Capitão Fantástico contra a vidinha de merda da sociedade de consumo

Publicado em 13 de fevereiro de 2017
fantastico

(Ben e uma de suas filhas, Vespyr)

A certa altura do filme Capitão Fantástico, em cartaz nos cinemas, o pré-adolescente Rellian pergunta irritado ao pai, Ben (Viggo Mortensen):

– Que tipo de gente maluca celebra o aniversário de Noam Chomsky como se isso fosse um tipo de data oficial? Por que não celebramos o Natal como todo o resto do mundo?

Ben responde:

– Você preferia celebrar um elfo mágico fictício em vez de um humanitário vivo que fez tanto para promover os direitos humanos e o entendimento?

O menino se cala. Rellian é o “rebelde” da família, só que ao contrário: Ben e a mulher, Leslie, criam os seis filhos de maneira alternativa, no meio de uma floresta. As roupas são costuradas por eles, que também aprendem desde cedo a caçar, plantar e encontrar o próprio alimento, fugindo, portanto, da chamada “sociedade de consumo”. Rellian está de saco cheio de viver assim e a internação da mãe só faz aprofundar o conflito entre o garoto e o pai.

O que a maioria das crianças e dos adolescentes quer é justamente o oposto, ser “iguais a todo mundo”, base fundamental para a sociedade de consumo funcionar. Sem o desejo de ser igual, não existiriam grifes, por exemplo, capazes de seduzir jovens a pagar fortunas por uma blusa ou uma bolsa “da moda” que todo mundo tem. Mas os Cash decidiram que não queriam desse jeito para os filhos. Queriam que sentissem orgulho de ser “diferentes”, por isso cada um tem um nome único, inventado pelos pais. O caçula, Nai, inclusive, é uma criança sem gênero.

O conflito do filme é que, ao mesmo tempo que de fato aquelas crianças sentem orgulho de si mesmas, o contato com a “civilização” demonstra que também possuem inseguranças. Sentem-se ao mesmo tempo superiores e inferiores àquela sociedade que seu pai e sua mãe esnobaram. Contrastam maturidade e inocência: seu pai lhes acostumou a falar sobre tudo, sem reservas, mas se esqueceu de alertá-los para coisas prosaicas como paquerar uma garota.

Capitão Fantástico é uma fábula sobre como é duro desafiar o sistema reinante, mesmo que você abra mão dele por completo. Todos estamos programados a viver sob as regras do sistema e, se você foge delas, arrisca-se a sofrer e a ser punido, a ser visto como freak, uma aberração. A revolta de Rellian contra o Noam Chomsky Day ilustra isso –e se inspira numa celebração feita pelo diretor Matt Ross com os próprios filhos. Viver de forma anticapitalista num mundo capitalista é tão complicado quanto, para um ateu, se esquivar do Natal todos os anos.

Mas à ternura e à angústia despertadas pelo filme é adicionado ainda outro sentimento: frustração. A sensação de que hoje em dia criamos nossos filhos de uma maneira banal, automática. Submetidas a uma disciplina rígida de exercícios físicos e leituras, as crianças de Ben são incrivelmente agradáveis, encantadoras e interessantes, principalmente em contraste com os primos criados na cidade à base de muita televisão e videogames. Difícil não sentir uma invejinha dos resultados que ele conseguiu com seus meninos…

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(Ben e sua linda trupe)

A “sociedade de Noam Chomsky” emulada pela família Cash a partir das concepções do linguista, filósofo e ativista norte-americano está longe de ser perfeita, mas está impregnada de um humanismo que causa nostalgia. Será que um dia não fomos assim, capazes de sentar à mesa de jantar com nossos filhos e falar de literatura e ciência, em vez de permitir que passem a maioria de suas horas de folga absortos em si mesmos, mexendo num tablet? É constrangedor e incômodo se dar conta de como a vidinha confortável e previsível do mundo capitalista é, no fundo, uma vidinha de merda.

Temos todos os tipos de aparelhos eletrônicos que previa a ficção científica dos anos 1960 e nunca fomos tão pobres de espírito. As crianças do século 21 sabem mexer em qualquer bugiganga eletrônica, mas não teriam a menor ideia de como sobreviver no meio da mata se algum dia se perdessem em uma. Para sorte (ou azar) delas, dificilmente alguma criança toparia atualmente passar uma semana na natureza sem wi-fi.

A sociedade de consumo e a tecnologia trouxeram um efeito colateral bizarro, de nos tornar seres humanos vazios. Quantas horas de leitura o Facebook roubou de você hoje? Capitão Fantástico impacta por escancarar isso, por chacoalhar as certezas de todos, mesmo a dos que afirmam estar fazendo a sua parte, lutando por um mundo mais justo, com as nádegas confortavelmente instaladas sobre uma cadeira acolchoada e diante da tela de um computador.

É um paradoxo, porque em tese as facilidades das novas tecnologias deveriam servir para a gente se independizar da vida urbana e do caos das grandes cidades. Deveriam servir para a gente ter mais tempo para curtir a família, os amigos. E é todo o contrário o que está acontecendo: os gadgets estão roubando o tempo ocioso que temos porque nos viciamos neles. Como a heroína fez com a morfina, criamos uma dependência dos instrumentos que supostamente nos salvariam. E ela é transmissível às novas gerações.

Por outro lado, senti também que talvez exista um lugar no meio do caminho entre abdicar de tudo ou se embriagar na sociedade de consumo, chafurdar nela. Difícil é se dedicar a encontrar este caminho do meio, na correria em que vivemos. Há que se ter uma disciplina férrea, é isso que Ben ensina. Eu fiquei a fim de começar imitando o Noam Chosky Day. A propósito, é 7 de dezembro.

Capitão Fantástico – EUA, 2016. Direção: Matt Ross. Com: Viggo Mortensen, George McKay, Nicholas Hamilton, Annalise Basso, Samantha Isler, Shree Cooks, Charlie Shotwell.

 

 

 

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Grandes momentos “Os Miseráveis” da operação Lava-Jato (até agora)

Publicado em 25 de setembro de 2016
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(Ilustração da primeira edição de Os Miseráveis, de Victor Hugo, por Emile Bayard, em 1862)

Meu pai era fã de Os Miseráveis (1935), uma das muitas versões para o cinema do clássico de Victor Hugo, com Fredric March como Jean Valjean e Charles Laughton como seu implacável perseguidor, o inspetor Javert. Todas as vezes que o filme passava na sessão Coruja, meu pai juntava os filhos no sofá para lhe fazerem companhia. A história, portanto, é muito vívida em minha memória. Valjean, desesperado pela fome, roubara um pão. E, por este crime, é caçado por Javert a vida inteira, com requintes de sadismo.

O excessivo rigor da Lava-Jato apenas com os petistas, a mão pesada seletiva do juiz Sérgio Moro, sempre me evocam Javert, o inspetor que se achava a própria encarnação da lei. Uma coisa é lutar contra a corrupção, que é o que os procuradores e Moro dizem estar fazendo com esta operação. Outra, bem diferente, é agregar a esta sanha supostamente moralizadora um indisfarçável justiceirismo, capaz de despertar na sociedade um sentimento torpe de vingança.

Como nas execuções medievais, não basta submeter os acusados ao rigor da lei, é preciso expô-los em praça pública, garantir platéia para os momentos mais… miseráveis; as emissoras de TV (sobretudo a Globo) são avisadas com antecedência de cada uma das ações. A própria necessidade de prisão preventiva já foi denunciada pelos advogados de defesa dos detidos na operação como “tortura psicológica” para forçar a delação premiada.

Reúno aqui alguns momentos da Lava-Jato que mais me fizeram vir à mente as cenas de Os Miseráveis, por sua mesquinhez. Este tipo de “castigo” está em total desacordo com as noções mais modernas de punição, como as que defendem a adoção de penas alternativas nos casos em que o criminoso não oferece risco à sociedade. Certamente momentos piores virão e este post poderá ser ampliado no futuro.

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(Charles Laughton como o inspetor Javert no filme de 1935)

Prendam-no no hospital – O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi preso no dia 22 de setembro pela Lava-Jato na porta do hospital Albert Einstein, enquanto aguardava sua mulher, que está se tratando de um câncer, ser operada. Vários juristas criticaram a necessidade do pedido de prisão provisória de Mantega. Após a repercussão negativa, Moro acabou revogando o pedido no mesmo dia, como se estivesse agindo por questões humanitárias. Ora, se a prisão era mesmo necessária, por que foi revogada?

Sequestrem a casa da mãe – Em abril, o juiz Moro sequestrou judicialmente a casa onde mora a mãe de José Dirceu, Olga Guedes da Silva, em Passa-Quatro (MG). A senhora tem 94 anos. Moro, magnânimo, decidiu que ela pode continuar morando na própria casa como “depositária”.

Tranquem ele no escuro – O ex-senador do PT Delcídio contou à repórter Malu Gaspar, da revista Piaui, que decidiu fazer a delação premiada após ter sido trancado num quarto sem luz na sede da Polícia Federal em Brasília, sufocado pela fumaça do gerador do prédio. “Aquilo encheu o quarto de fumaça, e eu comecei a bater, mas ninguém abriu. Os caras não sei se não ouviram ou se fingiram que não ouviram. Era um gás de combustão, um calor filho da puta. Só três horas mais tarde abriram a porta. Foi dificílimo”, contou Delcídio.

Tirem-lhes os menores prazeres – Em agosto, Dirceu e seu companheiro de cela, Pedro Argôlo, foram castigados pela Lava-Jato porque foram encontrados no cubículo que dividem em Curitiba quatro pendrives, um carregador de celular modelo Samsung, um carregador de um aparelho portátil de reprodução de música e um cabo com entrada USB. Nenhum celular, contudo, foi achado. Os pendrives continham filmes e músicas. Só como comparação, até os presos da ditadura tinham direito a escutar seus radinhos de pilha.

Conduzam-no coercitivamente – Em março, o ex-presidente Lula, que nunca se recusara a comparecer à Justiça e ainda não era réu em nenhuma ação, foi conduzido coercitivamente a mando de Sérgio Moro em circunstância que até hoje permanecem nebulosas. Lula foi tirado de sua casa e levado ao aeroporto de Congonhas, onde foi ouvido durante três horas e meia. Existiram muitos rumores de que Lula iria ser levado para Curitiba e alguma coisa fez com que a operação fosse abortada. O que ocorreu? Foi mesmo necessária a condução de Lula coercitivamente? Sem dúvida: não.

Mantenham-no sujo – Os advogados do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, reclamaram ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) em abril de 2014 melhores condições de prisão para seu cliente, que não podia tomar banho, se exercitar ou ter acesso à luz do dia (tomar banho de sol) durante os finais de semana. Costa chegou a escrever uma carta onde se queixava que, após reclamar da falta de banho, teria sido ameaçado pelos policiais de ser mandado para o presídio de segurança máxima de Catanduvas. Em agosto do mesmo ano ele assinou a delação premiada.

Impeçam-lhes o afeto – Os presos da Lava-Jato não têm direito a visita íntima de suas mulheres e companheiras. Qual a justificativa disso a não ser abalar ainda mais o psicológico do indivíduo? Segundo especialistas, a visita íntima é importante para a manutenção dos laços afetivos e a ressocialização do preso. A intenção da prisão não é que paguem por seus erros e recuperá-los para a sociedade? A castidade forçada, afinal, não faz parte da pena.

Confisquem as castanhas – A mãe de Pedro Argôlo, que é do sul da Bahia, costumava mandar doces caseiros e castanhas para o filho, que repartia com José Dirceu, seu companheiro de cela. Sem explicação alguma, a entrada das castanhas e compotas foi subitamente proibida e agora só entram produtos alimentícios para os presos se houver recomendação médica.

Façam-no falar – Em fevereiro deste ano, Marcelo Odebrecht foi transferido do Complexo Médico-Penal em Pinhais, onde estão detidos os presos da Lava-Jato, para a carceragem da Polícia Federal, onde fica numa cela de 7 metros quadrados, que divide com outros detentos. Em dez dias na nova cela, onde permanece encarcerado por 23 horas seguidas com apenas uma para o banho de sol, Marcelo estava com quadro de anemia e deficiência de vitamina D ligada a hipoglicemia. A defesa do empreiteiro solicitou reforço na dieta e pediu que voltasse ao complexo. Moro autorizou a melhora alimentar, mas não permitiu o retorno a Pinhais.

Trancafiem-no e joguem a chave fora – Em outubro de 2016, José Dirceu pediu ao juiz Sergio Moro para responder o processo em liberdade, por já estar com 70 anos e ter uma filha de 6 anos para sustentar. Alegou que a família passa por dificuldades financeiras e disse que não falava isso para que sentissem pena dele, mas por achar que tem direito à progressão da pena. Moro negou.

 

 

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Assistam Aquarius: boicotar obras de arte em função de ideologia é atestado de burrice

Publicado em 14 de setembro de 2016

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O cantor Chico Buarque é de esquerda.

O cantor Lobão defende a tortura.

O dramaturgo Nelson Rodrigues apoiou a ditadura militar.

O dramaturgo Plinio Marcos foi perseguido pela ditadura.

O poeta Ezra Pound era fascista.

O poeta e dramaturgo Bertolt Brecht era comunista.

O romancista Gabriel García Márquez era socialista.

O romancista Mario Vargas-Llosa é liberal.

O pintor Salvador Dalí era anticomunista.

O pintor Pablo Picasso era comunista.

O escritor Louis-Ferdinand Céline era antissemita.

O filósofo Walter Benjamin foi perseguido pelos nazistas.

O escritor Jorge Luis Borges apoiou a ditadura militar na Argentina.

O escritor Julio Cortázar foi contra a ditadura militar na Argentina.

O cineasta Kleber Mendonça Filho é de esquerda.

O cineasta José Padilha é antipetista.

A escritora Rachel de Queiroz apoiou o golpe de 1964.

O escritor Jorge Amado era comunista.

A pintora Frida Kahlo tinha a foice e martelo em sua armadura de gesso.

A cineasta Leni Riefenstahl era nazista.

O ator e diretor Clint Eastwood é reaça.

O roteirista Dalton Trumbo era comunista.

Um blogueiro da revista Veja que relativiza a ditadura militar resolveu propor em sua página o boicote da direita a Aquarius, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, porque a equipe do filme se posicionou no festival de Cannes contra o golpe parlamentar que arrancou Dilma Rousseff da presidência. “Assim que o filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, estrear no Brasil, as pessoas com vergonha na cara e amor à verdade têm uma obrigação: boicotá-lo”, escreveu o articulista do panfleto reacionário dos Civita. “O dever das pessoas de bem é boicotá-lo. Que os esquerdistas garantam a bilheteria.”

Para desespero do blogueiro reaça, a frase acabou sendo usada no cartaz do filme para promovê-lo, gerando nova onda de fúria. “O petralha de Aquarius resolveu usar meu nome para faturar uns trocados. Ou: não tomo o feijão do povo para financiar metáforas vagabundas”, rosnou o “colunista”, que já foi chamado pela ombudsman do próprio jornal onde também escreve, a Folha de S.Paulo, de rottweiler.

O que essa gente propõe? Que quem é de direita nunca mais ouça Chico Buarque? Que quem é de esquerda nunca mais leia Jorge Luis Borges? Que tenhamos de escolher entre Picasso e Dalí, entre García Márquez e Vargas Llosa, a depender de como pensamos politicamente? Boicotar obras de arte em função da posição ideológica dos autores é o maior atestado de burrice que um ser supostamente pensante pode dar. Sobretudo porque é impossível criticar sem assistir, ler ou ouvir a obra em questão. Como criticar Aquarius se você não viu?

Aquarius é um filme “de esquerda”? Não. É um filme, sem dúvida, contra a especulação imobiliária. Mas precisa ser de esquerda para se o opor à destruição das cidades onde vivemos para que meia dúzia de privilegiados nade em dinheiro? Acho que não. Além disso, Aquarius traz a musa do cinema brasileiro Sonia Braga em um dos grandes papéis de sua vida, terno, ao mesmo tempo suave e forte; é ainda uma história sobre maturidade e as escolhas que fazemos na vida. Um filme existencialista, isso sim. Pessoas de esquerda e direita deviam vê-lo. Ou não. Mas tirem a ideologia desta escolha.

O mais idiota desta história toda é que estes mesmos reaças que propõem boicotar uma obra de arte porque o diretor não comunga de suas opiniões politicamente costumam ridicularizar as pessoas que resolvem deixar de dar seu dinheiro a empresas que exploram os empregados, que produzem comida lixo ou que degradam o meio ambiente. Ou seja, boicotar filmes, livros e músicas é bacana. Boicotar empresas vagabundas, não. Dá para entender?

A proposta de boicote a Aquarius tem o mesmo DNA da estúpida ideia da Escola Sem Partido, que quer impedir os estudantes brasileiros de terem acesso ao conhecimento sobre o socialismo e até sobre Karl Marx. No fundo, o que essa direita pseudointelectual pretende é emburrecer os jovens e a sociedade como um todo. Querem que a capacidade de refletir e de se indignar dos cidadãos se perca. Subtrair conhecimento em vez de acrescentar não forma indivíduos pensantes, pelo contrário. Ainda mais quando se trata de arte.

É perfeitamente possível separar a arte da ideologia. Nos faz mais inteligentes enfrentar preconceitos para tentar entender o ponto de vista do outro, e então criticá-lo ou saudá-lo. Fugir do confronto é um sinal inequívoco de inferioridade intelectual. Por que o blogueiro de Veja teme Kleber Mendonça? Por que ele teme Aquarius? Me parece um atitude covarde propor que as pessoas deixem de assistir a um filme apenas por não concordar com o que seu diretor pensa. Covarde e burra.

 

 

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