Saiu do portal e matou a família

Publicado em 2 de janeiro de 2017
isamara

(Isamara e seu filho João Victor, os alvos do assassino machista)

Os mortos e feridos na chacina de Campinas são as primeiras vítimas fatais do ódio à esquerda estimulado pela mídia nos últimos anos. Para arrancar o PT do poder, revistas, jornais e emissoras de rádio e TV incentivaram o machismo, a misoginia, a homofobia, a raiva irracional a todo pensamento progressista. Alimentaram a besta.

A carta do assassino nada mais é do que uma colagem dos pensamentos toscos que lemos nos comentários dos portais noticiosos todos os dias, inspirados em (de)formadores de opinião aos quais a mídia deu espaço. Não há nada de surpreendente ali: à parte seus problemas pessoais e psicológicos, o atirador utiliza as mesmas palavras que a direita usa nas redes sociais cotidianamente para atingir “inimigos”, sobretudo mulheres, homossexuais e defensores dos direitos humanos.

Não é à toa que o assassino machista de Campinas apela à mesmíssima expressão para se referir tanto à mãe do seu filho quanto à presidenta Dilma: “vadia”. A palavra “vadia” aparece 12 vezes na carta. Este é o termo mais usado contra mulheres hoje no Brasil, arroz de festa nas redes sociais. Foi o primeiro insulto que recebi ao inaugurar o blog, em 2012, vindo de um roqueiro de direita que se sentiu incomodado por um texto meu –e ele recebeu em seguida o apoio de uma jornalista da Globo.

Contra Dilma, foram incontáveis as vezes em que ela foi chamada de “vadia” e outros termos homólogos a “prostituta” na internet e em cartazes nas manifestações verde e amarelas: “puta”, “vaca”, “vagabunda”, “quenga”. Em 2010, o cartunista Nani foi pioneiro no machismo contra Dilma ao mostrar a candidata “rodando a bolsinha” numa esquina; a charge foi divulgada pelo portal mais visitado, o UOL. Chamar uma mulher de “vadia”, seja ela anônima, jornalista ou presidenta da República virou algo normal, “liberdade de expressão”. No twitter e facebook, xingar mulher rende “likes”. Vão dizer que não? Se até deputados fazem isso e têm milhões de seguidores…

Quem inventou o ódio às feministas presente na carta do atirador de Campinas? Quem o disseminou? Nos programas pseudohumorísticos da televisão aberta e nas redes sociais, é considerado piada inofensiva chamar as feministas de “feminazis”, achincalhá-las noite e dia, demonizá-las. É inegável que, para atingir Dilma, a mídia naturalizou o desprezo às mulheres que se destacam e que lutam contra o machismo. Precisa assumir sua enorme responsabilidade na misoginia que insuflou.

O caso de Campinas infelizmente não é fato isolado. Enquanto a direita brada contra as feministas, todos os dias morrem mulheres vítimas de feminicídio no Brasil. Esta semana, um advogado de Vitória, no Espírito Santo, espancou uma faxineira na porta de casa e teve o desplante de “pedir desculpas”, como se fosse um mero esbarrão. Ficará quanto tempo preso? Em novembro, a sobrinha-neta do ex-presidente José Sarney foi estuprada e morta pelo próprio cunhado, dentro de casa.

Não precisa conferir as estatísticas, basta olhar os portais: todo dia uma mulher é agredida ou morta por ex e atuais companheiros. Desta vez os alvos foram mais numerosos, mas o assassino demonstra sua motivação misógina ao escrever que iria levar junto com ele “o máximo de vadias”. Das 12 vítimas fatais da chacina, nove são mulheres. Em março de 2015, Dilma foi criticada pelo maior jornal do país por sancionar a lei que torna o feminicídio crime hediondo. Em sua carta, o assassino de Campinas chama a lei Maria da Penha de “vadia da penha”.

A combinação de ódio com a defesa do armamento pessoal é literalmente explosiva, e conta com o apoio midiático. Na época do plebiscito, em 2005, a revista mais vendida do Brasil não hesitou em se posicionar, na capa, contra o desarmamento. Uma das bancadas da direita hidrófoba com mais poder dentro do Congresso, todo mundo sabe, é a da bala, formada por políticos que são financiados pela indústria do armamento –a mesma que produz balas de borracha para massacrar estudantes em protestos.

Diante das chacinas que se tornaram praticamente semanais no mundo “civilizado”, seguimos enxergando um uníssono culpado: o fanatismo religioso, esquecendo que todos os fanatismos são igualmente nocivos. O fanatismo político também é sangrento e este encontrou um poderoso eco nas grandes corporações midiáticas, capazes de construir e destruir governantes.

Este é um sentimento perigoso, o ódio. É muita irresponsabilidade para com o país disseminá-lo em nome do antipetismo, estamos alertando há anos. Quantas vezes escrevi aqui aquele provérbio espanhol, “cria cuervos y te sacarán los ojos”? O antipetismo desencaminhou o Brasil, estamos indo para um rumo tenebroso. O único limite para o ódio é o sangue.

E assim começamos 2017… Minha solidariedade às vítimas desta tragédia. Mas sabem o que é ainda mais triste? Saber que nos esgotos de onde o assassino saiu não faltará gente para aplaudi-lo.

 

 

 

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As 14 características do fascismo, por Umberto Eco. Parecem familiares?

Publicado em 2 de dezembro de 2016
fascistas

(Cartaz antifascista da guerra civil espanhola)

(Adaptado do PijamaSurf)

Umberto Eco (1932-2016) é uma das personalidades que melhor poderiam definir o fascismo, pois nele se combinaram a experiência própria, a erudição e a lucidez analítica. Como italiano, viveu de perto o fascismo e suas consequências, e como intelectual dedicou-se a estudá-lo, entendê-lo e explicá-lo, mas, acima de tudo, a denunciá-lo e preveni-lo. De todos os males que o ser humano pode gerar a si mesmo, poucos são tão nefastos como um regime totalitário, em que normalmente o sofrimento é muito maior do que os possíveis benefícios.

Compartilho o fragmento de uma conferência que Eco fez em 1995 na Universidade de Columbia, em que elaborou uma rápida caracterização do que chamou “Ur-Fascismo” ou “fascismo eterno”, quer dizer, uma ideologia e vontade de governar que, independentemente das circunstâncias históricas, parece sempre estar ali, à espreita, esperando um mínimo descuido para se apoderar de um governo nacional, uma sociedade, um país. Eco reconhece que nem todos os regimes totalitários são iguais, mas ao mesmo tempo encontrou alguns traços comuns, ou, melhor dizendo, recursos que a maioria empregou para seduzir a população e tomar o poder político.

Muita gente acha que falar em fascismo é “banalizar” o termo, mas reparem que a extrema-direita hoje, representada por Donald Trump e seus supremacistas brancos nos Estados Unidos e aqui pelos MBLs e Bolsonaros da vida, se enquadra em cada uma destas características. Só não vê quem não quer. Fica a advertência de Eco: “O Ur-Fascismo pode voltar todavia com as aparências mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo sobre cada uma de suas novas formas, todo dia, em todas as partes do mundo”.

A seguir, as 14 características do fascismo segundo Umberto Eco. Leia o texto completo da conferência aqui.

1. Culto da tradição, dos saberes arcaicos, da revelação recebida no alvorecer da história humana, dos hieróglifos egípcios às runas dos celtas e aos textos sagrados, ainda desconhecidos, de algumas religiões asiáticas.

2. Rechaço do modernismo. O Iluminismo, a idade da Razão, são vistos como o princípio da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode se definir como irracionalismo.

3. Culto da ação pela ação. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita, à medida em que é identificada com atitudes críticas.

4. Rechaço do pensamento crítico. O espírito crítico opera distinções e distinguir é sinal de modernidade. Para o Ur-Fascismo, estar em desacordo é traição.

5. Medo ao diferente. O primeiro chamamento de um movimento fascista, ou prematuramente fascista, é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, pois, racista por definição.

6. Apelo às classes médias frustradas. Em nossa época, o fascismo encontrará seu público nesta nova maioria.

7. Nacionalismo e xenofobia. Obsessão pelo complô. Os seguidores têm de se sentir ameaçados.

8. Inveja e medo do “inimigo”.

9. Princípio de guerra permanente, antipacifismo.

10. Elitismo, desprezo pelos fracos.

11. Heroísmo, culto à morte.

12. Transferência da vontade de poder a questões sexuais. Machismo, ódio ao sexo não-conformista, como a homossexualidade. Transferência do sexo ao jogo das armas.

13. Populismo qualitativo, oposição aos apodrecidos governos parlamentares. Toda vez que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento porque já não representa a voz do povo, podemos perceber o cheiro do Ur-Fascismo.

14. Novilíngua. Todos os textos escolares nazis ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com a finalidade de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico. Devemos estar preparados para identificar outras formas de novilíngua, inclusive quando adotam a forma inocente de um popular reality show.

 

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Bolsonaro afirma que Jean Wyllys fará “visita íntima” a Lula na prisão. E é aplaudido

Publicado em 16 de março de 2016
gaycation

(Na The Advocate: “o maior homofóbico do Brasil”)

Há alguns dias, veio à tona um trecho da série protagonizada pela atriz Ellen Page, Gaycation, no Rio de Janeiro. No episódio, a atriz tem um encontro para lá de “vergonha alheia” com Jair Bolsonaro, o expoente da extrema-direita brasileira que se tornou a liderança inconteste das manifestações contra o governo no último domingo. Como a atriz é uma celebridade e foi indicada ao Oscar por Juno em 2007, o deputado ganhou fama fora do país. Péssima, claro. Um mico internacional para o Brasil.

Na mais conceituada revista para o público gay nos Estados Unidos, The Advocate, Bolsonaro foi pintado como “o maior homofóbico do Brasil”. O confronto entre o líder bufão do protesto e a atriz de Hollywood é descrito pela publicação como “o mais desconfortável dos 45 minutos do episódio” –e isso que a maior atração do programa é a entrevista de Page com um ex-policial que afirma matar homossexuais em série. A conversa com o deputado é descrita ponto a ponto pela revista como algo bizarro, fora do tempo, com Bolsonaro inclusive dizendo gracinhas para a garota, ainda que ela tenha afirmado na cara dele, para começo de conversa, que é lésbica.

No sábado 12, o diário espanhol El Pais publicou um perfil de Bolsonaro chamando-o de “Donald Trump brasileiro”. Nos EUA como aqui, um representante da extrema-direita tenta chegar ao poder utilizando um discurso simplório, pouco articulado, que apela aos lados mais obscuros dos ditos “cidadãos de bem”: supremacia racial, intolerância religiosa, ódio aos pobres e homofobia. O jornal lembra que Bolsonaro só cresceu porque foi alimentado pela imprensa brasileira. “A mídia tem sido, efetivamente, um dos principais palanques de Bolsonaro”, diz o texto.

A repórter do El Pais destaca a “fama internacional” que o deputado do PSC ganhou ao ser entrevistado por Ellen Page, e conta que a atriz saiu de seu gabinete se lamentando, após enfrentar a tese de Bolsonaro de que é possível “curar” crianças da homossexualidade… batendo nelas.

bolsotrump

(El Pais: polêmico deputado de extrema-direita)

Tem um vídeo em que o deputado expõe sua “pedagogia”:

No site The Intercept, Glenn Greenwald, o jornalista que revelou a espionagem norte-americana sobre cidadãos e outros governos ao mundo, o parlamentar brasileiro é descrito como “o mais misógino e detestável político eleito no mundo democrático”. A publicação conta como Bolsonaro chamou a colega Maria do Rosário, do PT, de “vagabunda”, e declarou que “não a estupraria porque não merece”. O deputado já foi condenado em segunda instância a pagar 150 mil reais de indenização à deputada.

intercept

O próprio Jair Bolsonaro rejeita a fama de homofóbico. “Essa coisa de homofobia é um rótulo que colocaram em mim. Não tenho nada contra homossexual, minha briga foi e continua sendo contra o material escolar (o kit anti-homofobia, que ele apelidou de “kit gay”). Nada contra homossexual, cada um é feliz do jeito que entender”, disse ao jornal Gazeta do Povo ao lançar sua pré-candidatura à presidência no Paraná, no início do mês.

Provavelmente Bolsonaro não deve considerar ser homofobia dizer que o ex-presidente Lula irá receber “visita íntima” do deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, se for preso. Wyllys, assumidamente homossexual, é alvo cotidiano do deputado reaça. O blog publica com exclusividade um vídeo gravado na manifestação de direita em Brasília, no domingo, em que o deputado discursa em cima de um carro de som dizendo exatamente estas palavras. E é aplaudido pela plateia que pretende “melhorar” o Brasil tirando o PT do poder.

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(Seguidores de Bolsonaro na manifestação do dia 13 em Brasília. Diga-me com quem andas… Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Como uma pessoa tão despreparada, intolerante e preconceituosa pode ser parlamentar? Não é quebra de decoro atingir assim um colega? Cadê a comissão de Ética da Câmara? Perceba que um assessor puxa o braço de Bolsonaro, dando um toque, quando ele repete a barbaridade. O trecho foi OMITIDO da publicação feita pelo valentão no Facebook.

Chama a atenção também o funcionamento da mente do deputado. Que tipo de pervertido pode passar os dias imaginando políticos adversários transando? Freud explica. E os seguidores de Bolsonaro? O  problema deles é mesmo política ou é outra coisa? Quem, em sã consciência, pode pensar em entregar o Brasil a uma criatura retrógrada, arcaica dessas?

Assista:

O episódio completo de Gaycation sobre o Rio pode ser visto aqui.

 

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