70 anos do cantor Sérgio Sampaio, 23 anos de sua morte: uma entrevista em Brasília em 1993

Publicado em 17 de maio de 2017
(O cantor e compositor Sérgio Sampaio nos anos 1970. Foto: arquivo pessoal)

(O cantor e compositor Sérgio Sampaio nos anos 1970. Foto: arquivo pessoal)

Eu, que sempre fui fã de Raul Seixas, encontrei seu amigo e parceiro Sérgio Sampaio em junho de 1993, quando atuava como repórter de Cultura no Jornal de Brasília e ele, após dez anos quieto, fazia uma miniturnê na capital federal e em Vitória, no seu Espírito Santo natal. Menos de um ano depois, ele faleceria, aos 47 anos, vítima de uma pancreatite.

Se estivesse vivo, Sérgio teria feito 70 anos em abril passado. Na segunda-feira, 15 de maio, completaram-se 23 anos de sua morte. Em Vitória, acontece uma exposição em sua homenagem, em cartaz até o próximo dia 25 de maio: Sérgio Sampaio 70, Eu Sou Aquele que Disse.

Digitei e adaptei a entrevista para vocês conhecerem um pouco deste grande artista da música brasileira, considerado “maldito” apenas porque não se deixou seduzir pela fama. Clique aqui para visitar o site oficial de Sérgio Sampaio.

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Discreto retorno*

Sérgio Sampaio volta a botar o bloco na rua. Meio discretamente, é verdade. Longe dos holofotes há pelo menos dez anos (seu último show na cidade foi justamente em 1983), mas voltado para apresentações no Nordeste, o cantor e compositor capixaba deixou o sossego da casa em Patamares, orla de Salvador onde mora há quase três anos para uma miniturnê com shows em Vitória e Brasília. E diz que a popularidade foi um “equívoco” em sua vida.

“O sucesso foi da canção, não meu”, explica Sérgio Sampaio. O ano era 1972, e o cantor, após cinco anos no Rio, primeiro como locutor de rádio e depois como músico, estourou nas paradas com Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, classificado no Festival Internacional da Canção. “Eu não pretendia aquilo, não estava preparado para aquela loucura de segurança, avião, hotéis, shows consecutivos”, diz Sérgio. “Eu queria ser como o Caymmi, vir devagarzinho. Raul, sim, almejava a popularidade”, conta.

Foi Raul Seixas quem fez Sérgio Sampaio abraçar de vez a carreira musical. Sérgio era um anônimo qualquer (“anônimo até de mim mesmo”, fala) quando entrou na sala de Raul na CBS  o maluco beleza era produtor da gravadora  para acompanhar no violão um garoto que queria ser cantor. Raul disse que era preciso uma música forte para lançar um cantor novo. Sérgio cantou Coco Verde. Raul pediu outra. Só para Sérgio, num canto, falou: “volte amanhã”.

Do encontro resultou uma forte amizade e até um disco, Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, junto com o transformista Edy Star e Miriam Batucada, uma combinação esdrúxula que fez mais polêmica do que propriamente sucesso. (De todos os envolvidos no disco, só Edy Star está vivo; Miriam morreu com a mesma idade de Sérgio, um mês depois dele.) Chegou-se a comentar que Raul teria produzido o disco à revelia da gravadora e acabou sendo demitido. “Isso é invenção”, garante Sérgio Sampaio. É verdade que tudo que um ou outro aprontou a partir daí  ou levou fama era sempre alvo do comentário: “Vocês dois…” Mas o desligamento da CBS só aconteceu no ano seguinte, a convite da Phillips, para onde Raul foi como produtor de Sérgio.

Alguns ódios uniam a dupla: a raiva dos pais, por exemplo. “Eu tinha raiva do meu porque era violento e Raul do dele porque era pacífico”, conta  curiosamente, uma música composta pelo pai de Sérgio, Cala a Boca, Zebedeu, integra seu repertório. Com o roqueiro baiano, chegou a compor duas músicas, Quero Ir e Cowboy 73. Esta última, gravada por Raul muitos anos mais tarde, virou Cowboy Fora-da-Lei, sem crédito para a co-autoria. “Raul esqueceu”, perdoa Sérgio. Segundo ele, a primeira parte de Gita é de Plínio, irmão de Raul, e ele também esqueceu de dar crédito. “Ele falou: ‘Plininho, eu sabia que conhecia essa música de algum lugar'”, lembra.

Nos últimos anos de vida de Raul, Sérgio Sampaio só se comunicava com ele por telefone. “Estive na casa de Raul um ano antes de ele morrer e havia muita decrepitude pro meu gosto”, explica Sampaio. “Eu me interesso pela vida, não pela morte.” Até por isto, evita participar da idolatria post-mortem em torno do maluco beleza, e não canta músicas de Raul em seu repertório, restrito às composições próprias de maior sucesso, como Viajei de Trem, Meu Pobre Blues e Que Loucura, O Ciúme, de Caetano Veloso, Cabelos Brancos, de Herivelto Martins, e Como É Grande o Meu Amor Por Você, de Roberto Carlos.

“Roberto é um gênio”, elogia Sampaio, conterrâneo do Rei e do escritor Rubem Braga: também nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, mas jura que só canta Meu Pequeno Cachoeiro em reuniões muito íntimas. O cantor considera um “ranço provinciano” as críticas negativas ao trabalho de Roberto Carlos. “Precisou Caetano gravar Fera Ferida para as pessoas reconhecerem que a música era boa”, reclama. “Não se pode alijar o que Roberto fez só porque seus últimos discos são ruins.”

O incrível de tudo é que o compositor que pediu para “botar para gemer” se diz um homem de coração triste  e aí se encontra com o ídolo, o poeta Augusto dos Anjos. Pior ainda: Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua foi escrito num momento de absoluta tristeza! Quem conta é Sérgio Sampaio. “Eu me sentia só, num apartamento enorme e estava superabalado com o acidente no viaduto Paulo de Frontin, onde morreu um monte de gente”, lembra. “Na verdade, a música foi adaptada para o trio elétrico, mas é tristíssima. Uma vez até falei para Waly Salomão que não entendia como uma música tão triste podia tocar no Carnaval. Ele respondeu: ‘E quem disse que o Carnaval é alegre?'”

*Texto publicado originalmente no Jornal de Brasília em 17 de junho de 1993.

 

Bônus: um minidocumentário sobre Sérgio Sampaio dirigido por Nayara Tognere.

 

 

 

 

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Gleisi Hoffmann, candidata a presidenta do PT: “Nós erramos. Entramos no sistema”

Publicado em 19 de abril de 2017
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(A senadora Gleisi em seu gabinete)

Por Cynara Menezes e Katia Guimarães*

Em maio, a senadora paranaense Gleisi Hoffmann, de 51 anos, poderá se tornar a primeira mulher à frente da presidência do PT, partido no qual milita desde 1989. Não será exatamente o momento mais glamouroso, já que os petistas vivem um inferno astral interminável desde que começou a operação Lava-Jato, três anos atrás.

Ao contrário de alguns membros do partido, a senadora não se esquiva de falar nos erros cometidos e de fazer autocrítica sobre o fato de o PT ter se unido às práticas da velha política em vez de enfrentá-las. Tampouco quer continuar nesta toada para sempre. “A melhor autocrítica é a que se faz na prática. Não adianta a gente ficar se auto-açoitando sem mudar a prática. E nós estamos mudando”, diz.

Gleisi também falou da necessidade de movimento nas ruas contra as reformas de Temer e do machismo na política. “A política ainda é um ambiente quase exclusivamente masculino, com códigos masculinos. É muito difícil para a mulher fazer política. E na desconstrução da presidenta Dilma foi usado muito machismo.”

A senadora recebeu o blog em seu gabinete, com exclusividade, para um bate-papo. Confira.

Socialista Morena – Por que Lula escolheu a senhora como candidata à presidência do partido?

Gleisi Hoffmann – (risos) Não sei. Tem que perguntar para ele. Estou brincando, na realidade a gente começou a conversar dentro do partido e o presidente Lula achou que o meu nome, até por ter proximidade política com o senador Lindbergh, poderia caminhar para uma composição.

Tem a ver com o fato de ser mulher?

Sim, o presidente falou “tá na hora de esse partido que sempre defendeu as cotas, políticas de gênero, ser presidido por uma mulher”. Para mim claro que é uma honra, milito no PT desde 1989. Nunca sonhei em presidir meu partido. Vou me dedicar ao PT e ao mesmo tempo continuar me dedicando ao mandato e ao Paraná, que represento. Não faz sentido renunciar.

A senhora é candidata à presidência do PT e foi citada na Lava-Jato. Como este fato pode atrapalhar o discurso de reconstrução que o partido precisa ter neste momento?

O PT tem sido sistematicamente atacado na Lava-Jato. E na lista da Odebrecht você vê outras personalidades e outros partidos envolvidos, inclusive com denúncias mais graves, como ter conta no exterior, enriquecimento ilícito. Mas continua o Lula e o PT sendo alvos prioritários da grande mídia. É como se quisessem ainda desconstruir o PT, como se houvesse um risco forte de o Lula voltar a governar o Brasil, isso fica muito claro para mim. Nós temos que estar unidos para defender o PT e Lula. Isso não quer dizer que sejamos coniventes com coisas erradas, com os problemas que tivemos, os erros que cometemos. Mas o que estamos vendo é que há um ódio de classe em cima do PT e de Lula, em cima do legado do governo dele e da Dilma.

A Lava-Jato confirma que a corrupção é sistêmica na política brasileira?

Confirma que temos um problema sistêmico no financiamento das campanhas eleitorais. Há delatores que falam de doações na campanha do Fernando Henrique, coisa que aconteceu há mais de 20 anos. O próprio Emilio Odebrecht diz que isso acontece há 30 anos e que fica estarrecido como a imprensa agora está cobrando medidas e criticando isso se eles sempre souberam. E ele sabe do que fala, tem relação com esses setores. Então tinha uma grande hipocrisia em tentar colocar para cima do PT e do Lula a pecha de precursores da corrupção, quando era uma prática sistêmica. Isso não quer dizer que o PT não tenha que fazer uma autocrítica. Acho que o grande erro nosso foi não ter enfrentado essa situação. Não sei se teríamos correlação de forças para mudar o modelo de financiamento, mas tínhamos a obrigação de enfrentar, de fazer a disputa política. E eu lembro que nem o presidente Lula nem a presidenta Dilma quiseram enviar um projeto de reforma política para o Congresso porque achavam que era do Legislativo a iniciativa. Nesse ponto, nós erramos. Teríamos que ter enviado e brigado, lutado contra isso. Entramos no sistema como ele era, jogamos o jogo como era jogado, para poder fazer a disputa. Este foi o nosso grande erro. Espero agora fazer a autocrítica na prática, oferecer ao país uma reforma política, lutar por ela junto a outros setores da sociedade, para ter um sistema mais limpo, mais aberto, mais transparente. Já conseguimos proibir o financiamento privado de empresas, mas tem que deixar mais claro. Tem que ter uma redução dos custos, também. Não há por que existir campanhas caríssimas, superproduções de televisão.

O problema é que a sociedade não acredita que este Congresso seja capaz de fazer esta reforma.

Nós vamos ter que lutar. Eu acho que este Congresso não podia fazer a reforma da Previdência, por exemplo, ou a reforma trabalhista. Esse Congresso não podia ter votado a terceirização. O mínimo que podemos fazer é uma autocrítica para oferecer uma saída à sociedade. Eu particularmente defendo a antecipação das eleições, talvez um outro Congresso tivesse mais condições de fazer isso. Antecipar as eleições de 2018, não só para presidente, gerais. Mas enquanto isso não acontece nós precisamos discutir a realidade do país, não podemos ficar olhando, sob pena de grassar o discurso da antipolítica e nós termos uns engraçadinhos fazendo política enquanto dizem que não são políticos.

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Cobra-se muito um mea culpa do PT. O partido já chegou ao final nessa autocrítica que a senhora está citando? Porque o PT perdeu uma boa parte do eleitorado, inclusive na periferia, onde estão os maiores beneficiados pelas políticas públicas dos governos petistas. Como recuperá-la sem este mea culpa?

A melhor autocrítica é a que se faz na prática. Não adianta a gente ficar se auto-açoitando sem mudar a prática. E nós estamos mudando, vendo os erros. Não disputamos mentes e corações, não fizemos a disputa política na sociedade, achando que simplesmente o governo que fizemos, positivo, de conquistas sociais, de avanço na inclusão, por si só traria consciência. Mas na realidade nós não disputamos essa consciência, não mostramos que tinha uma determinação política por trás disso. Assim como temos que fazer algumas reformas. O presidente Lula tem consciência disso e tem dito uma coisa: ‘nós já governamos, sabemos o que fizemos de bom e o que precisamos fazer a mais’. Temos que fazer uma reforma tributária, para tributar os de cima, quem ganha mais tem que pagar mais, e a democratização da mídia.

A proposta da lista fechada, uma pauta histórica do partido, está sendo apontada como tentativa de acobertar delatados na Lava-Jato. O PT mantém o apoio à ideia?

Antes a proposta era criticada porque diziam que ia beneficiar o PT, porque o partido tem muito voto de legenda… Mas nós defendemos a lista fechada desde sempre porque achamos que a política deve ser feita com base em programas, não no voluntarismo. Quando eu entro no Congresso, represento uma proposta que foi construída. As pessoas sabem como me posiciono em relação à economia, valores… O que acontece com a política hoje é que ela é personalizada, fazem a política do ‘eu mesmo’ e votam ao sabor dos movimentos. Candidatura avulsa, por exemplo, acho uma loucura. Como saber as políticas daquela pessoa? Eu continuo defendendo a lista fechada. Se não fortalecermos os partidos políticos, vamos continuar tendo a política como ela é feita hoje.

O que mais chamou a atenção na pesquisa da Fundação Perseu Abramo divulgada no mês passado é que o discurso do empreendedorismo, do mérito, está bem entranhado no jovem da periferia, a direita conseguiu isso. A esquerda errou em não transmitir a estas pessoas que ser empreendedor não os situa automaticamente à direita?

Errou em não mostrar que o empreendedorismo se concretiza desde que as oportunidades sejam dadas. Porque mesmo o Lula teve oportunidades, de estudar, entrar para o sindicato. Foi difícil a vida dele, mas ele acabou tendo oportunidades que o ajudaram nessa trajetória. O que a gente questiona neste discurso é de que parece que a simples vontade das pessoas pode suprimir todas as dificuldades e não é assim. Não temos nada contra o empreendedorismo, pelo contrário. Foi Lula que fez a lei do microempreendedor, a lei do Simples, a Previdência para o microempreendedor. O que nós perdemos foi a narrativa política. Isso é o que se tem de disputar na sociedade.

Como o PT pretende fazer isso?

Precisamos ter uma política ousada de comunicação que não seja aquela que usamos anteriormente e aí também vale uma autocrítica. Nós achamos que a mídia tradicional seria um veículo de transmissão das nossas ideias e eram exatamente contrários às ideias que sempre professamos. Houve tentativas muito boas no governo Lula que temos de recuperar, as mídias regionais, as mídias alternativas. Isso é o que faz a disputa da narrativa, até porque a direita possui os meios de comunicação, tem mais condições do que a esquerda ou até mesmo do que nós tínhamos no governo, para fazer isso.

A senhora e o senador Lindbergh vão disputar até o fim a eleição à presidência do partido ou ele vai abrir mão?

Eu jamais vou fazer uma disputa com o Lindbergh, mesmo porque gosto muito dele e pensamos muito parecido em muitas coisas, inclusive na dinamização que achamos que deve ser dada ao partido. Vai ser mais uma construção conjunta do que uma disputa e as teses do partido vão ser defendidas por cada tendência. Até porque tem várias tendências que eu apoio, cada uma tem uma tese. Não só a CNB (Construindo um Novo Brasil, majoritária), mas outras tendências têm vindo conversar e me apoiam.

O que a senhora achou das mudanças que Temer fez na reforma da Previdência?

São pontuais, ele está fazendo isso para não perder. Mas nas questões essenciais, que dão proteção social, eles não vão mexer. Fico assustada porque ele fez a reunião dizendo que, independente da questão da lista da Odebrecht, tem que seguir a vida e fazer as reformas. Ocorre que essa lista jogou uma cortina em cima de todos os outros temas. Parou-se de discutir a reforma da Previdência, a reforma trabalhista. O Congresso está acuado, a câmara com um monte de nomes envolvidos, vão acabar votando com o governo. Se não tivermos uma movimentação de rua forte, vamos ter um retrocesso na Previdência, uma das piores reformas dos últimos tempos porque mexe em questões fundamentais de distribuição mínima de renda que conseguimos fazer. Espero que no dia 28 a gente consiga fazer uma grande manifestação no Brasil para sensibilizar deputados e senadores.

Não seria o caso de os partidos mais à esquerda apresentarem um projeto alternativo?

Não neste momento, em que não se tem uma correlação de forças para fazer uma reforma que poderia descambar contra os trabalhadores. Não faz sentido, num momento de crise, mexer naquilo que é fundamental para ter um cinturão de proteção social.

A senhora fala em renovação do PT. Como pretendem atrair os jovens, as feministas, os militantes negros e os LGBTs, que estão preferindo o PSOL?

Este é um desafio que temos. O PT tem essa consciência e um dos compromissos que tenho é exatamente dar essa arejada, para melhorar a relação do partido com estes setores da sociedade. Por que estão preferindo o PSOL quando eu acho que o PT, por mais problemas que tenha, é o maior partido de esquerda da América Latina e o único que tem condições de ser alternativa de poder e governo? Estes movimentos são muito importantes, porque conversam com setores da classe média dos quais a gente acabou se afastando.

Como a senhora viu o deputado Chico Alencar, do PSOL, se lançando candidato a presidente para, segundo ele, “combater o lulismo”?

Nós temos que conversar com o Chico Alencar. Gosto muito dele, tenho muito respeito. A gente tem de combater a direita neste país, o sistema financeiro, aqueles que estão tirando as riquezas do povo, o desmonte do Estado. Aí que está o inimigo. Nós podemos ter divergências de como fazer, podemos disputar, mas daí a dizer que tem de ser combatido é jogar água no moinho da direita.

Um ano após o golpe, a senhora acha que se confirmou que o machismo teve um papel fundamental na derrubada da presidenta Dilma?

Ah, sim. Ajudou bastante, não tenho dúvidas. A gente via aqui, nas discussões, quando fazíamos a defesa dela, o comportamento dos senadores: ‘vocês estão histéricas’, ‘vocês estão loucas’. Eles gritavam, sapateavam, berravam, mas aí estava tudo normal porque parece que é da natureza deles… Mas a gente não podia fazer o enfrentamento. A política ainda é um ambiente quase exclusivamente masculino, com códigos masculinos. É muito difícil para a mulher fazer política. E na desconstrução da presidenta foi usado muito machismo. Faziam aqueles adesivos misóginos, uma coisa baixa que infelizmente espelha nossa sociedade.

Sobre a senhora, há sempre críticas alusivas à sua aparência, a procedimentos estéticos. O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., claramente fez alguns, mas ninguém fala nada…

Ninguém fala. E ele está com a pele lisinha, né? Todos os políticos homens são conservados no formol.

 

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Waldir Pires: “Eles não conseguem dizer que Lula é ladrão”

Publicado em 16 de março de 2017
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(Waldir Pires em sua casa em Salvador. Foto: João Fontoura)

Com vídeos de João Fontoura

Waldir Pires chega para a conversa quando já estamos aboletados no sofá da sala do confortável apartamento em que vive em Salvador. Sobre a mesinha de madeira em frente, há uma escultura de Iemanjá do artista plástico Tatti Moreno. A meu lado, em outra mesinha, de vidro, há dois porta-retratos: em um deles Waldir aparece com sua companheira, Zonita, civilizadamente acompanhados da fotografia da primeira mulher dele, Yolanda, falecida em 2005.

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(A Yemanjá de Tatti Moreno…

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(…e as mulheres de Waldir: a atual, Zonita, e Yolanda, falecida em 2005)

O ex-governador, ex-ministro, ex-deputado federal e ex-vereador está, como de costume, simples e elegante, vestido com uma camisa de quadrinhos miúdos e manga curta para dentro da calça, caneta no bolso como quem saísse para trabalhar e os cabelos platinados caprichosamente penteados para trás. Aos 90 anos, a forma física de Waldir Pires é invejável. Sua memória lhe prega algumas peças de vez em quando, mas a sabedoria, a coerência e a honestidade que marcaram a atuação política do baiano de Acajutiba permanecem intactas.

Com o característico sorriso largo, ele conta que a idade não tem lhe impedido de saborear deliciosas feijoadas e moquecas, e mesmo de tomar um bom vinho, uma dose de uísque ou sua caipirosca favorita, de lima-da-pérsia. “Feijoada é uma beleza”, gargalha Waldir.

A primeira pergunta que faço a ele é sobre socialismo. Waldir Pires foi, ao lado de Darcy Ribeiro, uma das últimas pessoas a deixar o palácio do Planalto em 1964, após o golpe que arrancou João Goulart do cargo. Formado em Direito pela UFBA, Waldir era Consultor-Geral da República de Jango. Cassado imediatamente pela ditadura, partiu para o exílio e só voltaria ao Brasil em meados dos anos 1970, antes da anistia. Quando recuperou os direitos políticos, foi eleito governador da Bahia, em 1986.

 Sou um defensor dos princípios essenciais do socialismo, que são a base do processo democrático. Não há democracia sem eles, são elementares. No fundo, o socialismo é isso: participar do esforço para a formação de uma sociedade mais justa. E o povo brasileiro continua batalhando a inserção de todos os cidadãos, isso é incessante, não acabou. Tivemos conquistas razoáveis, mas ainda é difícil viver um momento sem preocupação, que assegure dizer ao cidadão: ‘você tem direitos fundamentais que serão respeitados’. Interrupções como a que houve agora são interrupções compatíveis com a insistência do poder econômico, mas não têm força para excluir o processo democrático. 

Waldir foi ministro da CGU (Controladoria-Geral da União), cargo que assumiu junto com o presidente Lula em seu primeiro mandato, em 2003. E faz questão de destacar como a fiscalização dos gastos públicos, nos governos anteriores a Lula, não era nada além de jogo de cena.

– A rigor, não existia mecanismo para produzir a fiscalização e o controle da aplicação do dinheiro público. Foi a partir do meu período que começou a existir, antes de Lula não tinha. E eu recebi total apoio dele. 

Até por ter testemunhado o interesse do ex-presidente em combater a corrupção dentro do governo, Waldir Pires tem total convicção da inocência de Lula.

– Lula é o objeto da tentativa, que não se consegue, de chegar pela força à interrupção do poder democrático. Lula está se dizendo candidato e as reações da direita brasileira são absolutamente combatentes disso, mas não com força impedidora. Não tem nada aí capaz de impedi-lo de se candidatar. Lula é o favorito, favorito pelo povo, e não tem nada significativo capaz de responsabilizá-lo. Eles não conseguem dizer que Lula é ladrão, que se beneficiou disso ou daquilo, porque não têm provas, senão já o teriam prendido. Há juízes honrados e outros hesitantes, oscilantes. Muitas vezes foram coniventes, há posições omissas do poder judiciário. Se prenderem Lula, é uma ruptura mesmo do processo político, aí é golpe de Estado.

Eu pergunto a Waldir algo que sempre me intrigou: como é que Fernando Henrique Cardoso nunca foi capaz de sair em defesa de Lula, com quem conviveu durante tanto tempo, mesmo sabendo que se trata de perseguição política?

– Fernando Henrique sempre foi um vacilante democrata. Ele não é uma personalidade da luta democrática, nunca foi. Pela vida dele, pelos atos, pelas hesitações. Tem muitos momentos em que recuou, no seu próprio governo. Não é um exemplo da disponibilidade de afirmação democrática. Nunca fomos totais companheiros de luta.

No final do ano passado, Waldir Pires concluiu o mandato como vereador em Salvador e com isso sua passagem pelos cargos da política, mas continua “disponível para todas as batalhas”. Apesar da natureza alegre e otimista, não consegue disfarçar certa mágoa do ex-governador Jaques Wagner por não ter lhe dado a chance de encerrar a carreira como senador eleito pela Bahia, em 2010. Mesmo com o apoio que teve de Waldir na campanha, Wagner optou por lançar ao Senado Walter Pinheiro, que acabaria deixando o PT em 2016, dois meses antes do impeachment de Dilma.

– Fiz a campanha, percorri a Bahia toda com Wagner. Eu era um eleitor que tinha a força de ter sido integrado no processo eleitoral. Lamento isso, nem toco no assunto. Não sei o que aconteceu, fiz a eleição dele, participei o tempo inteiro… Inacreditável.

A decepção de Waldir decorre do fato de ter feito dobradinha com Wagner desde aquela primeira eleição da volta da democracia, mais de 30 anos atrás. Os dois “W” saíram um para governador, pelo PMDB, e o outro para deputado federal, pelo PT. Ambos saíram eleitos num ano particularmente bom, em que a esquerda baiana derrotaria fragorosamente o candidato de Antonio Carlos Magalhães, o célebre coronel da direita brasileira morto dez anos atrás.

Waldir e o arqui-rival ACM foram contemporâneos e chegaram a ser amigos na juventude. Ele não explica o porquê do rompimento, mas conta que se dava muito bem com o filho do Malvadeza, Luis Eduardo Magalhães.

– O menino dele era um rapaz muito bom e tinha uma atenção comigo muito grande, apesar das relações difíceis que eu tinha com o pai dele.

Para o neto de ACM, prefeito de Salvador, Waldir também reserva elogios, ma non troppo:

– Como prefeito está cumprindo bem, dá para ver. Está trabalhando bem, mas não é nada excepcional.

Mesmo antes de passar pela CGU, o nome de Waldir Pires era e continua sendo sinônimo de correção e honradez na política. Embora ele não ache que passará à história apenas pela honestidade, que vê como uma obrigação.

– Ah, mais um pouco, não é? (Ele ri.) Acho que dei minha contribuição, no sentido modesto e real das coisas. Tudo na vida é modesto, a não ser quando se é malandro. Eu não tergiversei, nunca tolerei que pudesse me tornar um produtor de facilidades da vida política. Ganhar dinheiro com isso… Nunca construí nada no sentido de meus filhos entrarem para a política. E nunca permiti que houvesse dúvidas a respeito da minha conduta. É essencial na vida do político que ele se faça credor e participante da luta pela dignidade da carreira política. É essencial na vida política que você seja decente, que não manipule interesses econômicos e capitule para se tornar um beneficiário de setores financeiros. Ao fazer isso, deixe a política antes. E, para não degradar sua biografia, não volte. Quem faz isso evidentemente é um malandro.

 

 

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