E se fosse FHC? Por que o ex-presidente não tem a dignidade de defender Lula?

Publicado em 14 de novembro de 2016
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(FHC visita Lula no hospital em 2012. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

E se fosse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que estivesse sendo perseguido por uma operação policial no Brasil e estivesse ameaçado de ir para a cadeia sem haver provas de que cometeu crime?

Apenas imaginem: o PT ainda está no poder e uma operação da Polícia Federal leva FHC coercitivamente a depor. Todos os dados da investigação são vazados para a imprensa. Os telefones de FHC, sua família e seus advogados são grampeados e as gravações também são divulgadas aos jornais.

A amizade do ex-presidente com empresários ricos e empreiteiros é devassada. Os investigadores acusam FHC de ser o “verdadeiro dono” do apartamento de seu amigo Jovelino Mineiro, na avenue Foch, em Paris, onde costuma se hospedar, assim como a fazenda Buritis, que Fernando Henrique sempre frequentou e que acabou comprando por alegados 50 mil dólares junto com o falecido ministro das Comunicações Sergio Motta.

A compra de um apartamento de 500 metros quadrados por FHC em Higienópolis, um ano antes de sair da presidência, pago em várias prestações e por um precinho camarada, graças à boa vontade de um banqueiro sócio de seu ex-genro, é escrutinada pelo Ministério Público a mando de um juiz. As doações de empresas ao Instituto FHC são criminalizadas.

Todas as palestras feitas por Fernando Henrique no exterior são transformadas em “pagamento de propina”. Todas as viagens internacionais feitas por FHC em companhia de empresas brasileiras passam a ser vistas como “tráfico de influência”. Por fim, a revista Carta Capital, de esquerda, sai com a imagem de FHC vestido de presidiário na capa.

O que diriam os jornais e as emissoras de televisão se tudo isso acontecesse? Falariam em “perseguição”? Diriam que o PT estava praticando revanche contra o rival? Quantos editoriais furiosos escreveriam? E quantos editoriais defendendo o “príncipe”? Por que, então, a mídia permite acusações sem provas quando se trata de Lula? Por que não hesita em colocar estas acusações sem prova nas manchetes de seus jornais e telejornais? Qual a explicação senão os dois pesos e duas medidas quando se trata do PSDB?

E o mais grave: por que FHC se cala? Se tivesse um pingo de dignidade, o ex-presidente seria o primeiro a sair em defesa de Lula.

 

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Eduardo Cunha, o boi de piranha mais suculento da República

Publicado em 20 de outubro de 2016
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(Foto: Lula Marques)

A celebração pela prisão de Eduardo Cunha foi chocha diante do regozijo dos articulistas da imprensa chapa-branca em “provar” aos críticos da Lava-Jato que a operação “não é seletiva” nem tem como alvo apenas petistas, como ficou patente até agora. Como se a prisão do ex-deputado federal cassado fosse capaz de diluir o estrondoso fato de que, embora citados em várias delações, os tucanos continuem fora da mira do juiz Sergio Moro e a punição de algum deles siga um sonho distante para os reais defensores do fim da impunidade em nosso país.

Diante das evidências cada vez maiores de que não existem provas contra o ex-presidente Lula, quem, que não fosse do PT, poderia ser preso neste momento para tentar amenizar as críticas sobre a parcialidade da Lava-Jato? Ora, até as caspas sobre o paletó de Eduardo Cunha sabem que hoje ele é o preso ideal. Primeiro porque já está decaído. Não é mais o presidente da Câmara e o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi concretizado (por ele) com êxito, portanto não é mais útil.

O establishment não está interessado no PMDB, nunca esteve, e Michel Temer sabe disso –ou não teria voltado às pressas de sua viagem ao Japão tão logo o companheiro de longa data foi preso. Os heróis do establishment sempre foram o PSDB e seu velho parceiro, o DEM. São eles que o poder econômico quer ver de volta ao poder, de preferência sem o risco de uma eleição. E é sobre eles que falamos quando denunciamos a seletividade da Lava-Jato. Enquanto nenhum político destes dois partidos for mandado a Curitiba, as críticas sobre a seletividade da operação permanecem; antes disso, Eduardo Cunha não será nada além de um suculento boi de piranha.

Curiosamente, aliás, a prisão do ex-presidente da Câmara acontece na mesma semana em que o escritor italiano Gianni Barbacetto, autor do livro sobre a Mãos Limpas, a operação italiana que inspirou Sergio Moro (a apresentação da edição brasileira é assinada pelo juiz), fez duros reparos às “limitações” da Lava-Jato. Em entrevista ao jornal Zero Hora no sábado15, Barbacetto disse estar “surpreso” que tenham aparecido acusações “só contra o PT e seu líder Lula”. “Parece-me que todo o sistema está envolvido pela corrupção. Desde o início o sistema continua como antes e será apenas Lula a pagar”, criticou.

Se o problema é sistêmico, não será a prisão de Cunha que irá atenuar nos cidadãos conscientes, que não se deixam contaminar pela mídia, a sensação de que a Justiça praticada por Moro é seletiva. Os defensores do magistrado paranaense sempre afirmaram que seu objetivo é acabar com a corrupção no país. Sendo assim, a prisão de Eduardo Cunha jamais poderia ser considerada um fim, e sim um meio. Mas já tem colunista de direita defendendo que Cunha não pode ser beneficiado pela delação premiada, como foi, por exemplo, o ex-petista Delcídio Amaral. A quem essa gente acha que engana? Eles e seus veículos de comunicação sempre foram os porta-vozes do tucanato, sabemos muito bem a quem querem proteger.

A maior utilidade da prisão de Eduardo Cunha é exatamente oposta: que ele abra o jogo e revele as entranhas do financiamento de campanha brasileiro, do qual é profundo conhecedor. Se decidir falar, Cunha tem muito a dizer, sobre políticos de todos os partidos da República (à exceção, suponho, do PSOL), e talvez isto explique o ensurdecedor silêncio do PSDB sobre a prisão do malvado favorito da turma de camiseta verde e amarela. Isto se considerarmos que a prisão de Cunha é mesmo para valer. Eu tenho cá minhas dúvidas. Mas ainda que seja, não será surpresa para ninguém se a possível delação do peemedebista só servir, mais uma vez, para incriminar aqueles que têm sido os únicos a pagar pela podridão do sistema político brasileiro desde o mensalão.

 

 

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Decifrando MOROLAND: uma investigação sobre o “conservadorismo” de Curitiba

Publicado em 6 de setembro de 2016

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(Ilustra exclusiva: Cris Vector)

Desde o começo da operação Lava-Jato que a capital do Paraná, Curitiba, está sendo cantada em prosa e verso como “a mais coxinha do país”, “paraíso reaça” e “tucanistão 2″. Para azar dos curitibanos de esquerda, até o apelido de um dos times da cidade, o Coritiba, é, por total coincidência e crueldade do destino, “coxa” (de coxa-branca, por causa dos alemães que o fundaram).

É bem verdade que a esquerda nunca ganhou uma eleição por lá –o mais próximo que chegou foi com Roberto Requião, em 1986, e com o atual prefeito Gustavo Fruet, do PDT, que tem vice petista. Também é verdade que o Paraná votou majoritariamente em Aécio Neves em 2014 –quase 61% dos votos válidos no Estado, 72,2% na capital, seu recorde nacional. Mas será que Curitiba é mesmo uma cidade “conservadora” ou essa é uma construção que favorece o discurso de direita de que existem redutos reacionários “de primeiro mundo” no Brasil?

Fui até Curitiba investigar o “conservadorismo” da cidade onde Sérgio Moro fincou os pés, e encontrei uma cidade muito mais plural do que imaginava e mais cercada de mitos do que eu supunha. Aliás, a maior parte dos curitibanos que ouvi para esta reportagem aludiu à construção no imaginário dos locais ao longo dos anos, através de recursos de propaganda, de uma cidade um tanto distante da realidade. Alguns mitos: o de que a cidade é “europeia”, quando 27,59% de sua população declara-se preta ou parda, segundo o IBGE; o de que a cidade é “perfeita” urbanisticamente, quando há bairros com esgoto a céu aberto e ruas ainda sem asfalto; e o mais recente, o de que todo curitibano adora Moro.

Contribuiu para a consolidação desta Curitiba “polonesa” e idealizada a transmissão de uma novela das 6 pela rede Globo, Sonho Meu, com externas e longas cenas aéreas na capital paranaense, em declarado tom propagandístico, mas com set de filmagem em uma cidade cenográfica em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Na telinha, uma cidade-modelo com toques de vila do papai Noel, com os atores desfilando casacos de pele e tudo. Sonho Meu foi exibida entre 1993 e 1994, ano em que Jaime Lerner, ex-prefeito biônico na ditadura e duas vezes na democracia e considerado o “pai” da moderna Curitiba, ganhou a eleição para o governo do Estado pela primeira vez. Ou seja, a Globo atuou como cabo eleitoral do político. Hoje seria autuada por propaganda eleitoral antecipada.

Naquele mesmo ano, Dalton Trevisan espetava a Curitiba “fabricada” em um poema publicado no livro Dinorá:

(…) a melhor de todas as cidades possíveis
nenhum motorista pô respeita o sinal vermelho
Curitiba européia do primeiro mundo
cinqüenta buracos por pessoa em toda calçada
Curitiba alegre do povo feliz
essa é a cidade irreal da propaganda
ninguém viu não sabe onde fica
falso produto de marketing político
ópera bufa de nuvem fraude arame
cidade alegríssima de mentirinha
povo felicíssimo sem rosto sem direito sem pão
dessa Curitiba não me ufano
não Curitiba não é uma festa
os dias da ira nas ruas vêm aí (…)

Atualmente, é inegável o papel que a retransmissora da Globo no Paraná, a TV RPC (Rede Paranaense de Comunicação), tem desempenhado como incentivadora do apoio acrítico de uma boa parcela dos curitibanos à Lava-Jato e ao juiz Sérgio Moro. O único jornal da cidade, a Gazeta do Povo, do mesmo grupo, chegou a publicar, em dezembro passado, uma pesquisa do Instituto Paraná (aquele que mostrava Aécio Neves à frente de Dilma em 2014) dizendo que o “orgulho de ser curitibano” teria “se recuperado” em 2015. O jornal atribuía o fato, é claro, diretamente à Lava-Jato e a Moro.

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(O tubo de Lerner)

Toda esta mitificação leva, por sua vez, o morador da cidade a atribuir, em uma análise de bate-pronto, o tal “conservadorismo” a outros mitos: há quem diga que o curitibano seria conservador por causa do clima frio; que teria a natureza mais fechada devido à ascendência europeia (ignorando os negros); e existe até uma interessante teoria de que o responsável pelo “isolamento” do curitibano seria o célebre sistema de transporte urbano criado por Lerner. As estações de ônibus em Curitiba, em formato de “tubos”, teriam tirado as pessoas do convívio umas com as outras na cidade. “O curitibano foi encapsulado. Saem de casa, entram no tubo, vão para o trabalho e dali de volta para o tubo”, me explica a advogada Tania Mandarino, candidata a vereadora pelo PT. “Isso  fez diminuir as possibilidades de encontro e reuniões nas ruas.”

(Beijo na Boca Maldita, curta de Yanko Del Pino de 2008 sobre a transexual Gilda, personagem do centro de Curitiba entre os anos 1970-1980)

O escritor catarinense radicado em Curitiba Cristóvão Tezza escreveu que o curitibano seria, “para defini-lo numa imagem, uma espécie de alemão protestante urbano com uma alma rural, católica e eslava”. Nada mais diferente do que enxerguei na rua: vi uma capital mulltirracial, o que me chamou a atenção, porque desde a última vez em que havia estado lá, em 2008, a visibilidade negra aumentou a olhos vistos.

Continua Tezza: “o curitibano é, historicamente, um conservador. Para fazer um contraponto contemporâneo que reforça essa visão, ouvi recentemente numa entrevista um publicitário afirmar, comentando o resultado de uma pesquisa, que o curitibano consumidor é tipicamente alguém que não tem muito dinheiro, mas tem patrimônio. Em suma, ele não arrisca nada. O curitibano médio, nesta classificação impressionista que fazemos aqui, é alguém que se estabelece em algum lugar com a dimensão da eternidade, com a perspectiva familiar, com o desejo de uma profunda estabilidade da alma. O curitibano, desde sempre, parece que veio para ficar, tanto o alemão e o ucraniano de um século e meio atrás quanto o migrante dos últimos 50 anos, como eu.”

Andando pelo centro da agradabilíssima Curitiba não se percebe absolutamente nada de diferente das outras capitais do Brasil. No calçadão da rua 15 de Novembro, vejo num sábado de sol pela manhã quiosques de candidatos a vereador de diversos partidos: PRB, PPS, Solidariedade, Raiz, Rede e uma barraquinha vermelha do PT, na paz.

Em compensação, a Boca Maldita, histórica confraria e ponto de encontro da esquerda na época das Diretas-Já, foi “dominada” pela direita mais coroa, que se reúne ali aos sábados para um café na companhia do senador tucano Alvaro Dias. O site Boca Maldita, aliás, é totalmente anti-petista. A Boca envelheceu. Mas, em 2010, o lugar chegou a ser sede de um comício de 20 mil pessoas em torno de Dilma, então candidata à presidência pela primeira vez, e Lula. Dilma também foi derrotada em Curitiba por José Serra, ainda que por um percentual menor do que Aécio.

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(Lula na Boca nos anos 1980)

Os presos da Lava-Jato ficam numa colônia bem distante do centro da cidade, em zona rural, desencorajando manifestações. Mas há um lugar específico onde a direita fã de Sérgio Moro se encontra: a praça Pedro Alexandre Brotto, em frente à sede da Justiça Federal. Lá há uma casinha com a bandeira do Brasil e slogans anti-PT, além de enormes laços verde-amarelos ornando as árvores. A frequência, porém, na semana em que se confirmou o impeachment de Dilma, era baixíssima. Dois gatos pingados.

Pergunto a Rodrigo Souza, engenheiro que está se revezando nos cuidados do quiosque, onde se podem comprar camisetas e bonés, se é verdade que Curitiba é conservadora. Partindo de um típico “coxinha”, a resposta me surpreende. “Acho que tem de tudo aqui, não existe cidade de um pensamento só. Talvez bairros, mas uma cidade inteira, não”, diz. “Eu sempre achei que ser conservador ou não tinha a ver com a condição social da pessoa, mas tenho visto mais pobres que são de direita e também ricos que são de esquerda.” Ao lado dele, Cida Cardoso, empresária e pianista, discordou. “Curitiba é mais de direita, sim. Eu atribuo à parte climática. O europeu é mais fechado.”

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(Rodrigo e Cida no quiosque “Morista” em frente à Justiça Federal)

Para corroborar a fama da cidade, no final de julho a atriz Leticia Sabatella foi agredida por um grupo de direita ao passar por uma manifestação anti-Dilma, aos gritos de “puta”, “comunista” e “sem-vergonha”. Pergunto aos dois “moristas” o que acharam daquilo. Rodrigo: “Acho que ninguém tinha razão ali. Ela não foi lá por acaso, mas também não precisavam partir para cima dela daquele jeito.” Cida: “Ela provocou, podia até ter levado uma cuspida na cara. Não podia ter ido lá, ainda mais com uma bolsa da Dilma!” Detalhe: esqueci meu bloquinho em cima da bancada e Cida foi atrás de mim para devolvê-la e me deu um abraço, mesmo eu tendo me identificado como blogueira “petralha”.

O que sem dúvida ajudou a reforçar a pecha de reaça sobre Curitiba foram alguns acontecimentos mais ligados à extrema-direita propriamente dita, como a perseguição feita à professora da rede pública Gabriela Viola em julho deste ano. Gabriela acabou afastada da escola onde leciona por ter coordenado o trabalho de um grupo de estudantes sobre Karl Marx em que eles faziam uma paródia do funk Baile de Favela com críticas ao capitalismo. O vídeo foi divulgado no facebook, viralizou e Gabriela passou a sofrer ataques de grupos de direita nas redes sociais. Ela já retornou ao trabalho.

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(A professora Gabriela)

Parece que o velho Marx ainda causa urticária na terra das araucárias. A professora de História de uma escola particular, Luciana Podlasek, virou alvo de insultos por parte dos pais dos alunos apenas por postar em seu perfil pessoal no facebook uma frase do filósofo alemão (“a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa) acompanhada de uma foto da juventude fascista de Mussolini na década de 1930 –para criticar o fato de estudantes do colégio terem ido vestidos de preto em protesto à indicação de Lula para a Casa Civil. Entre os xingamentos, “vaca comunista”, “porca vermelha” “petista vagabunda” e o indefectível “vai para Cuba”. Abalada, Luciana acabou pedindo demissão, embora a escola tenha lhe dado apoio.

Minha curiosidade em ambos os casos foi: será que esta mesma reação não se repetiria em outras cidades? Gabriela acha que sim. “Podia ter acontecido em outro lugar. Temos uma elite conservadora, mas não é exclusivo daqui”, opina. Luciana acha que é diferente. “Acho que o ódio e a desinformação são um pouco maiores em Curitiba do que em outras capitais”, diz. O fato é que, após cinco meses do ocorrido, a professora continua desempregada.

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(O estudante Bernardo)

O movimento estudantil  na UFPR, onde Moro ensina Direito, me é descrito por um estudante de esquerda, Bernardo Forlin, como plural, diverso. “Temos até monarquistas. O DCE atualmente está nas mãos do PSOL e do PSTU e não é a primeira vez. Tem várias esquerdas e várias direitas na universidade, e ninguém domina”, diz Bernardo, acentuando que o debate é bastante bom. “Acho que partimos de uma premissa um pouco mais elevada do que na sociedade como um todo.”

Bernardo me conta um fato que talvez seja, historicamente, o diferencial reaça de Curitiba: a capital do Paraná foi, durante três dias, capital do Brasil durante o regime militar, no governo de Costa e Silva, entre 24 e 27 de março de 1969. O objetivo era justamente propagandístico –e, reza a lenda, uma forma de agradar a primeira-dama Yolanda Costa e Silva, que era curitibana.

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(O barman Gabriel)

“Aqui é a cidade dos coxinhas, mano!”, me diz o barman Gabriel da Luz, em frente ao bar descolado onde trabalha na rua São Francisco, centro histórico de Curitiba. Ele, no entanto, se diz desinteressado de política porque os candidatos de quem gosta, do PSOL, não têm chance de se eleger. “Aqui até os pobres são coxinhas”, repete Tadeo Furtado, dono do bar Jardinete, no bairro das Mercês, destacando a forte influência midiática na questão. “Os curitibanos seguem à risca o que a grande mídia fala, repetem e se acham bem informados. É, na verdade, a terra do senso comum.” Mas vejam só que curioso: David MC, um rapper de Bauru que encontrei vendendo seus CDs na rua, me saiu com uma frase para se pensar. “Aqui até os coxinhas são educados.”

Por outro lado, ouvi relatos de perseguição no trabalho por conta de posições políticas de esquerda. A bancária R. contou de certo clima de inquisição na Caixa Econômica Federal, onde é pressionada pelos colegas de agência para se posicionar politicamente. “Eles ficam jogando verde: você é contra o golpe? Só tenho três amigos com quem eu posso conversar”, conta. O ambiente é tão pesado que um gerente, após tomar umas e outras em um churrasco da firma, tomou coragem para desabafar com a subordinada, sussurrando em seu ouvido: “Quando eu era jovem, me filiei ao PT”.

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(Tadeo Furtado no Jardinete)

Situação oposta vive Elaine Souza da Rosa como funcionária concursada da Justiça Federal, território de Moro: na vara onde trabalha, os colegas têm um pensamento parecido ao seu. Já em outras varas, essa história de “República de Curitiba” é adotada e idolatrada. “Ouvi de um juiz: ‘aqui o PT não se cria’. Quando sabem que serão aplaudidos por dizer frases assim, criam coragem”, diz Elaine.

Por falar em “República de Curitiba”, uma das primeiras coisas que me contaram ao chegar à cidade, como “prova” de sua coxice, é que inauguraram um bar com este nome depois que Lula foi grampeado fazendo alusão ao termo. Só que descubro em seguida que também existe um bar superbadalado chamado… Fidel. Sem estresse. Ouço, porém, que andar com adesivo do PT no carro é garantia de que se terá o veículo riscado. Mas vi pouquíssimos automóveis com o adesivo “eu apoio a Lava-Jato” em minha passagem pela cidade.

adesivo

A teoria que me parece mais plausível sobre o “conservadorismo” de Curitiba é que ele está mais relacionado às classes mais altas. Assim como São Paulo tem o circuito Higienópolis-Jardins, a capital do Paraná tem o circuito Batel-Bigorrilho, os bairros mais chiques e, aí sim, redutos do reacionarismo e do apoio irrestrito à Lava-Jato e a Moro. O perfil socioeconômico da cidade, com mais de 50% de classe média, também coincide com os adversários do petismo que foram às ruas contra Dilma Rousseff.

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Sobre a classe média paranaense, ironizava o poeta Paulo Leminski, em Anseios Crípticos, de 1986:

O Paraná moderno começa com os imigrantes. Gente pragmática. Pirada em trabalho. Calvinista. Amante da ordem. Zelosa da propriedade. Gente voltada para resultados práticos. Materiais. Palpáveis. A felicidade da classe média está aí: é o consumo. O acesso aos bens de civilização industriais, a grande aventura existencial da classe média.

Me pergunto: e qual classe média brasileira não é louca por consumo? Não seria justo dizer que é só a curitibana. “As classes mais altas acabam dominando seus funcionários. Com meus clientes, já sei que não posso falar abertamente. Mas os funcionários pensam igualzinho aos patrões”, afirma a advogada Ivete Caribé da Rocha, coordenadora da Comissão da Verdade no Paraná. “Acho que o conservadorismo é mais econômico, porque os gays andam nas ruas de mãos dadas tranquilamente, sem ser agredidos”, diz o pequeno empresário Walter de Almeida. “Depende de onde você anda”, rebate o casal de namorados Bernardo, 17, e João, 15. Um caso de ataque homofóbico foi registrado em março do ano passado, no dia em que ocorreu a maior das manifestações contra Dilma no Paraná.

Entrevistei dois cientistas políticos para tentar desvendar o “conservadorismo” de Curitiba e eles tampouco o aceitam incondicionalmente, sem expor nuances. “Não acho que Curitiba seja muito diferente das demais cidades do centro-sul do país”, diz o professor André Ziegmann, da Uninter. “Entendo o orgulho das pessoas em relação à Lava-Jato, mas essa história de ‘República de Curitiba’ aconteceria em qualquer outra grande cidade com uma classe média mais vigorosa que virasse o epicentro da investigação. Talvez a diferença esteja que a centro-direita aqui fez uma gestão inovadora –se está ultrapassada ou não é outra história. Não vejo nenhuma excepcionalidade. O país está dividido, mas não acredito que Curitiba seja a mais conservadora de todas.”

(Placa em frente à superintendência da PF)

(Placa em frente à superintendência da PF)

“Esta não é uma pergunta fácil de ser respondida”, diz o cientista político Sérgio Braga, da UFPR. “Curitiba já desempenhou um papel importante e progressista em vários acontecimentos políticos recentes. O PMDB oposicionista foi forte aqui na época da ditadura, o primeiro comício das Diretas foi em Curitiba, a cidade teve papel importante no impeachment do Collor, e o PT quase elegeu um prefeito aqui nas eleições de 2000. Mas foi a única cidade onde Afif Domingos foi o candidato mais votado nas eleições de 1989 e seus habitantes relutam em votar em partidos de esquerda, especialmente no PT.”

“Não acredito, porém, que haja aqui uma classe média reacionária e proto-fascista como a que existe no Rio e em São Paulo, por exemplo, que vota em Bolsonaro, Maluf, João Dória, José Serra e outras figuras do gênero. Basta ver que o deputado Francischini, um parlamentar de extrema-direita responsável pelo massacre aos professores em abril de 2015, nem sequer se candidatou às eleições para prefeito devido à perda de prestígio na cidade. Em suma: há um conservadorismo moderado, mas há espaço para o crescimento da esquerda sim, desde que essa esteja conectada com a realidade da população, não se envolva com setores corruptos da política brasileira, e não se limite a defender políticas públicas assistencialistas, propondo também propostas para segmentos da classe média e da pequena produção familiar.”

Há um fator não abordado pelos dois professores que é constantemente citado pelos que atestam a existência de “conservadorismo” em Curitiba: a questão racial. Sintomaticamente, ao mesmo tempo que endeusa Lerner, a cidade parece “esquecer” de seus engenheiros negros, como Enedina Alves Marques (1913-1981), formada em 1945 pela UFPR e considerada a primeira engenheira negra do Brasil. Ou os irmãos de origem baiana André (1838-1898) e Antonio Rebouças (1839-1874), que idealizaram e construíram a estrada de ferro que liga Curitiba ao porto de Paranaguá, ainda hoje considerada inovadora.

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(Ângela Sarneski)

“Curitiba sempre foi racista. Eles fazem evento das etnias no Centro Cultural Guaíra e nunca chamam os negros, como se a gente não tivesse feito parte da história da cidade”, critica Angela Sarneski, militante do movimento negro na capital paranaense. “Eu, mulher negra, vivo isso no dia a dia. A população periférica, onde os negros estão mais presentes, ainda mais. Não nos admitem, seguram a bolsa, atravessam a rua. E quando denunciamos mudam a queixa para ‘injúria’, para fingir que em Curitiba não tem racismo.”

Em novembro do ano passado, um vereador do PSC, Mestre Pop, denunciou o colega Zé Maria, do Solidariedade, por fazer uma piada racista na sua frente. Segundo o vereador, Zé Maria falou, ao vê-lo chegar: “Tenho um negócio para contar. Sabe por que o preto vai para a igreja evangélica? Para chamar o branco de irmão”, lembrou Pop. “Aquilo me ofendeu muito. Todos os vereadores ficaram sem graça”. Mas Zé Maria pediu desculpas e o caso acabou arquivado pela Câmara em maio deste ano. A propósito: dos 38 vereadores de Curitiba, só um é do PT.

No domingo 31 acompanho a marcha em defesa de Dilma no reduto de Sérgio Moro, que reúne apenas 200 pessoas sem incidentes graves, a não ser por duas senhoras que, do alto de um prédio, provocam com gestos e um rapaz que passa de bicicleta mostrando o dedo do meio. Nos primeiros protestos contra Temer, o caldo engrossou, com mais de 5 mil participantes segundo os organizadores. À frente, a mesma juventude pulsante que encontrei em minhas conversas no centro de Curitiba.

Felizmente, ao contrário do que eu imaginava –e do que pintam sobre a cidade–, não é verdade que a cidade foi tomada por reaças radicais dispostos a atacar qualquer um que se vista de vermelho, por exemplo, como fizeram com Leticia Sabatella. Em plena rua, deparo com os amigos Antonio Madureira, estudante de Filosofia, e Bruno Sampaio, barman. Ambos vestem camisetas “de esquerda”: Antonio, com um slogan antifascista; Bruno, com a sigla da União Soviética. Andam com total tranquilidade sem serem importunados.

antifascista

(Antonio e Bruno)

“Olha, esses coxinhas no máximo mostram o dedo do meio. Eles são meio bunda-moles, viu?”, brinca Antonio, fortão e seguro de si. “Existe uma fascistização da sociedade brasileira, não é só em Curitiba. Mas não chegam a esse ponto –pelo menos não ainda”, diz Bruno. O pernambucano Antonio pondera: “Não vejo muita diferença daqui para Recife. Dizem que Curitiba é coxinha, mas Pernambuco é campeão em feminicídios. O Nordeste é extremamente machista.” Não é tão diferente assim: no Mapa da Violência 2015, Pernambuco aparece em 15º lugar entre os Estados que mais matam mulheres, enquanto o Paraná aparece em 19º. E Curitiba aparece à frente de Recife no levantamento sobre feminicídios, na 17ª e 21ª posição, respectivamente (a campeã é Vitória, no Espírito Santo). Em termos de região, Antonio está certo: o Norte e o Nordeste matam mais mulheres que o Sul e o Sudeste.

Resumo da ópera (de Arame): não saí convencida de que Curitiba é reacionária. Acho que tem de tudo um pouco. Não vi nada em específico que não exista em outras capitais. A força da Globo no Estado certamente exerce uma influência poderosa para a adesão de uma representativa parcela da população ao PSDB, ao antipetismo, a Sérgio Moro e à Lava-Jato, mas nem tanto à extrema-direita. Como tudo conspira a favor, é natural que o centro-direita reine. Há, porém, uma juventude muito interessada em ideias mais progressistas e de esquerda.

A palavra final sobre o tema do “conservadorismo” em Curitiba veio do médico Mario Lobato:

– O Moro nem é daqui. Ele é de Maringá!

VAQUINHA POSTERIOR: esta foi a primeira reportagem feita pelo blog no sistema de “vaquinha posterior”, ou seja, se você gostou da reportagem e quer ler outras, ajude a pagá-la. CUSTO: 672,68 (passagem aérea Curitiba-Brasília) + 177,40 (alimentação) + 60,00 (táxi) + 264,00 (hospedagem) + 26,00 (ônibus aeroporto). TOTAL: 1200,08.

 

 

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