Doria, o poste (de pole dance)

Publicado em 13 de janeiro de 2017

doriaposte

(Ilustra do Cris Vector)

Quando começaram a surgir as primeiras notícias de que seria candidata a presidente da República, Dilma Rousseff foi logo apelidada “poste”. Por nunca haver disputado cargo eletivo, Dilma era um “poste” de Lula. As palavras “marionete” e “fantoche” também foram utilizadas. Mesmo que, antes de se candidatar, ela estivesse como ministra da Casa Civil da presidência da República, tendo sido antes ministra das Minas e Energia e ocupado vários cargos públicos a partir dos anos 1980.

Em Dilma, o fato de ser uma “não-política” foi apontado pela velha mídia como um defeito, não uma qualidade. Torceram o nariz para a “neófita”, a técnica que queria ser presidente. Eleita, dizia-se que quem governava de fato era seu “criador”. À parte a questão da misoginia, determinante em relação a Dilma, algo parecido aconteceu com Fernando Haddad em São Paulo. Embora tenha sido ministro da Educação, Haddad foi chamado de “poste” de Lula. Um “não-político” de esquerda? Inaceitável, vamos bater nele até derrotá-lo.

Antes de ser lançado por seu padrinho político Geraldo Alckmin à prefeitura de São Paulo, os únicos cargos de destaque que João Doria Jr. ocupou foram os de lobista do mundo empresarial, líder do movimento “Cansei” e administrador de uma empresa imaginária num reality show. Mas Doria se autodenominou “gestor”, um não-político, para ganhar a eleição. E colou. A boa vontade da mídia com o tucanato é tanta que ninguém o chamou de “poste”.

No entanto, não foram precisos nem dez dias à frente da prefeitura da maior metrópole brasileira para o país inteiro perceber que João Doria é o mais legítimo poste eleito para cargo público nos últimos anos, desde que Celso Pitta foi ungido prefeito por Paulo Maluf em 1996. Doria é um poste de “pole dance”, se exibindo fantasiado diante das câmeras de TV. O poste espetaculoso de Alckmin já se vestiu de gari e pedreiro. Virou meme: qual o próximo integrante do Village People que Doria irá encarnar?

Como suspeitávamos, João Doria Jr., o “ges-tor”, possui, ao contrário, todos os defeitos dos “políticos profissionais” que tanto criticou em campanha. É demagogo ao extremo. E populista no pior sentido da palavra, capaz de se fingir de pobre para agradar aos pobres, emulando seu antecessor Janio Quadros, que polvilhava farinha nos ombros para que as pessoas pensassem ter caspa. Não por acaso a marca registrada de Janio, como se tornou a de Doria, é uma vassoura.

É que o populismo, quando é de direita, é bem-vindo. Na esquerda, o discurso contra a desigualdade, por mais justiça social, é criticado como “populismo”. Que populismo bom é esse que tira cidadãos da miséria? Imaginem se Dilma se fantasiasse de faxineira ao iniciar o governo. Ou Haddad, de servente… Demagogo, populista, marqueteiro de si mesmo e obviamente despreparado para o cargo, para Doria ser igualzinho aos piores políticos só falta ser corrupto.

Pode-se dizer o que for de Dilma e Haddad, mas ambos fizeram administrações absolutamente republicanas, sem culto à personalidade e muito menos demagogia. Como técnicos sérios que são, se limitaram a fazer o que acreditavam frente aos cargos que ocuparam –sob o alto preço de receber uma chuva de críticas de todos os lados. Doria começou o mandato mostrando que não é nada além de um poste. Um poste vestindo Ralph Lauren não deixa de ser um poste.

 

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Saiu do portal e matou a família

Publicado em 2 de janeiro de 2017
isamara

(Isamara e seu filho João Victor, os alvos do assassino machista)

Os mortos e feridos na chacina de Campinas são as primeiras vítimas fatais do ódio à esquerda estimulado pela mídia nos últimos anos. Para arrancar o PT do poder, revistas, jornais e emissoras de rádio e TV incentivaram o machismo, a misoginia, a homofobia, a raiva irracional a todo pensamento progressista. Alimentaram a besta.

A carta do assassino nada mais é do que uma colagem dos pensamentos toscos que lemos nos comentários dos portais noticiosos todos os dias, inspirados em (de)formadores de opinião aos quais a mídia deu espaço. Não há nada de surpreendente ali: à parte seus problemas pessoais e psicológicos, o atirador utiliza as mesmas palavras que a direita usa nas redes sociais cotidianamente para atingir “inimigos”, sobretudo mulheres, homossexuais e defensores dos direitos humanos.

Não é à toa que o assassino machista de Campinas apela à mesmíssima expressão para se referir tanto à mãe do seu filho quanto à presidenta Dilma: “vadia”. A palavra “vadia” aparece 12 vezes na carta. Este é o termo mais usado contra mulheres hoje no Brasil, arroz de festa nas redes sociais. Foi o primeiro insulto que recebi ao inaugurar o blog, em 2012, vindo de um roqueiro de direita que se sentiu incomodado por um texto meu –e ele recebeu em seguida o apoio de uma jornalista da Globo.

Contra Dilma, foram incontáveis as vezes em que ela foi chamada de “vadia” e outros termos homólogos a “prostituta” na internet e em cartazes nas manifestações verde e amarelas: “puta”, “vaca”, “vagabunda”, “quenga”. Em 2010, o cartunista Nani foi pioneiro no machismo contra Dilma ao mostrar a candidata “rodando a bolsinha” numa esquina; a charge foi divulgada pelo portal mais visitado, o UOL. Chamar uma mulher de “vadia”, seja ela anônima, jornalista ou presidenta da República virou algo normal, “liberdade de expressão”. No twitter e facebook, xingar mulher rende “likes”. Vão dizer que não? Se até deputados fazem isso e têm milhões de seguidores…

Quem inventou o ódio às feministas presente na carta do atirador de Campinas? Quem o disseminou? Nos programas pseudohumorísticos da televisão aberta e nas redes sociais, é considerado piada inofensiva chamar as feministas de “feminazis”, achincalhá-las noite e dia, demonizá-las. É inegável que, para atingir Dilma, a mídia naturalizou o desprezo às mulheres que se destacam e que lutam contra o machismo. Precisa assumir sua enorme responsabilidade na misoginia que insuflou.

O caso de Campinas infelizmente não é fato isolado. Enquanto a direita brada contra as feministas, todos os dias morrem mulheres vítimas de feminicídio no Brasil. Esta semana, um advogado de Vitória, no Espírito Santo, espancou uma faxineira na porta de casa e teve o desplante de “pedir desculpas”, como se fosse um mero esbarrão. Ficará quanto tempo preso? Em novembro, a sobrinha-neta do ex-presidente José Sarney foi estuprada e morta pelo próprio cunhado, dentro de casa.

Não precisa conferir as estatísticas, basta olhar os portais: todo dia uma mulher é agredida ou morta por ex e atuais companheiros. Desta vez os alvos foram mais numerosos, mas o assassino demonstra sua motivação misógina ao escrever que iria levar junto com ele “o máximo de vadias”. Das 12 vítimas fatais da chacina, nove são mulheres. Em março de 2015, Dilma foi criticada pelo maior jornal do país por sancionar a lei que torna o feminicídio crime hediondo. Em sua carta, o assassino de Campinas chama a lei Maria da Penha de “vadia da penha”.

A combinação de ódio com a defesa do armamento pessoal é literalmente explosiva, e conta com o apoio midiático. Na época do plebiscito, em 2005, a revista mais vendida do Brasil não hesitou em se posicionar, na capa, contra o desarmamento. Uma das bancadas da direita hidrófoba com mais poder dentro do Congresso, todo mundo sabe, é a da bala, formada por políticos que são financiados pela indústria do armamento –a mesma que produz balas de borracha para massacrar estudantes em protestos.

Diante das chacinas que se tornaram praticamente semanais no mundo “civilizado”, seguimos enxergando um uníssono culpado: o fanatismo religioso, esquecendo que todos os fanatismos são igualmente nocivos. O fanatismo político também é sangrento e este encontrou um poderoso eco nas grandes corporações midiáticas, capazes de construir e destruir governantes.

Este é um sentimento perigoso, o ódio. É muita irresponsabilidade para com o país disseminá-lo em nome do antipetismo, estamos alertando há anos. Quantas vezes escrevi aqui aquele provérbio espanhol, “cria cuervos y te sacarán los ojos”? O antipetismo desencaminhou o Brasil, estamos indo para um rumo tenebroso. O único limite para o ódio é o sangue.

E assim começamos 2017… Minha solidariedade às vítimas desta tragédia. Mas sabem o que é ainda mais triste? Saber que nos esgotos de onde o assassino saiu não faltará gente para aplaudi-lo.

 

 

 

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Mudança na delação da Andrade confirma tentativa de criminalizar o PT a qualquer custo

Publicado em 18 de novembro de 2016
Brasília-DF 11-08-2015 Fotos Lula Marques/AGPT Presidenta Dilma durante cerimônia de anúncio do Programa de Investimento em Energia Elétrica

(Temer e Dilma em 2015. Foto: Lula Marques)

Está cada vez mais difícil confiar no equilíbrio da Justiça brasileira pós-Lava-Jato. Os “erros” se sucedem, todos prejudicando, é claro, o PT. Primeiro foi a Polícia Federal quem atribuiu a José Dirceu a sigla “JD” na lista da Odebrecht e depois admitiu que se equivocou para então atribuir a mesma sigla a um assessor do também petista Antonio Palocci. Ou seja, foram dois petistas atingidos com um JD só. Acredite se quiser.

Agora, o delator premiado pela Lava-Jato Otavio Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, mudou sua versão sobre a doação feita à campanha de Dilma Rousseff e Michel Temer em 2014. Observe bem: o delator JÁ TINHA ASSINADO, em 19 de setembro, a confissão ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), presidido por Gilmar Mendes, afirmando haver doado 1 milhão de reais em PROPINA para o diretório nacional do PT em 2014.

Acontece que, no início de novembro, a defesa de Dilma apresentou um cheque nominal a Michel Temer comprovando que a doação de 1 milhão tinha vindo do PMDB, que recebera o valor da Andrade Gutierrez. Quer dizer, se havia ilegalidade, a ilegalidade tinha acontecido com o PMDB, e não com o PT.

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“Os documentos comprovam que não houve transferência de 1 milhão de reais do diretório nacional do PT à campanha de Dilma. O que houve foi a transferência de 1 milhão de reais, em 14 de julho de 2014, da conta do diretório nacional do PMDB para a conta 2014 Michel Temer vice-presidente, tendo Andrade Gutierrez como doador originário”, diz a defesa da presidenta eleita, acusando o delator de tentar, deliberadamente, atingi-la.

Confrontado com os documentos, o que fez o delator, convocado novamente a depor? MUDOU sua versão à Justiça Eleitoral. O cheque, que era “propina”, virou magicamente doação legal, de forma conveniente para o presidente ilegítimo, que tenta se safar de ser cassado pelo TSE. O processo é movido pelo PSDB, que pede a cassação da chapa Dilma-Temer. Se isso acontecesse em 2017, teríamos um presidente eleito indiretamente pelo Congresso até 2018. Quem sabe do PSDB, não é mesmo?

“O depoente fez uma retratação, ou seja, ele reconheceu claramente que não existiu nenhuma propina e nenhuma irregularidade na campanha presidencial de Dilma Rousseff e Michel Temer. Portanto, hoje ele se retratou perante a Justiça Eleitoral e retirou a acusação que tinha feito no depoimento anterior”, disse o advogado de Dilma, Flávio Caetano, após o recuo de Azevedo.

O mais curioso é que a mídia, de antemão, já havia inocentado Temer de qualquer ilegalidade, servindo como álibi ao atual ocupante do Planalto. A Folha, por exemplo, só noticiou o caso se referindo a uma tentativa de Dilma de “envolver” Temer nas denúncias, sendo que o homem era vice dela. Após o golpe, jornais e TVs comportam-se como porta-vozes do novo governo. Terá alguma relação com a generosidade de Temer, usando dinheiro público, na distribuição de anúncios à velha mídia?

Comprovada a falsidade da delação, comprova-se também a tentativa em curso de criminalizar o PT a qualquer custo além de livrar a cara do presidente ilegítimo do Brasil. É lamentável ver que, mais uma vez, a mídia é participante ativa deste tipo de jogada. Para destruir o PT, Dilma e Lula, o estado de direito naufraga. E com a cumplicidade dos meios de comunicação.

 

 

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