Lula no 6º Congresso: “Precisamos preparar o PT para voltar a governar o país”

Publicado em 2 de junho de 2017
(Foto: Lula Marques/AGPT)

(Foto: Lula Marques/AGPT)

Por Katia Guimarães*

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nessa quinta-feira, 1º de junho, no 6º Congresso Nacional do PT “Marisa Letícia da Silva”, em Brasília, que o partido deve se preparar para voltar a comandar o país e que, para isso, precisa se comunicar para fora, não apenas para a militância e simpatizantes. “É importante a gente ter clareza. Toda vez que a gente faz um discurso, tem que chegar em casa e colocar na balança e saber se ele é exequível”, explicou. “Nesse congresso, companheiros e companheiras, peço a vocês – que irão discutir textos, teses, fazer críticas e autocríticas – que ao discursarem não falem para vocês. Falem para os milhões de brasileiros que não estão aqui e que precisam que o PT tome as decisões corretas para despertar a esperança nesse povo”, discursou Lula.

O evento, marcado por uma homenagem a Dona Marisa, esposa do ex-presidente já falecida, relembrou os velhos tempos do PT. Além da famosa lojinha de vendas de livros e objetos do partido, e de uma feirinha de produtos orgânicos do MST, contou com um vídeo do hino da Internacional Socialista, cantado pela militância. Para Lula, o PT precisa transformar seu discurso numa estratégia para voltar a eleger o presidente da República e a maioria das bancadas na Câmara e no Senado. Ele defendeu que o principal objetivo deste encontro deve ser construir um projeto de governo que seja capaz de superar a crise por que passa o país. “Se a elite não sabe resolver os problemas do Brasil, nós já provamos saber”, disse Lula. “A minha tendência é preparar o PT para voltar a governar o país”, acrescentou.

O 6º Congresso do PT fechará questão em defesa da aprovação da proposta de emenda constitucional que prevê eleições diretas ainda este ano caso o presidente Michel Temer caia e também pela realização de nova Assembleia Constituinte para aprovação de reformas como a política e de medidas que garantam a retomada o desenvolvimento do país. E, no sábado, deverá eleger a líder do PT do Senado, Gleisi Hoffmann (PR), como nova presidente.

Ao longo de sua fala o ex-presidente insistiu que o PT deve estar preparado para enfrentar os desafios que estão agora diante do partido, do Brasil e do povo, compreendendo quais anseios e setores da sociedade ele representa e criando mecanismos para se conectar com esses setores. A luta pela defesa e ampliação dos direitos de trabalhadores, de indígenas, de negros, de quilombolas e das mulheres devem ser, segundo Lula, o que deve nortear a atuação do PT dentro da política brasileira. “Porque o PT é o único partido verdadeiramente nacional do Brasil, que luta por interesses nacionais. É diferente dos outros partidos, que são a reunião de políticos que buscam atender interesses regionais e estaduais a que são ligados”, afirmou o ex-presidente.

Em discurso pautado por orientações políticas ao dirigentes petistas e à militância, Lula fez um apelo para que o PT deixe de lado as divergências internas e tenha como foco nas “brigas externas”. “Lá fora estão os inimigos de classe que querem nos destruir e nós temos que estar preparados para derrotá-los”, destacou. Para o petista, “2018 está longe para quem não tem esperança”. “Para nós, 2018 está logo ali, já começou. É por isso que eles estão com medo e nós não estamos com medo. Se a esquerda for para disputa com um programa factível, eu tenho certeza que a gente vai voltar a governar esse país”, ressaltou.

Ao analisar o processo histórico de comando da classe dominante no poder, ressaltou que o PT, ao quebrar esse ciclo, provocou ódio e perseguição ao partido e aos artífices dessas mudanças. “Essa gente, que historicamente mandou nesse País, nunca imaginou que fôssemos capazes de criar um partido encrenqueiro, brigão e realizador como o osso partido”, afirmou Lula. Lembrou ainda que a fonte de tanto descontentamento por parte das elites é o fato de o PT haver protagonizado uma das maiores e melhores experiências de inclusão social em todo o mundo. “Eles não contavam com o povo na política, não contavam que o povo poderia ser sujeito da história. O povo não aceita mais apenas ser dirigido, mas quer dirigir, não quer apenas votar, mas ser votado. Isso passa a ser insuportável num País que foi colonizado e ainda hoje tem uma elite perversa com complexo de vira-latas, que não admite e não suporta a ascensão do povo que nunca teve privilégios”, disse Lula.

Sobre os processos que vem enfrentando na operação Lava Jato, comanda pelo juiz Sérgio Moro, Lula disse já ter provado sua inocência. “Quero ver agora se eles conseguem provar a minha culpa”, questionou.

Dilma

No evento, a presidenta Dilma Rousseff destrinchou todas as facetas do golpe parlamentar e jurídico que a tirou do cargo ao fazer uma avaliação do alcance de sua destituição. Segundo ela, a articulação teve como objetivo implantar um modelo que as urnas não reconheceram como a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, o desmonte das políticas públicas de inclusão social e a desnacionalização da Petrobras. “O motivo estratégico do golpe é reenquadrar o Brasil no projeto neoliberal derrotado quatro vezes nas urnas”, afirmou. O golpe contou com três fatos motivadores: “estancar a sangria”, ou seja, barrar as investigações da Lava Jato enquanto elas estavam centradas apenas em políticos do PT, implantar as chamadas reformas neoliberais, que não seriam implantadas da forma como estão pelo governo do PT, e aniquilar com o seu governo, desconstruindo a presidenta como administradora e e em sua condição de mulher. Dilma concluiu: “Não haverá repactuação no país se não houver eleições diretas.”

Dilma –que iniciou seu discurso prestando uma homenagem a todas as mulheres e em especial à Dona Marisa– disse que a agenda neoliberal do governo Temer nos aspectos econômicos, políticos, sociais e geopolíticos justificam todas as mudanças que estão sendo implementadas sob o viés de reformas. “Mudam a legislação trabalhista, mudando o entendimento de que o Estado brasileiro tem que estar do lado do trabalhador na relação entre patrão e trabalhador. É uma mudança de modelo, de concepção, não é uma reforma. É uma mudança de concepção que quer entregar o trabalhador e a trabalhadora a caprichos e interesses de qualquer empregador. Não que todo empregador tenha características negativas, mas nessa relação o Estado tem que ser o mediador”, defendeu.

Para a presidenta, há hoje um esgarçamento das instituições e da ordem democrática, justamente por ter havido uma ruptura no pacto instituído constitucionalmente, de respeito ao voto e à vontade popular. “Quando você rompe com a Constituição –e eles romperam–, você torna tudo possível. E é o que estamos assistindo hoje”, disse. No final do seu discurso, reforçou: “já tenho meu candidato, é Lula presidente!”.

 

*PAGUE A AUTORA: Gostou da matéria? Contribua com a autora. Todas as doações para este post irão para a repórter Katia Guimarães. Se você preferir, pode depositar direto na conta dela: Katia Guimarães, Caixa Econômica Federal, agência 4760, conta 21602-1, CPF 602.735.771-15. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 

 

Publicado em

Em Blog

0 Comente

Esta estrela é um símbolo de esquerda no mundo. Devemos ajudar a destruí-la ou a salvá-la?

Publicado em
(Foto: Paulo Pinto/AGPT)

(Foto: Paulo Pinto/AGPT)

Olhando as fotos do 6º Congresso do PT, que está acontecendo em Brasília até o dia 3 de junho, a gente se dá conta do quanto o partido envelheceu. Na mesa, um bando de senhorzinhos e senhorinhas. Na plateia, os cabelos grisalhos e as calvas são maioria. Qual o problema em um partido envelhecer?, dirão. Nenhum, é importante que existam cabeças experientes, sábias, apontando os caminhos, os erros e os acertos. Mas também é importante que exista a energia da juventude. Todo partido tem de se renovar, ainda mais quando é de esquerda. Um partido de esquerda tem de se renovar sempre.

O PT tem 37 anos. Eu o acompanho desde a primeira tentativa de eleição de Lula, em 1989. Nunca fui filiada a nenhum partido. Mas vibrei, é claro, quando o PT chegou ao poder em 2002. Com todos os equívocos estratégicos que cometeu, continuo achando que é um partido e tanto, um caso único, quase um milagre num mundo cada vez mais reacionário. Olho para a estrela do PT e o que vejo é uma marca poderosa, inconfundível, um símbolo da esquerda no mundo, praticamente uma grife. Será que a esquerda como um todo se dá conta disso?

Me parece claro que existe um plano muito bem traçado pela direita nacional e gringa para destruir o PT, que infelizmente forneceu a corda com a qual pretendem enforcá-lo. O objetivo é fazer com que o Brasil imite os Estados Unidos e passe a ter apenas dois partidos com chances de chegar ao poder: um à direita e outro ainda mais à direita; um representante da direita rentista e outro da direita fascista. Neste cenário, a esquerda é só um elemento decorativo para compor o arremedo de “democracia” que vive a terra de Tio Sam. Todos que ameaçaram essa dicotomia acabaram assassinados.

Acho que uma parte da esquerda ainda não se deu conta disso, que sem um partido com reais condições de alcançar o poder, viramos só um bando de sonhadores fofinhos e inofensivos. Em minha opinião, é um pensamento suicida achar que fará bem à esquerda brasileira se o PT desaparecer. Isso é uma mentira, tanto quanto dizer que o PT só fez mal à esquerda. Com o PT, o pensamento de esquerda chegou às massas, coisa que nenhum outro partido conquistou até hoje. Tanto é que é justamente no distanciamento das massas que reside o principal problema das esquerdas atualmente, PT incluído.

(Plateia do 6 Congresso do PT em Brasília. Foto: Lula Marques)

(Plateia do VI Congresso do PT em Brasília. Foto: Lula Marques)

Apostar na destruição do PT é uma aposta burra porque agrada à direita, é exatamente o que ela quer. Não é à toa que a mídia abomina o PT, mas dá total espaço aos críticos do partido pela esquerda, porque sabe que é um lado que não oferece risco à elite e às classes dominantes. Eu penso o contrário, que mesmo sendo críticos do PT, os esquerdistas não deveriam apoiar seu desaparecimento, sobretudo porque seria um tiro no próprio pé.

Do que o PT precisa neste momento para voltar a ser um dos legítimos representantes da esquerda brasileira? Primeiro, voltar de fato para a esquerda, coisa que parece estar se conscientizando, ainda que tardiamente. Em segundo lugar, se renovar. Isso só vai acontecer com uma filiação em massa ao partido, para arejar, trazer ventos de juventude e modernidade. E para romper com o burocratismo e os capas-pretas que tomaram conta da estrutura partidária.

Não estou dizendo para a esquerda não-petista esquecer as absurdas concessões à direita feitas pelo PT para se manter no poder. Não estou dizendo para esquecer o quanto o partido deu as costas aos movimentos sociais nos últimos anos, preferindo se aliar à direita e ao capital. Estou apostando que o PT tenha aprendido a lição e que esteja ciente de que depende dos cidadãos de esquerda para subsistir agora que vive a pior crise de sua história. E estou apostando que a existência do partido faz bem à democracia. Até para ser contra o PT é preciso que ele exista. Prefiro fazer oposição a um partido de esquerda do que a dois de direita, oras.

PSOL, PCO, PSTU, PCB, PCdoB: todas as siglas de esquerda ganham com a sobrevivência do PT. Não desprezem o valor dessa estrela. Quem sabe um dia não se realizará o nosso desejo, dos cidadãos de esquerda, de que enfim vocês se reúnam numa frente ampla contra essa direita nefasta do Brasil?

 

 

Publicado em

Em Blog

0 Comente

Serra posta foto com Carina Vitral, presidenta da UNE, e é massacrado por coxinhas no Face

Publicado em 9 de maio de 2017
serracarina

(Carina e Serra. Foto: reprodução)

O senador tucano e ex-ministro das Relações Exteriores José Serra, em um momento de nostalgia de seu passado de esquerda, resolveu postar no Facebook uma foto ao lado de Carina Vitral, atual presidenta da União Nacional dos Estudantes, entidade que ele presidiu em 1963, pouco antes do golpe. Carina havia ido entrevistá-lo para um filme que a UNE está produzindo sobre seus 80 anos de história. Ao final, ambos posaram simpaticamente para uma foto, que Serra postou em sua página na rede social.

Ele escreveu: “recebi hoje a presidente nacional da UNE, Karina Vitral, para a gravação do filme Praia do Flamengo 132. Foi ótimo relembrar o início de minha vida política, as angústias e os desafios da época. Para hoje, continuo convicto das minhas obrigações para a construção de um país mais igualitário e justo.”

Foi o suficiente para ser atacado por centenas de seguidores “decepcionados” com sua aproximação com Carina, militante do PCdoB. A maioria repetia clichês anticomunistas e acusava a presidenta da UNE de apoiar o regime de Nicolás Maduro.

serra1

serra2

serra3

Houve quem dissesse que Serra é, na verdade, “petista disfarçado”.

serra4

E vários disseram que não vão mais votar nele.

serra5

serra6

Teve até um para quem a foto só fez comprovar sua certeza de que Serra é um seguidor de Karl Marx.

serramarx

Felizmente, apareceram uns sensatos para chamar os coxinhas à razão. Afinal, não havia nada demais em dois presidentes da UNE posarem juntos para uma foto.

serra7

E, para alívio geral, apareceu até um gozador para tirar onda e quebrar o climão.

serramunhoz

Confira a postagem do senador.

O pior é que, do lado de Carina, também houve quem atacasse ao postar a foto, acusando-a se de se juntar a “golpistas”. No post, a presidenta da UNE contava do “depoimento emocionado” de Serra ao documentário, mas acabou sendo forçada a “se explicar” a seguidores de esquerda mais exaltados, de forma elegante.

“O diálogo entre pessoas de posições divergentes ou mesmo opostas faz parte da democracia e, na verdade, é a sua essência para a construção de uma sociedade que saiba respeitar todos os seus membros, independente de credo, raça, posição social, política ou opção sexual. É preciso ter maturidade para compreender que dialogar não significa mudar de lado, ou ficar amigo; é simplesmente uma ação política, e o Serra faz parte da história da instituição que eu presido.”

 

 

 

Publicado em

Em Blog

0 Comente