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Se todos fossem iguais a você, Isadora

  A catarinense Isadora Faber tem 13 anos e ótimas notas. A menor nota do boletim dela é 7, em Ciências. Ela cursa a 7a. série na escola pública municipal Maria Tomázia Coelho, em Florianópolis. Isadora é excelente aluna, mas sua escola deixava a desejar. Em julho, a menina fez uma página no Facebook, o […]

reprodução do facebook
Cynara Menezes
24 de setembro de 2012, 20h17

(reprodução do facebook)

 

A catarinense Isadora Faber tem 13 anos e ótimas notas. A menor nota do boletim dela é 7, em Ciências. Ela cursa a 7a. série na escola pública municipal Maria Tomázia Coelho, em Florianópolis. Isadora é excelente aluna, mas sua escola deixava a desejar. Em julho, a menina fez uma página no Facebook, o “Diário de Classe”, para denunciar os problemas que via no colégio: orelhões quebrados, paredes pichadas, fios desencapados expondo os estudantes ao perigo de levar um choque, a quadra da escola sem reforma…

Rapidamente, a página de Isadora foi descoberta e a garota de olhar esperto saiu na imprensa de todo o País. Atualmente, 304 mil pessoas “curtiram” o Diário de Classe. A estudante fez uma boa ação: desde que começou com o Diário, sua escola melhorou. O orelhão, as maçanetas defeituosas e as portas quebradas foram substituídas, e os fios foram encobertos. Só a quadra até agora não foi reformada. Mas Isadora não ganhou nenhuma medalha da direção do colégio por querer que ele seja tão bom quanto suas notas, embora tenha postado em sua página também as melhorias feitas. Professores e diretora não foram capazes de refletir e admitir que não estavam exercendo bem suas funções. Pelo contrário.

Isadora e seus pais foram chamados pela diretora para pedir que tirasse a página do ar. Ela se queixa que funcionários da escola passaram a hostilizá-la. E o cúmulo aconteceu: uma professora foi à delegacia e abriu um Boletim de Ocorrência contra a menina por “calúnia e difamação”. Isso porque Isadora contou no Facebook que a professora resolveu ler em classe, assim de uma hora para a outra, o regimento interno do colégio, com procedimentos “vedados” aos alunos. Um dos itens: “Promover ou participar de movimento de hostilidade ou desprestígio à unidade ou às pessoas que nela trabalham, inclusive por meios eletrônicos”. A aluna se queixou, portanto, de ter se sentido “censurada”, e postou no Facebook.

A professora não gostou e foi à polícia contra uma menina de 13 anos, que teve de ir depor na delegacia. Qual foi o crime de Isadora? Ser cidadã? Mostrar ao Brasil e ao mundo que na escola pública onde estuda o descaso é enorme? Ou será que Isadora foi punida por frases como “Eu criei esta página porque agora começam os ‘senhores candidatos’ a mostrar coisas que nunca são verdade, escolas de cenários!”? Ela já avisou: “Não vou desistir, não estou cometendo nenhum crime, estou mostrando o que de fato é a pura realidade. Os regimentos internos deveriam punir os maus, que roubam, que quebram, que estragam a escola, que agridem os outros, esses sim deveriam sofrer punição!”

Não é só por “descaso do governo”, como se costuma dizer, que a educação ainda hoje vai mal. Está comprovado que todas as melhores escolas públicas do País são boas por dois motivos principais: comprometimento do diretor ou diretora com a escola e interesse da comunidade. Sem estes dois pilares atuando em conjunto a escola pública não funciona. Ao longo dos anos, o ensino público no Brasil foi sendo sucateado e a classe média, em vez de cobrar que melhorasse, a abandonou (mea culpa). Tenho certeza que apenas quando voltarmos a colocar nossos filhos no colégio público e a exigir que ele seja bom, teremos de fato uma educação de qualidade.

É isso que Isadora Faber está fazendo: exigir que a escola melhore. Seus pais pagam impostos. Ela tem esse direito. A iniciativa de Isadora começou a surtir efeito e vários “diários de classe” estão pipocando Brasil afora. Imaginem se em cada escola pública ruim do País surgir uma Isadora Faber para ficar de olho, para ser o fiscal de um ensino público de qualidade. Isso vai ser ruim para a educação pública? Vão mandar prendê-los? Vão tirar suas páginas do ar? Ou vão simplesmente ser obrigados a melhorar, a ter o mínimo interesse pelo local onde trabalham? Será que as coisas não ficaram assim por que ninguém tinha exigido antes?

Siga em frente, Isadora. Se todos fossem iguais a você a educação pública no Brasil era outra.


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(3) comentários Escrever comentário

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Piu Gomes em 24/09/2012 - 22h10 comentou:

Grande Isadora!!!!!

Responder

Erica em 24/09/2012 - 22h55 comentou:

Sua mami deve estar orgulhosa…. parabens isadora….

Responder

Fabio em 28/09/2012 - 16h16 comentou:

O tal regimento é de uma escola pública. Interessante que uma escola pública queira calar a Isadora. Analisando no contexto adequado, significa que o estado está tentando calar Isadora.

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