” Comissão de Direitos Humanos que ela tanto celebra a existência e a única função que esse órgão tem demonstrado é: Garantir que o sujeito que barbariza com pai de família, destrói lares e acaba com a sociedade seja preservado. Vivemos em um país onde a direita se porta como mentora de um golpe de estado. E vejo simpatizantes da própria esquerda defendendo até mesmo a volta do militarismo. É só mais um capítulo da guerra de siglas que deixou o nosso Brasil refém desse mar de lama. A regra nessa guerra é: Não importa o quanto o povo vai sangrar desde que um dos lados vença.

    Alex em 25/08/2017 - 15h22 comentou:

    Acho que o STF deveria se ocupar com o povo parlamentares e advogados são mentirosos vá a uma audiência trabalhista e você verá advogados defendendo empresas mentindo na verdade o sistema tem que mudar eles dizem que estão cheios de processos estão porquê favorecem os empresários principalme te os do transporte coletivo que manda embora e manda procurar os direitos na justiça e fica recorrendo e o processo rende uns dez anos se há provas as empresas não podem recorrem aí vão diminuir os processos.agora falando de Bolsonaro só votarei nele se ele fizer um projeto de lei que acaba com as vantagens de políticos e torne caixa 2 e desvio de dinheiro e superfaturamento de obras em cri.e hediondo com pena de morte para tráfico de droga porquê aprendi no exército quem não vive pra servir não serve pra viver o cara rouba de lata e fica solto e piada!

Paulo Afonso em 24/08/2017 - 18h32 comentou:

O canalha é simplesmente um dos filhotes gerado no ventre da ditadura, e por ela parido.

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Andre em 24/08/2017 - 18h49 comentou:

Esse cara era pra ser punido e ser retirado das eleições pra presidente, ele gosta muito de desmoralizar as pessoas por ele não tem diálogo fica ai igual um psicopata,e ainda tem monte de doente que fica apoiando ele com certeza ele está por trás disso tudo que está acontecendo com a senhora dona Maria.

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Moacir Moreira em 25/08/2017 - 07h07 comentou:

Quem dá voz a esse tipo de bandido é a imprensa golpista.

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Ana em 25/08/2017 - 07h37 comentou:

Força, Maria do Rosário 🌹! Você e sua luta nos representam.

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Jose antonio rodrigues desiderio em 25/08/2017 - 11h37 comentou:

É uma vergonha como militar ou mesmo como parlamentar, desqualificado não é a palavra certa, é um nojeira, num país sério, ele ficava na sarjeta, uma coisa dessas, não dá mesmo para ficar encarando olho no olho, adoece a dignidade do ser humano, Ela tem toda razão de se retirar quando ele fala, a voz dele já causa repúdio

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Nilson Freitas em 25/08/2017 - 11h52 comentou:

Força deputada…Lute sempre mesmo contra esse tipo de aberração…, desrespeito e discriminação. ..Agora,também pergunto:: além da justiça, na Câmara Federal por que não foi feio alguma coisa..???..ou foi feito..???…FASCISTA, não pode ter vez em nosso País…Força e De… A senhora é brasileira e tem sangue de GUERREIRA…abcs….

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Zanatta em 25/08/2017 - 13h25 comentou:

Lamentável que um político aja desta forma, infelizmente ainda poderemos ter que engolir esse homem na presidência, mas fazer o que, não somos a Dinamarca.

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Edson em 25/08/2017 - 16h29 comentou:

Como pode alguém cogitar a possibilidade de eleger presidente do Brasil um indivíduo que não respeita as pessoas, nem mesmo uma colega paralamentar? Como seria o tratamento desse sujeito com as pessoas mais humildes?. Eu tenho nojo de desequilibrado.

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Rogério em 25/08/2017 - 17h24 comentou:

Esse tipo de jornalismo aqui deveria ser imparcial, não sendo assim, corrompe a informação. Criticam o Bolsonaro por pregar o ódio, mas aqui nos comentários só tem manifestações de ódio e intolerancia contra o tal. Não adianta falar que eh certo, quem é errado, depois dessas brigas dessa dona Maria e do Bolsonaro, os partidos deles se coligam, e todos vivem felizes para sempre. E sempre assim…

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    Cynara Menezes em 25/08/2017 - 17h54 comentou:

    onde tem mensagem de ódio contra bolsonaro aqui? alguém falou que ele “não merecia ser estuprado” por acaso?

    Marconi em 25/08/2017 - 19h29 comentou:

    Eu não acredito no que estou lendo, alguém sabe o que é um estupro ou a pregação do ódio, não existe partido mas sim crimes contra um ser humano, esse deputado vem mostrando que é um descontrolado e criminoso, chama negros de arroba, fala em matar o tempo inteiro é um verdadeiro facista, sem escrúpulos

Bruno em 27/08/2017 - 21h25 comentou:

Realmente, esse deputado é lamentável ! Não esqueçamos, porém, que não vale a pena votar em candidatos esquerdistas nas eleições presidenciais, já que eles defendem um modelo de governo que, apesar das boas intenções, nunca funcionou na prática. Abraços !

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Diego de Moraes em 29/08/2017 - 12h18 comentou:

Lamentável essa difusão desse escroto BOZO-NAZI… Mas os ataques foram há 14 ANOS?

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    Cynara Menezes em 29/08/2017 - 14h15 comentou:

    não. há 14 anos a rosário é atacada ininterruptamente por essa gente

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