Revolução Bolivariana: longe demais para o capitalismo, mas não o bastante para o socialismo

Publicado em 11 de junho de 2017
(Grafite de Chávez em Mérida. Foto: David Hernandez/Wikicommons)

(Grafite de Chávez em Mérida. Foto: David Hernandez/Wikicommons)

A revista novaiorquina de esquerda Jacobin publicou um texto muito bom sobre as razões da crise venezuelana, sob uma ótica totalmente distinta da mídia de direita, mostrando os acertos e os erros da chamada “Revolução Bolivariana” de Hugo Chávez.

Leitura obrigatória para quem quer entender de fato o que acontece na Venezuela. O blog traduziu para vocês. Não se esqueçam de contribuir com o tradutor Mauricio Búrigo ao final do post.

Boa leitura.

***

Por Daniel Finn, na Jacobin

Tradução de Mauricio Búrigo*

Não é possível se ter dúvidas de que a Venezuela está passando por uma crise profunda. Um grupo de socialistas do país que defendem o legado de Hugo Chávez pinta uma imagem desolada da vida cotidiana ali:

“São precisos quase dezenove salários mínimos para cobrir a cesta básica de necessidades. Podemos somar a isto a inflação, que dizem ser a mais alta do mundo, as filas intermináveis devido à escassez causada pelo armazenamento de mercadorias, revenda especulativa e baixa produção agroindustrial; e também o abuso da polícia e do pessoal militar, o drama dos enfermos que não conseguem encontrar seus medicamentos, a corrupção que segue impune, a crise de energia e o crime organizado. Tudo isso está criando uma situação de caos social, político e econômico sem precedentes na Venezuela”.

O fracasso do governo de Nicolás Maduro em manter os padrões de vida da população permitiu à oposição de direita tomar o controle da Assembleia Nacional da Venezuela, resultando em uma amarga dissociação entre executivo e legislatura que ainda tem de ser resolvida de uma maneira ou outra.

Os detalhes da crise da Venezuela foram descritos com competência em outros lugares. Mas aquilo com o qual menos se tentou lidar é o significado dessa crise para a Esquerda internacional, que uma vez depositou grandes esperanças na Revolução Bolivariana.

Chamando a atenção

Não pode haver qualquer explicação honesta sobre onde as coisas deram errado na Venezuela que não comece por reconhecer o que deu certo no Chavismo.

A experiência lançada por Hugo Chávez depois que se tornou presidente em 1999, com um modesto programa de reforma social, chamou a atenção gradualmente da Esquerda internacional. Richard Gott fez uma primeira tentativa de escrever sobre o fenômeno na sua biografia do líder venezuelano. Seu livro recebeu uma resenha desdenhosa no The Guardian de um editor do Buenos Aires Herald, que declarou que a América Latina precisava de “menos Messias e mais homens e mulheres comuns com boas credenciais de gestão econômica”. Esse era o ponto de vista predominante na aurora do século vinte-e-um, apesar dos melhores esforços dos manifestantes antiglobalização: todas as questões fundamentais acerca de como gerir uma economia já haviam sido estabelecidas pelo Consenso de Washington, de modo que saber administrar era tudo o que um bom líder precisava.

O golpe malsucedido contra Chávez em 2002 aguçou o interesse na Venezuela, assim como sua vitória no plebiscito pela cassação de mandato de 2004. Quando foi reeleito em 2006, estava claro para a maioria dos observadores que algo surpreendente estava acontecendo, com grandes implicações para a região, se não para o mundo.

Desdobramentos noutros lugares da América Latina ajudaram a cristalizar esta percepção, da posse de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Brasil, em 2003, ao ciclo de protestos na Bolívia que afinal levou Evo Morales e seu Movimento para o Socialismo ao poder. Jornalistas da imprensa dominante começaram a se referir a uma guinada à esquerda que engolfava a região –falava-se com assombro do “continente esquecido” em que uma economia sensata dera lugar a um populismo desenfreado.

Para estes comentaristas, era desconcertante o suficiente que qualquer um na Venezuela achasse Hugo Chávez uma figura atraente; a ideia de que ele pudesse ter um fã-clube borbulhante na Europa ou nos Estados Unidos parecia-lhes uma completa insanidade. A única explicação que conseguiam imaginar era a de um deleite estúpido com os discursos de Chávez ralhando contra a administração Bush –como o seu espetáculo nas Nações Unidas em 2006, quando brandiu uma cópia de Hegemonia ou Sobrevivência de Noam Chomsky e de brincadeira referiu-se ao presidente americano como o diabo.

O Chavismo no Poder

Contudo, se invectivas contra Bush e Cheney fossem o bastante para ganhar admiradores, Mahmoud Ahmadinejad teria sido uma pin-up de calendário. Na realidade, o embate verbal com que Chávez se deliciava cumpria um papel pequeno na sua popularidade. As realizações do seu governo no palco nacional era o que na verdade importava. Uma vez que se viu livre das primeiras tentativas de sabotagem econômica da oposição de direita, o governo chavista protagonizou reduções drásticas na pobreza e lançou grandes iniciativas em saúde e educação, que melhoraram a vida de milhões.

Os gastos sociais subiram de 8,2% do Produto Interno Bruto em 1998 para 13,6% oito anos depois. A pobreza caiu de 55% em 2003 para pouco mais de 30% em 2006. Quando Chávez chegou ao poder pela primeira vez, havia apenas 1.600 clínicos-gerais para uma população de 23,4 milhões; no tempo em que começou seu segundo mandato, havia quase 20 mil para uma população de 27 milhões. Mais de um milhão de pessoas se matriculou em programas de alfabetização de adultos. Os preços elevados do petróleo tornaram esse trabalho mais fácil, é claro. Os críticos mais veementes do Chavismo, porém, simplesmente ignoraram estas conquistas por completo.

Além dessas reformas econômicas, o governo Chávez transformou o sistema político da Venezuela, tornando-o mais aberto e democrático. Chávez herdou uma cultura política marcada pela violência, corrupção, e a quase total alienação dos cidadãos venezuelanos quanto aos seus governantes. O momento determinante do período que o levou à vitória foi o Caracazo de 1989. Um presidente recentemente eleito, Carlos Andrés Pérez, quebrou a promessa de romper com o programa de austeridade que o Fundo Monetário Internacional havia ordenado e impôs cortes profundos nos gastos públicos, e então mandou o Exército lidar com protestos violentos em Caracas e outras cidades.

O número exato de vítimas permanece desconhecido –muitos daqueles que foram mortos foram enterrados em valas comuns–, mas a verdadeira cifra pode chegar a 3000. Esse massacre foi ignorado em silêncio por autoridades que alegavam que Chávez havia trazido um novo tipo de amargura à vida política do país e fizera as pessoas voltarem-se umas contra as outras.

No tempo em que Chávez iniciou seu segundo mandato, seu governo podia reivindicar crédito por uma reviravolta notável, como descreveu Julia Buxton:

“Segundo apuração do Latinobarómetro, a percentagem de venezuelanos satisfeitos com seu sistema político cresceu de 32% em 1998 para mais de 57%, e os venezuelanos são mais ativos politicamente que os cidadãos de qualquer outro país examinado –47% discutem política com regularidade (comparado a uma média regional de 26%), enquanto que 25% são ativos num partido político (a média regional é de 9%). 56% acreditam que as eleições no país são ‘limpas’ (média regional de 41%) e, junto com os uruguaios, os venezuelanos exibem a mais alta porcentagem de confiança nas eleições como o meio mais eficaz de promover mudança no país (ambos 71%, comparado a 57% para toda a América Latina).”

Uma nova Constituição deu aos cidadãos mais alcance para que seus governantes se mantivessem responsáveis através de um direito de cassação de mandato de todos funcionários públicos (os partidos de oposição tiraram proveito disso no fracassado plebiscito de cassação de 2004).

Isso foi alcançado apesar dos esforços constantes da oposição de direita para derrubar o governo eleito da Venezuela pela força e substituí-lo por uma ditadura no estilo da de Pinochet. Com toda a cordialidade de seu relacionamento com Fidel Castro, Chávez não tentou imitar o sistema político cubano, e mostrou muito maior leniência para com os conspiradores do golpe do que poderia se esperar de qualquer governo na Europa Ocidental ou América do Norte.

Isso não é pretender que o Chavismo tivesse um histórico perfeito quando se tratava de direitos democráticos: havia com certeza motivos legítimos para crítica. Sobretudo, as condições deploráveis das prisões da Venezuela continuaram em grande parte sem reformas, e suas forças policiais tinham um comportamento irascível para com os residentes dos barrios urbanos. Contudo, pelos padrões aplicados a outros países nas Américas, nada disso impediria a Venezuela de ser considerada um estado democrático.

Outras críticas simplesmente não levaram em conta a violenta resistência da oposição de direita, que Chávez enfrentou desde que tomou o poder. Uma vez mais, a amnésia histórica entrou em jogo: o perigo da contrarrevolução violenta, e a necessidade de tomar medidas decisivas para evitar tal perigo, foram excluídas da maioria das análises liberais, como se não houvesse uma longa e horrível história de governos de esquerda eleitos democraticamente na América Latina que foram depostos por golpes militares.

Como manter os lobos longe da porta, sem se transformar em um lobo –essa fora sempre uma das questões fundamentais para governos propensos à mudança radical. Em vez de tratar desse dilema de frente, a perspectiva liberal prefere, de maneira implícita, render-se em face da resistência implacável das forças conservadoras, mesmo que isso signifique deixar graves injustiças sem resposta. É uma atitude que teria incapacitado Lincoln e Roosevelt tanto quanto Lênin ou Castro.

(Maduro, Evo e Ortega no túmulo de Chávez em 2016. Foto: AVN/ABI )

(Maduro, Evo Morales e Daniel Ortega no túmulo de Chávez em 2016. Foto: AVN/ABI )

O Chavismo Crítico

O melhor contraponto à crítica de praxe à Venezuela veio de entrevistas com ativistas de movimentos sociais, que apresentavam militantes entendidos, experientes, discutindo as forças e defeitos da Revolução Bolivariana com franqueza crua, desmentindo a imagem de um líder carismático, populista, que distribuísse presentes do Estado a uma massa de partidários crédulos. Essa era a voz do “Chavismo crítico”.

A Esquerda venezuelana não tinha dúvida alguma de que o governo Chávez precisava de apoio em suas batalhas com a oposição da direita e o imperialismo dos EE.UU. Igualmente, não tinha dúvida alguma de que a experiência Chavista continha sérias falhas que teriam de ser remediadas para poder sobreviver: a excessiva dependência da liderança de Chávez; as práticas arbitrárias, burocráticas, no movimento Chavista; e a corrupção disseminada entre funcionários de Estado.

Ainda assim, não havia dúvida de que o presidente da Venezuela tinha um papel decisivo em conduzir o processo. Grande parte da fascinação vinha de se tentar descobrir exatamente que objetivo Chávez tinha em mente. Ele havia chegado ao poder apresentando-se de maneira vaga como um líder da Terceira Via, nos moldes de Clinton ou Blair. Foi somente quando as elites tradicionais venezuelanas responderam com total oposição que Chávez radicalizou seu programa.

Como mostra Mick McCaughan no seu estudo do início do Chavismo, A Batalha da Venezuela, o momento decisivo veio em 2001, quando Chávez apresentou um pacote de 49 leis; embora as reformas fossem brandas em si, elas marcaram “o ponto em que comércio, mídia, petróleo, igreja e outros setores influentes colocaram as cartas na mesa e exigiram que o governo cedesse ou encarasse total resistência à continuidade do seu poder”. Derrotar esses atentados de subversão violenta requeria uma mobilização quase revolucionária na defesa do governo eleito.

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O Socialismo do Século 21

Foi somente na corrida para as eleições presidenciais de 2006 que Chávez proclamou que o socialismo fosse a meta da sua administração –”socialismo do século 21″, para ser preciso. Como o nome sugeria, esse foi definido em oposição às experiências fracassadas do século anterior; num discurso recente que procurava encapsular seu legado, Golpe de Timón, Chávez instava o público a “lembrar-se da União Soviética, que se foi com o vento; na União Soviética nunca houve democracia… Uma das coisas fundamentalmente novas sobre o nosso modelo é o seu caráter democrático”.

Mas nunca ficou inteiramente claro com o que o socialismo do século 21 pareceria. De novo, Chávez ralhava contra o sistema capitalista e pedia uma ruptura decisiva, contudo a maior parte da economia venezuelana ainda permanecia em mãos privadas. O setor estatal havia expandido e havia algumas experiências promissoras em auto-gestão de trabalhadores, mas a velha classe dominante conservava grande parte da sua riqueza, e uma nova elite –a dita “Boliburguesia”– havia começado a consolidar sua posição.

Legado Ambíguo

Quando ficou enfermo terminal, Chávez deixou três problemas-chave para seus sucessores enfrentarem. O primeiro era a questão da liderança. Teria sido difícil encontrar um substituto para Chávez, um homem de talentos políticos raros, com uma personalidade desmesurada. Mas a maneira como Chávez tratou da questão, ao nomear Nicolás Maduro para tomar seu lugar no comando do movimento, apenas reforçou o aspecto fechado do Chavismo.

Julia Buxton sugeriu que um processo de seleção prévia que permitisse a partidários da bancada governista do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) escolher entre concorrentes rivais teria fortalecido a base chavista e dado no PSUV um necessário tiro no braço. Com o histórico de Maduro no cargo, fica difícil discordar disso.

Na área econômica, Chávez deixou a Venezuela mais dependente que nunca das exportações de petróleo. Houve muita conversa nos primeiros anos do seu governo acerca de diversificar a economia e desenvolver uma base industrial mais forte, mas esses planos foram deixados à margem uma vez que os preços do petróleo continuaram a se elevar. Teria sido uma façanha notável para qualquer governo superar a dita “doença holandesa” num tempo em que rendimentos flutuantes do petróleo sorviam importações baratas que oneravam as indústrias venezuelanas até que ficassem de fora do mercado interno. Mas os chavistas agravaram o problema com empréstimos pesados de países como a China, baseando-se na suposição de que não fosse provável que os preços baixassem tanto. Quando o piso do mercado ruiu, a Venezuela se viu pobremente exposta.

Acima de tudo, Maduro herdou um sistema de taxa de câmbio e controles de preços que foi armado originalmente para ir contra a sabotagem econômica da oposição no começo dos anos 2000, mas que se havia tornado profundamente inoperante há muito tempo. Com toda a sua impressionante complexidade, os efeitos daninhos desse sistema eram (e são) claros o suficiente. Qualquer um que pudesse ter acesso a dólares na taxa oficial do governo seria capaz de vendê-los no mercado negro a um preço exorbitante. Os mesmos estímulos entraram em jogo com a comida, remédios, e outros bens de consumo básicos. Economistas simpáticos ao governo como Mark Weisbrot têm chamado a atenção aos efeitos daninhos desse sistema há anos –com um crescente senso de urgência enquanto a espiral descendente continuasse– e pedido reformas drásticas, mas o problema foi simplesmente deixado a infeccionar.

Guerra Econômica?

Maduro tem culpado a oposição pela crise, acusando-os de empreender uma “guerra econômica” contra seu governo. Mas não há necessidade alguma de postular um motivo político direto: tudo o que os vários jogadores tinham a fazer era seguir os estímulos do mercado e o resultado seria uma batida de carro econômica.

A crise da Venezuela demonstra a ambiguidade do “socialismo do século 21″, que se vê encalhado numa terra de ninguém. Ao impor controles de preço ao passo que deixava a produção e distribuição de bens quase que completamente em mãos privadas, o governo bolivariano foi longe demais para o capitalismo, mas não longe o bastante para o socialismo. O colapso dos preços do petróleo teria causado sérias dificuldades à Venezuela em quaisquer circunstâncias, mas o fracasso em reformar o sistema de controles é um erro grave, não-forçado, que bem pode se provar fatal para o processo inteiro.

É tentador se perguntar como Chávez teria reagido à crise se tivesse vivido alguns anos mais. Maduro tem sido nitidamente passivo desde que assumiu, sem qualquer desejo aparente de mexer na casa de marimbondo da reforma. Muitos observadores creem que ele está relutante em desafiar o capital corrupto investido dentro da “Boliburguesia”, a qual está tirando grandes lucros da situação atual.

É leviano simplesmente contrastar as virtudes de Chávez com os vícios do seu sucessor: Maduro tem tido que confrontar um contexto bem diferente, e seus problemas não brotaram da noite para o dia. Mas é difícil de imaginar Chávez mostrando a mesma timidez em face ao desastre evidente.

Devaneios acerca de um líder perdido não levarão os venezuelanos a lugar algum, é claro. É difícil ver como a crise de hoje pode ser resolvida de uma maneira que preserve o legado construtivo do Chavismo: sobretudo, os programas sociais que tanto fizeram para transformar as vidas das classes populares e o profundo senso de empoderamento que se estabeleceu entre setores tradicionalmente excluídos da população. Se a Venezuela tivesse uma oposição normal, um posicionamento incisivo do governo poderia ter dado ao movimento chavista a chance de recuperar seus propósitos e refletir acerca do que deu errado.

Mas a oposição é tudo menos “normal”: ainda dominada por vingativos figurões oligárquicos, não se pode ter confiança no bloco de direita da Venezuela para que mostre qualquer respeito por direitos democráticos se lograr recuperar o poder. Quando isso acontecer, o comando do PSUV talvez já tenha esfrangalhado as realizações mais formidáveis da Revolução Bolivariana.

(Lula e Chávez na Venezuela em 2005)

(Lula e Chávez na Venezuela em 2005)

Esquerda Boa, Esquerda Má

Estava na moda falar de uma “Esquerda boa” e uma “Esquerda má” quando a Onda Vermelha estava no auge. A Esquerda boa –moderada, reformista, respeitável– era supostamente exemplificada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) do governo Lula no Brasil; a Esquerda má era exemplificada, é claro, por Chávez. Num sentido, isso sempre foi uma dicotomia mentirosa e enganadora. O próprio Lula com certeza nunca reconheceu sua validade: o presidente brasileiro mantinha relações cordiais com Chávez e apoiou sua campanha à reeleição em 2012 (para desapontamento dos jornalistas que tentaram apresentar o candidato da oposição de direita como “o Lula da Venezuela”). Mas havia claramente uma diferença na abordagem do PT no poder: mais cauteloso e consensual, menos inclinado a arriscar um conflito frontal com a oligarquia brasileira.

É portanto notável que ambas experiências atingissem o fim da linha quase exatamente ao mesmo tempo, com a Direita brasileira pondo Dilma Roussef para fora num golpe parlamentar enquanto seu governo lutava para superar uma profunda recessão. A corrupção foi pouco mais que um pretexto para o golpe da direita, mas ninguém nega que o PT se extraviou um bocado da sua vocação original. As crises paralelas revelam o quanto os governos reformistas da América Latina deviam a uma longa valorização dos preços das commodities, que mudou temporariamente o equilíbrio das forças econômicas globais em seu favor. Maior moderação no poder não protegeu a Esquerda brasileira do fim daquela valorização.

Se a Venezuela e o Brasil simbolizaram duas abordagens à reforma na era da globalização, o governo do Congresso Nacional Africano (ANC) na África do Sul representou uma terceira: aquela de uma desabrochada rendição ao neoliberalismo. Essa capitulação foi saudada como a síntese do bom senso pela mesma ortodoxia que difamou Chávez e patrocinou Lula. A abordagem da ANC deixou as estruturas econômicas do apartheid inteiramente intactas, foi acompanhada de corrupção desenfreada nos círculos dirigentes, e requereu uma grande dose de repressão para manter o protesto social sob controle. Ninguém poderia apresentar isso seriamente como um resultado mais feliz que aqueles no Brasil ou Venezuela.

Lições terão de ser aprendidas a partir da morte da Revolução Bolivariana. Mas tais lições não deveriam incluir uma maior disposição de largar a vela –ou desistir de todo– em face da pressão do capitalismo global.

*Daniel Finn é subeditor da New Left Review.

 

*PAGUE O TRADUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o tradutor. Todas as doações para este post irão para o tradutor Mauricio Búrigo. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Mauricio Búrigo Mendes Pinto, Banco do Brasil, agência 2881-9, conta corrente 11983-0, CPF 480.450.551-20. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 

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Bolivarianismo tipo exportação: a comunista brasileira que é deputada na França

Publicado em 23 de abril de 2017
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(A comunista franco-brasileira Silvia Capanema. Foto: reprodução Facebook)

Por Manuca Ferreira, de Paris*

Neste domingo, 23 de abril, a França tem chance de colocar um esquerdista, Jean-Luc Mélenchon, no segundo turno da eleição presidencial, em uma disputa onde a candidata xenófoba de extrema-direita Marine Le Pen parecia ser a grande estrela. E o socialismo sul-americano estará representado por Silvia Capanema, mineira de 38 anos que vive na França desde o fim de 2002, se filiou ao Partido Comunista Francês (PCF), foi eleita vereadora, ocupa um cargo equivalente ao de deputada estadual e é secretária da juventude e luta contra as discriminações na região de Seine-Saint-Denis, a mais pobre da França continental

Casada com um franco-brasileiro, mãe de duas filhas, uma de sete meses e outra de quase três anos, Silvia prossegue na área acadêmica –ela veio à França fazer um mestrado em história e é professora de cultura brasileira, língua portuguesa e história do Brasil, Portugal e América Latina na Paris 13–, que concilia com o ativismo político.

Nessa entrevista exclusiva, por email, para o Socialista Morena, a comunista fala da campanha de Mélenchon, do France Insoumise (França Insubmissa) e sua possibilidade de chegar ao segundo turno, em 7 de maio. Silvia fala ainda dos desafios das esquerdas francesa e brasileira e diz, sem perder de vista a terra natal: “Houve golpe, sim, e é preciso reconstruir o Brasil”.

Socialista Morena – Como surgiu seu interesse pela vida político-partidária?

Silvia Capanema – Sempre gostei. No Brasil, atuei um pouco no movimento estudantil mais tradicional, mas depois me afastei e fiquei mais concentrada na vida acadêmica. Vindo morar aqui, participava de passeatas, mas não estava muito envolvida. Sempre mais envolvida na vida acadêmica, associativa, sempre de esquerda. Quando vim morar em Saint-Denis, em 2010, é que entendi a necessidade do engajamento e participação. Brinco que sempre fui comunista e não sabia. Vendo a situação da periferia francesa –Saint-Denis é uma periferia de Paris bem popular, com muitos imigrantes, alojamentos sociais, jovens desempregados–, eu me aproximei dos grupos de esquerda local. Via que, por um lado, a cidade fazia um esforço enorme em termos de serviços públicos e de rede associativa para a população, e que muita coisa funcionava. Saint-Denis é uma cidade tradicionalmente comunista. Por outro lado, havia uma necessidade grande de muitas coisas e de continuar um trabalho intenso de mobilização da população, e até de denúncia pelo tratamento desigual que recebem aqui. Denunciar o racismo, o desprezo e o preconceito das elites francesas com relação às periferias das grandes cidades. Então, veio a campanha de 2012, a presença do Front de Gauche (Frente de Esquerda) e a candidatura de Jean-Luc Mélenchon. Eu fui totalmente conquistada pelo Mélenchon e os militantes do Front de Gauche. Entrei na campanha. Quando acabou, os comunistas  locais nos acolheram e acabamos aderindo ao PCF, meu marido e eu.

O que é ser comunista na França?

Uma realização, para mim, pois me sinto ’em família’ e, ao mesmo tempo, com toda autonomia para lutar e agir. O PCF é um partido revolucionário e que, ao mesmo tempo, tem uma história de conquistas reais. Uma história nacional, com vários atuantes na resistência francesa durante a guerra (resistência à ocupação nazista). Antes mesmo da resistência, com a formação do Front Popular e as conquistas dos trabalhadores (jornada de trabalho de 40 horas, férias remuneradas) em 1936. Depois, com a composição do Conselho Nacional da Resistência e a aliança com os sociais democratas (De Gaulle) que resultou na construção do sistema social francês depois da guerra (a seguridade social, sobretudo, obra de um comunista e as alocações familiares – equivalentes ao Bolsa-Família). Mais tarde, com o programa comum de 1981 que levou à eleição de Mitterrand e algumas conquistas como a ‘renda mínima de inserção’, apesar da decepção depois. E até mesmo a participação no governo Jospin, que criou a jornada de 35 horas. Um partido próximo dos sindicatos e das lutas sociais, que se associa a outros partidos ou movimentos para obter conquistas, como foi o Front de Gauche desde 2008 e a atual campanha de Jean-Luc Mélenchon, com a France Insoumise (movimento criado em 2016). E também, um partido com uma história municipal e local forte. As periferias de Paris, várias cidades, são marcadas por prefeituras comunistas, pela presença importante da moradia social, dos serviços públicos para a infância (creches, colônias de férias, escolas), arquitetura ousada em alguns lugares, visão de que é preciso haver parques e locais de lazer para as classes populares. É uma cultura, uma tradição. Ser comunista também é participar da Fête de L’Humanité, um festival que reúne entre 200 e 500 mil pessoas todos os anos em setembro, e que é um momento forte de encontro das esquerdas mundiais. É estar próximo do povo, panfletando nas ruas, nas moradias populares. Eu tenho muito orgulho dos camaradas e orgulho de ter sido indicada para ter o cargo eletivo que tenho. Eu, cidadã de origem estrangeira, mulher que fala com sotaque, que vem de um país de terceiro mundo (logo, ‘inferior’ em muitos olhares). Só os comunistas e seus próximos é que realmente me deram o lugar de igualdade na França que eu sempre busquei ter, de cidadã. Eu devo isso a eles, a nós, que sempre confiaram em mim desde o início. Logo que aderi ao partido, já me deram responsabilidades importantes, como criar um jornal da nossa seção, que não saia há anos, e que nós conseguimos lançar e foi um sucesso. O jornal foi batizado ‘La Citoyenne’ (A Cidadã).

Como está sendo a campanha de Mélenchon à presidência?

É uma campanha inovadora, que atraiu jovens e classes populares. Ele é excelente orador e tem uma cultura muito ampla. Mudou a imagem de agressivo para a de ‘vovô sábio’, mas continua combativo. E valoriza os discursos, debates. Sempre que fala, chama muito a atenção com a astúcia de linguagem e poder de persuasão. Acabou seduzindo jovens. Ele inovou na forma, quando usou hologramas em comícios, aparecendo simultaneamente em sete cidades. Usa a internet como nenhum outro, tem um site onde recebeu mais de 420 mil apoios. Usa o youtube, redes sociais… Novos aplicativos como o Mélenphone (um telemarketing autoexplicativo que qualquer militante pode fazer da sua casa, com um programa que mostra quais os melhores militantes em números de chamadas) e um jogo eletrônico. No conteúdo, o programa também é ótimo. Um projeto econômico que é totalmente explicado e sustentado por economistas não-ortodoxos. E várias ideais que foram evoluindo e que estão explicadas em livros temáticos: juventude, relações internacionais, ecologia, escola etc… Todos os comícios dele reúnem milhares de pessoas. Ele dá esperança e tem um programa inovador, revolucionário, que propõe uma nova república e uma retomada econômica keynesiana, com aumento dos salários, cobertura da seguridade social a 100% das pessoas, aposentadoria aos 60 anos (financiada pela igualdade salarial entre mulheres e homens), agricultura ecológica que será consumida nas cantinas escolares. Nova política fiscal, que combate a evasão e taxa os grandes grupos e menos as classes médias e os pequenos empreendedores… Enfim, os pilares do conteúdo são: reforma política (VI República com menos poder dos políticos e maior controle popular), transição ecológica como motor de investimento econômico (substituir o nuclear por energia limpa; investir na agricultura orgânica), avanços sociais (mais funcionários para as escolas, saúde e polícia sobretudo; aposentadoria aos 60 anos com 40 anuidades; igualdade salarial entre mulheres e homens; seis semanas de férias e efetivar a jornada de 35 horas; aumento de mais de 15% do salário mínimo). Programa excelente com linguagem excelente. Mas, claro, as mídias combatem e o pensamento tradicional e elitista francês tem medo.

A senhora disse recentemente que o Nuit Debout (movimento político anti-institucional criado, inicialmente, para se opor à reforma trabalhista do governo socialista) influenciou a campanha de Mélenchon ainda que ele não seja um candidato do movimento. De que maneira se dá essa influência?

Ele foi sensível a esse movimento. Ele viu o Nuit Debout nascer e pensou que existia, na França, algo como os “indignados” mundo afora. Então, ele pensou na “France Insoumise”, ultrapassando o quadro do Front de Gauche, que era o nosso quadro anterior. Isso aparece na vontade de resistir ao desmonte do sistema social francês e de propor uma nova organização política mais horizontal, com renovação das instituições. Além disso, criar uma forma de enfrentar o acúmulo de capitais e de distribuir as riquezas, e de respeito à natureza de maneira incondicional.

De que maneira a senhora e a campanha de Mélenchon respondem às “acusações” de que ele seria bolivariano, interessado em fazer um processo de “venezualização” da França?

Isso é o terrorismo da grande imprensa, dos grandes grupos, dos empresários. Terrorismo que usam contra o Lula, a Dilma no Brasil, e sabemos que é absurdo! Claro que Mélenchon conhece a América Latina e usa as suas referências. E claro que não há só coisas ruins que foram feitas, principalmente em termos de democracia local. Mas ele conhece os limites e erros e o programa dele é completamente diferente e nunca vai repeti-los. Por exemplo, a dependência do petróleo na Venezuela. O que é proposto aqui é completamente diferente! Essa propaganda é a atualização das propagandas anticomunistas (perigo vermelho) que sempre se usava contra as esquerdas. Cair nisso é ignorância pura, falta de cultura. 

Sair da União Europeia e da Otan entram de que maneira no programa de Mélenchon? Corre o risco de haver segregacionismos caso ele ganhe?

Sair da Otan é a proposta clara. Quanto à UE, ele não quer sair. Quer negociar os tratados e mudar a orientação da Europa, pois do jeito que está, com a regra do déficit fiscal e da livre concorrência, vai destruir a atividade econômica dos países, e, aí sim, destruir a Europa. Mélenchon pretende criar uma Europa social, com protecionismo social (para evitar o dumping e pressionar os outros países para que eles transformem suas formas de produzir e respeitem os trabalhadores). Ele acha que a relação de forças na Europa é muito desigual e que a França, segunda economia do bloco e nação de prestígio político importante, tem condições de impor mudanças. Ele sabe que terá aliados para isso e que vai conseguir modificar, basta negociar. Mas, numa negociação, é preciso haver um plano B, para poder ganhar força caso a pressão não seja cedida. Várias pessoas estão escrevendo ‘JLM é quem pode salvar a Europa!’. É isso que queremos!

Você certamente tem acompanhado o que tem acontecido no Brasil. Qual a sua opinião sobre o quadro atual no nosso país?

Houve golpe, sim, e é preciso reconstruir o Brasil. Fazer uma série de reformas, contra-reformas e avanços sociais. Acho que o Brasil também precisa de uma VI República que combata o sistema que possibilita a corrupção. Uma reforma política radical, com Constituinte formada por cidadãos sem mandato eletivo, financiamento público de campanhas, limitação de mandatos, coerência partidária e programática. Reforma fiscal é indispensável (taxar mais, taxar heranças, rentistas, rever isenções a grandes empresas). Reforma agrária (buscando a agricultura camponesa, que pode ser a base alimentar nas escolas públicas). Reforma territorial para equilibrar as finanças dos Estados, repassando responsabilidades para a União talvez. E não aceitar as reformas feitas por Temer, fazer uma contra-reforma: Previdência, PEC dos gastos públicos, código do trabalho… Avançar nas questões feministas e de igualdade de gênero, bem como de igualdade racial e promoção da diversidade. Enfim, refundar o SUS, a educação nacional. Acho que boa parte do programa “Avenir em Commun” [programa proposto por Mélenchon] seria bom para o Brasil também! 

Há um posicionamento oficial do PC Francês e da France Insoumise sobre o processo de impeachment e o atual governo brasileiro?

Denunciamos o golpe! Tanto o PCF quanto as equipes de Mélenchon. Estamos envolvidos nos coletivos locais desde o inicio do processo. O setor internacional do PCF é bastante ativo com relação a isso. 

Após as contradições da esquerda no poder, tomando como exemplos tanto o governo socialista de Hollande como a experiência do lulopetismo no Brasil, como reposicionar este campo no atual contexto mundial?

É preciso refazer a esquerda. Uma esquerda de transformação social e de mentalidades. Revolucionária. Não ceder ao neoliberalismo e apresentar outras propostas, demonstrar. Voltar às ruas, ao encontro do povo. Deixar movimentos sociais e sindicais fortes, mas independentes. A esperança pode ser o Podemos- Unidos Podemos, na Espanha, a France Insoumise-PCF, o PSOL. Mas os grandes partidos também vão ter de se repensar, como o PT ou o PS (Partido Socialista). E se refundar. Aí poderemos fazer alianças mais largas para obter objetivos comuns, pensar nessa troca como algo que enriqueça e não deteriore os partidos. 

 

*PAGUE O AUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o autor. Todas as doações para este post irão para o repórter Manuca Ferreira. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Thiago Emanoel Ferreira dos Santos, Banco do Brasil, agência 2976-9, conta corrente 11934-2, CPF 019472405-01. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 

 

 

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The playba revolution. Ou: o fim da consciência de classe

Publicado em 12 de abril de 2017
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(Mauricinho Macri, Doria, Donald Trump e Henrique Capriles, atrás)

Fotomontagem: Magnesio Design

Há poucos dias, em entrevista à repórter Eliane Trindade na Folha de S.Paulo, o apresentador Luciano Huck falou que é hora de sua geração “ocupar os espaços de poder”. Sem tucanês, a palavra “geração” na frase de Huck deveria ser substituída por “galera”. O que o apresentador, no fundo, pensa e deseja é que está na hora de gente como ele assumir o poder: quarentões e cinquentões bem nascidos, em geral homens, que estudaram nos melhores colégios e universidades e tiveram todas as oportunidades na vida. Em resumo, playboys. Ou, mais carinhosamente, playbas.

Mas Huck está enxergando mal: os playbas já estão no poder. Nos últimos anos, gente com o perfil de Huck, Aécio Neves e João Doria Jr. tem se mostrado o maior contraponto à esquerda nas Américas. Na Argentina, Mauricio Macri é o protótipo do playba que trabalhou nas empresas da família (riquíssima) antes de entrar para a política. Idêntico perfil tem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo maior “feito” como empreendedor foi herdar tudo e colocar o nome “Trump Incorporation” no império imobiliário do papai. Como Doria, todos têm um talento todo especial para se autopromover.

Os playbas estão representados na Venezuela por Leopoldo López e Henrique Capriles; no Uruguai por Lacalle Pou; e na Bolívia por Samuel Doria Medina. Em comum, têm o fato de serem brancos, herdeiros diretos da elite latino-americana, com passagens por universidades conceituadas nos EUA e Europa, gostarem de se vestir bem e adorarem falar em meritocracia, embora a ascensão profissional não lhes tenha custado muito suor na testa além de nascer com um sobrenome vistoso (Aécio Neves que o diga).

No Brasil, junta-se aos playbas clássicos o perfil dos burocratas do setor público com salários estratosféricos e privilégios trabalhistas que fizeram e fazem deles, cada vez mais, uma casta em relação à população em geral. Jovem, engravatado, impregnado do jargão jurídico, os playbas do funcionalismo têm seus mais indiscutíveis representantes na turma da Lava-Jato: Sergio Moro, Deltan Dallagnol (o do Power Point de Lula) e Roberson Pozzobon (o das “convicções”).

Tem também a categoria dos mini-playbas: o MBL, formado por filhinhos de papai que nunca trabalharam na vida, mas que conseguiram se transformar em influência para uma parcela da juventude inimiga dos estudos e que só sabe repetir clichês neoliberais, sem base em dados científicos. “Pagamos impostos demais”, “o Estado atrapalha”, “sem CLT o trabalhador ganhará mais dinheiro”… O pior é que colou.

É inegável que os playbas estão em ascensão e que seu discurso está encontrando ressonância em uma parcela significativa da população. Para a esquerda, o mais preocupante, porém, é que esteja ganhando um espaço crescente entre os pobres. A pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo na periferia de São Paulo confirma: o jovem pobre, do sexo masculino, se espelha no playba. Deseja ser playba. Por isso o discurso de Doria chegou até eles de forma tão poderosa.

Os pesquisadores da Fundação entrevistaram pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos em todas as faixas de idade e de ambos os sexos. Algumas das respostas mostram que a esquerda precisa estar mais atenta para o fenômeno dos playbas sobretudo porque o discurso deles contra o Estado, de “meritocracia”, “empreendedorismo” e “ascensão individual” está sendo largamente repetido entre os jovens.

É frustrante para a esquerda se dar conta que em 13 anos de PT não se tenha logrado ampliar a consciência de classe entre os mais pobres. Pelo contrário, ela parece estar em franco processo de extinção, não só aqui como em outros países da América Latina. Como é possível que, após 10 anos com a esquerda governando, quase a metade dos equatorianos, por exemplo, possa ter se sentido seduzida pelo discurso de um banqueiro?

Na periferia paulistana, segundo a pesquisa, a noção de consciência de classe simplesmente inexiste.

Trabalhador e patrão são iguais, quase “colegas”.

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O discurso da “meritocracia” colou…

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…assim como o de que o Estado é “inimigo” do cidadão.

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Público é ruim, privado é bom.

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E lutar por direitos é “mimimi”.

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Apenas o “ódio ao PT” estimulado pela mídia não justifica nem explica esta adesão de parte significativa da juventude da periferia ao ideário dos ricos, sua dissociação do meio onde cresceram, mesmo porque o fenômeno é internacional: pobres elegeram Trump, pobres elegeram Doria. Como foi que ser playboy virou um objetivo na vida de tanta gente? Quando é que tanta gente mal nascida passou a olhar com tanto desprezo sua própria classe, ao ponto de desejar lhe virar as costas e se diferenciar dela o quanto antes?

Para a cientista política Lucia Avelar, pesquisadora do Instituto Cesop da Unicamp, o perfil do tecnocrata veio a calhar em um momento em que os políticos vivem uma fase de baixa. “O sujeito apolítico, competente, que no fundo quer despolitizar a política, é uma estratégia de marketing que casa com o momento de desencanto com a política”, diz. Ela também percebe esse descolamento dos moradores da periferia de suas origens, sobretudo entre os brancos. “O branco das classes mais baixas, pouco educado, tem aspirações de mobilidade, de status mais alto, não quer se misturar com gente da sua própria classe, querem ser ‘desiguais’, se diferenciar dos outros. ‘Tem gente pior do que eu, que vive debaixo da ponte’.”

Este é um dado, aliás, que também aparece na pesquisa da Fundação Perseu Abramo, e confirma que a consciência de classe deu lugar à rejeição às origens.

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Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, o espantoso seria o contrário. “Em toda a sociedade há um modelo a ser seguido pelos outros, que é o modelo dos mais ricos, dos mais poderosos, da nobreza nos tempos medievais. O poder é um espetáculo. E sendo um espetáculo, os principais atores são aqueles que são mais prestigiados”, diz. “Numa sociedade de forte consumo, o consumo tem um atrativo gigantesco.”

Enquanto a esquerda vê os playbas como fúteis, vazios, cafonas, sem estofo, e assim os subestima, eles se tornaram uma meta para uma massa que vai muito além da “elite” que o PT sempre criticou, enquanto, paradoxalmente, fazia a inclusão pelo consumo –uma das causas para esse desejo tão fundo de ser playboy, segundo Janine Ribeiro e Lúcia Avelar. “A vitória política numa sociedade democrática depende de conseguir hegemonia na sociedade. Em 2001 e 2002, o PT tinha conseguido isso. Havia uma indignação generalizada contra a pobreza, a miséria. Há um vídeo incrível do Duda Mendonça que mostra gente saindo de uma festa e quando aparece o rapaz de barba e bolsa dizendo ‘ se você se sente mal ao ver isso, em algum ponto você é petista, mesmo que não saiba'”, lembra JanineRibeiro.

“Foi uma tacada de gênio, o PT conseguiu fazer a conquista dessa imagem. Foi ganhando eleições, mas rapidamente perdeu essa hegemonia. Quando a direita conseguiu colocar a corrupção contra o PT, isso significou que a causa ética, que era a marca registrada do PT, foi embora. Não é que o PT foi corrupto tanto quanto dizem, mas esqueceu de lutar pela causa ética. Preferiu a inclusão da miséria, mas encarada de forma pragmática, pouco ideológica”, continua. “E, a partir de 2005, 2006, começa uma troca de hegemonia no país, e foi num crescendo. A hegemonia mudou de lado, e é um pacote inteiro: o combate à corrupção, identificada enganosamente com o PT, e o combate aos programas sociais que vem pela valorização do mérito.”

Em minha opinião, as esquerdas têm se equivocado não por priorizar o coletivo –é assim que tem de ser, claro–, mas por não prestar a devida atenção, ao mesmo tempo, ao indivíduo (leia mais aqui). O que a pesquisa Fundação Perseu Abramo mostra com clareza é que o cidadão periférico, assim como os de classe média, deseja ser “self made man”, crescer por si próprio e se tornar, ele mesmo, patrão. A esquerda deixou a “nova classe trabalhadora” pensar que, ao empreender, se situa automaticamente à direita, o que não é verdade.

Nada mais caro à esquerda do que a imagem de uma pessoa que saiu do nada e chegou a ser “alguém” na vida. Tanto é que há uma distopia: as periferias querem empreender, mas estão mirando em exemplos de “empreendedores” que não o são, de self made men que não o são, já que seus ídolos na verdade nunca deram duro na vida, trilharam o caminho mais fácil até o sucesso. Afinal, saíram com muito mais vantagem do ponto de partida, embora encham a boca para falar em meritocracia.

A boa notícia para o campo progressista é que Lula ainda continua representando um referencial neste sentido. A má notícia é: e quando não houver mais Lula?

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