Para que serve a sociologia?

Publicado em 11 de janeiro de 2017
operariostarsila

(Operários, de Tarsila do Amaral, 1933)

*Uma parceria da FESPSP com o blog

Em setembro de 2015, foi noticiado que o governo do Japão teria mandado extinguir, gradativamente, os cursos de ciências humanas no país. Polêmica nas redes. De nada valeu o desmentido do ministro da educação japonês: de um lado, a esquerda lamentava, claro; do outro, a direita comemorava o fim das Humanidades como se elas fossem a razão dos problemas na Terra.

Como se não pensar nos problemas –grande tarefa das Ciências Humanas– fosse operar a mágica de fazê-los desaparecer. Esta é uma ilusão, aliás, generalizada atualmente. Quantas vezes a gente ouviu que, se as pessoas não denunciassem tanto o racismo, ele não existiria? A esquerda também é frequentemente acusada de “inventar” a luta de classes…

Virou moda, na internet, ironizar as pessoas de humanas, que são o alvo favorito de memes e piadas como se fossem aquele primo “exótico” e “perdedor” que vive no mundo da lua, quando é exatamente o contrário. As “pessoas de humanas” se preocupam o tempo inteiro com o mundo e para onde ele vai. Ainda mais nesta época em que vivemos. Tempos sombrios.

Falam como se só gente de exatas fosse necessária ao planeta. Mas sem gente de humanas seria o mesmo que ter um mundo onde só existissem automóveis, estradas, edifícios… Viraríamos robôs. As pessoas de humanas são a alma do mundo. Ou melhor: as pessoas de humanas explicam a alma do mundo. Decifram. E o que é mais importante: conscientizam as pessoas sobre o que está acontecendo ao nosso redor. Não vão ser as pessoas de exatas que irão fazer isso, né?

São as ciências humanas, em particular a sociologia, que ajudam a explicar, a nos dar olhos para enxergar a atualidade com clareza. Os sociólogos colocam a humanidade no divã. Repensam. Plantam dúvidas. Evitam que sigamos do nascimento à morte, como gado, sem questionar nada.

É por isso que atacam tanto as pessoas de humanas. Estão até querendo tirar filosofia e sociologia do currículo do ensino médio! Para quê? Para impedir que a sociedade seja conscientizada sobre as ameaças aos direitos humanos, dos trabalhadores, dos mais pobres. Para que aceite tudo sem questionar. Faz parte do projeto conservador de “escola sem partido”, na verdade “escola sem cérebro”.

Os pensadores são tão vitais à humanidade quanto os engenheiros, arquitetos, economistas… Sem eles, nos tornaríamos cada vez mais pobres, em todos os sentidos.

***

Se você pensa em estudar sociologia, tem uma faculdade em São Paulo muito bacana, a FESPSP, por onde passou gente que admiro e me inspira muito, grandes pensadores brasileiros: Sergio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes…

As inscrições para o curso de sociologia e política estão abertas. O próximo vestibular da FESPSP acontece dia 22/01, mas você também pode agendar a sua prova. Inscreva-se aqui. Há descontos para os associados às instituições conveniadas e para seus dependentes. São mais de 100 instituições conveniadas. Mais informações aqui.

 

 

 

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Qual o problema com o “populismo”, afinal?

Publicado em 19 de setembro de 2016

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Todas as vezes que querem atacar as ideias da esquerda em defesa de mais igualdade e justiça social, chamam de “populismo”. Pode reparar. Chamavam Leonel Brizola de “populista”, assim como seu cunhado João Goulart foi criticado como “populista” ou Lula é hoje chamado de “populista”; Hugo Chávez foi xingado de “populista” e Bernie Sanders, o pré-candidato à eleição nos EUA que se define como “socialista”, ouviu o termo “populista” lançado em sua direção. Praticamente todas as lideranças de esquerda do mundo um dia receberam esta alcunha.

Por outro lado, o direitista Donald Trump também é tido como “populista”, assim como o italiano Silvio Berlusconi e um dos líderes do Brexit, o ex-prefeito de Londres Boris Johnson. O “populismo” de direita, aliás, está em alta em vários países desenvolvidos, graças ao desalento das classes mais pobres, que se sentem excluídas pelo processo de globalização. Na Europa e nos EUA, esta população virou terreno fértil para o discurso xenofóbico da direita conservadora, exatamente a que recebe o rótulo de “populista”.

De um modo geral, o “populismo” é visto como nefasto, o que me parece contraditório em se tratando de supostos defensores da democracia. Ora, se a democracia é o poder emanando do povo, e o “populismo” seria, em tese, colocar os interesses do povo em primeiro lugar, qual o problema exatamente com ele? Mas acontece algo curioso: quando se trata da esquerda, o “populismo” é algo ainda mais horrendo e abominável, uma verdadeira perversão. Quando é de direita, o “populismo” é tratado como um mal menor, insignificante, que afeta “grandes líderes”. Abafa!

O “populista” britânico Boris Johnson, por exemplo, atualmente está aboletado na cadeira de ministro das Relações Exteriores da badalada primeira-ministra Theresa May, saudada por dez entre dez direitistas como a “nova Margaret Thatcher”. Isso significa que, após liderar a saída do Reino Unido da União Europeia, Johnson está com seu prestígio na estratosfera, “populista” ou não. O ex-presidente dos EUA Ronald Reagan é apontado como “populista”, mas a admiração por ele não pára de crescer entre os reaças e seu “legado” foi resgatado pelos liberais. Afinal, o “populismo” é mesmo ruim ou só quando é de esquerda?

O flerte da direita com o “populismo” vem de priscas eras, já que a história do nacionalismo muitas vezes se confunde com a sua. Adolf Hitler, líder nacionalista e “populista” de direita, só se tornou quem se tornou graças ao apoio milionário dos capitalistas da época. Na Itália, o fascista Benito Mussolini também foi ajudado pela elite econômica de seu país. Na França de hoje, Marine Le Pen é uma nacionalista populista e fã declarada de Reagan. Se algum dia chegar ao poder, será rejeitada pela elite francesa? Duvido. Trump por acaso está sendo?

Para Darcy Ribeiro, a ideia de populismo é “uma falsificação” que iludiu inclusive a esquerda, em suas palavras, mais “ingênua”. “Se criou no Brasil uma geração intelectual de mulas-sem-cabeça que, desconhecendo o passado, flutua fora da história. Os mais espertinhos deles inventaram as teorias mais inverossímeis para explicar nossa realidade e legitimar sua postura. A principal delas é a teoria do populismo, que descreve os governos que mais lutaram pelos interesses do povo e do país como irremediavelmente ruins porque, sendo demagógicos e anti-revolucionários, operariam como sustentadores da ordem vigente. Os teóricos do populismo não vêem a realidade da história. (…) Trata-se, evidentemente, de uma falsificação, mas ela foi tão repetida através dos anos, com tais ares de unanimidade, que ganhou foros de verdade incontestável porque incontestada”, escreve Darcy no livro Testemunho.

“A expressão poderia até ser útil se designasse governos essencialmente demagógicos como os de Ademar de Barros ou Jânio Quadros, que aliciam o voto popular tudo prometendo em seus discursos, tão-só para uma vez no poder fazer a política da velha classe. Mas é tão-só um absurdo teórico quando aplicada aos movimentos populares reformistas e a seus líderes, responsáveis pelas grandes tentativas registradas em nossa história de reformar as bases institucionais em que se assenta o poderio das classes dominantes.”

Entenderam? O problema real com o “populismo” é, na verdade, a demagogia e não o populismo em si. “Populista” não é automaticamente sinônimo de “demagógico” e pode muito bem ser sinônimo de democrático. Mas quem são os demagogos pseudopopulistas que se arvoram em defensores do povo? Os direitistas, claro! “Para uma vez no poder fazer a política da velha classe”, repito Darcy. Em resumo: o que incomoda no “populismo” da esquerda é que ele não é demagógico, é de fato contra o status quo, e não apenas da boca para fora, como faz a direita, de Jânio a Donald Trump. O populismo que incomoda é aquele que vem diretamente de “popolo” e é antônimo de “burguesismo”, “riquismo”, “aristocracismo”, “classedominantismo”. Um perigo.

É de um cinismo ímpar: o “populismo” como arma de campanha, o que serve para atrair o povo, ludibriá-lo e engajá-lo nas ideias das classes dominantes, sem nelas causar qualquer arranhão, é bem visto, é o ideal para as elites: um populismo de fachada, onde o povo não manda, onde o povo só serve como o ombro forte para que os privilegiados pisem em cima. Este populismo eu também vou combater sempre, claro. Mas o “populismo” de quem quer governar com o olhar voltado para os menos favorecidos, para os que mais necessitam, jamais. Isso aí para mim é elogio.

 

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Salvador Allende e a esquerda desvairada. Por Darcy Ribeiro em setembro de 1973

Publicado em 11 de setembro de 2015
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(Salvador Allende em sua posse, em 4 de novembro de 1970. Foto: Naúl Ojeda/Arquivo Fundação Salvador Allende)

Em 11 de setembro de 1973, um golpe militar derrubava o presidente socialista Salvador Allende, eleito três anos antes no Chile. Allende saiu morto do Palácio de la Moneda, bombardeado pelo Exército. Poucos dias após, o antropólogo Darcy Ribeiro, amigo do presidente, publicou em vários países um texto crítico ao papel de parte da esquerda no fracasso da experiência chilena. Para Darcy, muita gente não percebeu a importância histórica do socialismo proposto por Allende, sem luta armada, e são co-responsáveis pelo golpe.

Alguns aspectos narrados por Darcy lembram bastante o Brasil que vivemos atualmente, embora não se possa dizer que o País esteja caminhando para o socialismo a não ser nos delírios da direita. Leia abaixo trechos do artigo, que pode ser conhecido na íntegra no livro Gentidades (editora LPM). De bônus, o curta documentário de Ken Loach que relaciona o 11 de setembro no Chile à derrubada das torres gêmeas em Nova York em 2001.

***

Salvador Allende e a esquerda desvairada
Por Darcy Ribeiro, Lima, setembro de 1973

Escrevo sobre um estadista. O mais lúcido com quem convivi e o mais combativo. Um estadista que deixa como legado para nossa reflexão a experiência revolucionária mais generosa e avançada do nosso tempo: edificar o socialismo em democracia, pluralismo e liberdade.

(…)

Conheci Salvador Allende em 1964, quando ele nos foi visitar, a João Goulart e a seus ex-ministros, exilados no Uruguai. Sempre me recordarei das longas conversas que tivemos então. Recordo, sobretudo, o deslumbramento com que ouvi – eu era, então, um provinciano brasileiro, que só depois aprenderia a ser latino-americano – a lucidez e a paixão com que ele analisava e avaliava nosso fracasso.

Através de suas palavras, percebi, pela primeira vez, claramente, as dimensões continentais e mundiais do nosso fracasso e o seu terrível impacto sobre a luta de liberação da América Latina.

(…)

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(O presidente Allende na rua em Santiago. Foto: Naúl Ojeda/Arquivo FSA)

Meu sentimento sempre foi –e o é, desde agora – o de que Allende, no plano ideológico, era um homem só, sem ajuda. Incompreendido. Mesmo os chilenos mais próximos dele se surpreendiam a cada dia com a grandeza do homem que os incitava e comandava. Não lhes era fácil substituir a imagem corrente do senador, tantas vezes candidato à presidência, pela figura do estadista que nele reconheciam agora, surpresos e às vezes duvidosos. Mais difícil ainda, para muitos, era aceitar a sua liderança de estadista, dentro de um processo político, quando o que aspiravam na realidade era um comandante à frente de um grupo de ação direta.

Aquele homem sozinho encabeçava, delineava e dirigia o processo mais generoso e complexo do mundo moderno, elevando o Chile a alturas incomparáveis de criatividade teórica e a impensáveis ousadias de repensar tudo o que as esquerdas tinham como dogmas. Sua tarefa era nada menos que abrir uma rota nova – evolutiva – ao socialismo.

(…)

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(Allende e sua jaqueta de couro característica)

Para esta gigantesca tarefa político-ideológica, Allende estava só. Para uns, os ortodoxos, a via chilena era uma espécie de armadilha da história que punha em risco conquistas e seguranças duramente conquistadas em décadas de lutas. Apesar disso, foram eles os que melhor compreenderam o processo em sua especificidade e os que mais ajudaram , tanto a realizar suas potencialidades, como a reconhecer suas limitações. Mas isto é dizer muito pouco ainda quando, na realidade, os comunistas chilenos foram o único apoio sólido e seguro com que Allende contou em seus três anos de luta.

Para outros, os desvairados, não existia nenhuma via chilena. Na cegueira de seus olhos cegados por esquemas formalistas e no sectarismo de sua disposição unívoca para um voluntarismo, tão heróico quanto ineficaz, eles só queriam converter o Chile em Cuba, concebida como único modelo possível de ação revolucionária. Além de visivelmente inaplicável às circunstâncias chilenas, o modelo que tinham em mente não era mais que uma má leitura teórica da experiência cubana. E, como tal, inaplicável em qualquer parte, porque se via nela a ação armada, fechando os olhos à complexa conjuntura política dentro da qual a ação guerrilheira teve ali, e só ali, lugar e eficácia.

(…)

Os socialistas, membros de um partido eleitoreiro, viviam do antigo, renovado e crescente prestígio popular de Allende: mas, vazios de uma ideologia própria, passaram a funcionar como uma caixa de ressonância dos desvairados, criando com o seu radicalismo verbal e sua inflexibilidade tática os maiores obstáculos à política do governo. De fato, a maioria de suas facções atuou mais contra Allende – através de denúncias despropositadas, de exigências infantis e de propostas provocativas – que contra o inimigo, jamais reconhecendo o caráter gradualista do processo chileno ou ajustando-se a seus requisitos específicos. Entregues a disputas estéreis com os comunistas, os socialistas punham nelas mais energias do que na luta concreta contra o inimigo comum.

(…)

O que vi foram muitos dos “melhores teóricos” – porque haviam lido e escrito mais esta tolice exegética que se autodenomina marxismo de vanguarda – vagando pelo Chile como se estivessem na lua, incapazes de perceber e de entender o processo revolucionário que tinham diante deles, porque para seus olhos cegos tratava-se de um mero “reformismo”.

(…)

Desde o primeiro momento, Allende percebeu com toda lucidez que eram falsos ou que não se aplicavam à via chilena alguns dos célebres dogmas das esquerdas desvairadas. Entre eles o de que se avança para o socialismo exclusivamente pela luta armada; o de que o socialismo se constrói sobre o caos econômico; e o de que é necessário derrubar primeiro toda a legalidade “burguesa” para abrir caminho para o socialismo.

O primeiro destes dogmas pressupunha a convicção de que entre o status quo e o socialismo estaria uma vitória militar sobre as Forças Armadas. Allende sabia que não podia enfrentá-las diretamente, e as via com maior objetividade. Primeiro, como uma burocracia tão disciplinada e hierarquizada que poderia, talvez, ser submetida aos poderes institucionais se se mantivesse a ordem constitucional. Segundo, como uma instituição eminentemente política, com tendências fascistas – por lealdades classistas, por sua constituição gerontocrática e seu doutrinamento anti-revolucionário –, mas suscetível de ser ganha ou anulada politicamente pela ação disciplinada do povo organizado dentro de um movimento ao socialismo em democracia, pluralismo e liberdade.

(…)

(O Palácio de la Moneda no dia seguinte ao bombardeio. Foto: Luis Poirot/Arquivo FSA)

(A lúgubre imagem do Palácio de la Moneda no dia seguinte ao bombardeio. Foto: Luis Poirot/Arquivo FSA)

Entretanto, para prosseguir neste controle institucional das Forças Armadas, seria necessário preencher um requisito indispensável: o de que Allende tivesse, efetivamente, o comando unificado sobre as esquerdas militantes e as pusesse em ação dentro do processo de transição pacífica ao socialismo. Isso ele jamais conseguiu. Os atos desesperados da esquerda desvairada, somados à inércia e à demagogia dos confusos líderes socialistas, contribuíram para minar estas condições, facilitando assim a conspiração de uma direita unida, francamente entregue à contra-revolução, e para isso apoiada internacionalmente através de toda ordem de sabotagens econômicas e financeiras, articuladas e desencadeadas com rigor científico para inviabilizar seu governo.

Nestas condições, as lideranças democratas-cristãs, aliadas à extrema-direita, fizeram do Parlamento um órgão de provocação, chantagem e bloqueio ao poder Executivo; ao mesmo tempo em que as altas hierarquias do poder judiciário questionavam a legalidade dos atos do governo. Simultaneamente seus aparelhos ideológicos levavam as camadas médias ao desespero, pelo terror de perder, não o que tinham –que era bem pouco– mas suas esperanças de enriquecimento e prestígio que, segundo se dizia, em um regime socialista lhes seriam completamente negadas.

(…)

Há muito o que aprender desta experiência única de repensar com originalidade os princípios da política econômica para conduzir um processo de transição ao socialismo, dentro da institucionalidade vigente. Entre suas vitórias estão: a de haver acabado com o desemprego; a elevação substancial do padrão de vida das camadas mais pobres; o aumento ponderável da produtividade industrial; a ativação da Reforma Agrária; a imposição do controle estatal sobre os bancos privados e o comércio exterior; a socialização das empresas-chave e, sobretudo, a recuperação para os chilenos das riquezas nacionais, começando pelo cobre, sujeito desde sempre às mãos estrangeiras.

Em três anos, Allende conseguiu mais por esta via, do que qualquer revolução socialista em igual período. Por isto é que, mesmo sendo governo, ganhou eleições, o que jamais havia ocorrido no Chile. Mas também levou ao desespero os privilegiados, desafiando-os a promover a contra-revolução como único modo de garantir a sua sobrevivência como classe hegemônica. Para isso, eles atuaram principalmente sobre os militares e sobre as classes médias cuja alianças lhes garantiria a vitória.

(…)

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(Corpo de Allende sendo retirado do Palácio de la Moneda)

Este artigo é uma incitação para que meditemos sobre esta lição com o devido respeito por sua grandeza e com a coragem necessária à autocrítica. Todos nós, as esquerdas da América Latina e do mundo, fomos derrotados no Chile. Cada um de nós tem, consequentemente, a sua autocrítica a fazer, tanto pelo que fizemos de danoso ao processo chileno, como pelo que deixamos de fazer em seu apoio. Acusar apenas ao inimigo que nos venceu pela enumeração minuciosa de seus atos, apenas reitera a convicção generalizada sobre sua eficiência. Nossa tarefa é vencê-lo.

O que não pode ser posto em dúvida é que Allende explorou até os últimos limites as possibilidades que a história abriu aos chilenos de edificar o socialismo em democracia, pluralismo e liberdade. E que a Unidade Popular teve possibilidades de vitória com respeito às quais a direita chilena e o imperialismo jamais duvidaram. Sua lição é ter nos indicado um caminho duro e difícil. Um caminho que exigirá, amanheça, dos que o retomarem, a mesma lucidez, inteireza, retitude e coragem com que Allende marchou para ele até a morte, com o propósito de, sobre sua derrota, abrir uma via vitoriosa ao socialismo. A via evolutiva, participatória, pluralista, parlamentar e democrática, apesar de tão dificultosa é a mais praticável em muitas conjunturas no mundo de hoje.

Com Che Guevara a história nos deu o herói-mártir do voluntarismo revolucionário que dignificou a imagem desgastada das lideranças da velha esquerda ortodoxa. Com Allende, a história nos dá o estadista combatente que chega à morte lutando, em seu esforço por abrir aos homens uma nova porta para o futuro, um acesso ao socialismo libertário que pode e que deve ser.

Ele será o inspirador dos que terão futuramente que lutar pelo socialismo, sob oposição parlamentar e debaixo do risco de um golpe militar. Oxalá, onde e quando isso ocorra, exista uma esquerda por fim politicamente madura e dessacralizada de dogmatismos, tão combativa quanto lúcida e sobretudo capacitada para ver objetivamente a situação em que atua e para aceitar e enfrentar as tarefas que a História lhe proponha.

 

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