Exclusão pela prisão: como o racismo judicial pode ajudar a eleger Donald Trump

Publicado em 8 de novembro de 2016
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(“Há mais negros presos hoje do que havia escravos em 1850″. Ilustração: Billy Dee)

Os negros representam 13% da população dos Estados Unidos, mas representam 40% da população carcerária do país, a maior do mundo. Um em cada 9 afro-americanos entre os 20 e os 34 anos estão presos. Estatísticas indicam que os negros são duas vezes mais parados pela polícia no trânsito do que os brancos; são mais presos por porte de droga do que os brancos; permanecem mais tempo presos aguardando julgamentos do que os brancos; e recebem penas maiores do que os brancos. Levando-se em consideração que, em 12 Estados norte-americanos, as pessoas condenadas pela Justiça não podem votar nunca mais e que os negros preferem Hillary Clinton, é possível que Donald Trump seja beneficiado pelo racismo judicial nestas eleições.

A lei dos EUA em relação ao voto por condenados varia de Estado para Estado. No Brasil, 61,6% dos detentos são negros, mas os presos provisórios, ainda sem condenação definitiva, podem votar dentro da cadeia mesmo; após cumprir a pena, também podem retomar seus direitos políticos e votar. Em alguns Estados norte-americanos, no entanto, a perda de direitos pode ser perpétua e, dadas as estatísticas prisionais, prejudica e exclui diretamente os negros. Só em dois Estados, Maine e Vermont, não existem restrições para os condenados votarem. E, nos Estados onde eles podem votar após a condenação, a demora é enorme para que os direitos sejam restituídos por causa da burocracia.

Um levantamento feito pelo Sentencing Project, organização da sociedade civil que atua para melhorar a Justiça criminal dos EUA, chegou a números impressionantes: nada menos que 6,1 milhões de norte-americanos estão impedidos de votar nestas eleições por conta das restrições aos condenados, ainda que estejam fora da cadeia. Na verdade, o número de pessoas impedidas de votar é maior entre os que estão fora do que os que estão detrás das grades. 10% dos eleitores da Flórida não poderão votar porque um dia foram condenados à prisão, embora cerca de 600 mil já tenham cumprido sua pena.

(Vídeo: apoiadores de Trump empurram moça negra no Kentucky)

Entre os negros a situação é ainda mais dramática: 1 em cada 13 afro-americanos não se encontra apto a votar em todo o país, mas em cinco Estados este percentual sobe para mais de 1 em 5. No Kentucky, por exemplo, 26,1% dos negros não estão aptos a votar porque foram condenados e ainda não tiveram seus direitos políticos restaurados. Em Wyoming, 17,2% dos afro-americanos não têm o direito de eleger o presidente do país. Na Virginia, Florida e Tennessee, mais de 21% dos negros foram banidos de participar das eleições. Ou seja, além de sofrer com o racismo do sistema, ao ser presos os negros ainda perdem o poder de interferir no destino da nação. Se transformam literalmente em cidadãos de segunda classe.

São números que contam muito em favor de Trump, que não possui a mesma preferência que Hillary entre os negros e é frequentemente acusado de defender a supremacia branca. De acordo com uma pesquisa da conservadora Fox News, 99% dos afro-americanos preferem a candidata democrata. Já entre os brancos, a preferência por Trump é maior, em torno dos 49%, informa outra pesquisa recente. Já a maioria esmagadora dos latinos declararam voto em Hillary Clinton: 58% contra 18% de Donald Trump, segundo pesquisa do Pew Institute.

É importante lembrar que uma diferença de apenas 537 votos na Florida fez Al Gore perder para George W. Bush em 2000.

 

 

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