Albânia: de ditadura comunista a maior plantadora de maconha da Europa

Publicado em 18 de dezembro de 2016
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(Camponesa da Albânia defendendo sua plantação de maconha)

Eu falava outro dia da estranha necessidade de parte da esquerda de possuir governos aliados, guias, “protetores”. Como alguns fazem atualmente com o líder russo Vladimir Putin, sendo que a Rússia dele nada tem de socialista ou sequer progressista. Um exemplo histórico dessa necessidade é a relação do PCdoB com a Albânia. Imaginem que houve uma época que o PCdoB se espelhava neste pequeno país comunista do sudeste da Europa, governado pelo stalinista Enver Hoxha com mão de ferro e considerado pelos comunistas daqui como o “farol do socialismo”. O pessoal do PCdoB só saiu dessa em 1995, ano em que abandonaram também o bigode inspirado em Josef Stalin, que hoje renegam.

O interessante da Albânia é que era um país comunista não alinhado à União Soviética, com quem rompeu relações em 1961 (por fidelidade a Stalin), e sim à China, com quem acabaria rompendo em 1978, tornando-se um dos países mais isolados do mundo até 1992, quando o comunismo acabou. Hoxha havia morrido sete anos antes, após quatro décadas de domínio marcado pela perseguição a dissidentes, a religiosos e até a quem usasse barba. Por conta da repressão aos muçulmanos, o uso de barba foi proibido no país. Por outro lado, graças ao isolacionismo, a Albânia saiu do comunismo com uma dívida externa pequeníssima e com um traço comum a muitos países da chamada “cortina de ferro”: mulheres empoderadas.

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(Mulheres nas Forças Armadas da Albânia durante o comunismo)

Esta semana, a BBC informou que a Albânia, a velha Albânia do PCdoB, se tornou a maior produtora de maconha da Europa. Eles mesmos não têm o hábito de consumir a erva, mas lucram com ela: estima-se que a cannabis seja uma indústria de 1 bilhão de euros (R$ 3,64 bilhões)  na Albânia, o que não é nada que se possa desprezar em um país pobre. “Na Albânia, um quilo da droga é vendido por 100 a 200 euros (R$ 364 a R$ 727). Na Itália, esse valor pode chegar a cerca de 1,5 mil euros”, diz a BBC. Famílias inteiras trabalham nas fazendas de maconha na zona rural, e não têm problemas morais quanto a isso. Embora haja forte repressão, as autoridades acabam fazendo vista grossa porque, queiram ou não, a cannabis gera empregos.

“Como garçom eu ganhava um terço do que eu ganho com cannabis”, diz um jovem de 20 anos à reportagem. Mais de duas décadas após o fim do comunismo, ainda é difícil encontrar trabalho legal e fixo no país –não no negócio da maconha. “Às quatro da manhã é possível ver multidões indo ao trabalho. As ruas estão cheias –mulheres, homens, jovens, até crianças…” Em junho de 2017 vai estrear uma superprodução norte-americana baseada na história de uma aldeia albanesa que sobrevive do plantio e da venda da maconha, Lazarat, considerada a cidade que produz mais maconha ilegalmente em toda a Europa: 900 toneladas por ano. Os habitantes já estão com medo de serem estereotipados por Hollywood como criminosos.

Ironia do destino: na sua época albanesa, o PCdoB era totalmente contra a maconha e reprimia muito os militantes que queriam usar a droga. Hoje a maior parte dos dirigentes do partido é a favor da descriminalização da cannabis. Evoluíram. E nisso voltam a se encontrar com a Albânia.

 

 

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Novo estudo diz que fumar maconha na adolescência não traz dano à saúde futura #DescriminalizaSTF

Publicado em 9 de setembro de 2015
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(Foto: Prensa420)

Um estudo publicado pela Associação Americana de Psicologia em agosto, baseado (ops!) no acompanhamento de 408 rapazes da adolescência aos 30 anos, chegou à conclusão de que o uso regular de maconha não está associado a posteriores problemas mentais e físicos como depressão, câncer, sintomas psicóticos ou asma.

Os próprios pesquisadores da Universidade de Pittsburgh Medical Center e da Rutgers University, responsáveis pelo estudo, se surpreenderam com os resultados. “O que achamos foi um pouco surpreendente”, disse o coordenador do trabalho, Jordan Bechtold, da Universidade de Pittsburgh Medical Center. “Não há qualquer diferença entre a saúde mental e física antes e depois, pouco importa a quantidade ou a freqüência do uso de maconha durante a adolescência.”

A descoberta é importante porque um estudo anterior, logo desqualificado, associava o uso da maconha entre adolescentes à queda de QI e às notas ruins na escola. Outros estudiosos também apontaram o desenvolvimento de sintomas psicóticos (alucinações, delírios etc.), câncer, asma ou problemas respiratórios em usuários de maconha adolescentes, mas os pesquisadores não acharam nada.

O estudo também não encontrou relação entre o uso de maconha por adolescentes e depressão, ansiedade, alergias, dores de cabeça ou aumento da pressão arterial. A diferença entre esta pesquisa e as outras, segundo Bechtold, é que é uma das poucas que acompanharam centenas de participantes por mais de duas décadas em busca dos efeitos do uso de maconha entre adolescentes para a sua saúde ao longo da vida.

A pesquisa é uma ramificação do Estudo da Juventude de Pittsburgh, que começou acompanhando estudantes do sexo masculino de 14 anos das escolas públicas da cidade, no final dos anos 1980, para analisar vários aspectos sociais e de saúde. Durante 12 anos, os participantes eram entrevistados anualmente ou semestralmente, e um questionário foi apresentado aos 408 participantes entre 2009 e 2010, quando tinham 36 anos de idade. 54% dos participantes eram negros, 42% brancos e 4% de outras raças ou etnias. Tampouco houve diferenças nas conclusões de acordo com raça ou etnia.

Os participantes foram divididos em quatro grupos, sob o critério do uso de maconha: fumavam pouco ou não-usuários (46%); usuários regulares desde o início da adolescência (22%); participantes que fumaram maconha apenas na adolescência (11%) e aqueles que começaram a fumar maconha mais tarde e continuavam usando (21%). Os que começaram muito cedo disseram fumar maconha até 200 dias por ano quando chegaram aos 22 anos. E algo bastante comum: o uso de maconha foi declinando quando ficaram mais velhos.

Os pesquisadores controlaram outros fatores que pudessem influenciar o estudo, como o uso de cigarros e outras drogas ilícitas, além do acesso à saúde. Como só foram incluídos meninos, não há conclusões sobre as mulheres usuárias. “Queremos ajudar o debate sobre a legalização da maconha, mas é um assunto muito complicado e uma só pesquisa não pode ser considerada isoladamente”, Bechtold advertiu.

Leia a íntegra do estudo aqui. Leia também: estudo aponta que não houve aumento do consumo entre adolescentes nos Estados norte-americanos onde a maconha foi legalizada (aqui).

Com a descriminalização do porte de drogas para uso pessoal prestes a ser votada pelo Supremo Tribunal Federal, a Associação Brasileira de Psiquiatria já se posicionou contrária, mas outros psiquiatras e médicos se mostram favoráveis à descriminalização, apesar da opinião da ABP. Curiosamente, a Associação já pensou diferente no passado. O que será que fez a ABP mudar de ideia e retroagir em vez de avançar?

abp

 

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Amizades surpreendentes: o lisérgico Timothy Leary e o visionário Marshall McLuhan

Publicado em 27 de maio de 2015
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(Marshall McLuhan em 1966. Foto: Henri Daumain/LIFE)

Conheci a obra do teórico canadense Marshall McLuhan (1911-1980) nos anos 1980, graças a um professor da faculdade, e fiquei fascinada, como qualquer um ficaria. O cara era simplesmente um gênio. Sua ideia de que o mundo se tornaria uma “aldeia global” (global village) foi a mais acertada previsão sobre o que seria a internet, mais de 30 antes de que ela se tornasse realidade.

Me parece incrível a atualidade de McLuhan, que via a tecnologia como uma “extensão” dos sentidos humanos: o telefone como uma extensão dos ouvidos, a TV como uma extensão dos ouvidos e dos olhos, o carro como uma extensão dos pés e “a próxima mídia” (a internet?) como uma extensão da consciência.

Seu livro The Medium is The Massage (“O Meio É a Mensagem”, um trocadilho com message e mass age), escrito em parceria com o designer gráfico Quentin Fiore, foi publicado em 1967 e se transformou num clássico instantâneo. O visual do livro é pura arte pop.

„The Medium is the Massage“ Marshall Mc Luhan, Quentin Fiore Photo by Tony Rollo for Newsweek Bantam Books 1967 Cover

Enquanto McLuhan teorizava sobre as extensões tecnológicas, o psicólogo, filósofo e neurocientista Timothy Leary (1920-1996) pesquisava as extensões da mente, ou melhor, as expansões da percepção, utilizando a droga mais hippie de todas, o ácido lisérgico (LSD). Se há um “papa” dos alucinógenos, este papa é Leary, que acreditava no poder terapêutico do ácido. Perseguido pelo governo reacionário de Richard Nixon, que o considerava “o homem mais perigoso da América”, Leary foi preso mais de 20 vezes em vários países. E é na temporada que passou na prisão entre 1973 e 1976 que nossos dois personagens se encontram.

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(Leary sendo preso em 1972)

Leary e McLuhan, na verdade, se admiravam mutuamente desde o princípio dos anos 1960. Consta que foi uma dica de McLuhan a frase que se tornou célebre com Leary: Turn On, Tune In, Drop Out (algo como plugue-se, ligue-se, viaje). O papa do LSD, por sua vez, considerava “o meio é a mensagem”, de McLuhan, a mais importante sacada dos anos 1960. Quando Leary estava preso, McLuhan foi um dos intelectuais convocados a se manifestar em favor de sua liberdade, ao lado de nomes como Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Arthur Miller e Anais Nin, entre outros. Em 1973, Leary foi entrevistado em Folsom Prison.

Condenado a 95 anos de prisão (!), em 1976 ele recebeu o perdão do governador da Califórnia e foi solto. A carta de McLuhan em favor de Timothy Leary só foi revelada no ano passado por seu arquivista Michael Horowitz. Nela, o canadense compara o amigo americano ao herói grego da Odisséia, chamando-o de “o Ulisses da viagem interior”.

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“Caro Dr. Horowitz:

Que tal Tim como o Ulisses da viagem interior? Ou o Homero da era eletrônica? A tecnologia, em virtude de sua relação imediata com nosso sistema nervoso, é ela mesma uma espécie de viagem interior, com as drogas fazendo o papel de sub-trama ou modo alternativo. Pode ser, portanto, que daqui a alguns anos se descubra que o pânico sobre as drogas psicodélicas se relaciona menos com a química do que com os terrores ocultos que as pessoas sentem na presença da tecnologia eletrônica. O mesmo ocorreu no princípio da era do rádio, nos anos 1920, que inspirou uma onda de pânico do álcool.

Os homens acústicos se inclinam a ser alcoólatras… Isto é, todas as sociedades pré-letradas, e também as pós-letradas, como nós. Foi no TV Guide do dia 15 de setembro de 1973 que apareceu um artigo explicando a descoberta experimental do caráter viciante da TV como meio. Nada a ver com os programas. Tim poderia ser um mártir deste poder viciante oculto da TV. Tony Schwartz, em The Responsive Chord (Doubleday, Anchor book, 1973), sugere que a TV ‘utiliza o olho como um ouvido’.

Meus melhores desejos,

Marshall McLuhan” (tradução minha)

Ao contrário do que se possa imaginar, McLuhan nunca experimentou um “doce”. Sua viagem era puramente intelectual. Em 1969, em entrevista à revista Playboy, ele respondeu diretamente à pergunta, com seu habitual bom humor.

Playboy: O senhor tomou ácido alguma vez?

McLuhan: Não, nunca. Sou um observador nestes assuntos, não um participante. Fiz uma operação ano passado para remover um tumor que estava expandindo meu cérebro de uma maneira menos prazerosa, e durante minha prolongada convalescença não estou autorizado a usar nenhum estimulante mais forte que café. Ai de mim! Alguns meses atrás, no entanto, quase fui acusado de porte de drogas. Em um avião voltando de Vancouver, onde uma universidade tinha me concedido um título de doutor honoris causa, respondi a um colega que me perguntou de onde eu vinha. ‘De Vancouver, pegar meu LL.D. (doutor honoris causa, na sigla em inglês)’. Notei que um passageiro ficou me olhando com uma expressão estranha, e, quando cheguei ao aeroporto de Toronto, dois guardas me empurraram até um quartinho e começaram a remexer minha bagagem. ‘Você conhece Timothy Leary?’, um deles perguntou. Respondi que sim e isto pareceu revelador para ele. ‘Onde está o bagulho? Nós sabemos que você disse a alguém que foi a Vancouver pegar um LL.D.’ Após um longo diálogo, consegui convencê-lo de que LL.D. não tinha nada a ver com expansão da consciência  na verdade é justo o oposto – e fui liberado.

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(Leary em seu último ano de vida. Foto: Robert Sebree)

Em suas últimas décadas de vida, Timothy Leary se dedicava mais às pesquisas sobre tecnologia do que sobre o ácido lisérgico. Foi, inclusive, uma das primeiras pessoas a ter um blog, e dizia que “o PC é o LSD dos anos 1990″. Em 1993, três anos antes de morrer, Leary gravou um vídeo onde saudava o amigo McLuhan como “um profeta”. “Ele nos disse que o objetivo da evolução era usar os meios de comunicação para criar o que todos nós queremos: a aldeia global, a linguagem que pode ser entendida por cada ser humano, por todos os cérebros.”

Assista o vídeo, com legendas em espanhol.

(Se você quiser saber mais sobre a amizade entre estes dois gênios, clique aqui para acessar os arquivos de Timothy Leary.)

 

 

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