Donos da bola: a geração latino-americana que não aprendeu a perder

Publicado em 4 de abril de 2017
leninmoreno

(O presidente eleito do Equador, Lenín Moreno. Foto: divulgação)

Por Rafael Holanda Barroso, de Quito*

Com a proclamação de vitória do socialista Lenín Moreno (Alianza PAÍS) neste domingo, o Equador se soma a outros países da região em que a oposição de direita se recusa a aceitar o resultado da eleição e coloca em xeque o espírito democrático da América Latina.

Com 99% dos votos consolidados, Lenín obteve 51.16%. O opositor, Guillermo Lasso (Alianza CREO — Suma), 48.84%. A vitória de Lenín era esperada pelas pesquisas de opinião que foram feitas durante a semana. No entanto, três dos quatro institutos de pesquisa que fizeram boca-de-urna apontavam para a vitória da oposição, mesmo que apertada.

Foi o suficiente para que o próprio candidato derrotado e uma multidão de apoiadores tomassem as ruas da capital Quito, dizendo se tratar de uma fraude eleitoral, a exemplo do que fizeram no primeiro turno.

Mesmo sem provas contundentes que baseiem essas alegações, a oposição equatoriana deslegitima o resultado apresentado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e auditado por comissões da Unasul, Parlasul, OEA e outras instituições internacionais, perfazendo um total de mais de 240 observadores. A vitória de Lenín já foi reconhecida pela própria OEA, cujo secretário-geral Luis Almagro cumprimentou o presidente eleito pelo twitter.

Além dos “bolivarianos” Bolívia e Venezuela, os governos da Espanha, El Salvador, Paraguai, Costa Rica, Uruguai, Argentina, Colômbia, Peru e Chile também fizeram questão de cumprimentar Lenín Moreno.

Mas a oposição continua esperneando. O roteiro implementado é conhecido, é o mesmo feito no Brasil, quando Dilma Rousseff ganhou de Aécio Neves em 2014 por uma margem muito pequena de votos: os tucanos e seus eleitores não aceitaram a derrota democrática, falaram em fraude eleitoral e depois se juntaram ao PMDB e outros partidos de centro-direita para fazer a usurpação de poder e de linha política por meio de um golpe parlamentar, desrespeitando o resultado das urnas.

O mesmo havia acontecido com Nicolás Maduro, que obteve apertada vitória sobre o opositor Henrique Capriles, na Venezuela, em 2013. Exatamente como ocorre no Equador agora, a oposição foi às ruas de Caracas apresentando denúncias superficiais e falando em fraude. Na eleição legislativa, os anti-chavistas conseguiram sólida maioria, o que impede Maduro de governar até hoje.

No Paraguai, em 2012, Fernando Lugo, também de esquerda, sofreu um processo de impeachment em 24 horas, mesmo sem concretude nas acusações, com o mesmo modelo de golpe parlamentar implementado no Brasil.

 

Geração que não sabe perder

Este padrão demonstra que há uma geração na América Latina que não sabe lidar bem com derrotas. Fica ainda pior com a formação das chamadas “bolhas sociais”, em que as pessoas interagem mais com pessoas que pensam igual a elas, diminuindo a capacidade de perceber e entender o outro. É a geração do: “ninguém pensa diferente de mim, apenas milhões”. Como diz Zygmunt Bauman:

“O diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia.”

A frustração está muito presente. É uma geração que chega tão cheia de si nas disputas, que não consegue lidar com o fracasso, ou com a simples opção de não ser um sucesso.

No contexto das campanhas eleitorais ainda existe um fator crescente que devemos analisar. É o crescimento dos chamados alternative facts. O termo foi usado pela comunicação do governo Donald Trump (EUA) para defender a opinião do multimilionário mesmo com a abundância de dados e provas que contradiziam o que era dito.

O poder dessas narrativas fabricadas convence muita gente, principalmente nos interiores dessas bolhas sociais e em contextos polarizados, onde o oponente democrático se torna inimigo desta bolha. Qualquer informação, mesmo sem lastro, inverossímil ou estrategicamente criada, vira automaticamente verdade e arma para alvejar o inimigo. É a vez da pós-verdade.

Vejo essa realidade muito forte aqui em Quito. A oposição ao governo Correa raramente foca em contradições claras do governo. O debate político, que poderia ser rico, construtivo e efetivamente controlar as ações governamentais ou gerar uma mudança positiva, acaba se tornando mais uma esfera de compartilhamento de ódio, muitas vezes racial e de classe, e de proliferação de mentiras e propostas contraditórias.

Um exemplo é o debate sobre o ingresso no ensino superior público, onde eleitores do oposicionista Lasso criticam as medidas de Correa, pedindo mais acesso e pedindo que se acabe com as difíceis provas das universidades. Lasso prometeu acabar com a prova, para alegria da plateia, mas em nenhum momento disse que aumentaria vagas ou facilitaria o acesso. Pelo contrário, disse que diminuiria o investimento público em educação.

O nível baixa bastante quando analisamos as denúncias de fraude no processo eleitoral por aqui, que até agora não encontrou respaldo em evidências ou testemunhos concretos. O uso deliberado dos alternative facts tomou conta dos discursos dos líderes, jornais e eleitores da oposição, que de forma irresponsável inflamam o país. Questionar o processo é legítimo, mas quando vira uma cultura permanente de não reconhecer resultados democráticos, seguindo dizendo-se vencedores, percebemos o autoritarismo por trás do comportamento.

É possível listar vários líderes em ascensão que, como Lasso, sabem se aproveitar dessa nova cultura política, não se aprofundando sobre as prioridades programáticas ou planos, mas surfando no tema da vez e falando o que as pessoas da sua bolha querem ouvir.

Enquanto metade da população comemora o coroamento da década ganada, fazendo referência aos dez anos da chamada revolução cidadã de Rafael Correa, que incontestavelmente garantiu avanços sociais e sobretudo estabilidade política e econômica em um país marcado pelas frequentes trocas de presidente, Constituição e até de moeda, a outra está frustrada e não aceita o resultado democrático. A oposição, por mais que não seja maioria, cresceu na Assembléia, e pode construir consensos em pontos críticos do governo da Alianza PAÍS.

Para essa geração da direita equatoriana a hora agora é de superar a frustração e perceber a própria limitação em convencer um país que é muito maior do que a bolha da elite branca equatoriana. Vencer a primeira fase do luto, que é a negação, e conhecer o seu próprio país, seu povo, sua história, para aí sim conseguir desenhar um outro futuro. Esse deveria ser o esforço de toda essa geração.

 

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Randolfe Rodrigues: “Pelo visto o PSOL amadureceu”

Publicado em 29 de março de 2017
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(A foto que foi o estopim da saída de Randolfe do PSOL)

Há quase três anos, em plena pré-campanha de 2014, o senador do Amapá Randolfe Rodrigues, escolhido candidato à presidência pelo PSOL, resolveu presentear seu colega de parlamento e também presidenciável do PSDB Aécio Neves com um livro: 1964 – O Verão do Golpe, de Robert Sanders. Aécio postou a foto dos dois posando com o livro em seu facebook e foi aquele auê. Achincalhado pelos próprios colegas de partido como “a esquerda que a direita gosta”, Randolfe desistiu da candidatura e acabou abandonando o PSOL meses depois.

Março de 2017. Um dos fundadores do partido, o deputado federal Chico Alencar foi à festa de 50 anos de jornalismo de Ricardo Noblat no restaurante Piantella, em Brasília, onde foi flagrado em animada roda de conversa com… Aécio Neves. Chico foi muito cobrado nas redes sociais pela proximidade demonstrada com o senador tucano, mas pelos petistas. Não se viu dos psolistas a reação furiosa que a foto de Randolfe com o mesmo Aécio desencadeou. Mudou Aécio, mudou Chico, mudou Randolfe ou mudou o PSOL?

“Pelo visto o PSOL amadureceu. Percebi que a polêmica em torno do Chico não chegou nem perto da minha. Ainda bem, gosto muito dele. Não gostaria que passasse pelo que passei”, afirma o senador amapaense, que foi para a Rede. Randolfe não acompanhou de perto a história do que a imprensa chamou de “beija-mão” de Chico Alencar em Aécio, mas não esconde que, para ele, o imbróglio teve um certo sabor não de vingança, mas de “o mundo dá muitas voltas”…

Por que Randolfe resolveu dar o livro a Aécio? “Sempre tive uma relação de carinho e respeito com Aécio. Dei o livro a ele porque tinha lido e gostado e porque o autor citava várias vezes o avô dele, Tancredo”, conta o senador. “Ele me pediu para tirar uma foto comigo para postar no facebook e seria indelicado de minha parte recusar.” A foto continua na página do senador tucano. Aécio também postou a dedicatória na íntegra: “Querido Aécio, este livro apresenta as habilidades de políticos que fazem e faziam da política a arte da paixão e da sensibilidade, entre eles seu avô. Isto em tempos de tormentas e autoritarismo. Que as benfazejas lembranças do passado nos inspirem, políticos do presente, para fazermos o melhor pelo Brasil.”

Mas o que foi apenas uma gentileza entre adversários se transformou num vendaval. Randolfe recebeu todo tipo de mensagem insultuosa e as maiores ofensas vieram de gente do próprio PSOL. Algumas das manifestações eram, conta, inquisidoras, como a do presidente do partido, Luiz Araújo, que na época trabalhava em seu gabinete; outras eram francamente agressivas. Um dos que criticaram Randolfe na época foi o jornalista Milton Temer, quadro histórico do PSOL no Rio, que classificou a foto e sobretudo a dedicatória como um “erro grave” do colega de partido.

“Inaceitável, meu caro Randolfe. Um senador do PSOL, cujo mandato tem sido excelente na defesa do mundo do trabalho, não pode exercer o ‘melhor pelo Brasil’ da mesma forma que um senador conhecido como porta-voz do grande capital multinacional, e de seus sócios-sabujos no Brasil. Trata-se de insuperável antagonismo de representação”, escreveu. Temer também criticou a presença de Chico Alencar no jantar do Piantella, mas foi mais suave: “um deslize”, “equívoco”.

Luciana Genro, que substituiu Randolfe na candidatura à Presidência, chegou a cometer a indelicadeza de dizer que ele estava “praticamente fora do partido”, muito antes de qualquer posicionamento do senador neste sentido. Sobre o jantar de Chico Alencar com Aécio, nada. O ex-deputado João Batista Araújo, o Babá, e sua corrente dentro do PSOL, a CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores), pediram a expulsão imediata de Randolfe do partido após a bendita foto. Sobre Chico no Piantella com o tucano, nenhuma palavra.

“Até a corrente que eu integrava, a Ação Popular Socialista, me criticou. Não tenho nenhuma mágoa, mas a verdade é que não recebi a solidariedade de ninguém. A reação foi muito maior do que eu imaginava e foi uma das principais razões para eu desistir da candidatura à presidência”, diz Randolfe. “Acho que essa história do Chico mostra que o PSOL evoluiu e também que a história me absolveu. Aquela foto, assim como a presença dele no jantar, são provas de que se pode conviver com as diferenças e não vergar um milímetro nas convicções.” Após deixar o partido, o senador anunciaria apoio a Dilma no segundo turno, não a Aécio.

Hoje, Randolfe lamenta enxergar não só no PSOL, mas em toda a esquerda brasileira uma enorme intolerância com a divergência interna, entre grupos que desejam, afinal, a mesma coisa. “Isso infelizmente vem do stalinismo, essa tendência de vigiar, de atacar o outro. É como se existisse um ‘esquerdômetro’ apontando o tempo todo quem é mais de esquerda e quem é menos”, critica o senador, que, mesmo na Rede (“o partido da Marina”) continua se considerando “de esquerda” tanto quanto se sentia no PSOL. “Sigo a máxima de Lenin: as palavras convencem, o exemplo mostra. A pessoa tem de ser quem é pelo que faz.”

 

 

 

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Ditadura de direita: filho de Muhammad Ali é “acusado” de ser muçulmano em aeroporto

Publicado em 25 de fevereiro de 2017
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(Muhammad Ali e seu filho em 1974. Foto: Bill Ingraham)

Filho do mais famoso boxeador de todos os tempos, Muhammad Ali Jr. ficou retido durante horas em um aeroporto na Flórida, nos Estados Unidos, no início de fevereiro, “acusado” de ser muçulmano, apenas por causa da aparência e do nome que carrega. Os policiais interrogaram o rapaz por duas horas perguntando: “Onde você arranjou este nome?” “Você é muçulmano?” A história foi revelada pelo jornal USAToday, na última sexta-feira.

Nascido Cassius Marcellus Clay Jr. em Louisville, Kentucky, o lutador de boxe Muhammad Ali trocou de nome em 1964, ao se converter ao islamismo. Até então, lutava como Cassius Clay. Seu filho Muhammad Ali Jr. nasceu na Filadélfia em 1972, ou seja, como o pai, é cidadão norte-americano. Quando respondeu aos oficiais do aeroporto que sim, é muçulmano, os policiais continuaram perguntando sobre sua religião e onde ele tinha nascido, como se Muhammad Jr. tivesse acabado de chegar do Oriente Médio.

O filho de Muhammad Ali e sua mãe, Khalilah Camacho-Ali, segunda mulher do boxeador, estavam chegando ao aeroporto internacional de Fort Lauderdale no dia 7 de fevereiro, após participarem de um evento do Mês da História Negra na Jamaica, quando foram separados da fila da alfândega em virtude dos sobrenomes árabes, de acordo com o amigo da família e advogado Chris Mancini. Como tinha na bolsa uma foto posando ao lado de Ali, Khalilah mostrou aos policiais e foi liberada. O filho ficou retido. Quando se deu conta, a mãe ficou desesperada.

Nenhum dos dois jamais havia sido parado no aeroporto de nenhum lugar do mundo por conta do sobrenome. “Para a família Ali, ficou claro que isto está diretamente relacionado aos esforços do Sr. Trump de banir os muçulmanos dos Estados Unidos”, disse Mancini, em referência à decisão da ordem assinada pelo presidente em 27 de janeiro de banir cidadãos de sete países muçulmanos. O advogado disse que a família estuda processar as autoridades.

O caso de Muhammad Ali Jr. demonstra que a ditadura de direita em que Donald Trump está transformando os EUA ameça não só estrangeiros, mas os próprios norte-americanos de religião muçulmana. Vale lembrar que muitas celebridades dos EUA e de outros países também se converteram ao islamismo nas últimas décadas, como o ex-jogador de basquete Shaquille O’Neal, o boxeador Mike Tyson, o rapper Mos Def, o comediante Dave Chapelle, o ex-vocalista do One Direction Zayn Malik e o cantor britânico Cat Stevens, que desde 1977 usa o nome Yusuf Islam.

Se há alguma utilidade em Trump é deixar evidente como a direita governa e que mundo deseja para todos nós.

 

 

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