Kátia Abreu acusa ministro da Justiça de pressioná-la para manter no cargo “grande chefe” da Carne Fraca

Publicado em 21 de março de 2017
Plenário Câmara  Deputado Osmar Serraglio Foto:PMDB 09/07/2015

(O ministro da Justiça, Osmar Serraglio. Foto: PMDB)

Por Katia Guimarães*

A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) afirmou ter sofrido pressão de dois deputados federais, entre eles o atual ministro da Justiça do governo Temer, Osmar Serraglio (PMDB-PR), para manter no ministério da Agricultura o fiscal agropecuário Daniel Gonçalves Filho, um dos alvos da Operação Carne Fraca, que investiga pagamentos de suborno a funcionários públicos. “Nunca vi uma pressão tão forte”, contou a senadora, que ocupou a pasta da Agricultura no governo Dilma Rousseff.

A ex-ministra relatou que, assim que a operação foi deflagrada, lembrou imediatamente do funcionário que sofria processo administrativo por ter “passado a mão na cabeça” de outro servidor envolvido em irregularidade relativa a combustíveis.  “Eu avisei à presidenta que iria demiti-lo e que ela poderia ter problemas políticos. Ela disse ‘faça'”, relatou Kátia Abreu. A ministra de fato demitiu Gonçalves Filho seis meses depois de assumir o cargo.

A senadora já havia confirmado, pelo twitter, a denúncia, feita pelo jornalista Josias de Souza, do portal UOL, de que Serraglio tinha pressionado pela manutenção do afilhado.

De acordo com a Polícia Federal, Daniel Gonçalves Filho é o “líder do bando criminoso” acusado de pagar suborno a fiscais agropecuários para fazer vista grossa às irregularidades no setor frigorífico. Preso preventivamente por suspeita de corrupção, o ex-superintendente do ministério da Agricultura no Paraná “possuiria veículos com valor de mercado incompatíveis com a sua renda”, inclusive uma BMW e vários imóveis. Serraglio aparece nas interceptações conversando com Gonçalves Filho e chamando-o de “grande chefe”.

Em discurso no plenário, Kátia Abreu também acusou a Polícia Federal de abuso de autoridade durante a operação Carne Fraca, que detonou uma crise no setor pecuário brasileiro e levou diversos países a embargar a importação de carnes bovinas, suínas e de aves. “Um grupo, numa ação baixa, tentou destruir (o setor pecuário), e vão arcar com as consequências”, reagiu. A senadora defende a aprovação da lei de abuso de autoridade e disse que houve “crime de lesa-pátria”.

Para ela, as únicas explicações para uma operação tão espalhafatosa são arrogância e vaidade. “Se julgam acima do bem e do mal. Essa ação pode nos atrasar uns 10 anos”, lamentou, e afirmou que durante sua gestão conseguiu derrubar 100% dos embargos a carnes brasileiras lá fora. Segundo a senadora, os prejuízos atuais com os embargos já anunciados de países como Chile, Coreia do Sul, China e União Europeia já estão calculados em US$ 5 bilhões, valor que representa 40% do total exportado.

Se for demitido por Temer, Serraglio será o nono ministro do governo a cair em menos de um ano. O quinto por envolvimento em denúncia de corrupção.

 

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A ilha do Dr. Moro (e suas estranhas criaturas)

Publicado em 1 de março de 2017

ilha-doutor-moro

Ilustrações: Mário César

Este mês se completam três anos desde que se iniciou a operação Lava-Jato, com a ambição de “acabar com a corrupção na política brasileira”. Mas o que ocorreu com o país de lá para cá? Uma presidenta petista foi arrancada do poder e um ex-presidente petista está sendo ameaçado de prisão. No entanto, 38 fases depois, nenhum membro do PSDB foi indiciado. E a corrupção no Brasil, acabou? Que nada! Os próprios delatores passaram pouquíssimo tempo presos e continuam ricos como sempre foram. Na cúpula do poder, temos hoje alguns dos maiores corruptos da História.

O que aconteceu de fato, de março de 2014 até hoje, é que a operação capitaneada pelo juiz Sergio Moro gerou uma série de personagens que se incorporaram à política nacional. São seres estranhos, um tanto sinistros, que fazem um paralelo perfeito com A Ilha do Dr. Moreau, clássico de ficção científica de H.G.Wells publicado em 1896.

Confira no traço do ilustrador Mário César as criaturas da ilha do Dr. Moro. No final do texto, tem uma vaquinha para pagar o trabalho dele. Apoie!

tukanators

Os Tukanators  São tucanos geneticamente modificados, com garras e dentes afiados. Ao contrário da ave, que se alimenta de frutas e insetos, os Tukanators são vorazes e devoram tudo que veem pela frente, com um apetite especial por dinheiro. Parece impossível capturá-los, embora todo o tempo eles fiquem sobrevoando bem debaixo do nariz do juiz Moro.

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A Justiça Caolha – Em toda parte, a Justiça é cega, simbolizando que ela não privilegia ninguém. Mas, na ilha do Dr. Moro, a Justiça é caolha. Como possui um olho só, enxerga apenas um dos lados nas decisões. Com isso, a Justiça Caolha acaba beneficiando os Tukanators, fora do alcance de sua visão. A parcialidade da Justiça Caolha é tão gritante que, embora um dos procuradores da Lava-Jato tenha dito que a corrupção envolve todos os partidos, até hoje o PSDB não se tornou alvo de investigação.

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Os cabeça-de-panela – Também conhecidos como “paneleiros”, são seres desprovidos de cérebro e altamente influenciados pelo que assistem na televisão. Adoram usar camisetas da CBF e fizeram muito barulho quando a esquerda estava no poder, supostamente em nome da “luta contra a corrupção”. Mas agora que a direita tomou o poder e a corrupção ficou ainda mais escancarada, eles estão caladinhos, obedecendo, como sempre, o que a televisão diz.

hidrofobo

Os Lulófobos – São cães de duas cabeças extremamente raivosos, mas apenas em relação ao ex-presidente Lula. Basta mencionar a palavra “Lula” que eles começam a babar e espumar pela boca. Lula virou uma obsessão: eles não conseguem enxergar nenhum político pela frente e costumam culpar Lula até mesmo pelos seus problemas sexuais e pessoais.

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O PIG – É um porco mutante que ganha a vida chafurdando na lama da ilha em busca de gravações e vazamentos criminosos. Curiosamente, tanto as gravações quanto os vazamentos costumam incriminar apenas o PT. Alado, o porco adora se juntar aos Tukanators, de quem é parceiro de longa data.

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O Coxinha de Mortadela – Ele se diz “nem direita nem esquerda” e está perdido, naufragando num mar de indecisão. Foi por sua omissão que chegamos à situação em que o Brasil se encontra hoje. É o famoso “isentão”, que abre mão de participar das lutas com a ilusão de que as coisas vão melhorar sozinhas. Acredita em salvadores da pátria e fica olhando para o horizonte para ver se chega alguém para socorrê-lo.

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Os juristas beatos da maçonaria – São promotores, advogados e juízes fanáticos (e fanáticas) que colocam a Bíblia acima da Constituição. Caracterizam-se por estar sempre se referindo a Jesus e à religião e até mesmo posando em fotografias agarrados a imagens religiosas ou recebendo unções. Ao mesmo tempo, têm uma ligação oculta ou declarada com a maçonaria. Para disfarçar seu escasso conhecimento jurídico, se esmeram nas apresentações em Power Point.

cobaias

As cobaias da Lava-Jato – Presos nos calabouços da Polícia Federal em Curitiba, magros e famélicos, alguns dos detidos na operação Lava-Jato estão sendo utilizados como cobaias (ou troféus) da suposta caça aos corruptos no Brasil. De lá eles só saem se delatarem alguém. O da estrelinha vermelha na camiseta periga ficar na jaula até morrer.

 

VAQUINHA POSTERIOR: Todas as doações para este post irão para o ilustrador Mário César. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Mário Cesar dos Santos Oliveira. Banco do Brasil, agência 1196-7, Conta corrente 26801-1. CPF 904.268.271-04. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 

 

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Câmara rejeita “Lei Claudia Cruz”, que permitiria a parentes de políticos legalizar dinheiro no exterior

Publicado em 15 de fevereiro de 2017
camaracruz

(Foto: Alex Ferreira/Câmara dos Deputados)

Foi por pouco, muito pouco. Graças a um destaque apresentado pelo PCdoB, o plenário da Câmara dos Deputados rejeitou a inclusão de cônjuges e parentes de políticos no projeto que reabre prazo para legalização de dinheiro mantido irregularmente no exterior por brasileiros (PL 6568/16). Se aprovada, a manobra possibilitaria aos cônjuges e parentes de políticos trazerem de volta, sem penalidade alguma, seus depósitos na Suíça e outros paraísos fiscais. O projeto já estava sendo apelidado de “Lei Claudia Cruz”, em referência à mulher do ex-deputado federal Eduardo Cunha, que possui R$7,5 milhões na Suíça.

Mais cedo, o texto base do projeto havia sido aprovado, excluindo apenas os políticos e liberando a repatriação à família. A lei atual já exclui agentes públicos e seus parentes, mas o relator do projeto na Câmara, deputado Alexandre Baldy (PTN-GO), havia decidido permitir a adesão dos familiares, o que beneficiaria, por exemplo, a mulher de Cunha. Segundo Baldy, um dos ausentes na sessão que cassou Cunha em setembro de 2016, esse ponto está sendo questionado na Justiça. “É importante entender se é constitucional ou inconstitucional a distinção de pessoas com funções públicas trazida pela lei”, afirmou.

Também defensor da ideia de legalizar o dinheiro enviado por políticos ao exterior não se sabe com que origem, o deputado Alberto Fraga, do DEM do Distrito Federal, ficou indignado com a exclusão e chegou a alegar preconceito contra sua classe. “Estamos dizendo que parente do traficante pode repatriar, mas parente do político não pode. Parente de político é mais bandido que o próprio traficante? É um absurdo”, afirmou.

Na oposição, ao contrário, a inclusão dos cônjuges e parentes de políticos gerou revolta. “Isso é um liberou geral, um escândalo. Estamos autorizando tudo que é parente a trazer dinheiro do exterior, um assunto grave. No projeto anterior, não era assim”, disse Silvio Costa (PTdoB-PE). Para o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ), a medida permitiria a lavagem de dinheiro desviado dos cofres públicos. “É uma vergonha que esta Casa se preste ao papel de resolver o problema dos parentes de políticos que têm dinheiro no exterior”, condenou.

O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) lembrou justamente da mulher e da filha de Cunha, preso em Curitiba pela Operação Lava Jato. Elas já foram à Justiça pedir a repatriação de bens no exterior, mas o pedido foi negado. “A proposta iria desautorizar decisões judiciais de impedir a legalização de bens no exterior de notáveis que até estão presos”, criticou.

Até mesmo na direita o escancaramento pegou mal. O deputado Esperidião Amin (PP-SC) afirmou que o “enxerto” poderia levar a população a execrar ainda mais os políticos. “Esse dispositivo, que já tinha sido rejeitado na votação da atual lei, é um veneno desnecessário. Não vai fazer bem à Casa”, alertou. “Nesse país, há vários agentes públicos presos e que, evidentemente, têm recursos colocados no exterior de maneira ilícita. Não se pode abrir essa brecha, sob risco de a população entender que a Casa legislou para beneficiar parentes e, de maneira indireta, corruptos”, afirmou o deputado Daniel Coelho (PSDB-PE).

O texto volta agora ao Senado.

(Com informações da Agência Câmara)

 

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