Essa revolução tem fins meramente ilustrativos. Por Banksy

Publicado em 21 de maio de 2013

Numa noite de terça, durante o verão, eu tentei pintar numa ponte ferroviária sobre a Portobello Road, no oeste de Londres, pôsteres mostrando o ícone revolucionário Che Guevara escorrendo gradualmente para fora da imagem. Todo sábado, a feira embaixo da ponte vende camisetas, bolsas, roupas de bebê e broches de Che. Eu acho que estava tentando, ao reciclar incessantemente um ícone, fazer uma declaração sobre a reciclagem incessante de um ícone. Parece que as pessoas sempre pensam que, ao se vestirem como um revolucionário, elas não precisam agir como um de fato.

Subi na ponte lá pelas quatro da manhã. Tudo estava silencioso e tranquilo até que dois carros se aproximaram bem devagar e estacionaram na rua. Parei o que estava fazendo e fiquei observando por trás dos arbustos, num dos lados da ponte. Após alguns minutos não havia mais movimento e imaginei que seria seguro continuar.

Eu já estava no quinto pôster quando ouvi um grande estrondo e um barulho de madeira se partindo. Um dos carros tinha dado ré pela rua e subido pela calçada, arrebentando a porta de uma loja de celulares. Seis pequenos vultos com capuzes e cachecóis cobrindo o rosto entraram correndo na loja e jogaram tudo que podiam em sacos plásticos pretos. Em menos de um minuto já estavam de volta nos carros, que saíram cantando pneu pela Portobello Road, lá embaixo. Fiquei parado, boquiaberto, com um balde numa mão e um esfregão com o cabo serrado na outra, o único homem jovem de aparência suspeita nas proximidades da loja. Tive a impressão de que as coisas podiam ficar feias pro meu lado se eu continuasse ali, então larguei o balde, subi a cerca e pulei pra rua.

A área estava cheia de câmeras, por isso botei o capuz do casaco, mantive a cabeça baixa e corri até o canal. Fiquei imaginando que os garotos àquela altura já deviam estar em Kilburn, acendendo um baseado e se perguntando: “Por que alguém fica pintando retratos de um revolucionário quando pode realmente agir como um?”

Banksy é o pseudônimo de um grafiteiro, diretor de cinema e ativista inglês. O texto acima foi retirado do livro Guerra e Spray – Banksy (editora Intrínseca, tradução Rogério Durst)

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Mandar o presidente para o espaço. De preferência, sem volta

Publicado em 27 de fevereiro de 2013

(o presidente egípcio prontinho para decolar)

Insatisfeitos com o desempenho do presidente Mohamed Morsi menos de um ano após sua posse, em junho de 2012, ativistas egípcios tiveram uma ideia genial: inscreveram Morsi num concurso do desodorante Axe que vai mandar o vencedor para o espaço (no que depender deles, sem retorno). A popularidade do presidente vem caindo abruptamente: dos 76% que tinha ao se tornar o primeiro presidente civil do Egito, substituindo o ditador Hosni Mubarak, desceu para 50% em pesquisa revelada este mês. Em abril, haverá eleições para o parlamento.

“Ninguém no universo pode suportar a mentira ostensiva e o não-cumprimento de promessas, exceto o fraternal povo da lua”, provocou o grupo, intitulado 6 de abril, em sua página no facebook. Morsi chegou a ficar em primeiro lugar no concurso, mas seu nome já não aparece entre os colocados e seu perfil foi retirado da página. Censura? A ideia é ótima. O vencedor ganhará uma viagem a 103 quilômetros de altitude, bem longe dos eleitores, no caso de um político. Imagina se acontece algum concurso semelhante aqui… Quem a gente mandaria para o espaço? Acho que ia ter fila.

(dica da leitora @infernoastral)

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Lugar de artista é na rua

Publicado em 26 de janeiro de 2013

 

Dobro a esquina e ouço um violino. Ao entrar no metrô, busco minha plataforma ao som de um acordeão longínquo… O artista de rua já se incorporou à paisagem e à trilha sonora de muitas capitais do mundo. No Brasil, a Constituição Federal garante o direito à livre expressão da atividade artística, independentemente de licença. Mas na cidade de São Paulo houve um tempo em que se perseguiram os artistas de rua. Imaginem!

Em agosto de 2010 vieram as primeiras denúncias de repressão. Senhores de idade, músicos de charanga, contaram como tiveram seus instrumentos apreendidos como “comerciantes ilegais”. Em outubro do mesmo ano, o guitarrista Rafael Pio, que tocava em frente a um shopping na avenida Paulista, foi abordado pela PM, que exigiu sua retirada do local. Rafael tinha a Constituição em mãos. A polícia ignorou a Carta Magna. O músico insistiu, bateu com a guitarra na viatura policial e acabou sendo algemado, jogado ao chão e levado à delegacia.

(Rafael Pio sendo algemado. Seu crime? Tocar guitarra na rua)

As fotos da agressão foram parar nos jornais e nas redes sociais, gerando revolta. Dias depois, uma manifestação aconteceu no MASP, em solidariedade a Rafael e aos artistas que ganham a vida tocando ou se apresentando na rua: malabaristas, estátuas vivas, músicos, palhaços. Diante da pressão popular, a prefeitura acabou emitindo um decreto disciplinando a utilização das ruas para a apresentação dos artistas. Agora, os artistas de rua de São Paulo lutam por uma lei para regulamentar de vez a atuação destes profissionais que suavizam o corre-corre das grandes cidades: em vez de buzinas e fumaça, acordes e poesia.

Fundada no final do ano passado, a Associação Artistas na Rua está à frente do movimento e já planejou uma maratona para chamar a atenção dos paulistanos para a causa: hoje, 26 de janeiro, a avenida Paulista será tomada por apresentações de circo, teatro, música, dança, poesia, contadores de histórias, estátuas vivas, grafite… O objetivo principal: tirar as pessoas dos locais fechados, colocá-los para viver a cidade onde moram. E conhecer seus artistas. Porque todo artista, como diz a canção, tem que ir aonde? Aonde o povo está, uai. Na rua.

Maratona das Artes
Avenida Paulista (inclusive nos parques Trianon e Mário Covas)
HOJE, dia 26 de janeiro a partir das 15 h
Vão lá!

 

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