Salvador Allende e a esquerda desvairada. Por Darcy Ribeiro em setembro de 1973

Publicado em 11 de setembro de 2015
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(Salvador Allende em sua posse, em 4 de novembro de 1970. Foto: Naúl Ojeda/Arquivo Fundação Salvador Allende)

Em 11 de setembro de 1973, um golpe militar derrubava o presidente socialista Salvador Allende, eleito três anos antes no Chile. Allende saiu morto do Palácio de la Moneda, bombardeado pelo Exército. Poucos dias após, o antropólogo Darcy Ribeiro, amigo do presidente, publicou em vários países um texto crítico ao papel de parte da esquerda no fracasso da experiência chilena. Para Darcy, muita gente não percebeu a importância histórica do socialismo proposto por Allende, sem luta armada, e são co-responsáveis pelo golpe.

Alguns aspectos narrados por Darcy lembram bastante o Brasil que vivemos atualmente, embora não se possa dizer que o País esteja caminhando para o socialismo a não ser nos delírios da direita. Leia abaixo trechos do artigo, que pode ser conhecido na íntegra no livro Gentidades (editora LPM). De bônus, o curta documentário de Ken Loach que relaciona o 11 de setembro no Chile à derrubada das torres gêmeas em Nova York em 2001.

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Salvador Allende e a esquerda desvairada
Por Darcy Ribeiro, Lima, setembro de 1973

Escrevo sobre um estadista. O mais lúcido com quem convivi e o mais combativo. Um estadista que deixa como legado para nossa reflexão a experiência revolucionária mais generosa e avançada do nosso tempo: edificar o socialismo em democracia, pluralismo e liberdade.

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Conheci Salvador Allende em 1964, quando ele nos foi visitar, a João Goulart e a seus ex-ministros, exilados no Uruguai. Sempre me recordarei das longas conversas que tivemos então. Recordo, sobretudo, o deslumbramento com que ouvi – eu era, então, um provinciano brasileiro, que só depois aprenderia a ser latino-americano – a lucidez e a paixão com que ele analisava e avaliava nosso fracasso.

Através de suas palavras, percebi, pela primeira vez, claramente, as dimensões continentais e mundiais do nosso fracasso e o seu terrível impacto sobre a luta de liberação da América Latina.

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(O presidente Allende na rua em Santiago. Foto: Naúl Ojeda/Arquivo FSA)

Meu sentimento sempre foi –e o é, desde agora – o de que Allende, no plano ideológico, era um homem só, sem ajuda. Incompreendido. Mesmo os chilenos mais próximos dele se surpreendiam a cada dia com a grandeza do homem que os incitava e comandava. Não lhes era fácil substituir a imagem corrente do senador, tantas vezes candidato à presidência, pela figura do estadista que nele reconheciam agora, surpresos e às vezes duvidosos. Mais difícil ainda, para muitos, era aceitar a sua liderança de estadista, dentro de um processo político, quando o que aspiravam na realidade era um comandante à frente de um grupo de ação direta.

Aquele homem sozinho encabeçava, delineava e dirigia o processo mais generoso e complexo do mundo moderno, elevando o Chile a alturas incomparáveis de criatividade teórica e a impensáveis ousadias de repensar tudo o que as esquerdas tinham como dogmas. Sua tarefa era nada menos que abrir uma rota nova – evolutiva – ao socialismo.

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(Allende e sua jaqueta de couro característica)

Para esta gigantesca tarefa político-ideológica, Allende estava só. Para uns, os ortodoxos, a via chilena era uma espécie de armadilha da história que punha em risco conquistas e seguranças duramente conquistadas em décadas de lutas. Apesar disso, foram eles os que melhor compreenderam o processo em sua especificidade e os que mais ajudaram , tanto a realizar suas potencialidades, como a reconhecer suas limitações. Mas isto é dizer muito pouco ainda quando, na realidade, os comunistas chilenos foram o único apoio sólido e seguro com que Allende contou em seus três anos de luta.

Para outros, os desvairados, não existia nenhuma via chilena. Na cegueira de seus olhos cegados por esquemas formalistas e no sectarismo de sua disposição unívoca para um voluntarismo, tão heróico quanto ineficaz, eles só queriam converter o Chile em Cuba, concebida como único modelo possível de ação revolucionária. Além de visivelmente inaplicável às circunstâncias chilenas, o modelo que tinham em mente não era mais que uma má leitura teórica da experiência cubana. E, como tal, inaplicável em qualquer parte, porque se via nela a ação armada, fechando os olhos à complexa conjuntura política dentro da qual a ação guerrilheira teve ali, e só ali, lugar e eficácia.

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Os socialistas, membros de um partido eleitoreiro, viviam do antigo, renovado e crescente prestígio popular de Allende: mas, vazios de uma ideologia própria, passaram a funcionar como uma caixa de ressonância dos desvairados, criando com o seu radicalismo verbal e sua inflexibilidade tática os maiores obstáculos à política do governo. De fato, a maioria de suas facções atuou mais contra Allende – através de denúncias despropositadas, de exigências infantis e de propostas provocativas – que contra o inimigo, jamais reconhecendo o caráter gradualista do processo chileno ou ajustando-se a seus requisitos específicos. Entregues a disputas estéreis com os comunistas, os socialistas punham nelas mais energias do que na luta concreta contra o inimigo comum.

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O que vi foram muitos dos “melhores teóricos” – porque haviam lido e escrito mais esta tolice exegética que se autodenomina marxismo de vanguarda – vagando pelo Chile como se estivessem na lua, incapazes de perceber e de entender o processo revolucionário que tinham diante deles, porque para seus olhos cegos tratava-se de um mero “reformismo”.

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Desde o primeiro momento, Allende percebeu com toda lucidez que eram falsos ou que não se aplicavam à via chilena alguns dos célebres dogmas das esquerdas desvairadas. Entre eles o de que se avança para o socialismo exclusivamente pela luta armada; o de que o socialismo se constrói sobre o caos econômico; e o de que é necessário derrubar primeiro toda a legalidade “burguesa” para abrir caminho para o socialismo.

O primeiro destes dogmas pressupunha a convicção de que entre o status quo e o socialismo estaria uma vitória militar sobre as Forças Armadas. Allende sabia que não podia enfrentá-las diretamente, e as via com maior objetividade. Primeiro, como uma burocracia tão disciplinada e hierarquizada que poderia, talvez, ser submetida aos poderes institucionais se se mantivesse a ordem constitucional. Segundo, como uma instituição eminentemente política, com tendências fascistas – por lealdades classistas, por sua constituição gerontocrática e seu doutrinamento anti-revolucionário –, mas suscetível de ser ganha ou anulada politicamente pela ação disciplinada do povo organizado dentro de um movimento ao socialismo em democracia, pluralismo e liberdade.

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(O Palácio de la Moneda no dia seguinte ao bombardeio. Foto: Luis Poirot/Arquivo FSA)

(A lúgubre imagem do Palácio de la Moneda no dia seguinte ao bombardeio. Foto: Luis Poirot/Arquivo FSA)

Entretanto, para prosseguir neste controle institucional das Forças Armadas, seria necessário preencher um requisito indispensável: o de que Allende tivesse, efetivamente, o comando unificado sobre as esquerdas militantes e as pusesse em ação dentro do processo de transição pacífica ao socialismo. Isso ele jamais conseguiu. Os atos desesperados da esquerda desvairada, somados à inércia e à demagogia dos confusos líderes socialistas, contribuíram para minar estas condições, facilitando assim a conspiração de uma direita unida, francamente entregue à contra-revolução, e para isso apoiada internacionalmente através de toda ordem de sabotagens econômicas e financeiras, articuladas e desencadeadas com rigor científico para inviabilizar seu governo.

Nestas condições, as lideranças democratas-cristãs, aliadas à extrema-direita, fizeram do Parlamento um órgão de provocação, chantagem e bloqueio ao poder Executivo; ao mesmo tempo em que as altas hierarquias do poder judiciário questionavam a legalidade dos atos do governo. Simultaneamente seus aparelhos ideológicos levavam as camadas médias ao desespero, pelo terror de perder, não o que tinham –que era bem pouco– mas suas esperanças de enriquecimento e prestígio que, segundo se dizia, em um regime socialista lhes seriam completamente negadas.

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Há muito o que aprender desta experiência única de repensar com originalidade os princípios da política econômica para conduzir um processo de transição ao socialismo, dentro da institucionalidade vigente. Entre suas vitórias estão: a de haver acabado com o desemprego; a elevação substancial do padrão de vida das camadas mais pobres; o aumento ponderável da produtividade industrial; a ativação da Reforma Agrária; a imposição do controle estatal sobre os bancos privados e o comércio exterior; a socialização das empresas-chave e, sobretudo, a recuperação para os chilenos das riquezas nacionais, começando pelo cobre, sujeito desde sempre às mãos estrangeiras.

Em três anos, Allende conseguiu mais por esta via, do que qualquer revolução socialista em igual período. Por isto é que, mesmo sendo governo, ganhou eleições, o que jamais havia ocorrido no Chile. Mas também levou ao desespero os privilegiados, desafiando-os a promover a contra-revolução como único modo de garantir a sua sobrevivência como classe hegemônica. Para isso, eles atuaram principalmente sobre os militares e sobre as classes médias cuja alianças lhes garantiria a vitória.

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(Corpo de Allende sendo retirado do Palácio de la Moneda)

Este artigo é uma incitação para que meditemos sobre esta lição com o devido respeito por sua grandeza e com a coragem necessária à autocrítica. Todos nós, as esquerdas da América Latina e do mundo, fomos derrotados no Chile. Cada um de nós tem, consequentemente, a sua autocrítica a fazer, tanto pelo que fizemos de danoso ao processo chileno, como pelo que deixamos de fazer em seu apoio. Acusar apenas ao inimigo que nos venceu pela enumeração minuciosa de seus atos, apenas reitera a convicção generalizada sobre sua eficiência. Nossa tarefa é vencê-lo.

O que não pode ser posto em dúvida é que Allende explorou até os últimos limites as possibilidades que a história abriu aos chilenos de edificar o socialismo em democracia, pluralismo e liberdade. E que a Unidade Popular teve possibilidades de vitória com respeito às quais a direita chilena e o imperialismo jamais duvidaram. Sua lição é ter nos indicado um caminho duro e difícil. Um caminho que exigirá, amanheça, dos que o retomarem, a mesma lucidez, inteireza, retitude e coragem com que Allende marchou para ele até a morte, com o propósito de, sobre sua derrota, abrir uma via vitoriosa ao socialismo. A via evolutiva, participatória, pluralista, parlamentar e democrática, apesar de tão dificultosa é a mais praticável em muitas conjunturas no mundo de hoje.

Com Che Guevara a história nos deu o herói-mártir do voluntarismo revolucionário que dignificou a imagem desgastada das lideranças da velha esquerda ortodoxa. Com Allende, a história nos dá o estadista combatente que chega à morte lutando, em seu esforço por abrir aos homens uma nova porta para o futuro, um acesso ao socialismo libertário que pode e que deve ser.

Ele será o inspirador dos que terão futuramente que lutar pelo socialismo, sob oposição parlamentar e debaixo do risco de um golpe militar. Oxalá, onde e quando isso ocorra, exista uma esquerda por fim politicamente madura e dessacralizada de dogmatismos, tão combativa quanto lúcida e sobretudo capacitada para ver objetivamente a situação em que atua e para aceitar e enfrentar as tarefas que a História lhe proponha.

 

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Em Camaradas

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40 anos do golpe no Chile – O papel sujo do Partido da Imprensa Golpista… deles

Publicado em 11 de setembro de 2013

El Mercurio Miente. A faixa pendurada pelos estudantes da Universidade do Chile no dia 11 de agosto de 1967, é o equivalente chileno a “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo”. Assim como acontece aqui, a frase vem à baila toda vez que se denuncia o conglomerado midiático número 1 do país pela manipulação da informação. Naquele ano, o centenário jornal da família Edwards assumiria uma posição radicalmente contra a possibilidade de reformas no país. Seis anos depois, conspiraria para derrubar o presidente eleito Salvador Allende.

Em editorial sobre a greve dos estudantes, El Mercurio apontou “inspiração comunista” no movimento estudantil, daí a faixa; as passeatas que tomavam o Chile pedindo reforma agrária eram obra de “agitadores”. Desde o primeiro momento, o jornal se posicionou abertamente contra a virtual eleição do senador de esquerda Salvador Allende à presidência. Quando Allende se elegeu em 1970, saiu-se com a manchete: “Maioria relativa de Allende: 1.075.616 votos contra”. Fosse hoje em dia, diríamos que tucanou a vitória da Unidade Popular.

El Mercurio entendeu que era o fim da sociedade oligárquica chilena. Isto o levou a ser um jornal não só anti-Allende mas anti-democrático. Um jornal golpista. E uma vez que justificou e promoveu o golpe, teve que defender toda a violação de Direitos Humanos que se seguiu”, diz o sociólogo e cientista político chileno Manuel Antonio Garretón no documentário El Diario de Agustin.

Dirigido por Ignacio Agüero em 2008, o filme narra o papel sujo que teve El Mercurio como partícipe do golpe de Estado que derrubou Salvador Allende há exatos 40 anos, completados hoje, 11 de setembro. A adesão descarada e a cumplicidade integral do jornal fariam corar até mesmo os donos da mídia brasileira. Aqui, pelo menos, houve alguma reação, por menor que tenha sido. No Chile, os jornais dos Edwards foram os únicos poupados pela ditadura de Pinochet do empastelamento. “Menos mal que escapamos, não é? Não vou dizer que a suspensão das atividades da concorrência foi uma notícia ruim”, diz cinicamente no documentário um ex-diretor de El Mercurio.

O golpe militar no Chile e o grupo El Mercurio foram irmãos siameses. No dia seguinte à eleição de Allende, o dono do jornal, Agustín Edwards (são vários Agustín consecutivos à frente do diário), viajaria a Washington, nos EUA, onde teria reuniões pessoais com o secretário de Estado, Henry Kissinger, e com o diretor da CIA. Hoje se sabe, com base em documentos, que o motivo dos encontros já era como evitar que o novo presidente tomasse posse. Falou-se inclusive em “opção militar”. Nos anos seguintes, a organização de mídia de Edwards receberia 2 milhões de dólares da CIA –em torno de 11 milhões de dólares em valores de 2008– como parte da estratégia golpista norte-americana contra os governos de esquerda na América do Sul.

Allende enfim tomou posse e El Mercurio, La Segunda e La Tercera, os jornais do grupo, começaram a fazer seu papel: manchetes e mais manchetes contra o governo. Allende tinha a noção exata do inimigo que enfrentava. “Se deforma, se mente, se calunia, se tergiversa. Os meios de comunicação com que contam (a direita) são poderosos, jornalistas vinculados a interesses estrangeiros e a grandes interesses nacionais. Não só não reconhecem como deformam nossas iniciativas”, disse o presidente na conversa que teve com Fidel Castro em 1971.

A aliança do jornal com a direita golpista e com os EUA culmina no enredo que conhecemos: o bombardeio do palácio de la Moneda e a morte do presidente, que ganharia uma chamada lacônica na primeira página, abaixo da notícia sobre a tomada do poder pela junta militar: “Morreu Allende”. Nos anos seguintes ao golpe, os anúncios de “procura-se” dos inimigos de Pinochet eram publicados com desfaçatez em primeira página por El Mercurio, ao lado da manchete do dia. O documentário relata episódios escabrosos em que o jornal foi utilizado pela ditadura para dar veracidade às farsas governamentais para encobrir a prisão, tortura e morte de oposicionistas. Somente na década de 1990 o diário deixaria de usar a expressão “suposto” quando se referia às vítimas de Pinochet.

Em uma das muitas histórias mal contadas do período, 119 desaparecidos aparecem mortos na Argentina. A notícia sai primeiro em um jornal de Curitiba e em uma revista portenha. Nas páginas de El Mercurio, se transforma em “executados pelos próprios camaradas”. O jornal La Segunda faz pior e celebra a morte dos “terroristas” em primeira página: “Exterminados como ratos”.

Em 1976, os jornais da família Edwards noticiam o assassinato de uma militante comunista, sob tortura, como se fosse “crime passional”, legitimando a versão encenada pelo governo. O bom trabalho seria seguidamente prestigiado por Pinochet com sua presença nas festas de aniversário de El Mercurio e com frases como “El Mercurio, trincheira contra o totalitarismo” estampadas, é claro, em manchetes do próprio jornal.

É um filme para se assistir com o estômago embrulhado, principalmente quando se lembra que, em todos estes anos, a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) jamais foi capaz de condenar El Mercurio, assim como tampouco foi capaz de condenar qualquer jornal brasileiro por ter apoiado a ditadura. A mesma SIP que volta e meia é utilizada pela nossa mídia para criticar Cristina Kirchner, Evo Morales ou Hugo Chávez como “ditadores”. Imaginem se um governante chileno resolvesse fazer uma Lei de Meios no país e acabar com o poderio dos Edwards, donos de 20 jornais regionais e três nacionais. Claro, seria imediatamente acusado de “atentar contra a liberdade de expressão”. Mas e acobertar assassinatos, é o quê?

Foram 2279 mortos e 28456 as vítimas de prisão e tortura durante o bárbaro regime de Pinochet. Quando essa cifra veio à tona, em 2004, o presidente Ricardo Lagos perguntou: “Como pudemos viver 30 anos de silêncio?” Uma vergonha para a imprensa e os jornalistas do país. Ao se associar a Pinochet, o grupo de comunicação mais poderoso do Chile se tornou cúmplice de cada uma dessas violações dos Direitos Humanos. No 40º aniversário do golpe de Estado no Chile, porém, El Mercurio nem sequer deu mostras de arrependimento em suas páginas. É até melhor assim. Quem precisa de cinismo uma hora dessas?

(Não deixe de ver o documentário El Diario de Agustín, de Ignacio Agüero, no link abaixo. Infelizmente não existe ainda a versão com legenda em português no youtube, mas vale a pena. O filme não foi exibido até hoje na TV chilena. Os defensores da liberdade de expressão não permitiram.)

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Em Cine Morena

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