Como multinacionais lucram bilhões com ÁGUA (e estão de olho na Sabesp)

Publicado em 22 de março de 2015

flow

Na década de 1990, a era de ouro da privataria em nosso continente, o Banco Mundial expediu a “orientação” de que a distribuição de água nos países fosse privatizada para se tornasse “mais eficiente”. O que as empresas de fato fizeram foi: encarecer a água em até dez vezes e reduzir a distribuição nos bairros mais pobres.

Alguns dos países que seguiram o “conselho” o fizeram sob violentos protestos, como a Bolívia, que enfrentou uma Guerra da Água em 2000, sob a presidência do ex-ditador Hugo Banzer: as multinacionais que passaram a controlar a água em Cochabamba queriam proibir as pessoas de furar poços ou mesmo recolher água de chuva, desatando a ira da população. A prefeitura teve de voltar atrás.

Na última década, quando passaram a ser governados pela esquerda, vários países que haviam privatizado resolveram reestatizar a água. Em 2007, o governo Evo Morales nacionalizou a água na Bolívia e defendeu que os países do Mercosul passassem a considerar os recursos naturais como direito humano fundamental.

Três anos antes, no governo do antecessor e de novo sucessor de Pepe Mujica, Tabaré Vázquez, havia sido aprovado, por plebiscito, uma emenda constitucional que define a água como bem público no Uruguai e que prevê a participação da sociedade civil na gestão dos recursos hídricos. Os serviços públicos de abastecimento de água para consumo humano, diz o texto, devem ser prestados “exclusiva e diretamente por pessoas jurídicas estatais”.

No Brasil, onde inexiste legislação neste sentido, já houve várias tentativas de privatizar a distribuição de água. Há, aliás, uma coincidência estranha em curso neste momento. Enquanto São Paulo vive uma crise hídrica, foi nomeado como secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, o engenheiro civil Benedito Braga, que irá acumular o cargo com a presidência do Conselho Mundial da Água, órgão ligado ao Banco Mundial e que inclui as maiores corporações da água no mundo entre seus membros, como as francesas Suez e Vivendi (leia mais na reportagem da Rede Brasil Atual, aqui).

Parte do esgoto em São Paulo já foi privatizado pelos tucanos a partir de 1995, quando a Suez (olha ela aí), em consórcio com a brasileira CBPO, obteve a concessão para operar os serviços de saneamento em Limeira. A maior concorrente dessas empresas privadas é a própria Sabesp, que é de capital misto, mas controlada pelo Estado (parte de suas ações são vendidas na Bovespa e na Bolsa de Nova York). O saneamento foi privatizado em outras cidades do Brasil, como Niterói e Manaus. Várias tentativas foram barradas na Justiça, acionada pelos sindicatos da categoria.

Agora, com a seca na Cantareira, as ações da Sabesp sofreram queda. Não parece o momento ideal para aplicar o surrado discurso de que apenas a privatização traria “eficiência” à empresa? O que seria, antes de tudo, uma injustiça, porque todo mundo reconhece a Sabesp como uma empresa eficiente e que os erros técnicos foram motivados por decisões político-eleitoreiras tomadas pelo governo Geraldo Alckmin. Sob a ótica privatista, no entanto, seria perfeito. A combalida Sabesp poderia maravilha! ser vendida por menos do que vale.

O documentário Flow (Fluxo) – Por Amor à Água, de 2008, mostra como as grandes corporações tomaram conta da água no mundo e transformaram riqueza natural em commodity. Trata-se de uma indústria de 400 bilhões de dólares atualmente, a terceira maior após o petróleo e a eletricidade. Especialistas dizem que em 20 anos o negócio da água vai crescer duas ou três vezes mais que a economia global. Imaginem o interesse dessas multinacionais sobre as empresas públicas brasileiras, o país com a maior reserva de água doce do mundo.

Na contramão da eficiência, o filme mostra moradores de bairros pobres de países africanos tendo que usar um cartão magnético para poder ter água na torneira. Água pré-paga, já imaginaram? A diretora francesa Irena Salina revela ainda uma coisa bizarra: como a presença de disruptores endócrinos na água, principalmente o pesticida Atrazina, está causando feminização dos peixes. Já foram encontrados rios inteiros apenas com peixes fêmeas ou intersex nos EUA, no País Basco e na França. A Atrazina é proibida em diversos países da Europa, inclusive na Suíça, de onde a multinacional Syngenta exporta para os países que a aceitam.

Muita gente se pergunta: se faz isso com os peixes, que efeito poderia ter nos seres humanos? A atrazina é amplamente usada na agricultura brasileira e de lá vai para os nossos rios, que correm para a água que sai da torneira de nossas casas. Além das mudanças hormonais, a substância tem sido conectada a tumores de mama, retardamento da puberdade, inflamação da próstata em animais e a câncer de próstata em humanos.

“Milhares de pessoas vivem sem amor. Mas não sem água”, diz a frase do poeta W.H. Auden na abertura de Flow. No Dia Mundial da Água, convido vocês para um mergulho nessa questão da qual depende nosso futuro como humanidade. Bom filme.

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É o neoliberalismo, estúpido!

Publicado em 29 de setembro de 2012

dividocracia

Desde 2011, com o agravamento da crise europeia, começaram a pipocar na rede produções independentes esclarecendo as barbeiragens dos governantes que levaram à crise na Europa.

A animação “Espanistán”, de Aleix Saló, foi a pioneira ao explicar como a bolha imobiliária levou a Espanha à bancarrota (e está cada dia pior, como as últimas manifestações no país evidenciam).

Na Grécia, os jornalistas Katerina Kitidi e Aris Chatzistefanou rodaram Debtocracy – Χρεοκρατία – Dividocracia com dinheiro próprio e com donativos de alguns amigos. Em menos de dez dias, foi visto por 600 mil  pessoas.

Agora, a mesma equipe que fez Dividocracia produziu Catastroika, um relato avassalador sobre o impacto da privatização e do  neoliberalismo na Rússia, no Chile, na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos e na Grécia.

 

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Em Okupa

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