Salvador Allende e a esquerda desvairada. Por Darcy Ribeiro em setembro de 1973

Publicado em 11 de setembro de 2015
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(Salvador Allende em sua posse, em 4 de novembro de 1970. Foto: Naúl Ojeda/Arquivo Fundação Salvador Allende)

Em 11 de setembro de 1973, um golpe militar derrubava o presidente socialista Salvador Allende, eleito três anos antes no Chile. Allende saiu morto do Palácio de la Moneda, bombardeado pelo Exército. Poucos dias após, o antropólogo Darcy Ribeiro, amigo do presidente, publicou em vários países um texto crítico ao papel de parte da esquerda no fracasso da experiência chilena. Para Darcy, muita gente não percebeu a importância histórica do socialismo proposto por Allende, sem luta armada, e são co-responsáveis pelo golpe.

Alguns aspectos narrados por Darcy lembram bastante o Brasil que vivemos atualmente, embora não se possa dizer que o País esteja caminhando para o socialismo a não ser nos delírios da direita. Leia abaixo trechos do artigo, que pode ser conhecido na íntegra no livro Gentidades (editora LPM). De bônus, o curta documentário de Ken Loach que relaciona o 11 de setembro no Chile à derrubada das torres gêmeas em Nova York em 2001.

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Salvador Allende e a esquerda desvairada
Por Darcy Ribeiro, Lima, setembro de 1973

Escrevo sobre um estadista. O mais lúcido com quem convivi e o mais combativo. Um estadista que deixa como legado para nossa reflexão a experiência revolucionária mais generosa e avançada do nosso tempo: edificar o socialismo em democracia, pluralismo e liberdade.

(…)

Conheci Salvador Allende em 1964, quando ele nos foi visitar, a João Goulart e a seus ex-ministros, exilados no Uruguai. Sempre me recordarei das longas conversas que tivemos então. Recordo, sobretudo, o deslumbramento com que ouvi – eu era, então, um provinciano brasileiro, que só depois aprenderia a ser latino-americano – a lucidez e a paixão com que ele analisava e avaliava nosso fracasso.

Através de suas palavras, percebi, pela primeira vez, claramente, as dimensões continentais e mundiais do nosso fracasso e o seu terrível impacto sobre a luta de liberação da América Latina.

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(O presidente Allende na rua em Santiago. Foto: Naúl Ojeda/Arquivo FSA)

Meu sentimento sempre foi –e o é, desde agora – o de que Allende, no plano ideológico, era um homem só, sem ajuda. Incompreendido. Mesmo os chilenos mais próximos dele se surpreendiam a cada dia com a grandeza do homem que os incitava e comandava. Não lhes era fácil substituir a imagem corrente do senador, tantas vezes candidato à presidência, pela figura do estadista que nele reconheciam agora, surpresos e às vezes duvidosos. Mais difícil ainda, para muitos, era aceitar a sua liderança de estadista, dentro de um processo político, quando o que aspiravam na realidade era um comandante à frente de um grupo de ação direta.

Aquele homem sozinho encabeçava, delineava e dirigia o processo mais generoso e complexo do mundo moderno, elevando o Chile a alturas incomparáveis de criatividade teórica e a impensáveis ousadias de repensar tudo o que as esquerdas tinham como dogmas. Sua tarefa era nada menos que abrir uma rota nova – evolutiva – ao socialismo.

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(Allende e sua jaqueta de couro característica)

Para esta gigantesca tarefa político-ideológica, Allende estava só. Para uns, os ortodoxos, a via chilena era uma espécie de armadilha da história que punha em risco conquistas e seguranças duramente conquistadas em décadas de lutas. Apesar disso, foram eles os que melhor compreenderam o processo em sua especificidade e os que mais ajudaram , tanto a realizar suas potencialidades, como a reconhecer suas limitações. Mas isto é dizer muito pouco ainda quando, na realidade, os comunistas chilenos foram o único apoio sólido e seguro com que Allende contou em seus três anos de luta.

Para outros, os desvairados, não existia nenhuma via chilena. Na cegueira de seus olhos cegados por esquemas formalistas e no sectarismo de sua disposição unívoca para um voluntarismo, tão heróico quanto ineficaz, eles só queriam converter o Chile em Cuba, concebida como único modelo possível de ação revolucionária. Além de visivelmente inaplicável às circunstâncias chilenas, o modelo que tinham em mente não era mais que uma má leitura teórica da experiência cubana. E, como tal, inaplicável em qualquer parte, porque se via nela a ação armada, fechando os olhos à complexa conjuntura política dentro da qual a ação guerrilheira teve ali, e só ali, lugar e eficácia.

(…)

Os socialistas, membros de um partido eleitoreiro, viviam do antigo, renovado e crescente prestígio popular de Allende: mas, vazios de uma ideologia própria, passaram a funcionar como uma caixa de ressonância dos desvairados, criando com o seu radicalismo verbal e sua inflexibilidade tática os maiores obstáculos à política do governo. De fato, a maioria de suas facções atuou mais contra Allende – através de denúncias despropositadas, de exigências infantis e de propostas provocativas – que contra o inimigo, jamais reconhecendo o caráter gradualista do processo chileno ou ajustando-se a seus requisitos específicos. Entregues a disputas estéreis com os comunistas, os socialistas punham nelas mais energias do que na luta concreta contra o inimigo comum.

(…)

O que vi foram muitos dos “melhores teóricos” – porque haviam lido e escrito mais esta tolice exegética que se autodenomina marxismo de vanguarda – vagando pelo Chile como se estivessem na lua, incapazes de perceber e de entender o processo revolucionário que tinham diante deles, porque para seus olhos cegos tratava-se de um mero “reformismo”.

(…)

Desde o primeiro momento, Allende percebeu com toda lucidez que eram falsos ou que não se aplicavam à via chilena alguns dos célebres dogmas das esquerdas desvairadas. Entre eles o de que se avança para o socialismo exclusivamente pela luta armada; o de que o socialismo se constrói sobre o caos econômico; e o de que é necessário derrubar primeiro toda a legalidade “burguesa” para abrir caminho para o socialismo.

O primeiro destes dogmas pressupunha a convicção de que entre o status quo e o socialismo estaria uma vitória militar sobre as Forças Armadas. Allende sabia que não podia enfrentá-las diretamente, e as via com maior objetividade. Primeiro, como uma burocracia tão disciplinada e hierarquizada que poderia, talvez, ser submetida aos poderes institucionais se se mantivesse a ordem constitucional. Segundo, como uma instituição eminentemente política, com tendências fascistas – por lealdades classistas, por sua constituição gerontocrática e seu doutrinamento anti-revolucionário –, mas suscetível de ser ganha ou anulada politicamente pela ação disciplinada do povo organizado dentro de um movimento ao socialismo em democracia, pluralismo e liberdade.

(…)

(O Palácio de la Moneda no dia seguinte ao bombardeio. Foto: Luis Poirot/Arquivo FSA)

(A lúgubre imagem do Palácio de la Moneda no dia seguinte ao bombardeio. Foto: Luis Poirot/Arquivo FSA)

Entretanto, para prosseguir neste controle institucional das Forças Armadas, seria necessário preencher um requisito indispensável: o de que Allende tivesse, efetivamente, o comando unificado sobre as esquerdas militantes e as pusesse em ação dentro do processo de transição pacífica ao socialismo. Isso ele jamais conseguiu. Os atos desesperados da esquerda desvairada, somados à inércia e à demagogia dos confusos líderes socialistas, contribuíram para minar estas condições, facilitando assim a conspiração de uma direita unida, francamente entregue à contra-revolução, e para isso apoiada internacionalmente através de toda ordem de sabotagens econômicas e financeiras, articuladas e desencadeadas com rigor científico para inviabilizar seu governo.

Nestas condições, as lideranças democratas-cristãs, aliadas à extrema-direita, fizeram do Parlamento um órgão de provocação, chantagem e bloqueio ao poder Executivo; ao mesmo tempo em que as altas hierarquias do poder judiciário questionavam a legalidade dos atos do governo. Simultaneamente seus aparelhos ideológicos levavam as camadas médias ao desespero, pelo terror de perder, não o que tinham –que era bem pouco– mas suas esperanças de enriquecimento e prestígio que, segundo se dizia, em um regime socialista lhes seriam completamente negadas.

(…)

Há muito o que aprender desta experiência única de repensar com originalidade os princípios da política econômica para conduzir um processo de transição ao socialismo, dentro da institucionalidade vigente. Entre suas vitórias estão: a de haver acabado com o desemprego; a elevação substancial do padrão de vida das camadas mais pobres; o aumento ponderável da produtividade industrial; a ativação da Reforma Agrária; a imposição do controle estatal sobre os bancos privados e o comércio exterior; a socialização das empresas-chave e, sobretudo, a recuperação para os chilenos das riquezas nacionais, começando pelo cobre, sujeito desde sempre às mãos estrangeiras.

Em três anos, Allende conseguiu mais por esta via, do que qualquer revolução socialista em igual período. Por isto é que, mesmo sendo governo, ganhou eleições, o que jamais havia ocorrido no Chile. Mas também levou ao desespero os privilegiados, desafiando-os a promover a contra-revolução como único modo de garantir a sua sobrevivência como classe hegemônica. Para isso, eles atuaram principalmente sobre os militares e sobre as classes médias cuja alianças lhes garantiria a vitória.

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(Corpo de Allende sendo retirado do Palácio de la Moneda)

Este artigo é uma incitação para que meditemos sobre esta lição com o devido respeito por sua grandeza e com a coragem necessária à autocrítica. Todos nós, as esquerdas da América Latina e do mundo, fomos derrotados no Chile. Cada um de nós tem, consequentemente, a sua autocrítica a fazer, tanto pelo que fizemos de danoso ao processo chileno, como pelo que deixamos de fazer em seu apoio. Acusar apenas ao inimigo que nos venceu pela enumeração minuciosa de seus atos, apenas reitera a convicção generalizada sobre sua eficiência. Nossa tarefa é vencê-lo.

O que não pode ser posto em dúvida é que Allende explorou até os últimos limites as possibilidades que a história abriu aos chilenos de edificar o socialismo em democracia, pluralismo e liberdade. E que a Unidade Popular teve possibilidades de vitória com respeito às quais a direita chilena e o imperialismo jamais duvidaram. Sua lição é ter nos indicado um caminho duro e difícil. Um caminho que exigirá, amanheça, dos que o retomarem, a mesma lucidez, inteireza, retitude e coragem com que Allende marchou para ele até a morte, com o propósito de, sobre sua derrota, abrir uma via vitoriosa ao socialismo. A via evolutiva, participatória, pluralista, parlamentar e democrática, apesar de tão dificultosa é a mais praticável em muitas conjunturas no mundo de hoje.

Com Che Guevara a história nos deu o herói-mártir do voluntarismo revolucionário que dignificou a imagem desgastada das lideranças da velha esquerda ortodoxa. Com Allende, a história nos dá o estadista combatente que chega à morte lutando, em seu esforço por abrir aos homens uma nova porta para o futuro, um acesso ao socialismo libertário que pode e que deve ser.

Ele será o inspirador dos que terão futuramente que lutar pelo socialismo, sob oposição parlamentar e debaixo do risco de um golpe militar. Oxalá, onde e quando isso ocorra, exista uma esquerda por fim politicamente madura e dessacralizada de dogmatismos, tão combativa quanto lúcida e sobretudo capacitada para ver objetivamente a situação em que atua e para aceitar e enfrentar as tarefas que a História lhe proponha.

 

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20 anos de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, indispensável para entender o Brasil

Publicado em 15 de julho de 2015
(Darcy Ribeiro na volta do exílio, em 1976)

(Darcy Ribeiro na volta do exílio, em 1976)

“Nosso destino é nos unificarmos com todos os latino-americanos por nossa oposição comum ao mesmo antagonista, que é a América anglo-saxônica, para fundarmos, tal como ocorre na comunidade européia, a Nação Latino-Americana sonhada por Bolívar. Hoje, somos 500 milhões, amanhã seremos 1 bilhão. Vale dizer, um contingente humano com magnitude suficiente para encarnar a latinidade em face dos blocos chineses, eslavos, árabes e neobritânicos, na humanidade futura.

Somos povos novos ainda na luta para nos fazermos a nós mesmos como um gênero humano novo que nunca existiu antes. Tarefa muito mais difícil e penosa, mas também muito mais bela e desafiante.

Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultura. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização. para se fazer uma potência econômica, de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e por que assentada na mais bela e luminosa província da Terra.”

(Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro)

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Esta não é a primeira vez que cito O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, no blog, nem será a última (clique aqui e aqui para ler outros textos sobre o livro). Considero uma obra fundamental para compreender o nosso País e para conscientizar os jovens sobre o sofrimento dos negros e dos índios em sua formação, para perceber o tamanho da dívida que temos para com eles e entender as desigualdades que sempre existiram. Nosso parto como Nação foi doloroso e ainda é. Darcy mostra isso.

Vinte anos atrás, em fevereiro de 1995, internado em um hospital para tratar um câncer do pulmão, Darcy Ribeiro decidiu fugir e ir para sua casa em Maricá terminar aquele que considerava o grande livro de sua vida: justamente O Povo Brasileiro. “Não poderia deixar de terminá-lo”, declarou então. Em maio daquele ano o livro seria lançado e Darcy morreria dois anos depois. O Povo Brasileiro se tornou um clássico instantâneo e permanece absurdamente atual.

Em uma lista recente de livros para conhecer o Brasil que elaborou, o crítico literário Antonio Candido, que considera Darcy “um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve”, situa O Povo Brasileiro como a obra que deve vir antes de qualquer outra. “Como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: ‘A formação e o sentido do Brasil'”.

Para lembrar o aniversário e para espalhar O Povo Brasileiro país afora, o Socialista Morena se junta à livraria Outras Palavras em uma promoção: os leitores do blog têm 10% de desconto na compra do livro. Clique aqui para comprar. E boa leitura.

 

 

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Eduardo Galeano cita Darcy Ribeiro: “O mundo se divide entre indignos e indignados”

Publicado em 13 de abril de 2015
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(Eduardo Galeano em Brasília no ano passado. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

 

O enorme escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) nos deixou hoje, e, além da republicação de posts antigos sobre ele (leia abaixo deste post), não poderia deixar de prestar uma homenagem. Traduzi para vocês esta entrevista publicada pelo jornal La República do Uruguai em 2012, quando Galeano lançava o livro Os Filhos dos Dias (editora L&PM). Em formato de calendário, o livro traz 366 histórias sobre os “invisíveis”, como dizia Galeano: mulheres, negros, índios, pobres. Sem deixar de cutucar os inimigos: banqueiros, multinacionais e a mídia.

Entre tantas frases incrivelmente atuais da entrevista, destaquei uma onde ele cita seu “mestre”, o brasileiro Darcy Ribeiro, grande inspiração deste blog: “O mundo se divide entre os indignos e os indignados e é preciso tomar partido, é preciso escolher”. Que falta farão ao mundo as palavras acridoces de Galeano!

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“Os responsáveis pela crise foram recompensados por afundar o planeta”

Por Ana María Mizrahi, no La República

– Por que este título, Os Filhos dos Dias?

 Segundo os maias, somos filhos dos dias, ou seja, é o tempo que funda o espaço. O tempo é nosso papai e nossa mamãe e sendo como somos filhos dos dias, o mais natural é que de cada dia nasça uma história. Somos feitos de átomos, mas também de histórias.

– Dentro dessas histórias há muitas vinculadas à nossa vida cotidiana. O senhor fala: “vivemos em um mundo inseguro”. O interessante é que coloca que existem diferentes concepções de insegurança. A que se refere?

– Muitos políticos no mundo inteiro não é algo que aconteça só em nosso país exploram uma espécie de histeria coletiva em relação ao tema da insegurança. Te ensinam a ver o próximo como uma ameaça e te proíbem de vê-lo como uma promessa. Ou seja, o próximo, esse senhor, essa senhora que anda por aí, pode te roubar, te violar, te sequestrar, te enganar, mentir para você, dificilmente vai oferecer algo que valha a pena receber. Creio que isso forma parte de uma ditadura universal do medo. Estamos treinados para ter medo de tudo e de todos e esta é a desculpa que a estrutura militar do mundo precisa. Este é um mundo que destina metade de seus recursos à arte de matar o próximo. Os gastos militares, que são o nome artístico dos gastos criminosos, necessitam de um álibi. As armas necessitam da guerra como os abrigos necessitam do inverno.

– Quando o senhor fala dos medos brinca com essa palavra para assim mencionar aos meios (em espanhol é um anagrama, “miedos”, “medios”) e tem uma história que é “os medos de comunicação”. Qual a responsabilidade dos meios nos medos?

 Às vezes os meios atuam como medos de comunicação, então se convertem em meios de incomunicação. Isto não é verdade para todos, mas sim para alguns meios que no mundo inteiro exploram esse tipo de histeria coletiva desatada com o tema da insegurança. Mentem, porque a insegurança não se reduz à insegurança que se pode sofrer nas ruas. Inseguro é este mundo e em primeiro lugar está a insegurança no trabalho, a mais grave de todas e da qual nunca falam os políticos que exploram o tema da insegurança. Não existe nada mais inseguro que o trabalho. Todos nos perguntamos: e amanhã, haverá quem me compre? Voltarei ao lugar de trabalho onde estive? Outra pessoa terá ocupado meu lugar? Esse medo real de perder o trabalho ou de não encontrar um é a fonte de insegurança mais importante. É o mundo que é inseguro, a quantidade de pessoas que os carros matam nisso que chamamos de acidentes de trânsito, na verdade são atos criminosos causados por condutores que tendo permissão de dirigir, têm permissão de matar, ou a insegurança das crianças que nascem no mundo condenadas a morrer muito cedo de fome ou de enfermidades curáveis.

– Aparecem no livro histórias de desaparecidos, mas menciono uma em particular, chamada Operação Condor, onde a história que conta pertence a Macarena Gelman. Como foi para o senhor conhecer Macarena?

 Comecei conhecendo ao pai de Macarena (Marcelo) e ao avô Juan (o poeta argentino Juan Gelman), com quem trabalhei na revista CRISIS em Buenos Aires e que é meu amigo de toda a vida. São muitos anos de amizade ou melhor de irmandade. Juan teve que ir embora da Argentina para continuar vivo, naqueles dias que se viviam em Buenos Aires, onde se tinha que ir embora ou se esconder. Então eu recebia com muita frequência seu filho Marcelo e fui seu papai por algum tempo, depois o mataram e a outra história é bastante conhecida.

A mulher de Marcelo (Maria Claudia) foi sequestrada na Argentina. Eram acusados do delito de agitação, delitos de dignidade que têm a ver com o direito estudantil ao protesto. Esses eram os crimes de garotos como eles, que foram assassinados muito cedo. Mataram Maria Claudia no Uruguai, onde funcionava o mercado comum da morte, que foi o que melhor funcionou, porque o Mercosul ainda tem dificuldades sérias. O mercado da morte funcionou muito bem naquelas horas de terror onde as ditaduras trocavam favores. Mandaram Maria Claudia grávida para o Uruguai e aqui os militares uruguaios fizeram o serviço. Esperaram que parisse, ela passou seus últimos dias, ou talvez seus últimos meses na sede de Bulevar Artigas y Palmar (SID – Serviço de Informação e Defesa), onde descerraram uma placa em memória dela e de todos que estiveram ali.

Me impressionou o contraste da beleza exterior desse palácio e os horrores que escondia. Depois de parir, mataram-na e entregaram seu filho/a um policial, uma troca de favores. A partir de uma busca complicada de Juan e seus amigos, foi possível encontrá-la e agora se chama Macarena Gelman. Nos tornamos muito amigos e uma vez jantando em minha casa, me contou essa história que é parte das histórias de Os Filhos dos Dias. É uma história muito íntima, muito privada e lhe pedi autorização para publicá-la. É uma história estranha mas reveladora. Conta que quando ainda não sabia quem era e vivia em outra casa, com outro nome, nesse período sofria de insônias contínuas, que não a deixavam dormir à noite porque era perseguida sempre pelo mesmo pesadelo. Via uns senhores desconhecidos muito armados que a buscavam no quarto onde estava dormindo, debaixo da cama, no armário e em todas as partes e ela despertava gritando e angustiadíssima.

Durante muitíssimo tempo, toda a sua infância, teve esse pesadelo que a perseguia e não sabia por que, de onde vinha. Até que conheceu sua verdadeira história e soube que ela estava sonhando os pesadelos que sua mãe havia vivido enquanto a moldava em seu ventre. A mãe, uma estudante de apenas 19 anos, era perseguida de verdade por outros senhores armados até os dentes que a encontraram e a mandaram ao Uruguai para morrer. Macarena estava no ventre dessa mulher acossada e perseguida. Desde o ventre padecia a perseguição que sua mãe sofria e depois sonhou com isso e se converteu em seus próprios pesadelos. Ela sonhou o que sua mãe havia vivido. É uma história que parece uma metáfora da transmissão das penas, dos horrores, e também de outras continuidades que não são todas horríveis.

– É um livro que contém muitas histórias de mulheres. Por quê?

 Também há muitas histórias de mulheres nos meus livros anteriores, como Espelhos e Bocas do Tempo. Há muitas histórias dos invisíveis, e as mulheres ainda são bastante invisíveis. Há histórias de negros, de índios, das culturas ignoradas, das gentes ignoradas e que merecem ser redescobertas porque têm algo a dizer e vale a pena escutar.

Neste último livro há uma história que me impressionou muito, e que não havia escrito até agora, que é a de Juana Azurduy. Juana foi uma heroína das guerras de independência. Encabeçou a tomada do Cerro de Potosí, que estava em mãos dos espanhóis. Ela era a chefe de um grupo guerrilheiro que recuperou Potosí das mãos espanholas. Depois seguiu lutando pela Independência, perdeu seus 7 filhos e seu marido nesta guerra. No final foi enterrada em uma fossa comum e morreu na pobreza mais pobre que se possa imaginar. Antes havia recebido um título militar, foram as forças independentistas que lhe deram um título que dizia: “à sua coragem viril”. Foi preciso muito tempo para que uma presidenta argentina (Cristina Kirchner) lhe outorgasse o título de generala por sua feminina valentia.

– Um integrante da Real Academia Espanhola assinalou como um erro utilizar expressões que sobrecarreguem a linguagem. Era uma crítica à feminização, como por exemplo quando se utiliza todos e todas. O que o senhor pensa a respeito?

 O transcendente é o que há por trás, ainda que às vezes os conteúdos se reflitam nas palavras que os expressam. Me parece muito ridículo quando uma mulher se apresenta para mim e diz ‘sou médico’. ‘Médica?’ respondo. (Em espanhol se usa médico para homens e mulheres.)

– Há muitas histórias no livro sobre os povos originais, da luta pelos recursos naturais e o papel das multinacionais. Em particular, uma história dedicada à floresta amazônica.

 Essa história sobre a Amazônia recorda que a Texaco, empresa petroleira que derramou veneno durante muitos anos, destruiu boa parte da selva equatoriana. Foi a julgamento, e a empresa ganhou. As vítimas desse atentado à natureza e às pessoas deste lugar não tinham recursos econômicos, enquanto a Texaco contava com centenas de advogados. Após alguns anos, no entanto, se ganhou o pleito, mas ainda não se executou a sentença porque há muitas formas de apelar, e de jogar a bola para fora e para isso nunca faltam doutores.

– No livro, o senhor tem um olhar crítico sobre os governos progressistas que ainda não legalizaram o aborto. 

 O livro toca em todos os temas, sempre a partir de histórias concretas. Não é um livro teórico.

– As 366 histórias não são só latino-americanas, o senhor percorre o mundo. 

 Há muitas histórias que merecem ser recuperadas. Luana, por exemplo, foi a primeira mulher que assinou seus escritos em tábuas de barro. Aconteceu há 4 mil anos e dizia que escrever era uma festa. Esta mulher é desconhecida. E vale a pena contar que essa história existiu.

– Com relação à crise internacional, o senhor resgata o que ocorreu na Islândia e o movimento dos indignados na Espanha.

 Esta crise nasce de um círculo muito pequeno de banqueiros onipotentes. Me ocorreu para esta história um título sinistro, que foi “adote um banqueirinho”. Os responsáveis pela crise são os que mais se queixaram e os que mais dinheiro receberam. Foram recompensados por afundar o planeta. Todo esse dinheiro que se destinou aos que causaram o pior desastre na história da humanidade seria suficiente para dar de comer a todos os famintos do mundo com sobremesa incluída.

– Acha contraditória a existência do movimento dos indignados na Espanha e que ao mesmo tempo tenha ganhado lá o Partido Popular (de direita)?

– O surgimento dos indignados é a coisa mais linda que ocorreu no mundo nos últimos tempos. Acho que o melhor da vida é sua capacidade de surpreender. O melhor dos meus dias é o que ainda não vivi. Cada vez que uma cigana se aproxima para ler a minha mão lhe digo que por favor, pagarei para que não leia. Não quero que me digam o que vai acontecer, o melhor que tem a vida é a curiosidade e a curiosidade nasce da ignorância do destino. A explosão dos indignados começou na Espanha e logo se estendeu a outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre Darcy Ribeiro: o mundo se divide entre os indignos e os indignados e é preciso tomar partido, é preciso escolher.

Me lembrei muito dele quando surgiu este movimento. Jovens que perderam seus empregos e suas casas por responsabilidade desses malabarismos financeiros que terminaram por despojar aos inocentes de seus bens. Eles não foram os que fizeram empréstimos impossíveis, não foram os culpados da bolha financeira e este disparate que aconteceu na Espanha, de construir e construir. Agora o país está cheio de casas desabitadas e gente sem casa.

O PP ganhou a eleição, é verdade. A direita ganhou as eleições, e haverá que lutar para que isso mude. Isto que aconteceu na Espanha também demonstra o desprestígio das forças da esquerda que nascem na vida política prometendo mudanças radicais e depois acabam repetindo a história em vez de mudá-la. Muita gente, sobretudo os jovens, se sentem enganados e abandonam a política.

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De bônus, uma entrevista de Eduardo Galeano a Eric Nepomuceno, tradutor de Os Filhos dos Dias, no programa Sangue Latino, do Canal Brasil.

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