Brasília abre mostra de cineastas negras

Publicado em 4 de julho de 2017
(A atriz Ruth de Souza no filme

(A atriz Léa Garcia no filme O Dia de Jerusa, de Viviane Ferreira)

Por Andreia Verdélio, da Agência Brasil

De 4 até 11 de julho a Caixa Cultural apresenta em Brasília, no Teatro da Caixa, a mostra Diretoras Negras no Cinema Brasileiro. Serão exibidos 45 filmes, entre longas, médias e curtas-metragens, fazendo uma retrospectiva da produção cinematográfica feita por cineastas negras brasileiras.

A mostra quer destacar a resistência dessas mulheres no mercado, já que não existe nenhum movimento de cineastas negras e cada uma trabalha suas próprias questões. Dentre elas, se destacam atualmente Elen Linth e Keyla Serruya (Amazonas), Larissa Fulana de Tal (Rio de Janeiro), Eliciane Nascimento (Brasília) e Renata Martins (São Paulo).

Entre outros temas, os filmes de ficção e documentários que serão exibidos na mostra retratam aspectos do cinema negro brasileiro, o lugar da mulher negra na sociedade, a cura e o fortalecimento feminino, a luta das empregadas domésticas, a representação racial no universo infantil e a luta por moradia na América Latina.

A programação ainda traz dois debates abertos ao público, um sobre as perspectivas e transformações da mulher negra no cinema nacional, e outro sobre o percurso das diretoras negras no cinema brasileiro.

diretorasnegras

A mostra também terá uma sessão com audiodescrição e closed captions para portadores de necessidades especiais. O documentário Leva, de Juliana Vicente e Luiza Marques, sobre o movimento dos sem-teto do centro de São Pauloserá exibido no domingo (9), às 17h30.

O filme Amor Maldito, da pioneira Adélia Sampaio, será exibido em duas sessões. A cineasta começou, em 1969, aprendendo tudo na prática, como diretora de produção de diversos longas-metragens. Dirigiu vários curtas e, em 1984, tornou-se a primeira diretora afrodescendente a dirigir um longa-metragem no Brasil, Amor Maldito, uma história de amor entre um casal de lésbicas.

“A ousadia do filme forçou Adélia Sampaio e sua equipe a trabalharem em regime de cooperativa. As salas de cinema (comerciais) não aceitaram exibir o filme, que foi proposto ser divulgado como filme pornô”, informou a Caixa Cultural.

A programação da mostra está disponível no site da Caixa Cultural e na página da mostra no Facebook.. A entrada é gratuita, limitada à lotação do teatro.

 

 

Publicado em

Em Cine Morena

0 Comente

Forró nu de Massarandupió: eu fui!

Publicado em 25 de junho de 2017

forronuana

Por Joana Rizério, de Massarandupió-BA*

Colagem Ana Persona

Quando li, num periódico local, uma matéria que anunciava o Segundo Forró Nu de Massarandupió –famosa praia naturista, 93 quilômetros ao norte de Salvador–, pensei logo em quem eu gostaria de ver pelado.

A festa só permitia a entrada de casais, seguindo uma antiga resolução de ambientes nudistas, forjada para proteger os peladões e peladonas dos homens covardes que vão só para espreitar, com a mão no pinto.

“Mesmo com essa regra, sempre aparece algum, depois que os guardas vão embora, pra olhar o povo nu”, revelou Jorge, naturista há dez anos, que conheci logo no início desta inesquecível empreitada.

Eu tinha uma modesta lista de bem apessoados mancebos cujas vergonhas eu queria conferir –além da velha tabela de suplência formada por ex-namorados e bons amigos. Primeiro eu chamei Mário, um branquelo bem gato. Mas, em cima da hora, o desalmado cancelou.

Dias depois, com a pele coberta só por tatuagem e cabelos, eu me veria bebericando uma caipirinha de mangaba enquanto olhava para Juan, meu eleito acompanhante, que não demonstrava nem um pingo de pudor. Pensei, feliz, no quão boa foi a ideia de convidá-lo. Juan é engraçado.

Em 2010, fiquei pelada em público pela primeira vez. Estava na Alemanha, no verão, e margeei um lago em busca de um canto sem ninguém –não sem antes cruzar com toda a aleatoriedade de gente nua tomando seu banho de sol.

Velhos amigos de mais de 80 anos, famílias inteiras com cachorros e crianças, grupos de colegas em horário de almoço, jovens estudantes em bando… Como se empudorar diante de tamanho despudor?

Nós, brasileiros, não temos a menor maturidade para lidar com órgãos sexuais balançantes ou ostensivas cicatrizes de cesárea, pelos pubianos em flor, peitos finos como papel ou duros, com o último tipo dos silicones.

Chegamos a Massarandupió meio derrotados. Eu, cabeça ansiosa pensando no rala-bucho, não tinha conseguido dormir direito. Juan tomou cana na sexta e acordou passando mal no sábado de manhã. Esperando sentada, como cantou Caymmi, eu ouvia gemidos de ressaca vindos do banheiro do estúdio de fotografia dele. “O Sonrisal não ficou no estômago.” “Vomitei de novo, Jojô, vou tentar Dorflex.”

Chegamos por volta de meio-dia ao sugestivo “Espaço Liberdade”, propriedade identificada apenas por uma inscrição pichada sobre uma placa de madeira destruída pelo sol e pela chuva.

Uma moça com um microfone de TV estava lendo alto um texto e andando pra lá e pra cá. Ela e o cinegrafista tinham voado de Maceió só para cobrir o evento. Ainda não sabíamos, mas veríamos aquela dupla pelada mais tarde. Eu já tinha visto imagens do lugar pela televisão, em uma matéria que falava da controvérsia entre os membros da Associação Massarandupiana de Naturismo (Amanat) e os fomentadores do forró nu.

Enquanto a entidade acreditava que uma festa noturna e com bebidas alcoólicas aumentaria a confusão que já se faz entre naturismo e práticas sexuais em grupo, no vídeo de apresentação, Davi, criador do evento, garantia que se tratava de uma “festa de respeito”, sem um pingo de surubência.

Em outra reportagem (apesar de queixar-se constantemente da imprensa, Davi parece ter divulgado o evento num mailing do Oiapoque ao Chuí), ele contou ter sido intimado, na edição de 2016 do forró nu, pelo “senhor seu delegado”, para prestar esclarecimentos. “Eu disse: ‘Se for ilegal, proíba!’. Mas tava tudo certo. Fiz meu evento e foi um sucesso”, respondeu o cabra corajoso.

Juan, cada poro do corpo fedendo a cachaça, foi dormir tão logo chegamos. Morrendo de frio –chovia e ventava–, eu desisti da cerveja no primeiro copo e fui pegar uma dose de licor de jenipapo. Voltei para a cadeira e me abriguei com a única manta possível –minha própria toalha. Os braços pra dentro, como se eu tivesse seis anos e minha mãe me enrolasse na saída da piscina.

—Boa tarde, menina, você já comeu mangaba?

Era Jorge, na sua dança de apresentação. Aceitei o fruto que se parece, na textura, com o cruzamento entre uma pera muito madura e uma pinha. O gosto é difícil de descrever: forte, quase amargo, mas delicioso.

Jorge parecia pregar em nome de uma seita. Só falava das vantagens de andar sem roupa. Aproveitei para apurar o medo número um entre todos os homens para quem eu contei do forró de cabo a rabo.

Enquanto as mulheres temem olhares analíticos, longos demais, a maior preocupação dos machos é não poder esconder com a calça uma inadequada ereção. O medo número dois, não da maioria, mas –vamos lá– de todos os caras, é a diminuição longitudinal provocada pelo frio. A velha metamorfose do fazedor de xixi num “amendoinzinho com casca”, tão junino e pequenino.

“Mas você consegue imaginar alguém exibindo feliz um pau duro, sozinho, diante de uma praia naturista? Não rola, nem precisa mandar: o cara mesmo fica com vergonha, se senta ou entra na água”, garantiu Jorge. E partiu para o relato de própria punheta –quero dizer, punho: “Em dez anos de naturismo, só fiquei excitado duas vezes.”

A primeira, ele deu a entender, foi “motivada” por uma namorada. Mas a segunda ereção ele garantiu ter sido despertada por acidente: “Eu estava olhando pro mar quando vi uma bunda maravilhosa na minha frente, balançando, a espuma branca batendo nas carnes. Não deu pra segurar.”

Ainda decidindo se prestigiaria o polêmico arraial, meditei por semanas sobre a apresentação do meu próprio corpo nu. Deixei crescer a mata: tinha a impressão de que a depilação em dia evocaria sensualidade. De quebra, deixei os cabelos do sovaco com um centímetro e meio de comprimento. Tentei me cobrir com as armas que podia.

Ainda à tarde, chegou um casal coroa. A cara da mulher lembrava a de Dona Florinda do Chaves, mas as pernas eram as de uma adolescente –e alguns minutos depois, ela comprovou, levantando a camisa até o pescoço e sorrindo de prazer com os elogios de Jorge, que sua bunda, barriga e peitos também pareciam ser da seleção dos sub-20.

O marido deitou na rede e ficou no celular. Não ficariam para o forró, ela contou. Tinham viajado de longe para prestigiar a “festa liberal” na pousada de Priscila, a poucos metros dali. “Liberal como?”, perguntei, fingindo inocência. “Suingue. Troca de casais”, ela me respondeu, naturalmente.

Juan acordou quando todas essas pessoas já eram um só grupo amistoso em torno de uma mesma mesa, no pequeno pátio de alvenaria e telhado que, em um par de horas, seria palco do rala-bucho desavergonhado.

“Já pode ficar nu?”, ele perguntou, mostrando 32 dentes de pura gaiatice. Em vez de resposta, uma ação: Davi começou a tirar a blusa de Rosália, sua esposa, que colaborou levantando os braços e exibindo um sorriso meio tímido. “A mais gata vai ser a primeira pelada”, anunciou ele. Eu esperei que ele fosse ficar pelado também.

Mas aquelas muito bem feitas tetas quarentonas ficaram expostas solitariamente. Davi esqueceu-se de qualquer solidariedade conjugal e permaneceu de camiseta e bermuda. Um prenúncio de desconforto se formava em minha imaginação.

Num rompante mais político do que exibicionista, tirei o vestido azul que me cobria até o joelho, ficando apenas com uma calçolona amarela que minha tia me deu. Segurei o impulso de me cobrir com as mãos. Senti alguns olhares medindo o que a minha roupa até então escondia. Me lembrei das palavras de Jorge: “São só 30 segundos de estranheza. Depois, passa, você vai ver”, ele me preparou.

Jorge também contou a história de uma amiga que viajava de Aracaju quase todo mês para ficar pelada em Massarandupió, até um dia encontrar o gerente de seu banco. “Ela ficou chocada. Mas meia hora depois estavam todos sentados à mesma mesa, já combinando de repetir a viagem juntos”, contou.

Chuva, vento, céu coberto: o frio estava implacável. O pessoal, enquanto arrumava a festa, perguntava: “Quem é que vai ter coragem de tirar a roupa com um tempo desses?”. Mas, às 9 da noite, estávamos quase bêbados, o que deixou o clima ameno.

forronu2

O trio de forró ainda passava o som, os primeiros convidados chegavam. Onde estavam os 40 casais que pagaram antecipado? Nem sinal. Resolvemos explorar a cidade. Fomos para a tal pousada de Priscila, o antro da perdição, de acordo com os nativos.

Priscila nos recebeu com um tour “vamos dar uma olhadinha” através de sua festa vazia. Em resumo, era uma série de cômodos improvisados –basicamente camas de casal separadas por malhas esticadas e lençóis de poliéster. A moça tinha pressa em fechar negócio e não fazia questão de ser simpática: queria receber nossos 80 conto, e logo. “Vocês não vão ficar, né? Vão simbora, me deixem trabalhar.” Gostei da honestidade.

Enxotados de volta à nossa querida festa, vimos um carro da Polícia Militar deixando o Forró Nu. Era a vigilância prometida pela seção local do Ministério Público, que averiguaria os “termômetros” da festa. Estacionamos na vaga deles, feito posseiros.

O clima já era bem melhor. Mesas e cadeiras de plástico vermelho espalhadas pelo terreno abrigavam casais mais discretos, e perto do bar contei umas vinte pessoas. Vi a maior bunda masculina no planeta, quadrada e chulada, e acredito que vou levar essa imagem por muitos anos na memória.

Passando pela penumbra, Juan reconheceu pessoas. Era a repórter, Maria, e Gil, seu fiel cinegrafista. Juan gostou tanto de Maria que, horas antes, no arriar de nossas malas, mesmo desafeito a depoimentos, chegou a conceder uma entrevista a ela, falando baboseiras de 30 segundos que a ajudariam mais tarde na edição.

Eu perguntei quem queria caipirinha e saí. Quando voltei, com três copos servidos pelo barman mais lento do planeta, minha turma não estava mais lá.

Procurei-os no pátio e nada. O trio nordestino aguardava o direito de começar o forrobodó com sua placidez sertaneja, enquanto Davi atrasava, infinito, a arrumação do som. Contei que era DJ e me ofereci para ajudar. Não entendo nada de som, mas um milagre aconteceu e fiz as caixas funcionarem.

Como um prêmio que eu não queria ter ganhado, um homem me tirou pra dançar. Obriguei-me a meditar sobre o porquê de estar ali. Ralar a coxa com um desconhecido, nu? Pra quê? Por quê? Mas, estando aqui, como não? Aceitei.

Só que ele sorria demais. Era empertigado demais. E usava um par de tênis fluorescentes de corrida como único acessório ao corpo broxantemente desenhado em academia. Tocava “O Cheiro da Carolina” quando ele deslizou a mão pelo meu cofrinho. Foi demais pra mim: larguei o cara e resgatei meu copo de caipimangaba.

Achei, finalmente, Juan, Maria e Gil atrás do bar, perto da piscina. Foi então que eu percebi as luzes coloridas e a fumaça de máquina que davam um clima de boate sobre aquelas bandas anuviadas.

Vi um grupo indistinto de gente meio embolada.. Um cara gemia, outro equilibrava um cigarro, uma banda de bunda e um copinho de licor na mão esquerda. Uma mulher xingava, e eu finalmente entendi: meu deus, uma suruba.

Davi tentou coibir. Sou testemunha de três fracassadas investidas de dissuasão dessa cópula conjunta. Mas a sede de amor era tamanha que o pessoal se esgueirou mais ao longe, se escondeu, dissimulou. Com olhos de complacência, decretei pra mim mesma que o forró nu fez tudo o que pôde para manter a decência.

Nos reagrupamos, eu e a trupe jornalística, na mesma mesa. Finalmente –e feito um pugilista que derrota o adversário pelo cansaço, na base do ponto–, Juan conseguiu deixar só de calcinha a linda Maria e levá-la até o miolo do rala-coxa. A música era Sala de Reboco, mas, se você reparasse no meu animado amigo, a trilha sonora ideal seria o clássico de Lindolfo Barbosa:

“O senhor tá dançando armado, o senhor tá dançando armado

O senhor tá dançando armado, nós vamos dizer pro delegado”

No meio da madrugada, a festa acabou. Não dormimos: desmaiamos. Se Juan pegou Maria? Não sei. Certas coisas que acontecem em Massarandupió, ficam em Massarandupió.

“Valeu a pena”, repetíamos no caminho de volta. Corri para escrever este texto já no domingo, temendo esquecer detalhes tão pequenos de nós todos. Foi bonito, foi, como canta o rei do arrocha Pablo.

O que eu fui fazer num forró nu? A resposta pronta é que tenho um nome a zerar. A verdadeira é que achei que daria um bom texto. E que, como a última boia num naufrágio, esta seria uma lembrança risonha a ser carregada com leveza até o derradeiro de meus dias.

E o que acho da nudez? Continua me sendo indiferente. Continuo preferindo tirar a roupa para uma pessoa de cada vez. Mas, depois de enxergar beleza na simplicidade, voto até o fim pelo fim da ilegalidade do corpo humano. Como diz o libertário Mark Twain: “Se fosse a vontade de Deus que nós vivêssemos nus, teríamos nascido assim”.

*PAGUE AS AUTORAS: Gostou da matéria? Apoie a autora. Todas as doações para este post irão para Joana Rizério e Ana Persona. Se preferir depositar direto para Joana, pode fazê-lo nesta conta: Banco do Brasil, agência 2816-9, conta corrente 121152-8, CPF 326.060.445-68 (titular: Rita de Cassia Oliveira Rizerio. 

 

*PAGUE A ILUSTRADORA: Para doar à ilustradora Ana Persona: Ana Paula Cerqueira, banco Santander, agência 0642, conta corrente 01.025.128-9, CPF 028.045.236-59. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, bancada pelos leitores.

 

 

Publicado em

Em Blog

0 Comente

70 anos do cantor Sérgio Sampaio, 23 anos de sua morte: uma entrevista em Brasília em 1993

Publicado em 17 de maio de 2017
(O cantor e compositor Sérgio Sampaio nos anos 1970. Foto: arquivo pessoal)

(O cantor e compositor Sérgio Sampaio nos anos 1970. Foto: arquivo pessoal)

Eu, que sempre fui fã de Raul Seixas, encontrei seu amigo e parceiro Sérgio Sampaio em junho de 1993, quando atuava como repórter de Cultura no Jornal de Brasília e ele, após dez anos quieto, fazia uma miniturnê na capital federal e em Vitória, no seu Espírito Santo natal. Menos de um ano depois, ele faleceria, aos 47 anos, vítima de uma pancreatite.

Se estivesse vivo, Sérgio teria feito 70 anos em abril passado. Na segunda-feira, 15 de maio, completaram-se 23 anos de sua morte. Em Vitória, acontece uma exposição em sua homenagem, em cartaz até o próximo dia 25 de maio: Sérgio Sampaio 70, Eu Sou Aquele que Disse.

Digitei e adaptei a entrevista para vocês conhecerem um pouco deste grande artista da música brasileira, considerado “maldito” apenas porque não se deixou seduzir pela fama. Clique aqui para visitar o site oficial de Sérgio Sampaio.

***

Discreto retorno*

Sérgio Sampaio volta a botar o bloco na rua. Meio discretamente, é verdade. Longe dos holofotes há pelo menos dez anos (seu último show na cidade foi justamente em 1983), mas voltado para apresentações no Nordeste, o cantor e compositor capixaba deixou o sossego da casa em Patamares, orla de Salvador onde mora há quase três anos para uma miniturnê com shows em Vitória e Brasília. E diz que a popularidade foi um “equívoco” em sua vida.

“O sucesso foi da canção, não meu”, explica Sérgio Sampaio. O ano era 1972, e o cantor, após cinco anos no Rio, primeiro como locutor de rádio e depois como músico, estourou nas paradas com Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, classificado no Festival Internacional da Canção. “Eu não pretendia aquilo, não estava preparado para aquela loucura de segurança, avião, hotéis, shows consecutivos”, diz Sérgio. “Eu queria ser como o Caymmi, vir devagarzinho. Raul, sim, almejava a popularidade”, conta.

Foi Raul Seixas quem fez Sérgio Sampaio abraçar de vez a carreira musical. Sérgio era um anônimo qualquer (“anônimo até de mim mesmo”, fala) quando entrou na sala de Raul na CBS  o maluco beleza era produtor da gravadora  para acompanhar no violão um garoto que queria ser cantor. Raul disse que era preciso uma música forte para lançar um cantor novo. Sérgio cantou Coco Verde. Raul pediu outra. Só para Sérgio, num canto, falou: “volte amanhã”.

Do encontro resultou uma forte amizade e até um disco, Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, junto com o transformista Edy Star e Miriam Batucada, uma combinação esdrúxula que fez mais polêmica do que propriamente sucesso. (De todos os envolvidos no disco, só Edy Star está vivo; Miriam morreu com a mesma idade de Sérgio, um mês depois dele.) Chegou-se a comentar que Raul teria produzido o disco à revelia da gravadora e acabou sendo demitido. “Isso é invenção”, garante Sérgio Sampaio. É verdade que tudo que um ou outro aprontou a partir daí  ou levou fama era sempre alvo do comentário: “Vocês dois…” Mas o desligamento da CBS só aconteceu no ano seguinte, a convite da Phillips, para onde Raul foi como produtor de Sérgio.

Alguns ódios uniam a dupla: a raiva dos pais, por exemplo. “Eu tinha raiva do meu porque era violento e Raul do dele porque era pacífico”, conta  curiosamente, uma música composta pelo pai de Sérgio, Cala a Boca, Zebedeu, integra seu repertório. Com o roqueiro baiano, chegou a compor duas músicas, Quero Ir e Cowboy 73. Esta última, gravada por Raul muitos anos mais tarde, virou Cowboy Fora-da-Lei, sem crédito para a co-autoria. “Raul esqueceu”, perdoa Sérgio. Segundo ele, a primeira parte de Gita é de Plínio, irmão de Raul, e ele também esqueceu de dar crédito. “Ele falou: ‘Plininho, eu sabia que conhecia essa música de algum lugar'”, lembra.

Nos últimos anos de vida de Raul, Sérgio Sampaio só se comunicava com ele por telefone. “Estive na casa de Raul um ano antes de ele morrer e havia muita decrepitude pro meu gosto”, explica Sampaio. “Eu me interesso pela vida, não pela morte.” Até por isto, evita participar da idolatria post-mortem em torno do maluco beleza, e não canta músicas de Raul em seu repertório, restrito às composições próprias de maior sucesso, como Viajei de Trem, Meu Pobre Blues e Que Loucura, O Ciúme, de Caetano Veloso, Cabelos Brancos, de Herivelto Martins, e Como É Grande o Meu Amor Por Você, de Roberto Carlos.

“Roberto é um gênio”, elogia Sampaio, conterrâneo do Rei e do escritor Rubem Braga: também nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, mas jura que só canta Meu Pequeno Cachoeiro em reuniões muito íntimas. O cantor considera um “ranço provinciano” as críticas negativas ao trabalho de Roberto Carlos. “Precisou Caetano gravar Fera Ferida para as pessoas reconhecerem que a música era boa”, reclama. “Não se pode alijar o que Roberto fez só porque seus últimos discos são ruins.”

O incrível de tudo é que o compositor que pediu para “botar para gemer” se diz um homem de coração triste  e aí se encontra com o ídolo, o poeta Augusto dos Anjos. Pior ainda: Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua foi escrito num momento de absoluta tristeza! Quem conta é Sérgio Sampaio. “Eu me sentia só, num apartamento enorme e estava superabalado com o acidente no viaduto Paulo de Frontin, onde morreu um monte de gente”, lembra. “Na verdade, a música foi adaptada para o trio elétrico, mas é tristíssima. Uma vez até falei para Waly Salomão que não entendia como uma música tão triste podia tocar no Carnaval. Ele respondeu: ‘E quem disse que o Carnaval é alegre?'”

*Texto publicado originalmente no Jornal de Brasília em 17 de junho de 1993.

 

Bônus: um minidocumentário sobre Sérgio Sampaio dirigido por Nayara Tognere.

 

 

 

 

Publicado em

Em Vintage

0 Comente