Três docs para entender a diferença entre grafite e pichação (e respeitar ambos)

Publicado em 29 de janeiro de 2017

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Vi muita gente expondo ignorância nas redes para defender o vandalismo do prefeito João Doria Jr. contra a arte de rua em São Paulo, ao transformar muros grafitados em cinza. Para poder opinar, estas pessoas pelo menos deveriam saber a diferença entre pichação e grafite, não? Pensando em ajudá-las a entender melhor o mundo que as cerca resolvi postar no blog três documentários, um sobre pichação, e outros dois sobre grafite.

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O primeiro deles é PIXO, de 2010, dirigido por João Wainer e Roberto T.Oliveira, que mostra a realidade dos jovens da periferia que fazem pichações em prédios e ruas em São Paulo. João passou dois anos se encontrando com os pichadores para entender o porquê de eles fazerem esta ação. O fotógrafo defende que, como o pixo é uma espécie de protesto, sempre será perseguido. Esta semana ele publicou um texto na Folha de S.Paulo onde criticou o prefeito da cidade por apagar a arte de rua e confundir grafite com pichação.

“Pichadores buscam sempre o enfrentamento com o poder público. Declarar guerra à a pichação de forma midiática pode trazer votos, mas é tudo o que os pichadores mais querem e terá um efeito devastador para a cidade, pois a reação será fortíssima”, alertou Wainer. “Pichação se resolve com escola de qualidade e não com tinta cinza e bravatas na televisão” (leia o texto completo aqui, para assinantes). Assista PIXO no Vimeo.

O segundo documentário tem um título emblemático para o momento: Cidade Cinza, de 2013. Dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, com músicas de Criolo e Daniel Ganjaman, o filme questiona o cinza em que os governantes conservadores pretendem transformar as cidades. O doc foi feito depois que, em 2008, o então prefeito Gilberto Kassab, como Doria hoje, mandou apagar os grafites da avenida 23 de Maio, angariando uma forte repercussão negativa internacional. Em tempo: o slogan de Kassab era Cidade Limpa; o de Doria é Cidade Linda.

É hilário ver como os funcionários das empresas terceirizadas se transformam, como os reaças nas redes, em críticos de arte, decidindo autoritariamente sobre o que deve ou não deve ficar e o que tem de ser apagado.

O terceiro doc é o premiado curta Graffiti Fine Art, que mostra a chegada de 65 grafiteiros de 13 países para a I Bienal Internacional de Grafite, em 2010. Promovida pelo MUBE (Museu Brasileiro de Escultura), a proposta da bienal é justamente mostrar a diversidade e a qualidade da arte de rua.

No filme dirigido por Jared Levy, os grafiteiros dizem frases como: “Uma cidade sem grafite é uma cidade onde está faltando um membro, um órgão” (Nove); “Uma cidade que não tem grafite é uma cidade oprimida, muito controlada” (Anarkia); “Uma cidade sem grafite é uma cidade mais cinza do que já é” (Graphis).

Assistam e comentem, ampliem seus horizontes antes de opinar.

 

 

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O programa Mais Médicos no olhar de Araquém Alcântara

Publicado em 23 de abril de 2016
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(Médico cubano Sael Castelo Caballero em Serra da Guia, sertão de Sergipe)

Já contei no no blog como a mídia hegemônica esconde as realizações do Mais Médicos e como o programa transformou a vida de milhares de brasileiros pobres que não contavam com assistência de saúde, sobretudo porque, infelizmente, muitos profissionais daqui se recusavam a trabalhar nos rincões mais distantes do país: aldeias indígenas, comunidades quilombolas, vilas ribeirinhas, favelas e periferias das grandes cidades.

Durante um ano, o premiado fotógrafo Araquém Alcântara retratou o cotidiano dos médicos, brasileiros e estrangeiros, que toparam o desafio. Pelas fotos podemos sentir o quanto honram o juramento de Hipócrates: “Juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade”

No livro editado com as fotos, com edição e prefácio de Éder Chiodetto, Araquém mostra não só os médicos e médicas com suas histórias, como o entorno das localidades para onde foram designados e seu trato com os pacientes. O diferencial se nota: o olho no olho, o toque, a intimidade que se cria na relação médico-paciente, tantas vezes criticada por ser fria, rápida, distante, nos profissionais dos planos de saúde. Esta é a saúde que o Brasil quer ter: gratuita e boa. A saúde é um direito do brasileiro, está em nossa Constituição: “A saúde é direito de todos e dever do Estado”. Lembre-se sempre disso.

Em entrevista ao blog do ministério da Saúde, o fotógrafo explicou que quis fazer o livro como um “manifesto humanista”, para mostrar às pessoas a importância da presença do Estado em todo o território nacional, ainda mais se tratando de um país de dimensões continentais como o Brasil. Araquém visitou 17 Estados: tem Pará, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte, Mato Grosso… “Eu cheguei a locais onde nunca haviam estado médicos. E as pessoas estavam extremamente felizes de ter um médico no lugar. Sobretudo os velhos que se sentiam desamparados. Você sente que o astral muda, agora que eles sabem que tem o atendimento”, diz Araquém.

Temo pelo futuro deste programa. Os golpistas que querem derrubar Dilma Rousseff são os mesmos que se opuseram ao Mais Médicos com justificativas absurdas, como por exemplo dizer que os médicos cubanos são guerrilheiros disfarçados. Se, como se desenha, a presidenta Dilma deixar o poder, certamente a posição dos que querem acabar com o programa vai prevalecer. E quem perde, como sempre, é a população mais sofrida.

Confira algumas das belíssimas fotos em preto e branco de Araquém Alcântara. Informações sobre o livro aqui.

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(Cubano Alberto Aquilino Domínguez Velázquez Em Igreja Nova/AL)

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(Albanês Artan Cekaj na zona rural de Maquiné-RS)

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(O cubano Sael no sertão sergipano)

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(Médico haitiano Jean-Gardy Merceus em igapó da comunidade Bela Vista, em Manacapuru-AM)

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Cubana Aimée Pérez Isidor em Igreja Nova-AL)

 

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Nise, o gato e eu. Por José Carlos Peliano

Publicado em 8 de abril de 2016
(Nise da Silveira. Foto: Sebastião Barbosa)

(A psiquiatra Nise da Silveira. Foto: Sebastião Barbosa)

O economista José Carlos Peliano conta com exclusividade para o blog sobre sua amizade com a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), que passou à história por se rebelar contra as “terapias” agressivas que eram utilizadas para “tratar” pessoas com distúrbios mentais: eletrochoques, camisa de força, isolamento. “Isto é tortura”, denunciou Nise, que partiu para abordagens alternativas, como a terapia ocupacional e a arte.

Os ateliês de pintura e modelagem fizeram com que muitos artistas fossem descobertos entre os “loucos” que eram tratados por ela no Centro Psiquiátrico do Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro. No final da década de 1940, grandes exposições de arte apresentaram ao país nomes descobertos nos ateliês, como o do pintor Emygdio de Barros (1895-1986). A pioneira Nise, única mulher em sua turma de 157 formandos da Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, foi a grande inspiradora do movimento antimanicomial e da reforma psiquiátrica.

Além das artes, Nise da Silveira também introduziu cães e gatos na vida de seus pacientes, para que se apegassem a eles, criando um elo com o mundo real. “Observei que os resultados terapêuticos das relações afetivas entre o animal e o doente eram excelentes. Mas era difícil que essa idéia tivesse campo para desenvolver-se. No Brasil a aproximação entre doente e animal, infelizmente, ainda não era cultivada. Amigos distantes foram solidários: Boris Levinson, psicanalista americano, comentou por carta: ‘Sem dúvida, para muitos desses doentes, os animais eram a sua única linha de vida para a saúde mental'”, escreveu Nise no livro Gatos, A Emoção de Lidar, dedicado ao último dos seus bichanos, Carlinhos (em homenagem a Carl Jung) e atualmente fora de catálogo. Uma pena.

Ela dizia que os gatos são “excelentes companheiros de estudos, amam o silêncio e cultivam a concentração” e admirava a independência dos felinos, sempre ronronando ao seu redor no escritório. “Cultivo muito a independência. Por isso gosto do gato. Muita gente não gosta pela liberdade de que ele precisa para viver. No circo você vê tigre e urso, mas não vê um gato. O gato é altivo, e o ser humano não gosta de quem é altivo.” Em 1934, durante o governo Getúlio Vargas, Nise da Silveira chegou a ser presa durante 15 meses, acusada de comunismo, e ficaria oito anos na clandestinidade.

Neste post, além do texto de Peliano e fac-símiles de duas cartas enviadas por Nise da Silveira ao amigo, algumas fotos da psiquiatra com os gatos que tanto amava (se vocês souberem os autores de todas, me ajudem a identificar). Boa leitura.

***

Encontros com Nise
Por José Carlos Peliano

Segui o que queria e ganhei o que alumia. Foi desse jeito que cheguei a Nise da Silveira e dela fiquei amigo por alguns anos de encontros, aprendizados e encantamentos.

Meados dos anos 1980 até fins dos 1990. Vivia meus saudosos 30 e 40 anos. Trabalhava no IPEA na área social, que cuidava do mercado de trabalho. Em 1992 defenderia minha tese de doutorado em economia pela Unicamp/Campinas.

Conheci primeiro o marido de Nise, Mário Magalhães da Silveira, de fato seu primo, médico sanitarista, vigoroso marxista, humanista de primeira hora. Com ele aprofundei meus conhecimentos do marxismo, história da humanidade e importância da relação entre o ser humano e o ter humano.

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(Foto: Sebastião Barbosa)

Fui pela primeira vez à casa de Mário na rua Marquês de Abranches no Rio de Janeiro, perto do Largo do Machado, a seu convite, para estar mais uma vez com ele, jogar conversa fora ou dentro, dependendo do assunto. Ao lhe perguntar como ia passando, ele respondeu “atravessando”.

Pois atravessamos oceanos, países, regimes políticos, sistemas econômicos, desde a perspectiva marxista, abrangente, histórica, materialista. Aprendi tanto com ele quanto com meu curso de doutorado na Unicamp em 1982/83, guardadas evidentemente as justas proporções. Sua visão ainda clareia as alamedas por onde atravesso diariamente minhas perguntas e respostas.

Numa dessas visitas a sua casa eis que surge Nise, pequenina em tamanho, imensa em presença. Apresentados por ele, exibi meus parcos conhecimentos de psicologia, matéria que sempre me interessou. Ele se ausentava quando ela começava a abordar o tema. Ou não gostava ou não devia se sentir confortável. Não sei se era assim, mas a mim parecia, pois nunca lhe perguntei.

Sempre que chegava ao Rio fazia o que tinha de fazer e ia para a casa deles. Não, melhor dizendo, dela, porque, de repente, a partir da apresentação, ficava conversando mais com ela -ou só com ela, a depender da ocasião. Para mim, era uma apoteose, estar com uma gigante da psicologia analítica, mais escutando e aprendendo do que dando opiniões ou palpites.

A pequena grande mulher me tomou pelo afeto, desprendido, generoso e disponível, embora fosse direta, objetiva, sem rodeios. Ela sempre me teve como amigo de coração, conforme a dedicatória feita em seu livro Imagens do Inconsciente estampa para a minha vida afora: “Ao querido amigo Peliano sempre bem perto do coração”, em 13 de janeiro de 1983.

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Marx combina com Jung? Um marxista junguiano ou um junguiano marxista? Sim, mais ou menos isso. E se encaixa bem. Seja nas contradições da ordem capitalista, seja nos eventos numinosos do marxismo. O fato é que é uma combinação saudável de vida e trabalho. Principalmente a maneira de ver e ir desvelando o segredo da vida.

Minha amizade com ela era e foi uma imensa bênção espalhada em pelo menos quatro grande momentos distintos. Resumirei brevemente sem sequenciar em ordem datada. Encontros tidos sempre em seu apartamento do segundo andar ou em seu escritório logo acima no terceiro andar, o gatil, onde moravam seus gatos prediletos, segundo ela, amigos e conselheiros.

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Depois de algum tempo e vários encontros, um dia ela me perguntou se eu não gostaria de ficar no Rio trabalhando com ela e aprendendo a lidar com os meandros da psicologia analítica. Não só na Casa das Palmeiras e no Museu de Imagens do Inconsciente, mas também nas aulas por ela ministradas aos seus alunos no escritório do terceiro andar.

Emoção como essa nunca me bateu tão forte, querida e tentadora, na área vocacional ou profissional. Abracei-a emocionado, agradeci-lhe imensamente, mas não lhe respondi na hora. Ela sabia de minhas dificuldades e não me pressionou. Disse-me que pensasse com calma.

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Eu poderia ser hoje um psicólogo analítico junguiano. Poderia. Não aceitei, lamentavelmente, o maravilhoso convite porque, recém-separado, cabia-me dar uma pensão para minha filha e não poderia ficar sem o trabalho que tinha fora do Rio. Busquei alternativas, mas nada consegui. Perdi o bonde, mas não a esperança.

Por conta desse acontecimento dediquei a ela um poema feito em 1985, Estrela Guia, como agradecimento, admiração e encantamento:

estrela, estrela guia
estrela que me alumia
tem a mim como aprendiz


curva-se a sua guia
o universo que se cria
milhões de anos luz feliz

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Uma outra vez, às voltas com meu processo de individuação, sem saber como coordenar as coisas dentro e ao meu redor, falei com ela sobre isso. Calma e mansamente, ela me olhava dentro dos olhos procurando uma guia. Foi, então, que me disse para eu deixar de levar a vida só nos pensamentos. Mais ou menos assim: “deixe a mente de lado, siga em frente, toque nas coisas, faça sempre algo com as mãos, construa seu lado de dentro pelo lado de fora”.

Não sei se foi o que ela me disse ou se sua forte presença, mesmo à distância, o fato foi que aos poucos as coisas começaram a se encaixar, a tomarem outras formas, a me deixarem liberto. Na época, construía minha casa e passei a ajudar os pedreiros, carpinteiros e pintores. As mãos de minha casa me acolheram e me puseram em pé.

Uma terceira vez, enquanto ela me jogava o I Ching (quando conheci o oráculo), um de seus gatos prediletos pulou em meu colo e ficou amassando pão, como fazem. Ela se encantou e comentou: “não se mexa, não tire-o do colo, o gato só vem a você se ele percebe seus sentimentos. Ele gostou de você”.

Durante todo o tempo em que estive com ela aquele dia, o gato permaneceu comigo, ronronando. O resultado do oráculo foi igualmente surpreendente, deu o hexagrama número 1, as 6 linhas inteiras, chamado O Criativo. A mensagem fundamental é “o criativo opera sublime sucesso, amplia-se pela perseverança”. Pensativa, ela adicionou: “pode ter sido o gato que influenciou o I Ching ou este ao gato, mas é ainda possível que os dois se juntaram aqui por você”.

(Foto: Nilton Claudino/CorreioBraziliense)

De fato, o oráculo foi consultado por conta de um sonho que tive, onde caixas coloridas de vários tamanhos se movimentavam sozinhas em minha direção. Eu, menino, me assustava de medo até que uma mulher me dizia: “por que você vê as coisas pelo lado errado?”. Nise disse que o oráculo me apontava abrir as caixas que me chegassem na vida sem temor. Devia sempre crer para ver para só então ver para crer.

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A última vez foi dias antes de sua despedida desta vida. Fiquei pouco tempo com ela, no quarto, em cadeira de rodas, ela bem abatida, mal falou. De tempos em tempos, no entanto, me olhava profundamente como fizera outras vezes e apenas pronunciava meu nome: Peliano. Um agradecimento, um lamento, um acolhimento, uma exclamação, um adeus?

Pois eu agradeço incansavelmente sua amizade, lamento irreparavelmente sua perda, exclamo abertamente sua sabedoria, mas não lhe aceno um adeus por ela estar sempre comigo, em imagens e no inconsciente.

***

Vai estrear agora uma cinebio dirigida por Roberto Berliner sobre Nise da Silveira com Gloria Pires no papel principal: Nise- O Coração da Loucura. Veja o trailer:

Tem também um documentário inédito de Jorge Oliveira, Olhar de Nise:

 

 

 

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