Ode ao burguês: parece PSTU, mas é Mário de Andrade

Publicado em 14 de novembro de 2016
burguesnegro

(“Direitos Humanos”, Kukryniksy)

Quando, na Semana de Arte Moderna de 1922, Mário de Andrade (1893-1945) declamou o poema Ode ao Burguês, os industriais e cafeicultores da época se sentiram insultados. O poeta chegou a ser vaiado pelos convidados, alguns dos quais tinham contribuído financeiramente para a realização da semana e não engoliram a crítica. Reparem que as palavras “Ode ao” soam como “ódio”…

Embora nunca tenha se aproximado do Partido Comunista, Mário era simpático ao socialismo (“Minha maior esperança é que se consiga um dia realizar no mundo o verdadeiro e ignorado Socialismo. Só então o homem terá o direito de pronunciar a palavra ‘civilização’”) e chegou a defender os comunistas em um artigo de 1930. “Está se dando aqui no Brasil um movimento em torno da palavra Comunismo que é dum ridículo perfeitamente idiota”, escreveu.

Suas palavras soam tão atuais nestes tempos de neomacarthismo quanto esse poema de 95 anos atrás. Parece ter sido escrito por alguém do PSTU, né? Ainda mais quando se observa a força que até hoje tem no país um cão de guarda dos privilégios burgueses como a Fiesp, capaz de derrubar uma presidenta eleita com um discurso anticorrupção enquanto um de seus membros sonega bilhões. O poema também me recorda o prefeito eleito de São Paulo, João Doria, e seu similar norte-americano, Donald Trump. Leiam.

***

Ode ao Burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
“– Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar… – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

 

 

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Neoliberalismo: querem trazer de volta para o Brasil agenda que até o FMI acha ultrapassada

Publicado em 31 de maio de 2016
grecia

(Mãe e filho sem-teto na Grécia. Foto: James Glossop/The Times)

Pânico no Instituto Millenium! Tucanos, fujam para as montanhas! Alguém dê um rivotril pro Rodrigo Constantino! Um estudo publicado esta semana por economistas do Fundo Monetário Internacional defende que os “benefícios que são parte importante da agenda neoliberal foram exagerados”. Se eles agora pensam assim, imaginem o que acha quem nunca enxergou nenhum benefício na agenda que privatizou todas as riquezas nacionais em países como a Argentina? É este modelo falido, ultrapassado, que o governo ilegítimo de Michel Temer e seus parceiros do PSDB pretendem reinstalar no Brasil.

A importância do estudo é difícil de medir. Afinal, os economistas do FMI praticamente detonaram todas as políticas defendidas pelo Fundo ao longo das últimas décadas. De acordo com os autores do estudo Neoliberalismo: supervalorizado?, Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri, o neoliberalismo não só não resultou em crescimento econômico como é a causa da desigualdade crescente no mundo.

As políticas de austeridade fiscal, disseram os economistas, ao contrário, prejudicaram o crescimento econômico dos países que as adotaram. “Os custos em termos de crescente desigualdade são evidentes”, escreveram. “As políticas de austeridade não só geram custos sociais substanciais, como também prejudicam a demanda e assim agravam o desemprego”. A Grécia é um exemplo disso.

Os economistas advertiram que a desigualdade crescente afeta, inclusive, o nível de sustentabilidade do crescimento. “Ainda que o crescimento fosse o único ou o principal objetivo da agenda neoliberal, os que a defendem necessitam de qualquer maneira prestar atenção a seus efeitos distributivos”.

Eles são taxativos ao analisar a supervalorização do neoliberalismo por seus defensores. “No caso da abertura financeira, alguns fluxos de capital, como a inversão estrangeira direta, parecem ter os benefícios esperados. Mas para outros, particularmente os fluxos de capital de curto prazo, os benefícios em relação ao crescimento são difíceis de verificar, enquanto que os riscos, em termos de maior volatilidade e maior risco de crise se mostram crescentes.”

A notícia foi recebida com fúria pelo jornal britânico Financial Times. “É um insulto à inteligência”, vociferou. “O ataque contra o neoliberalismo é perigoso. Dá fôlego aos regimes opressores de todo o mundo que também se posicionam radicalmente contra o liberalismo e submetem suas populações a uma política econômica ineficiente e à desigualdade extrema usando todo o poder do Estado”, atacou o FT, mirando certamente países como os “bolivarianos” da América do Sul, onde o jornal parece ignorar que a desigualdade diminuiu.

No The Guardian, pelo contrário, o estudo foi motivo de júbilo e gozação. “Você está testemunhando a morte do neoliberalismo”, escreveu o articulista Aditya Chakrabortty. “Quanto mais a crise avança, mais as pessoas caem em si de que não só o crescimento foi mais fraco como os trabalhadores comuns têm tido menos benefícios. No ano passado, a OCDE (Organização para o Crescimento e o Desenvolvimento Econômico) fez uma confissão notável: reconheceu que a parte que cabia aos trabalhadores do crescimento econômico do Reino Unido está agora em seu nível mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial. E pior ainda entre os trabalhadores do Ocidente capitalista de modo geral”.

Sério que é isso que querem para o Brasil? Retroceder e voltar a adotar uma agenda que o próprio FMI reconhece como falida? Nunca tivemos dúvidas de que o que desejam Temer, José Serra e cia. é nos transformar numa república de bananas subserviente aos EUA. Permitiremos?

 

 

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Ocupação: o sonho da casa própria do excluído

Publicado em 1 de abril de 2016
sem-teto

(Família de sem-teto em São Paulo. Foto: @magnesio)

Uma pesquisa do instituto Data Popular divulgada em 2012 constatou que 19,2 milhões de brasileiros das classes C e D sonham em ter uma casa própria. Entre a chamada “nova classe média”, ou classe C, o desejo é ainda maior: 57,6%. Entre as classes D e E, o percentual, por incrível que pareça, cai para 27,2%. Por que será? Ora, porque para quem é pobre no Brasil ter uma casa própria é um sonho praticamente impossível. Como é que uma pessoa que não tem nem o que comer direito pode sonhar em COMPRAR uma casa para morar?

Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios) de 2013, 17,9% dos domicílios brasileiros são imóveis alugados, enquanto 7,4% são imóveis “cedidos” ou, como se diz, ocupados por pessoas que vivem “de favor”. Só em São Paulo existem, de acordo com o último censo da prefeitura, cerca de 16 mil pessoas morando nas ruas. Fica difícil acreditar que pessoas sob estas condições consigam ter algum sonho de consumo e muito menos que este sonho seja adquirir uma casa própria. A direita dirá que lhes faltou “esforço” para tal, embora na maioria dos casos sejam pessoas excluídas há várias gerações.

A Organização das Nações Unidas apresentou em março um relatório que afirma que o número de pessoas sem-teto está aumentando no mundo inteiro, em vários países, independentemente do grau do desenvolvimento ou da economia. “O aumento do número de sem-teto é evidência da falha dos Estados em proteger e garantir os direitos humanos das populações mais vulneráveis”, disse Leilani Farha, relatora especial da ONU para o direito à moradia.

No relatório, a ONU pede que os governos se comprometam a solucionar o problema dos sem-teto até 2030. Enquanto isso não ocorre (se é que vai ocorrer), o que pode fazer esta legião de pessoas sem ter onde morar? Ocupar, claro. Não há como não se solidarizar com os trabalhadores sem-teto que ocupam prédios abandonados ou terrenos não-utilizados como forma de lutar para ter uma moradia. As ocupações são uma forma de os excluídos realizarem, como a classe média, o sonho da casa própria.

Os estudantes de Jornalismo da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (FAPCOM), em São Paulo, fizeram um mini-documentário em uma dessas ocupações, a Vila Nova Palestina, no extremo Sul da capital. Há cerca de 5 mil pessoas cadastradas na ocupação, que está aguardando um laudo da CETESB para iniciar a construção das casas, prometida pelo prefeito Fernando Haddad (PT). A expectativa é de que sejam construídas 3500 moradias com recursos do programa Minha Casa Minha Vida.

A vida por lá é dura. Não há rede de esgoto e nem mesmo privadas ou banheiros nas barracas improvisadas com lonas e plásticos. Há o medo constante de incêndios. As crianças são estigmatizadas, mas frequentam a escola. O sonho de ter uma moradia para chamar de sua faz com que estas pessoas insistam e sigam em frente. Assista, é muito emocionante. Espero que ajude a mudar a forma com que muitos vêem as ocupações pelos sem-teto. Não é “crime”, é o contrário, é a busca pela cidadania.

 

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