Trump encontra clone de Gorbachev (e outras histórias de sua longa relação com a Rússia)

Publicado em 17 de maio de 2017
(O falso Gorbachev e Trump, atrás)

(O falso Gorbachev e Trump, atrás)

A revista de esquerda norte-americana Mother Jones publicou em março o histórico completo do longo relacionamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a Rússia, antes e depois do fim da União Soviética. A parte mais engraçada, sem dúvida, foi o encontro entre Trump e um falso Mikhail Gorbachev em Nova York em 1988.

Trump só conheceria o verdadeiro Gorbachev no dia seguinte, convidado pelo presidente Ronald Reagan para uma recepção na Casa Branca onde o último líder soviético era homenageado.

(Trump cumprimenta o verdadeiro Gorbachev. Foto: Doug Mills)

(Trump cumprimenta o verdadeiro Gorbachev. Foto: Doug Mills)

E a timeline publicada pela Mother Jones sobre a relação de Trump com os russos não pára de crescer desde que o The Washington Post publicou, na segunda-feira, 15 de maio, que o presidente dos EUA revelou informações altamente confidenciais ao embaixador russo e ao ministro das Relações Exteriores de Vladimir Putin. O próprio Trump defendeu seu direito de compartilhar informações “sobre o terrorismo” com a Rússia.

Na terça-feira, 16 de maio, o New York Times acusou Trump de ter pedido ao diretor do FBI, James Comey, que encerrasse uma investigação sobre a suposta ligação de Michael Flynn, ex-assessor de Segurança Nacional, com a Rússia. Comey foi demitido na semana passada. Agora, Trump está sendo acusado de obstrução de justiça e pode sofrer um processo de impeachment.

Leia abaixo um resumo do histórico do relacionamento de Trump com a Rússia. O original da Mother Jones você pode ler aqui, vale a pena.

1. 1986: aos 40 anos e já um executivo de sucesso, Donald Trump e o embaixador russo conversam sobre a possibilidade de o norte-americano construir um hotel de luxo em frente ao Kremlin em parceria com o governo soviético.

2. Janeiro de 1987: Intourist, a agência estatal de turismo soviética, manifesta interesse em conhecer Trump.

3. Julho de 1987: Trump e sua então esposa, Ivana, viajam a Moscou, onde tem encontros com membros do governo soviético no Politburo.

4. 1 de dezembro de 1988: a missão soviética nas Nações Unidas comunica o interesse oficial do líder Mikhail Gorbachev de conhecer a Trump Tower em sua visita a Nova York.

5. 7 de dezembro de 1988: Trump cumprimenta um clone de Gorbachev e lhe dá as boas-vindas a Nova York pensando que fosse o líder soviético.

6. 8 de dezembro de 1988: Trump encontra o verdadeiro Gorbachev na Casa Branca.

7. 5 de novembro de 1996: sai na imprensa que Trump procura parceiros para um hotel em Moscou.

8. 23 de janeiro de 1997: Trump se encontra com o general reformado Alexander Lebed, candidato à presidência da Rússia, na Trump Tower. Eles planejam fazer algo grande na Rússia, e Lebed brinca que um arranha-céu mais alto que o Kremlin seria impossível, porque não se poderia permitir que alguém no alto do edifício cuspisse no palácio. Lebed ficou em terceiro na eleição.

9. 2005: Trump continua planejando erguer um hotel em Moscou.

10. 22 de novembro de 2007: Trump lança a sua própria marca de vodca na Rússia durante a “Feira de Milionários de Moscou”. No comercial de lançamento, aparecem Trump, tigres, o Kremlin e… Lenin.

11. 19 de junho de 2013: Trump, detentor dos direitos do miss Universo, anuncia que o concurso será transmitido ao vivo de Moscou.

Ele inclusive se pergunta se Putin irá assistir ao concurso e se tornará, assim, seu melhor amigo.

12. 17 de outubro de 2013: Em entrevista a David Letterman, Trump diz que fez vários negócios com os russos e encontrou Putin pessoalmente. Em várias oportunidades mais tarde Trump se gabaria de ter encontrado Putin e membros de seu governo pessoalmente.

13. 2015: Trump é candidato a presidente, com direito a elogios de Putin, e começa o disse-me-disse sobre sua aproximação com a Rússia.

14. 22 de julho de 2016: O Wikileaks vaza emails de Hillary Clinton que prejudicam sua imagem e beneficiam Trump. A entidade é acusada pela campanha democrata de ter recebido a informação do governo russo.

15. 10 de janeiro de 2017: a imprensa norte-americana revela a existência de um dossiê feito pelos russos sobre o presidente eleito Trump, que teria participado de orgias com prostitutas com direito a “chuva dourada”. Trump grita: “fake news!”

16. maio de 2017: O agora presidente Donald Trump continua jurando que a história de sua relação com a Rússia é uma invenção.

Continua…

 

 

 

 

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Aposentado, David Letterman detona Donald Trump: “Todos sabemos que ele é maluco”

Publicado em 6 de março de 2017

letterman

Aposentado da TV desde 2015, quando deixou seu Late Show, programa que apresentava no horário nobre da televisão norte-americana desde 1982, David Letterman, 69 anos, deu uma entrevista deliciosa ao jornalista David Marchese para a revista New York onde aparece endiabrado, agora usando barba. A língua do cara parecia estar coçando para falar sobre o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ele não deixa por menos. “Nós elegemos um cara com aquele cabelo? Por que não investigamos aquilo?”, brinca. (Veja a íntegra aqui.)

Letterman disse que nunca podia imaginar que Trump, a quem entrevistou várias vezes (o site do grupo, Vulture, traz uma compilação hilária), pudesse se eleger presidente algum dia. “Ele era o cara rico que era uma piada. Nunca o levamos a sério. Ele sentava lá e eu simplesmente começava a gozar com a cara dele. Ele nunca ficou zangado. Era grande e pastoso, e você podia bater nele. Parecia estar se divertindo, o público adorava, e isso era Donald Trump. Além disso, lembro que um amigo me disse, três ou quatro campanhas presidenciais atrás, que Donald Trump nunca disputaria a presidência; ele só estava tirando onda para ganhar publicidade. Eu acreditei e agora ele é o presidente.”

É engraçado vê-lo discorrer com intimidade sobre o presidente dos EUA, a quem chama “Don” ou “Trumpy”. Até pensou em telefonar quando ganhou a eleição. Mas, falando sério, a percepção de Letterman é que o país está às voltas com um sujeito ruim da cabeça. “Se o dono de sua revista se comportasse do jeito que Donald se comporta, até mesmo por seis semanas, a família se reuniria e diria: ‘Jesus, alguém chame o médico’. E então eles pediriam para que renunciasse ao cargo. Mas Trump é o presidente e pode mentir sobre tudo, desde a hora que acorda até o que comeu no almoço, e continua presidente. Não aceito isso. Estou cansado de as pessoas se espantarem com tudo que ele fala: ‘Não posso acreditar que ele disse isso’. Nós temos que parar e, em vez disso, achar uma maneira de nos proteger dele. Todos nós sabemos que ele é maluco. Temos que nos cuidar já.”

O ex-apresentador se mostrou preocupado com os ataques de Trump e sua equipe de governo à imprensa. “Como se constrói uma ditadura? Primeiro, implodindo a imprensa: ‘A única verdade que você vai ouvir agora é a minha.’ Então ele contrata o Corcunda de Notre Dame, Steve Bannon, para ser seu parceiro. Como é que um supremacista branco se torna o principal conselheiro do nosso presidente?”

As medidas do novo governo contra os LGBTs deixam Letterman particularmente furioso. “Eles não podem dizer que a homossexualidade é um pecado. Isso é ridículo. E então veio esta história com os transgêneros (em fevereiro, Trump reverteu a decisão de Obama de autorizar alunos transgêneros das escolas públicas a utilizar os banheiros de sua escolha). E eu pensei: você tá brincando comigo? Olha, você é um ser humano. Eu sou um ser humano. Nós respiramos o mesmo ar. Temos os mesmos problemas. Estamos tentando levar nossas vidas. Quem você pensa que é para atravessar uma árvore no meio do caminho de alguém que já tem uma série de dificuldades?”

Sobre o vício em twitter do chefe da nação: “Mais do que a risível expressão de um ego irritado, até podia ser útil. Se logo a gente tiver um presidente sem problemas mentais, o twitter será útil”. Para David Letterman, que achou Jimmy Fallon suave demais com Donald Trump (o comediante brincou com o cabelo do então candidato ao vivo e foi acusado de humanizá-lo), apresentadores de talk show “têm obrigação” de desafiar o presidente todas as noites. E se você o entrevistasse novamente, o que faria?, pergunta Marchese.

“Eu começaria com uma lista. ‘Você fez isto. Você fez aquilo. Não acha que foi estúpido ter feito isso, Don? E quem é este capanga, Steve Bannon? Por que você quer um supremacista branco como um de seus conselheiros? Ah, Don, nós dois sabemos que você está mentindo. Pare com isso agora.’ Acho que eu estaria na posição de dar a ele uma bronca e ele teria que sentar lá e escutar. Sim, eu gostaria de ter uma hora com Donald Trump; uma hora e meia.”

Que desafio, hein, mr. President? Trump ainda não respondeu no twitter.

 

 

 

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Por que Obama foi o melhor que os EUA tinham a oferecer; e por que Trump será pior

Publicado em 20 de janeiro de 2017
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(Barack Obama por Pete Souza/The White House)

Hoje é o último dia de Barack Obama como presidente da nação mais poderosa do planeta. Vi muita gente de esquerda compartilhando estatísticas sobre como sua presidência foi tão assassina quanto as demais. O governo Obama matou mais civis inocentes em ataques de drones, inclusive crianças, do que seu antecessor, o republicano George W.Bush. Não vou nem mencionar a descarada espionagem sobre outros países e o apoio ao golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff. Uma decepção para quem esperava algo diferente vindo do “império”.

Mas, com tudo isso, eu ainda acho que Obama e sua mulher Michelle foram o melhor que os EUA tiveram a oferecer ao mundo até hoje, em termos de governantes. Duvido que saia coisa melhor dali. Em primeiríssimo lugar, por haver representado uma inegável injeção de autoestima à população negra norte-americana e de todo o planeta. Yes, they can. Os negros podem. A chegada do charmoso e preparado casal Obama à presidência dos EUA foi um tapa na cara dos racistas de toda parte. São inesquecíveis as cenas da visita à Casa Branca de Virginia McLaurin, de 106 anos, que achou que ia morrer sem ver um presidente negro em seu país…

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(O casal Obama dança com a centenária Virginia McLaurin na Casa Branca. Foto: Pete Souza)

Não é à toa que Donald Trump assume justamente com o apoio de supremacistas brancos e da Ku Klux Klan. É um fenômeno de certa forma parecido com o que acontece com o PT no Brasil: a direitona chega ao poder contra a ascensão dos excluídos. Aqui, são os pobres –embora a fúria reacionária contra as cotas raciais indique que os negros que ascenderam também são o alvo. Nos EUA, a extrema-direita representada por Trump venceu apoiada em um discurso racista contra supostos “privilégios” dos negros. “Imaginem, um nordestino/mulher na presidência” = “imaginem, negros na Casa Branca”.

Uma das primeiras ameaças do presidente empossado é acabar com o Obamacare, o programa que incluiu 20 milhões de norte-americanos pobres no acesso à saúde, que nos EUA era restrito a quem tivesse dinheiro para pagar um plano privado. A ditadura dos planos de saúde foi bem exposta por Michael Moore no filme Sicko: quem não podia pagar por assistência médica era abandonado no meio da rua. Não que o Obamacare seja perfeito, tem várias falhas; mas especialistas dizem que, sem uma opção melhor, seu fim causará a morte de milhares de pessoas.

Obama também foi bem em relação aos direitos LGBTs. Sob sua presidência, transexuais puderam entrar nas Forças Armadas; o casamento gay foi reconhecido pela Suprema Corte; foi proibida a discriminação de parentes homossexuais em hospitais; LGBTs foram contratados pela administração pública seguindo o exemplo da Casa Branca; acabou o esdrúxulo bloqueio de pessoas HIV positivas a entrar em território norte-americano que existia havia 22 anos; as chamadas “curas gays” foram condenadas publicamente; e os estudantes trans tiveram garantido o acesso a seus próprios banheiros nas escolas públicas, desde o jardim de infância. Tudo isso está ameaçado por Trump, e pode ser revertido para agradar à parcela de seus eleitores que, além de racista, é homofóbica.

E quem duvida que Donald Trump também resolva voltar atrás em relação à reaproximação com Cuba? Em novembro, o presidente eleito tuitou que, “se Cuba não estiver disposta a fazer um acordo melhor para o povo cubano, o povo cubano-americano e os EUA, como um todo, vão terminar o acordo”. Após o anúncio da morte de Fidel Castro, Trump, também pelas redes sociais, fez questão de chamá-lo de “ditador brutal”. Obama, ao contrário, ofereceu suas condolências à família e deixou o julgamento de Fidel “para a história”. A resposta de Raúl Castro a Trump foi um desfile militar nas ruas de Havana.

Vejo gente de esquerda espantosamente seduzida por Donald Trump apenas pela rejeição do establishment ao novo presidente e pelo apoio do líder russo Vladimir Putin. Ambas as razões me parecem uma ilusão. O establishment, tenho certeza, rapidamente reconhecerá Trump, um bilionário, como um dos seus. E Putin nunca foi nem será um homem de esquerda. Representa o que houve de abominável na era soviética: a KGB, a polícia que perseguia dissidentes. Ainda que Trump e Putin permaneçam aliados, o que duvido, o que de bom isso poderá trazer ao mundo? Não enxergo nada.

Trump será, como todos os seus antecessores, senhor das guerras –e com uma preocupação extra, porque é mais imprevisível. Sabe-se lá quem escolherá para ser inimigo. Ao mesmo tempo, à diferença de Obama, colocará em evidência o que há de mais atrasado em termos sociais e morais: o racismo, a xenofobia, a misoginia, a homofobia. Trump duvida até mesmo do aquecimento global… Se vocês acharam Barack Obama ruim, esperem só para ver Donald Trump em ação. Retrógrado, antiquado, arrogante, machista. E o que é pior: sem um décimo da simpatia e carisma dos Obama.

 

 

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