Grandes momentos “Os Miseráveis” da operação Lava-Jato (até agora)

Publicado em 25 de setembro de 2016
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(Ilustração da primeira edição de Os Miseráveis, de Victor Hugo, por Emile Bayard, em 1862)

Meu pai era fã de Os Miseráveis (1935), uma das muitas versões para o cinema do clássico de Victor Hugo, com Fredric March como Jean Valjean e Charles Laughton como seu implacável perseguidor, o inspetor Javert. Todas as vezes que o filme passava na sessão Coruja, meu pai juntava os filhos no sofá para lhe fazerem companhia. A história, portanto, é muito vívida em minha memória. Valjean, desesperado pela fome, roubara um pão. E, por este crime, é caçado por Javert a vida inteira, com requintes de sadismo.

O excessivo rigor da Lava-Jato apenas com os petistas, a mão pesada seletiva do juiz Sérgio Moro, sempre me evocam Javert, o inspetor que se achava a própria encarnação da lei. Uma coisa é lutar contra a corrupção, que é o que os procuradores e Moro dizem estar fazendo com esta operação. Outra, bem diferente, é agregar a esta sanha supostamente moralizadora um indisfarçável justiceirismo, capaz de despertar na sociedade um sentimento torpe de vingança.

Como nas execuções medievais, não basta submeter os acusados ao rigor da lei, é preciso expô-los em praça pública, garantir platéia para os momentos mais… miseráveis; as emissoras de TV (sobretudo a Globo) são avisadas com antecedência de cada uma das ações. A própria necessidade de prisão preventiva já foi denunciada pelos advogados de defesa dos detidos na operação como “tortura psicológica” para forçar a delação premiada.

Reúno aqui alguns momentos da Lava-Jato que mais me fizeram vir à mente as cenas de Os Miseráveis, por sua mesquinhez. Este tipo de “castigo” está em total desacordo com as noções mais modernas de punição, como as que defendem a adoção de penas alternativas nos casos em que o criminoso não oferece risco à sociedade. Certamente momentos piores virão e este post poderá ser ampliado no futuro.

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(Charles Laughton como o inspetor Javert no filme de 1935)

Prendam-no no hospital – O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi preso no dia 22 de setembro pela Lava-Jato na porta do hospital Albert Einstein, enquanto aguardava sua mulher, que está se tratando de um câncer, ser operada. Vários juristas criticaram a necessidade do pedido de prisão provisória de Mantega. Após a repercussão negativa, Moro acabou revogando o pedido no mesmo dia, como se estivesse agindo por questões humanitárias. Ora, se a prisão era mesmo necessária, por que foi revogada?

Sequestrem a casa da mãe – Em abril, o juiz Moro sequestrou judicialmente a casa onde mora a mãe de José Dirceu, Olga Guedes da Silva, em Passa-Quatro (MG). A senhora tem 94 anos. Moro, magnânimo, decidiu que ela pode continuar morando na própria casa como “depositária”.

Tranquem ele no escuro – O ex-senador do PT Delcídio contou à repórter Malu Gaspar, da revista Piaui, que decidiu fazer a delação premiada após ter sido trancado num quarto sem luz na sede da Polícia Federal em Brasília, sufocado pela fumaça do gerador do prédio. “Aquilo encheu o quarto de fumaça, e eu comecei a bater, mas ninguém abriu. Os caras não sei se não ouviram ou se fingiram que não ouviram. Era um gás de combustão, um calor filho da puta. Só três horas mais tarde abriram a porta. Foi dificílimo”, contou Delcídio.

Tirem-lhes os menores prazeres – Em agosto, Dirceu e seu companheiro de cela, Pedro Argôlo, foram castigados pela Lava-Jato porque foram encontrados no cubículo que dividem em Curitiba quatro pendrives, um carregador de celular modelo Samsung, um carregador de um aparelho portátil de reprodução de música e um cabo com entrada USB. Nenhum celular, contudo, foi achado. Os pendrives continham filmes e músicas. Só como comparação, até os presos da ditadura tinham direito a escutar seus radinhos de pilha.

Conduzam-no coercitivamente – Em março, o ex-presidente Lula, que nunca se recusara a comparecer à Justiça e ainda não era réu em nenhuma ação, foi conduzido coercitivamente a mando de Sérgio Moro em circunstância que até hoje permanecem nebulosas. Lula foi tirado de sua casa e levado ao aeroporto de Congonhas, onde foi ouvido durante três horas e meia. Existiram muitos rumores de que Lula iria ser levado para Curitiba e alguma coisa fez com que a operação fosse abortada. O que ocorreu? Foi mesmo necessária a condução de Lula coercitivamente? Sem dúvida: não.

Mantenham-no sujo – Os advogados do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, reclamaram ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) em abril de 2014 melhores condições de prisão para seu cliente, que não podia tomar banho, se exercitar ou ter acesso à luz do dia (tomar banho de sol) durante os finais de semana. Costa chegou a escrever uma carta onde se queixava que, após reclamar da falta de banho, teria sido ameaçado pelos policiais de ser mandado para o presídio de segurança máxima de Catanduvas. Em agosto do mesmo ano ele assinou a delação premiada.

Impeçam-lhes o afeto – Os presos da Lava-Jato não têm direito a visita íntima de suas mulheres e companheiras. Qual a justificativa disso a não ser abalar ainda mais o psicológico do indivíduo? Segundo especialistas, a visita íntima é importante para a manutenção dos laços afetivos e a ressocialização do preso. A intenção da prisão não é que paguem por seus erros e recuperá-los para a sociedade? A castidade forçada, afinal, não faz parte da pena.

Confisquem as castanhas – A mãe de Pedro Argôlo, que é do sul da Bahia, costumava mandar doces caseiros e castanhas para o filho, que repartia com José Dirceu, seu companheiro de cela. Sem explicação alguma, a entrada das castanhas e compotas foi subitamente proibida e agora só entram produtos alimentícios para os presos se houver recomendação médica.

Façam-no falar – Em fevereiro deste ano, Marcelo Odebrecht foi transferido do Complexo Médico-Penal em Pinhais, onde estão detidos os presos da Lava-Jato, para a carceragem da Polícia Federal, onde fica numa cela de 7 metros quadrados, que divide com outros detentos. Em dez dias na nova cela, onde permanece encarcerado por 23 horas seguidas com apenas uma para o banho de sol, Marcelo estava com quadro de anemia e deficiência de vitamina D ligada a hipoglicemia. A defesa do empreiteiro solicitou reforço na dieta e pediu que voltasse ao complexo. Moro autorizou a melhora alimentar, mas não permitiu o retorno a Pinhais.

Trancafiem-no e joguem a chave fora – Em outubro de 2016, José Dirceu pediu ao juiz Sergio Moro para responder o processo em liberdade, por já estar com 70 anos e ter uma filha de 6 anos para sustentar. Alegou que a família passa por dificuldades financeiras e disse que não falava isso para que sentissem pena dele, mas por achar que tem direito à progressão da pena. Moro negou.

 

 

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Assistam Aquarius: boicotar obras de arte em função de ideologia é atestado de burrice

Publicado em 14 de setembro de 2016

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O cantor Chico Buarque é de esquerda.

O cantor Lobão defende a tortura.

O dramaturgo Nelson Rodrigues apoiou a ditadura militar.

O dramaturgo Plinio Marcos foi perseguido pela ditadura.

O poeta Ezra Pound era fascista.

O poeta e dramaturgo Bertolt Brecht era comunista.

O romancista Gabriel García Márquez era socialista.

O romancista Mario Vargas-Llosa é liberal.

O pintor Salvador Dalí era anticomunista.

O pintor Pablo Picasso era comunista.

O escritor Louis-Ferdinand Céline era antissemita.

O filósofo Walter Benjamin foi perseguido pelos nazistas.

O escritor Jorge Luis Borges apoiou a ditadura militar na Argentina.

O escritor Julio Cortázar foi contra a ditadura militar na Argentina.

O cineasta Kleber Mendonça Filho é de esquerda.

O cineasta José Padilha é antipetista.

A escritora Rachel de Queiroz apoiou o golpe de 1964.

O escritor Jorge Amado era comunista.

A pintora Frida Kahlo tinha a foice e martelo em sua armadura de gesso.

A cineasta Leni Riefenstahl era nazista.

O ator e diretor Clint Eastwood é reaça.

O roteirista Dalton Trumbo era comunista.

Um blogueiro da revista Veja que relativiza a ditadura militar resolveu propor em sua página o boicote da direita a Aquarius, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, porque a equipe do filme se posicionou no festival de Cannes contra o golpe parlamentar que arrancou Dilma Rousseff da presidência. “Assim que o filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, estrear no Brasil, as pessoas com vergonha na cara e amor à verdade têm uma obrigação: boicotá-lo”, escreveu o articulista do panfleto reacionário dos Civita. “O dever das pessoas de bem é boicotá-lo. Que os esquerdistas garantam a bilheteria.”

Para desespero do blogueiro reaça, a frase acabou sendo usada no cartaz do filme para promovê-lo, gerando nova onda de fúria. “O petralha de Aquarius resolveu usar meu nome para faturar uns trocados. Ou: não tomo o feijão do povo para financiar metáforas vagabundas”, rosnou o “colunista”, que já foi chamado pela ombudsman do próprio jornal onde também escreve, a Folha de S.Paulo, de rottweiler.

O que essa gente propõe? Que quem é de direita nunca mais ouça Chico Buarque? Que quem é de esquerda nunca mais leia Jorge Luis Borges? Que tenhamos de escolher entre Picasso e Dalí, entre García Márquez e Vargas Llosa, a depender de como pensamos politicamente? Boicotar obras de arte em função da posição ideológica dos autores é o maior atestado de burrice que um ser supostamente pensante pode dar. Sobretudo porque é impossível criticar sem assistir, ler ou ouvir a obra em questão. Como criticar Aquarius se você não viu?

Aquarius é um filme “de esquerda”? Não. É um filme, sem dúvida, contra a especulação imobiliária. Mas precisa ser de esquerda para se o opor à destruição das cidades onde vivemos para que meia dúzia de privilegiados nade em dinheiro? Acho que não. Além disso, Aquarius traz a musa do cinema brasileiro Sonia Braga em um dos grandes papéis de sua vida, terno, ao mesmo tempo suave e forte; é ainda uma história sobre maturidade e as escolhas que fazemos na vida. Um filme existencialista, isso sim. Pessoas de esquerda e direita deviam vê-lo. Ou não. Mas tirem a ideologia desta escolha.

O mais idiota desta história toda é que estes mesmos reaças que propõem boicotar uma obra de arte porque o diretor não comunga de suas opiniões politicamente costumam ridicularizar as pessoas que resolvem deixar de dar seu dinheiro a empresas que exploram os empregados, que produzem comida lixo ou que degradam o meio ambiente. Ou seja, boicotar filmes, livros e músicas é bacana. Boicotar empresas vagabundas, não. Dá para entender?

A proposta de boicote a Aquarius tem o mesmo DNA da estúpida ideia da Escola Sem Partido, que quer impedir os estudantes brasileiros de terem acesso ao conhecimento sobre o socialismo e até sobre Karl Marx. No fundo, o que essa direita pseudointelectual pretende é emburrecer os jovens e a sociedade como um todo. Querem que a capacidade de refletir e de se indignar dos cidadãos se perca. Subtrair conhecimento em vez de acrescentar não forma indivíduos pensantes, pelo contrário. Ainda mais quando se trata de arte.

É perfeitamente possível separar a arte da ideologia. Nos faz mais inteligentes enfrentar preconceitos para tentar entender o ponto de vista do outro, e então criticá-lo ou saudá-lo. Fugir do confronto é um sinal inequívoco de inferioridade intelectual. Por que o blogueiro de Veja teme Kleber Mendonça? Por que ele teme Aquarius? Me parece um atitude covarde propor que as pessoas deixem de assistir a um filme apenas por não concordar com o que seu diretor pensa. Covarde e burra.

 

 

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Stranger Things é uma metáfora sobre como estamos nos perdendo no mundo virtual

Publicado em 9 de agosto de 2016

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***SPOILER***NÃO LEIA ESTE TEXTO SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU A SÉRIE ATÉ O FINAL***SPOILER***

Numa leitura óbvia, Stranger Things, a série do canal por assinatura Netflix cuja primeira temporada virou febre entre os brasileiros, é uma espécie de paródia genial de sucessos dos anos 1980, principalmente E.T. (1982)Os Goonies (1985) e Conta Comigo (Stand by Me, de 1986), misturada a filmes de terror como A Pequena Loja de Horrores (1987), O Monstro do Pântano (1982) e Invasores de Corpos (1978). Os próprios efeitos visuais são retrô, intencionalmente toscos. Mas eu vejo, na aparente trama de ficção científica e suspense, uma poderosa fábula sobre como estamos perdendo nossos filhos (e a nós mesmos) para o mundo virtual.

O grupo de pré-adolescentes que protagoniza o episódio de estreia é formado por garotos e garotas “estranhos”, daquele tipo que geralmente é alvo de bullying tanto dos valentões quanto dos “populares” do colégio. O casting feito pelos irmãos Matt e Ross Duffer, a dupla criadora da série, aponta explicitamente neste sentido: o menino de 12 que ainda não ganhou dentes definitivos; o garoto negro na vizinhança branca; o nerd clássico de corte de cabelo Beatles. O garoto e a garota que desaparecem são ainda mais extremamente “desajustados”: o sensível menino Will, que é chamado de “gay” pelos colegas, e Barb, a adolescente solitária que não se enquadra nos padrões de beleza. Vítimas ideais para “monstros” desta e de outras dimensões.

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(O aparelho de rádio-amador, quem conhece?)

A nostalgia da era anterior à internet perpassa toda a narrativa: os meninos com seus jogos de tabuleiro e seus passeios de bicicleta (e que bikes! as bicicletas infanto-juvenis já foram bem mais bacanas, não?); as experiências com o aparelho de rádio-amador, coisa que pouca gente sabe o que é atualmente; o divertido walk-talkie em contraposição ao banal celular de hoje em dia. A câmera fotográfica analógica e suas surpresas na hora da revelação na quarto escuro são um ponto-chave do enredo, assim como o telefone de disco grudado na parede. Tampouco foi por acaso a escolha, para viver a mãe de Will, de outro ícone dos 1980, Winona Ryder, que já confessou colecionar fitas cassete com mensagens de voz, detestar gadgets tecnológicos e não ter o menor interesse em redes sociais.

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(As bicicletas invocadas da série)

A menina Eleven é uma hacker, o elo entre os dois mundos (e a referência aí é mais recente, a trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson). Cobaia nas mãos de um cientista louco, ela é capaz de ir até o mundo invertido e voltar, e tem medo de permanecer lá. Já viu como é o outro lado e sabe como é escuro, pegajoso, sem retorno. Privada de afeto e diversão, Eleven é uma menina triste, assustada, apesar de seus poderes paranormais. Ter contato com aquela distopia significou para ela a perda da infância, que a menina enfim consegue resgatar na companhia dos novos amigos. É este mundo, o das brincadeiras, das descobertas, do olho no olho, que é bacana. O outro é ruim. Caberá a Eleven impedir que o Demogorgon roube também a infância de seus amigos.

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(Eleven e o Demogorgon, ladrão de infância)

O que é o “mundo invertido” da série senão um mundo paralelo onde as pessoas não mais se relacionam de verdade umas com as outras? Joyce (Winona) perdeu Will, mas sabe que ele não está morto e sim definhando aos poucos em uma realidade inatingível, na qual não é possível mais a uma mãe se conectar com o próprio filho. Não é exatamente assim que muitas vezes nos sentimos em relação às nossas crianças, mergulhadas durante horas em seus tablets e jogos eletrônicos? Ou em relação a nós mesmos, gastando nossas vidas diante do computador e do smartphone, estabelecendo contatos virtuais em vez de encontrarmos com gente que amamos, de carne e osso? Só é possível a Joyce “falar” com o filho perdido através de lâmpadas!

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(“Meu filho, responda”)

A intenção dos autores de fazer esta crítica metafórica às redes sociais e à era virtual fica clara no último capítulo, quando Will aparece literalmente “conectado” ao monstro que suga a sua energia e o mantém ali, prisioneiro, longe de qualquer convívio com a família e amigos. A jovem Barb, coitada, já era, foi literalmente sugada pelo mundo de cabeça para baixo para sempre. Para Will, que é pequeno, ainda existe salvação. O menino acaba finalmente desconectado e volta à sua vidinha de antes, de jogar com os amigos usando a imaginação e de andar de bicicleta. Só que Will esteve no outro mundo e foi contaminado. Ficou com a semente da distopia implantada nele. Nunca mais será o mesmo.

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(Will: conectado ao monstro do mundo paralelo)

Me parece sintomático que uma das séries de TV mais badaladas dos últimos tempos, em pleno século 21, seja, no fundo, ludita, antitecnológica. Ouviremos o alerta subliminar de Stranger Things? Duvido.

***SPOILER***NÃO LEIA ESTE TEXTO SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU A SÉRIE ATÉ O FINAL***SPOILER***

 

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