Mini-guia Socialista Morena de esquerdismo caviar: mercados

Publicado em 27 de janeiro de 2017
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(Feira de São Joaquim, Salvador)

Tem gente que ama shopping, eu adoro mercados. Toda vez que chego a uma cidade, faço questão de conhecer o mercado municipal. Aquela profusão de frutas, verduras, peixes, carnes, ervas, artesanato, causa um estranho efeito calmante sobre mim. Me diverte e enriquece conversar com os donos das bancas, com a freguesia, e também comprar produtos feitos na região para levar para casa.

Como tinha feito antes com o mini-guia de São Paulo, preparei estas dicas de mercados que conheci no Brasil e no exterior. O único critério utilizado foi que só entraram aqueles onde estive pessoalmente; ou seja, este guia pode crescer a qualquer momento. Se estiverem de férias nestas cidades, aproveitem para conhecer os mercados. Tenho certeza que vão entender do que estou falando…

NO BRASIL

Feira de São Joaquim, Salvador – Vou começar por um dos mercados mais incríveis do Brasil: a gigante feira de São Joaquim, considerada a maior feira do Nordeste, com quatro mil boxes. Uma verdadeira cidade! Tem de tudo por lá, de temperos a carne de bode, mas chama a atenção a variedade de bancas dedicadas ao candomblé, com imagens de orixás em ferro e gesso, belíssimos. É coisa para várias horas percorrer os corredores de São Joaquim vendo tudo, uma experiência antropológica. Onde: Avenida Conselheiro Pontes, Comércio. De segunda a sábado, das 5h às 18h, e domingo, das 5h às 14h. No domingo de manhã tem roda de samba.

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(Farinhas de mandioca na feira de São Joaquim)

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(Sincretismo: presente!)

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(Miniaturas de lamparinas em São Joaquim)

Ceasinha do Rio Vermelho, Salvador – É o lugar ideal para comprar coisas para levar antes de viajar de volta para casa quando for visitar a capital baiana. Tem carne de sol e de fumeiro, e muitas bancas que vendem todo tipo de biscoitinhos, doces e beijus de tapioca feitos no interior. Aqueles de tomar com café, sabem? No mercado, todo reformado, também tem uma praça de alimentação onde se pode comer pratos típicos que não se encontram nos restaurantes “para turistas”, como o sarapatel e o cozido. Onde: Av. Juracy Magalhães Neto, 1624. De segunda a sábado, de 7 às 20h; domingos de 7 às 14h.

Mercado da Lapa, São Paulo – Todo mundo comenta o Mercado Municipal de São Paulo, com seu sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau, mas, para fazer compras, em minha opinião, não há lugar melhor do que o Mercado da Lapa. Quem gosta de carne de jabá (ou carne seca ou charque; na capital paulista, chamam de carne de sol) vai se espantar com a variedade, feitas com qualquer parte do boi, não só “traseiro” e “dianteiro”, como no supermercado. Tem até filé de carne seca! A peixaria também é muito boa e as lojas populares ao redor são ótimas para comprar coisas para casa a preços baixos. Onde: rua Herbart, 47, Lapa. De segunda a sexta, de 8h às 19h e sábados de 8h às 18h.

Mercado Municipal de Sorocaba, São Paulo – Outro dia fui fazer uma palestra em Sorocaba e acabei conhecendo o mercado de lá, muito simpático, limpo e organizado. O prédio, de 1938, tem estilo art-déco. Tem uma boa banca de ervas medicinais e também encontrei bons queijos e linguiças caseiras. Onde: rua Comendador Nicolau Scarpa, 80, centro. De segunda a sexta, de 7 às 18h30 e sábado até às 14h.

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(Fachada neomourisca do Mercado de Campinas)

Mercado Municipal de Campinas de Campinas, São Paulo – Projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo em estilo neomourisco, lembra, por fora, uma mesquita. Gostei de comprar lá: café da região torrado na hora, tabaco orgânico, lentilhas e feijão. Há uma variedade enorme de feijões, destes que não se encontram no supermercado, como o feijão-manteiga. Do lado de fora ficam os peixes e carnes. Onde: Praça Carlos Botelho, centro. De segunda a sábado de 7h às 18h.

Mercado Público de Porto Alegre, Rio Grande do Sul – Adoro! Já fui várias vezes. O prédio é lindo, bem no centro da cidade, e tem um monte de coisas gostosas e diferentes, tipo linguiças, queijos e frios artesanais das colônias italiana e alemã. Também pode-se comprar massas artesanais prontas para cozinhar em casa. E o melhor para mim: a salada de frutas com nata da Banca 40, verdadeiro patrimônio da capital gaúcha. A salada de frutas é fresquinha e a nata ninguém nunca viu igual… É como um chantilly só que beeemmm mais firme e saboroso… Onde: Galeria Mercado Público, 85 – Centro. De segunda a sexta-feira, das 7h30 às 19h30 e sábados das 7h30 às 18h30.

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(Detalhe da fachada do Mercado Público de Porto Alegre…)

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(…e a incrível salada de frutas com nata da banca 40)

Mercado Ver-o-Peso, em Belém, Pará – Faz muitos anos que estive lá, e li que está sendo submetido a um polêmico projeto de reforma. Mas é uma experiência inesquecível sentir os cheiros e ver as cores dos peixes e plantas típicos da região no Ver-o-Peso, histórico mercado brasileiro com mais de três séculos de história. Não vá sem um local acompanhando, para descobrir cada recanto da feira e também saber onde comprar o melhor açaí fresquinho… Atração à parte são as bancas onde se vendem produtos medicinais feitos com plantas amazônicas que prometem curar tudo, de disfunção erétil a diabetes. Onde: Tv. Marquês de Pombal, 75, Cidade Velha. De segunda a domingo, de 4h às 20h.

Mercado Público da Redinha, em Natal, Rio Grande do Norte – O grande atrativo deste pequeno mercado, que fica à beira-mar, é comer “ginga com tapioca”, que são pequenos peixinhos (ginga) fritos no azeite de dendê e servidos dentro do beiju, algo que me pareceu ancestral, dos tempos pré-colonização. De fato, o acepipe acabou recebendo recentemente o título de “patrimônio imaterial” do Estado, e o mercado, com mais de 100 anos, foi tombado pelo patrimônio histórico. Onde: Largo João Alfredo, SN, Praia da Redinha. De segunda a sábado, de 8h às 17h.

Mercado de Peixe São Pedro em Niterói, Rio de Janeiro – Este lugar é um paraíso para quem gosta de frutos do mar. Antes ou depois de visitar o incrível museu Oscar Niemeyer, não deixe de conhecer. O barato é comprar, por exemplo, camarões frescos no andar de baixo e pedir para algum dos bares que ficam no andar de cima preparar para você. Prove também as incríveis sardinhas fritas que os botecos do mercado fazem, hipercrocantes, entre as melhores que já comi na vida. Onde: Rua Visconde do Rio Branco, 55, Ponta d’Areia. De terça a sábado, de 6h às 15h, segundas de 6h às 12h30 e domingos de 6h às 13h.

Feira do Guará, em Brasília – Além de frutas, verduras, peixes e da melhor banca de tapioca do centro-oeste, a feira do Guará também tem roupas para adultos e crianças. É um lugar que todo turista que aparece por aqui adora conhecer. Como na capital federal tem gente de toda parte, na feira se encontram produtos nordestinos e também do Norte do país. Se você está achando difícil fazer uma receita da sua terra, lá irá encontrar os ingredientes que faltam, com certeza. E comer um dos melhores pastéis de Brasília. Único defeito: é uma feira cara. Onde: Guará II QE 25. De quarta a domingo, de 8h às 18h.

Mercado Municipal de Curitiba, Paraná  Como tudo na capital paranaense, é organizadíssimo e limpíssimo, talvez até demais, porque senti falta do barulho e agitação típicos dos mercados. Não abre cedo: o horário oficial é 7h, mas cheguei cedinho e a maioria das bancas ainda estava fechada. Tem uma variedade muito boa de grãos e, como o de Porto Alegre, muitos produtos coloniais: queijos, linguiças, frios… Onde: Avenida Sete de Setembro, 1865. De terça a sábado, de 7h às 18h; segundas de 7h às 14h; e domingos de 7h às 13h.

Mercado Central de Belo Horizonte, Minas Gerais – É outro dos meus favoritos, faço questão de ir lá toda vez que viajo à capital mineira. Para comprar todo tipo de queijo, goiabada, cachaça e linguiças artesanais e voltar para casa com o embornal cheio! No primeiro andar tem também várias lojas de artesanato. E o que é melhor: ir só para tomar uma cachacinha ou uma cerveja acompanhada dos sensacionais petiscos mineiros. Recomendo o fígado acebolado com jiló. Onde: Av. Augusto de Lima, 744, centro. De segunda a sábado, das 7h às 18h; domingos e feriados de 7 às 13h.

NO EXTERIOR

Mercado de Maravillas, em Madri, Espanha – Na Espanha eles aproveitam todas as partes do porco, até o focinho e a cara. Neste mercado, portanto, se podem encontrar todos os ingredientes para uma boa feijoada longe de casa… O legal também é que, em Madri, que os espanhóis brincam ser “o maior porto da Espanha” (sem ter porto), os mariscos e peixes podem ser comprados fresquíssimos, ainda vivos! Se estiver por lá, aconselho buscar os produtos da estação, como os aspargos ou as picotas (espécie de cereja), deliciosos. Este mercado tradicional fica um pouco afastado da área central, mas tem metrô pertinho. Fiquem atentos que fecha no horário da siesta. Onde: calle Bravo Murillo, 122 (metrô Cuatro Caminos). De segunda a sábado, das 9h às 14h e das 17h às 20h.

Mercado Central de Santiago, no Chile – Confesso que estava muito ansiosa para conhecer este mercado principalmente pelo que me falavam dos restaurantes de lá, onde se podem comer frutos do mar que não se encontram no Brasil, como centollas e um tal de picoroco. Mas achei a comida meio para turistas, cara e nem tão saborosa. Enfim, de qualquer maneira é um ponto turístico de Santiago e vale a pena conhecer. O prédio é histórico, de 1872, e bem bonito. Quem sabe vocês não têm melhor sorte do que eu com os restaurantes? Onde: calle San Pablo, 943 (metrô: Puente Cal y Canto). De segunda a domingo, de 8h às 19h.

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(Mercado del Puerto, em Montevidéu. Foto: Artigas Pessio/Intendencia de Montevideo)

Mercado del Puerto de Montevidéu, no Uruguai – É o melhor lugar para se comer uma boa carne na capital sul-americana que já possui a fama de ter a melhor carne do mundo. Tem tantos restaurantes de parrilla que eu nem me lembro de ter visto bancas de verduras ou frutas… Artesanato, sim. Para quem não come carne, também há restaurantes que oferecem massas e frutos do mar. Onde: Piedras, 237, Cidade Velha. Horários: no interior, só no almoço; fora, almoço e jantar.

Mercado Pesquero El Mosquero de La Guaira, na Venezuela – É um mercado de peixes perto do aeroporto de Caracas, portanto bem distante do centro da capital venezuelana. Mas vale muito a pena conhecer e sobretudo comer nos restaurantes que ficam do lado de fora. Eu provei um prato típico delicioso, com fama de ser afrodisíaco, a Fosforera Siete Potencia, uma espécie de sopa com sete frutos do mar! Também são famosas as empanadas de arraia. É um lugar simples, frequentado por locais, perfeito para conversar e conhecer a realidade venezuelana por eles mesmos. Onde: Maiquetía, Vargas. De terça a domingo, das 5h30 às 16h.

 

 

 

 

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Dicas regionais para abrasileirar o Natal

Publicado em 21 de dezembro de 2016
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(Peru no tucupi com jambu. E o jambu treme, treme, treme…)

Tem gente que adora o Natal. E tem gente que sente uma antipatia mortal pelo Natal. Não porque não gosta de reunir a família, de dar e receber presentes. Não é nem mesmo uma questão de ser ou não cristão. É que, para alguns, é difícil de deglutir algumas “tradições” natalinas importadas, tipo “neve” em pleno verão. Além de ser ridículo, é um sinal de como ainda somos colonizados. Uma das primeiras atitudes descolonizadoras seria acabar com este Natal fake e criar um Natal genuinamente nosso.

Outra coisa difícil de deglutir são algumas das comidas natalinas. Sempre o infalível peru assado, de Norte a Sul do Brasil. Será mesmo? Conversando com meus leitores, levantei algumas dicas de comidas e bebidas regionais para fugir à ditadura do peru na véspera do Natal e também no dia seguinte. Só não pode faltar a brasileiríssima farofa! Confira.

Na noite de Natal:

1. Leitoa à pururuca: tradição em Minas Gerais e Goiás, substitui com ganhos o peru. Muito mais saborosa, suculenta e macia…

2. Tainha assada recheada: tradição nos bairros italianos de São Paulo e também no litoral. Na Espanha é bem mais comum comer peixe assado (besugo) no Natal do que peru. Em nosso país, ainda mais nesta época do ano, acho que combina muito, hein? No Rio se come bacalhau e bolinho de bacalhau na ceia.

3. Frutas da estação: em alguns países da Europa, o costume é ter frutas tropicais na ceia de Natal. Aqui, fazemos o contrário, usamos frutos secos. Que tal aproveitar a época e usar frutas nossas na ceia? Muito mais bonito e colorido! É época de: manga, jaca, goiaba, fruta do conde, umbu, seriguela…

4. No Mato Grosso do Sul, o porco ou pato assado ganhou um acompanhamento do país vizinho: a sopa paraguaia, que não é uma sopa, mas uma espécie de bolo salgado de milho.

5. No interior de Minas, o peru é substituído por frango caipira com quiabo e farofa de andu. Mais brasileiro, impossível.

6. No Acre e no Pará tem vatapá na ceia! Vatapá à maneira do Norte, com pão velho, camarão seco e fresco e pouquíssimo dendê.

7. No Piauí, tem torta de caranguejo com leite de coco, acompanhada de farofa.

champanhota

8. E para beber, champanhota ou coquetel de champanhe, receita da família Micheleto, de São Paulo: 1 garrafa de sidra bem gelada; 1/2 garrafa de água mineral com gás também bem gelada (use a garrafa de sidra como medida); 4 ou 5 metades de pêssego em calda; calda do pêssego a gosto para adoçar; bater tudo e separar uns cubinhos de pêssego para decorar; servir com muito gelo. A sidra pode ser substituída por espumante seco se você não quiser a champanhota muito doce.

E no dia seguinte:

1. No Pará e em Roraima, cozinham-se as sobras do peru lentamente no tucupi com jambu. Acompanha arroz branco. Dizem que cura ressaca!

2. Na Bahia, Pernambuco e outras cidades do Nordeste aproveita-se o peru para um grande cozido, com verduras, paio e pirão feito com o caldo.

3. Em Vitória, no Espírito Santo, faz-se “roupa velha” (um mexido) com os restos do peru, bem temperadinha e apimentada, com feijão preto.

4. No Paraná e em São Paulo, prepara-se um “brodo” (caldo) com os restos do peru para comer com capeletti ou arroz (canja).

Se você tiver mais dicas regionais mande para mim até o Natal.

 

 

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Como a indústria alimentícia se aproveitou da liberação feminina para vender comida lixo

Publicado em 27 de setembro de 2016
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(Salvadores de esposas)

Tem uma série documental imperdível no Netflix, Cooked, baseada no livro Cozinhar – Uma História Natural da Transformação, do jornalista e escritor Michael Pollan. Pollan, também narrador da série, é uma espécie de ativista da arte de comer bem preparando sua própria comida. Dividida em quatro episódios (Fogo, Água, Ar e Terra), Cooked defende a tese de que nosso processo civilizatório não começou com a descoberta do fogo e sim quando passamos a cozinhar os alimentos e deixamos de comer tudo cru.

Cooked começa mostrando os hábitos alimentares do povo australiano Martu para exemplificar como as mudanças nas dietas originais ocasionaram doenças nos seres humanos. Os aborígenes foram obrigados a deixar suas terras na década de 1960 e só puderem retornar, depois de muita luta, a partir de 2002. Durante o período em que permaneceram fora, tomando refrigerantes, comendo a comida “dos brancos” e ingerindo doses cavalares de açúcar, que não conheciam, desenvolveram diabetes, pressão alta e obesidade. Foi só voltarem à antiga dieta que os indicadores se normalizaram.

O mais interessante: Pollan conta como a indústria alimentícia se aproveitou da liberação feminina nos anos 1960 e 1970 para vender comida processada e junk food. O exemplo primordial é a rede de frango frito KFC (Kentucky Fried Chicken), tão famosa pela forma cruel como cria os animais que ganhou o apelido de Kentucky Fried Cruelty. A KFC enxergou na falta de tempo da mulher que ia para o mercado de trabalho uma chance de multiplicar as vendas de sua comida ruim e explorou o tema em diversos anúncios a partir do mote da libertação da mulher.

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(Faça desta noite o Dia das Mães)

Segundo Pollan, a decisão da mulher emancipada de retornar ao mercado de trabalho (já havia feito isso antes, é bom lembrar, durante a Segunda Guerra) gera uma disputa doméstica entre o casal sobre como seria a divisão das tarefas domésticas e o cuidado com os filhos.

Mas, em vez de resolver esta disputa, as famílias ouviram os “conselhos” da indústria e passaram simplesmente a comprar comida enlatada ou recorrer aos serviços de entrega em domicílio de fast food. O mais absurdo é que, utilizando campanhas de propaganda, a indústria convenceu as famílias que a comida feita em casa não era saborosa como a que se comprava pronta! Com isso, a boa e velha comida caseira foi substituída por comida lixo, cheia de “ingredientes” que você não tem na dispensa: aromatizantes, espessantes, conservantes… E os norte-americanos disseram adeus ao momento sagrado da refeição em família, a não ser nos feriados.

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(Ele dará a você um descanso da correria)

“Nós meio que assumimos que, como as mulheres voltaram ao trabalho, não haveria mais tempo para fazer a refeição familiar. Mas não é tão simples, é mais interessante. As grandes corporações estiveram batendo naquela porta por quase 100 anos. E após a Segunda Guerra, quando eles tinham inventado todas estas tecnologias para processar a comida e simular comida de verdade com comida fake, era chegada a hora de empurrar e entrar. Eles acharam a oportunidade que queriam com a revolução feminista nos anos 1970. Havia realmente um papo desconfortável tomando lugar nas mesas das cozinhas de toda a América. Homens e mulheres estavam tentando renegociar a divisão do trabalho doméstico. E a indústria alimentícia viu ali uma oportunidade. Eles disseram: ‘não se preocupe, nós te cobriremos. Nós vamos cozinhar’. A KFC inclusive fez um outdoor enorme com uma cesta de frango frito e o slogan: ‘Women’s Liberation'”, disse Pollan à rádio pública norte-americana NPR.

Não se pode dizer que no Brasil tenha sido diferente, só que aconteceu mais tarde, com a invasão do McDonald’s e das redes de pizzaria e de comida em domicílio que hoje tem até um “aplicativo” para facilitar a vida de quem se recusa a preparar a própria comida. O que Pollan propõe é que voltemos às cozinhas para terminar aquela conversa, o marido, a mulher e os filhos, para ver como podemos dividir as tarefas de casa e voltar a fazer nossas refeições, como forma de viver mais e melhor. “Eu acho que a coisa mais importante que nós podemos ensinar a nossas crianças para a sua saúde e felicidade a longo prazo é como cozinhar”, prega.

Certamente os machistas dirão: “Ora, então é culpa do feminismo que estejamos obesos!” Não, é culpa do machismo que os homens até hoje não tenham sido capazes de dividir as tarefas de casa com suas companheiras. Quem disse que cozinhar tem que ser a obrigação feminina na divisão das tarefas? É uma questão de lógica: se redividíssemos o trabalho doméstico entre todos, todos estaríamos comendo melhor. E comer bem não significa abrir mão de nenhum alimento, mas comer a menor quantidade de comida industrializada possível, enfrentando o poderoso lobby em favor dela.

Em abril do ano passado, o lobby da indústria alimentícia se juntou aos ruralistas e conseguiu aprovar na Câmara um projeto retirando dos produtos transgênicos o “T” que os identifica (rejeitado pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, o projeto atualmente está em análise pela Comissão de Agricultura). Imaginem, não só somos obrigados a comer transgênicos como eles querem que não saibamos disso! Para quem acha que vemos conspiração em tudo, a coisa é mundial: nos EUA, um projeto idêntico foi sancionado por Barack Obama em agosto deste ano.

Sabe-se que o governo golpista de Michel Temer também está querendo fazer com que as pessoas trabalhem até 12 horas por dia, como já acontece no país que inspira a direita no Brasil (mas só no que há de pior por lá). Fazer os brasileiros trabalharem mais horas, passando assim mais tempo fora de casa, não é um belo truque para que comprem mais e mais comida pronta? A indústria alimentícia será eternamente grata.

 

 

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