Uma xoxota para Barbie

Publicado em 8 de março de 2016

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Em janeiro deste ano, a Mattel, fabricante da Barbie, anunciou o lançamento de novas formas físicas da boneca, sempre criticada por servir como espelho de crianças ao mesmo tempo em que possuía um corpo irreal, inatingível. Agora tem Barbie mais cheinha, mais alta e mais baixinha. Assim, a boneca se aproximou dos seres humanos “normais”. Mas e quanto à ausência de xoxota? Quando é que a Barbie vai ter xoxota?

A Barbie tem peitinhos e tem bunda. Mas, no lugar da vagina, a boneca não tem nada. Ali entre as pernas é um lugar reto, sem nem mesmo o partidinho no meio característico. Inspirada pela falta de xoxota da boneca, a artista plástica brasiliense Viviane Cardell criou uma série de Toy Pussies, xoxotas em diversas cores e formatos, como uma forma de celebrar a vagina. Tem xoxota loira, morena, com boca, depilada, com pelos, africana, japonesa, em homenagem a Brigitte Bardot…

“Acho que a Barbie podia ter xoxota, sim. Não precisava ser nada explicito, exagerado. Ela não tem lábios, nariz, orelhas? As orelhas, por exemplo, são um relevinho sutil. Bastava isso, um pelinho, uma insinuação. Mas… Nada? Da forma como está, é assustador”, diz.

De fato é bem estranho.

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“Até o Ken tem um relevinho mínimo”, lembra Viviane. Realmente, o Ken, namorado da Barbie, tem um montinho representando o pinto e usa uma espécie de cuequinha.

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A falta de xoxota da Barbie é tal que seu nome é utilizado para denominar a cirurgia de “labioplastia”, ou seja, a redução dos grandes e pequenos lábios que algumas mulheres vêm fazendo para tornar a xoxota mais… discreta. Isso mesmo, tem gente que paga para ficar com a xoxota igualzinha à não-xoxota da Barbie! (Clique aqui para ler uma reportagem da Nina Lemos sobre esta bizarrice.)

Neste Dia Internacional da Mulher, o blog exibe as xoxotas de Viviane Cardell como uma forma de protesto contra o excesso de puritanismo das bonecas. E para –quem sabe?– inspirar os fabricantes de brinquedo para que comecem a tratar o corpo humano com menos tabu. Coloquem xoxotinhas nas bonecas! É natural.

Tem gente que vai dizer que colocar xoxotas em uma boneca serviria para estimular a sexualidade precoce das crianças. Como assim? Toda criança tem xoxota –ou piru. Quer dizer que pode estimular o consumo desde a mais tenra idade (com a Barbie, inclusive), pode usar roupas inadequadas, pode usar salto alto, mas não pode mostrar uma xoxota?

Com vocês, as Toy Pussies.

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O nem tão sutil homoerotismo dos filmes de gladiador e das lutas de MMA

Publicado em 8 de janeiro de 2016
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(Stephen Boyd e Charlton Heston em cena de Ben-Hur)

A ultra-virilidade aparenta ser a antítese da homossexualidade, mas no final das contas se encontra com o homoerotismo. Me dei conta disto pela primeira vez ao rever o filme Ben-Hur, que havia assistido na infância. Nunca vi um filme tão escancaradamente gay na vida e é impressionante como arrastou milhões de pessoas para assisti-lo quando foi lançado, em 1959, sem que se dessem conta disto. Ainda mais um filme bíblico! A cena do encontro entre Ben-Hur com o general que o “adota”, nas galés, é muito sugestiva. O general diz: “Quem é aquele?” E respondem: “Ben-Hur”. “Vou levá-lo comigo para o palácio”. Hum…

Fiquei tão impressionada com o homoerotismo em Ben-Hur que corri atrás de descobrir o porquê. Bem, o roteiro é de ninguém menos que o escritor assumidamente homossexual Gore Vidal (1925-2012), responsável pela maior “pegadinha” da história do cinema. Escreveu um filme totalmente gay às escondidas de seu astro principal, o machão Charlton Heston, um reaça que se tornaria presidente da National Riffle Association. É hilário: Vidal combinou tudo com o diretor William Wyler e com o co-astro Stephen Boyd sem que Heston suspeitasse de nada. Veja o escritor contando tudo neste trecho do documentário O Celulóide Secreto (1995), de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que retrata a homossexualidade oculta ou assumida nos filmes hollywoodianos.

Mas eu acredito que não é somente pela presença de um homossexual entre os roteiristas que Ben-Hur possui este homoerotismo latente. Acho que o apelo homoerótico é intrínseco a este gênero de filme. Filmes de gladiador são homoeróticos por natureza. Recentemente assisti 300 e tive a mesma sensação. A ultra-virilidade de todos aqueles corpos musculosos de homens juntos, besuntados de óleo, só de “fralda” e capa, resulta numa percepção inversa e confere um inescapável tom homoerótico à trama. A cena em que Leonidas (Gerard Butler) encontra Xerxes (o brasileiro Rodrigo Santoro) é fatal. Santoro está uma verdadeira diva.

Fizeram até uma montagem com cenas do filme e a clássica canção disco It’s Raining Men, das Weather Girls, de 1982. Gayzéééérrimo. O diretor de 300, Zac Snyder, aliás, é considerado o rei do homoerotismo implícito, tanto masculino quanto feminino, na Hollywood atual.

E a cena do banho deletada em Spartacus (1960)?

Toda esta atmosfera homoerótica dos filmes de gladiador me recorda uma história real com o humorista Groucho Marx. O diretor Cecil B. de Mille perguntou a Groucho, após ele sair da sessão de estreia de Sansão & Dalila, em 1949, o que tinha achado do filme. Ele respondeu: “Bem, só há um problema, C.B. Nenhum filme em que os peitos do ator principal são maiores que os da estrela pode prender minha atenção”. Groucho se referia ao físico exuberante do galã Victor Mature, cujo peitoral avantajado ofuscava o delicado colo de Hedy Lamarr.

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(Victor Mature em Sansão & Dalila, num momento a la São Sebastião, outro mito homoerótico)

Groucho estava de gozação, mas sem dúvida seu olhar antecipou uma tendência. Sobretudo a partir da década de 1970, a percepção comum de que os homossexuais eram todos “afeminados” foi suplantada pela realidade de que gays também podem ser ultra-masculinos. E os corpos supertrabalhados na academia passaram a ser associados muito mais à homossexualidade do que à heterossexualidade. Costumo brincar que a marchinha de Carnaval “olha a cabeleira do Zezé, será que ele é” soa agora tão politicamente incorreta quanto datada. Hoje em dia seria muito mais “olha o peitoral do Zezé”.

Não é possível, atualmente, assegurar se alguém é ou não homossexual tomando como base o aspecto exterior. Não são aparência, maneiras e comportamento que definem a orientação sexual de uma pessoa. Nem todo homossexual é malhadíssimo, mas há muitos homossexuais que curtem esta estética musculosa e se dedicam a ela. E bem mais que os homens hetero, em geral nem tão ligados à beleza corporal de si mesmos. Acho que pode vir daí este homoerotismo implícito dos filmes de gladiador, que eu enxergo também nas lutas de MMA.

Fala sério: não é absolutamente homoerótico este cara a cara dos lutadores de UFC antes da competição? Eu acho um tesão.

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(Charlie Brenneman e Beneil Dariush)

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(Anderson Silva e Chris Weidman)

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(Ramsey Nijem e Dariush)

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(Conor McGregor e Dennis Siver. Hummm, couro!)

É possível que o próprio treinamento do MMA, com os lutadores agarrados no solo, contribua para esta visão homoerótica do esporte. Sintomático destes “extremos que se tocam” é o fato de o UFC ter cada vez mais fãs fervorosos entre os gays, mesmo sendo violento. O mais instigante é que os lutadores costumam ser tão, mais tão absurdamente seguros de sua masculinidade, que não se furtam a fazer coisas tidas como “femininas”, como, por exemplo, pintar as unhas.

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(As unhas dos pés do bielorrusso Andrei Arlovski…)

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(…e as das mãos do norte-americano Ian McCall)

O brasileiro Anderson Silva já falou que, embora seja um meio considerado homofóbico, existem “vários” homossexuais não-assumidos no UFC. Em entrevista à revista Trip em 2014, questionado sobre a sua própria sexualidade, o Spider respondeu da forma mais gay friendly possível: “Às vezes a galera acha que eu sou gay. Várias pessoas já me perguntaram se eu sou gay. Eu respondo: ‘Olha, que eu saiba, não. Mas eu ainda sou novo, pode ser que daqui a um tempo eu descubra que eu sou gay’.”

O que dizer de Guerra nas Estrelas e toda aquela coisa de espada erétil? Não haveria também um contexto homoerótico subliminar naquilo? Não é… fálico? Ok, sei quando piso em terreno sagrado. Melhor parar por aqui, mas já vou adiantando que tem gente que se pergunta sobre a orientação sexual de C-3PO e qual o real status da relação entre Han Solo e Chewbacca.

 

 

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Exposição de Frida no instituto Tomie Ohtake peca por esconder comunismo da pintora

Publicado em 12 de novembro de 2015
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(Frida e a foice e o martelo pintados em seu colete ortopédico; esta foto NÃO integra a exposição em São Paulo)

“Estou cada vez mais convencida de que o único caminho para se chegar a ser um homem, isto é, um ser humano e não um animal, é ser comunista”
(Frida Kahlo)

Em termos estritamente artísticos, a exposição Frida Kahlo: Conexões entre Mulheres Surrealistas no México, em cartaz no instituto Tomie Ohtake em São Paulo, é irretocável. Alguns dos mais icônicos trabalhos da pintora mexicana estão lá, além de peças menos conhecidas, como as aquarelas. As mulheres surrealistas que a acompanham também estão representadas lindamente.

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(Diego em Meu Pensamento , 1943. Foto: Gerardo Suter/divulgação)

O único senão para a mostra é a tentativa de apagar ou minimizar a militância comunista que permeou toda a vida de Frida, sobretudo com a escolha do vídeo The Life and Times of Frida Kahlo pela curadora Teresa Arcq para contar a biografia da pintora mexicana.

O documentário, dirigido pela norte-americana Amy Stechler para a TV PBS com patrocínio da Elma Chips (!!!), dilui o comunismo de Frida, afirmando que ela “só foi comunista ferrenha” nos seus últimos anos e que “confundiu comunismo com comunidade”. Para referendar a opinião, a diretora convoca o escritor Carlos Fuentes, ex-esquerdista que se tornou liberal, que diz que Frida “não era comunista, era panteísta”, sem ninguém que lhe sirva de contraponto.

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(O abraço do amor do Universo, a Terra, Diego e eu e o senhor Xólotl, 1949. Foto: divulgação)

Me parece um desrespeito à memória da pintora e à sua inteligência dizer que ela “confundiu comunismo com comunidade”, seja lá o que isso signifique. Ora, Frida Kahlo ingressou nas Juventudes Comunistas aos 17 anos e, aos 20, se filiou ao Partido Comunista Mexicano. Com Diego Rivera, deixou o Partido em 1929 em solidariedade ao marido, que havia sido expulso por divergências com os dirigentes locais. Em 1937, o casal receberia Natalia e Leon Trotsky em seu exílio mexicano. Em 1948, Frida volta a ser aceita pelo PC mexicano, seis anos antes de Diego. Em seu colete ortopédico, trazia pintado o símbolo da foice e do martelo no meio do peito, próximo ao coração.

Frida pintou Marx e Stalin e tinha retratos de comunistas na cabeceira de sua cama na Casa Azul, em Coyoacán. Dias antes de morrer, já em estado grave, insistiu em participar de uma manifestação contra o golpe de Estado organizado pela CIA que derrubou Jacobo Arbenz na Guatemala, acusado de comunismo por defender a realização da reforma agrária no país. Em seu funeral, o caixão de Frida Kahlo foi coberto pela bandeira comunista, causando a demissão do diretor do Palácio de Belas Artes por ter permitido que fosse desfraldada ali.

Muitos especialistas e fãs de Frida Kahlo vêm denunciando a transformação da artista por seus herdeiros em objeto de consumo, a metamorfose de uma comunista em um produto capitalista, a exploração de sua imagem para vender jóias, roupas, bonecas, tequila, tênis, cosméticos, aplicativos e jogos para celular e até – blasfêmia das blasfêmias –um cartão de banco com o rosto e a assinatura dela estampados.

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Tudo pelas mãos da sobrinha da pintora, Isolda Kahlo (1929-2007), que fundou a Frida Kahlo Corporation (oh, tragédia) com sede em Miami (onde mais?). Hoje o business Kahlo é controlado por Mara Romeo-Kahlo, sobrinha-neta de Frida, e um investidor venezuelano, Carlos Dorado, que detêm a maioria das ações. Entre os planos da empresa estão a construção de hotéis e spas com o nome da pintora, além de uma cerveja e um restaurante. “Se Frida visse o que estão fazendo com o nome dela, suas cinzas estariam se revolvendo na urna”, disse a historiadora de arte Teresa del Conde na época do lançamento da tequila. A crítica de arte Raquel Tibol ficou indignada. “É uma vergonha, uma total falta de respeito.”

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(Três Mulheres com Corvos, Leonora Carrington, 1951. Foto: divulgação)

Obviamente que o interesse em diminuir ou esconder que Frida era comunista é uma prioridade para os que manejam o negócio milionário da Fridamania. Esta omissão não poupa as pintoras surrealistas cujas obras integram a exposição no Tomie Ohtake. Algumas delas foram para o México justamente para fugir ao regime fascista de Franco na Espanha, como aconteceu, por exemplo, com Remedios Varo. A fotógrafa Kati Horna era anarquista; Leonora Carrington era feminista militante; Lucienne Bloch foi sindicalista e ativista dos direitos trabalhistas.

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(A Carruagem, Remedios Varo, 1955. Foto: divulgação)

O título da exposição fala em “conexões”, mas os estudantes que se acotovelam diante das obras de Frida Kahlo fazendo selfies vão sair de lá desconhecendo por completo algo que unia profundamente estas mulheres: eram mulheres de esquerda, engajadas politicamente. De fato, orna melhor com o mercantilismo com que os herdeiros tratam o legado de Frida deixá-los pensar que sua militância nunca existiu.

O QUÊ: exposição Frida Kahlo: Conexões entre Mulheres Surrealistas no México
ONDE: Instituto Tomie Ohtake (rua Coropés, 88 – Pinheiros)
QUANDO: até 10/01/2016. De terça a domingo, das 10h às 19h. Ingressos a R$10 e R$5 (meia)

 

 

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