O Trumpismo vem da pequena burguesia: racismo, fascismo e a classe trabalhadora

Publicado em 16 de maio de 2017
(Negros e brancos juntos com Martin Luther King em 1963)

(Negros e brancos na Marcha sobre Washington em 1963. Foto: Paul Schutzer)

Por Jesse A. Myerson* na The Nation

Tradução Mauricio Búrigo*

Durante toda a campanha de 2016, no meio do choque dos seus resultados e nas várias recapitulações de suas lições, grandes fileiras da imprensa hegemônica e liberal têm se mostrado uníssonos sobre quem culpar por Donald Trump e sua administração de ultra-direita: a classe trabalhadora branca. “É este o jogo que Trump está jogando”, disse George Parker, da New Yorker, a Terry Gross, da NPR (National Public Radio), dias antes da eleição. “É um jogo realmente perigoso, volátil, mas essa talvez seja a maior história desta eleição.”

Nas semanas após a eleição, a estrela liberal do ano passado, Markos Moulitsas (fundador do Daily Kos e da Vox Media), achou apropriado, do seu luxuoso escritório em Berkeley, Califórnia (valor médio da moradia: 1 milhão de dólares), cacarejar sobre os mineiros de carvão aposentados que perderam sua cobertura de saúde. Ainda hoje, o desprezo permanece óbvio: líder autonomeado da “resistência”, (o apresentador) Keith Olbermann não poderia encontrar melhor maneira de insultar seus companheiros multimilionários Sarah Palin, Kid Rock e Ted Nugent do que chamando-os de “trailer park trash” (“gentinha do estacionamento de trailers”).

Mesmo de acordo com as autoridades da direita tradicional, pode-se achar a razão do sucesso de Trump em comunidades brancas de baixa renda, as inimigas do progresso racial e social, onde política reacionária e racismo caipira seguem desenfreados. “A classe baixa branca americana”, segundo Kevin D. Willianson, da National Review, “é escrava de uma cultura viciosa, egoísta, cujos principais produtos são miséria e agulhas de heroína usadas. Os discursos de Donald Trump os fazem se sentir bem, assim como o (medicamento opioide) OxyContin“. De acordo com esta análise, o fascismo de Trump não é mais que um reflexo das preferências degradadas da gente pobre.

Mas fazer os brancos pobres de bode expiatório mantém a conversa distante da base real do fascismo: a pequena burguesia. Esta é uma amostra do jargão usado normalmente por marxistas para denominar donos de pequenas propriedades, cujos equivalentes mais próximos em nossos dias podem ser a “classe média alta” ou os “pequenos empreendedores”. O FiveThirtyEight noticiou em maio passado que “a renda doméstica média de um votante de Trump até agora, nas primárias, é de cerca de $72.000″, ou mais ou menos 130 por cento da média nacional.

A base real de Trump, a verdadeira espinha dorsal do fascismo, não são os votantes pobres e da classe trabalhadora, mas brancos de classe média e emergentes. Muitas vezes autônomos, possuidores de um fundo de pensão e uma casa como um pé-de-meia: este é o estrato contido nos romances de Horatio Alger. Conseguem se enxergar operando na bolsa de valores tranquilamente com o objetivo de se tornarem os próximos Trumps. Não chegaram à “primeira divisão”, mas ganharam o suficiente para se sentirem investidos na hierarquia a que aspiram escalar. Se ao menos a América viesse a ser grande de novo, poderiam tornar-se alta burguesia –o famoso “1%”.

A base da classe média mais institucionalmente entrincheirada de Trump inclui sindicatos da polícia e da guarda de fronteira, os quais agradou com prontidão após sua posse, permitindo-lhes rédeas soltas em impor suas vagas mas apavorantes ordens de imigração, e nomeando um Procurador Geral que suspendesse as investigações nos departamentos de polícia mais problemáticos. Por mais desumanas que tenham sido as atrocidades aos direitos humanos nos anos que prepararam o caminho à era Trump, os agentes de polícia já estão fazendo sua conduta anterior parecer um modelo de restrição. São os partidários mais exaltados de Trump e concretizam o desprezo deste por qualquer um que não seja branco, homem e rico.

Sempre e em toda parte, essa espécie de pequeno burguês constituiu o âmago do fascismo. Em A Psicologia das Massas do Fascismo, seu olhar sobre a economia e ideologia alemãs nos cinco anos que precederam a ascensão de Hitler ao poder, Wilhelm Reich argumentou que o motivo disso era principalmente a dependência que a pequena burguesia possui da unidade familiar patriarcal, que ele chamava de “célula germinativa reacionária central” do “estado autoritário”. Enquanto “cabeças” de suas famílias, homens donos de pequenos negócios frequentemente exploravam suas mulheres e crianças, e impunham-lhes uma moralidade patriarcal com o intuito de proteger suas empresas um tanto vulneráveis. Isso orientou estruturalmente a pequena burguesia na direção da política reacionária.

Se os subúrbios pequeno-burgueses americanos personificam uma hierarquia sexista, eles existem para impor uma hierarquia racista. Em meados do século 20, citadinos brancos do Norte e do Oeste se defrontaram com uma escolha: ficar nas cidades para onde as leis segregacionistas de Jim Crow estavam conduzindo uma “Grande Migração” de milhões de negros ou fugir para os novos loteamentos residenciais suburbanos baseados em estatutos de exclusão racistas.

(New Kids in the Neighborhood , Norman Rockwell, 1967)

(New Kids in the Neighborhood , Norman Rockwell, 1967)

A Administração Federal de Habitação tornava a escolha fácil: sua política discriminava vizinhanças onde negros estavam se assentando como se tivessem baixa “segurança residencial”, tornando assim inacessíveis os planos de financiamento. Contudo, nas comunidades suburbanas de brancos somente, a FHA tinha prazer em garantir hipotecas de casas. “Lá se vai a vizinhança”, diziam milhões, e fugiam.

Com sua segurança material inseparavelmente vinculada ao valor de seus bens imobiliários, os brancos suburbanos tiveram poderosos incentivos para manter brancas suas vizinhanças. Apenas por estar próximos, os negros tornariam suas vizinhanças menos desejáveis a futuros compradores de casas brancos, depreciando, assim, o valor do bairro. Sendo a localização o primeiro critério dos bens imóveis, os proprietários de casas suburbanos nutriam atitudes racistas, ao mesmo tempo que se iludiam de que não excluíam os negros por razões além do dinheiro em seus bolsos.

Nas décadas recentes, o aumento de aluguéis urbanos tem empurrado pessoas de baixa renda para localidades mais periféricas. Conforme os subúrbios têm empobrecido, os proprietários de casas mais abastados têm fugido para as pastagens ainda mais verdes da exurbia (região além dos subúrbios; equivalente ao “entorno” das grandes metrópoles no Brasil). Para onde quer que se voltem, sua ansiedade econômica os acompanha.

E, no entanto, “entre as pessoas com quem converso, ‘ansiedade econômica’ tornou-se uma espécie de slogan de gozação”, disse o colunista do New York Times Paul Krugman a Christiane Amanpour, da CNN, para explicar a ascensão de Trump. “Quero dizer, existe dificuldade econômica real. West Virginia não é um lugar alegre. Mas… na maior parte, é mesmo uma questão de raça”.

A transição automática de “ansiedade” para “dificuldade” feita por Krugman e Amanpour trai a admissão que assombrava toda a discussão: de que a única forma de ansiedade econômica é a privação. Mas, pelo contrário, a forma de ansiedade econômica que impele o racismo dos partidários devotos de Trump está associada a pagar impostos, guardar com zelo suas modestas economias, impedir negros de se mudarem para perto, diminuindo o valor de sua propriedade e consequentemente a qualidade das escolas de seus filhos, e preservar a estrutura familiar patriarcal que facilita tudo isso.

Onde então a classe trabalhadora branca se enquadra? Quando uso a expressão “classe trabalhadora” aqui, quero dizer “dentro e adjacente à pobreza”. A primeira coisa a se entender acerca da participação política dessa gente é que, como notou Bernie Sanders durante as primárias dos Democratas, “os pobres não votam” –não somente por causa de sua alienação da política, mas também por causa da restrição de votantes, carência de educação e de transporte, e todos os outros males da pobreza. Quanto mais baixo se desce a ladeira econômica na América, tanto menos provável que um eleitor qualificado a votar compareça às urnas.

Nem é preciso dizer, há muitos brancos da classe trabalhadora inteiramente a bordo do programa de Trump. Mesmo a parte que simplesmente tolera seu racismo e xenofobia desde que ele distribua contratos para se construir oleodutos, apresenta um grande desafio político. Mas quando consideramos, pós-eleição, quem pertence à “resistência”, estamos fazendo uma alegação de alto risco se olharmos os brancos da classe trabalhadora como tão irremediavelmente fanáticos que não devessem fazer parte dela.

(Negros e brancos viajam juntos ao Mississippi contra o racismo em 1964)

(Negros e brancos viajam juntos ao Mississippi contra o racismo em 1964. Foto: )

Qualquer alinhamento político capaz de corrigir a profunda desigualdade econômica que fortifica e exacerba todos os outros problemas na vida americana vai requerer a unidade da classe trabalhadora através de categorias raciais, de gênero e sexuais, e em torno de interesses compartilhados. Ao mesmo tempo que atrair brancos da classe trabalhadora para esta coalizão requer uma luta política formidável, excluí-los dela torna impossível dispor dos números necessários para se alcançar e exercer o poder.

A cor branca em si confere um grau de propriedade, como descreveu a especialista na área jurídica Cheryl I. Harris, e os brancos pobres e da classe trabalhadora, que carecem de outras formas de propriedade, têm, portanto, razão em tentar protegê-la. Isso levou W.E.B. du Bois a observar: “Na mesma medida que os operários sulistas brancos pudessem ser induzidos a preferir a pobreza à igualdade com o negro, se impossibilitaria um movimento operário no Sul”.

O pecado original da América criou assim um enorme empecilho para se organizar trabalhadores negros e brancos em conjunto. Para conseguir fazê-lo, os trabalhadores brancos devem se convencer a desistir de uma forma de privilégio –o que é oferecido pelo mito da superioridade racial– para lutarem ao lado dos trabalhadores negros. A solidariedade, como resultado, tem sido um desafio monumental, e o racismo branco tem frequentemente ganhado a parada. A história americana, todavia, nos oferece vários exemplos de trabalhadores que escolheram a solidariedade, muitas vezes devido à liderança e perseverança de trabalhadores e pensadores negros.

Em 1894, uma aliança entre trabalhadores agrícolas, os Populistas brancos pobres e os Republicanos negros pobres, ganhou o controle do poder Legislativo da Carolina do Norte e começou a fazer reformas, incluindo a nomeação de funcionários negros. Quatro anos mais tarde, uma eleição supremacista branca devolveu o poder Legislativo à “classe plantadora” apoiada pelos Democratas. Dois dias após a eleição, turbas de brancos alinhados aos Democratas perambulavam por vizinhanças negras, atirando, matando e incendiando.

Durante a Grande Depressão, comunistas foram a Birmingham, Alabama, para se organizarem por direitos econômicos com a classe trabalhadora desempregada; a princípio, pensaram que os trabalhadores brancos iriam ser predominantes, mas no fim das contas foram os trabalhadores negros que o fizeram, e acabaram organizando negros e brancos juntos. Transformando em causa nacional o caso de Scottsboro em 1931, no qual nove adolescentes negros foram acusados, sem provas, de estuprar duas mulheres brancas no Alabama, os comunistas formaram uma série de organizações.

Estas incluíam o Congresso da Juventude Negra Sulista, que prenunciou o Comitê Estudantil de Coordenação Não-Violenta, e um sindicato de meeiros que no seu auge ostentava 12 mil membros, inclusive brancos. Como comissário de segurança pública, Bull Connor travou uma batalha com eles nos anos 1940, e, embora tivesse sido capaz de esmagar o Partido Comunista do Alabama, não pôde esmagar o fundamento que este havia colocado para a revolução dos direitos civis contra Jim Crow –incluindo a ação política pioneira de Rosa Parks.

No fim dos anos 1960, tanto Martin Luther King Jr. como o líder dos Panteras Negras de Chicago, Fred Hampton, reuniram coalizões interraciais de pessoas da mais baixa renda. Em 1967, quando iniciava sua Campanha dos Pobres, King sugeriu que, uma vez que “a questão econômica [é] fundamental para negros e brancos de modo semelhante, ‘Poder para os Pobres’ seria muito mais apropriado que o slogan ‘Poder Negro'”.

Hampton não se afastou do “Poder Negro”, mas emparelhou-o com outras concepções: “Poder Branco para os brancos, Poder Pardo para os pardos, Poder Amarelo para os amarelos, Poder Negro para os negros, Poder X para aqueles que deixamos de fora e Poder das Panteras para o Partido de Vanguarda”. Por seus esforços, ambos foram assassinados Hampton pelo Departamento de Polícia de Chicago e o FBI, e King por um assassino “branco da classe trabalhadora”, o qual sua família e camaradas afirmam que foi um joguete numa conspiração envolvendo o Departamento de Polícia de Memphis, o FBI e outros.

Em todos estes casos, o racismo que destruiu tais esforços não viera da classe trabalhadora branca, mas de brancos ricos e da imposição da lei.

Sem dúvida, os brancos que participavam destas coalizões não estavam livres de suspeição e desprezo pelos negros, mas não eram tão incorrigivelmente odiosos para que fossem cegos quanto aos importantes pontos de unidade que compartilhavam. Estes brancos da classe trabalhadora eram capazes de ver os negros da classe trabalhadora como companheiros de time.

Isto é essencial: as pessoas encontram maneiras de se entusiasmar com aqueles que consideram no mesmo time. A historiadora Judith Stein, por exemplo, cita o caso de Jim Cole, que se recordava do tempo em que trabalhava nos armazéns de Chicago organizados pelo CIO (Congress of Industrial Organization): “Não me importo se o sindicato não fizer mais um bocadinho de trabalho para aumentar nosso pagamento ou resolver queixas quanto a qualquer coisa, sempre acreditarei que fizeram uma ótima coisa no mundo ao reunir toda gente que trabalha nos armazéns, e dissolver o ódio e sentimentos ruins que se mantinham contra o negro”.

“O sentimento racial igualitário”, conclui Stein, “é frequentemente a consequência, não a causa, da sindicalização”.

(Jovem negro desafia a vizinhança branca)

(O jovem ativista negro Dion Diamond desafia a vizinhança branca em Maryland, 1960. Foto: Walter Oates)

Tratar patologicamente a classe trabalhadora branca como inerentemente fanática serve a duas funções: desencoraja a organização da classe trabalhadora além de limites raciais e dá aos liberais brancos um conveniente bode expiatório a quem, sendo branco, não pode culpar o racismo. Como advertiu Malcolm X. “Se você não tomar cuidado, os jornais o farão odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e adorar os opressores”.

Se você está procurando o apoio incondicional a Trump, os estacionamentos de trailers do Texas e as cabanas do Kentucky são os lugares errados para encontrá-lo. O fascismo se desenvolve nas mãos que jogam pôquer em porões mobiliados, nas grelhas ao lado da piscina no quintal, nas cervejas na viagem de trem de volta do jogo de bola –e nas delegacias de polícia e radiopatrulhas.

A fim de superar o fascismo, temos de parar de fetichizar a classe média e começar a unir a classe trabalhadora. Com este objetivo, a plataforma do Movement for Black Lives (Movimento pelas Vidas dos Negros) fornece um plano para a emancipação não apenas dos negros, mas da classe trabalhadora como um todo. Com ênfase em se despojar da imposição da lei e do encarceramento e investir na garantia dos direitos humanos quanto a renda, habitação, saúde pública, educação e um meio-ambiente salutar, sua agenda fornece uma ampla cobertura que pode acomodar as visões que impelem muitos dos movimentos sociais da atualidade: grupos operários, ambientais, de paz e de imigração, entre muitos outros, já a aprovaram.

Enquanto beneficiários do racismo sistêmico, os brancos têm uma obrigação especial de se organizar para a realização deste programa, e reconhecer que a relutância dos negros em trabalhar com aqueles que mantém atitudes intolerantes é compreensível, e que a necessidade de organização negra independente é urgente. Ainda assim, a única força política capaz de fazer avançar a agenda do Movement for Black Lives está arraigada nos interesses compartilhados da classe trabalhadora. O fracasso em seguir a liderança de Fred Hampton e Martin Luther King e engajar os brancos da classe trabalhadora na luta pelo socialismo e pela liberação negra só continuará a minar tal combate e a sacrificar aquelas mesmas pessoas ao fundo do poço dos camisas marrons com o revoltante demagogo em seu leme.

*Jesse A. Myerson é ativista e escritor e vive em Nova York.

 

*PAGUE O TRADUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o tradutor. Todas as doações para este post irão para o tradutor Mauricio Búrigo. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Mauricio Búrigo Mendes Pinto, Banco do Brasil, agência 2881-9, conta corrente 11983-0, CPF 480.450.551-20. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 

 

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Woody Guthrie X Fred Trump, parte 2: “Trump me transformou num vagabundo”

Publicado em 9 de fevereiro de 2017
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(Woody Guthrie com crianças em Nova York, em 1943. Foto: Eric Schaal)

Alguns meses depois de revelar ao mundo a existência de letras e escritos do compositor e cantor Woody Guthrie denunciando o racismo do império imobiliário dos Trump, o pesquisador Will Kaufman voltou à carga com uma nova descoberta: uma letra inédita onde Guthrie culpa o pai do presidente dos EUA, Fred Trump, por sua decadência financeira. Um dos maiores nomes da história do folk em todos os tempos e maior influência de Bob Dylan, o compositor morreu em 1967, aos 55 anos de idade, vítima da Doença de Huntington, uma enfermidade hereditária.

Para ler a primeira parte desta sensacional história, clique aqui. Lembrando que o artigo contém “vaquinha posterior” ao final, para pagar o tradutor Mauricio Burigo.

***

Em outra canção inédita, Woody Guthrie continua seu ataque ao “Velho Trump” 

Por Will Kaufman, no The Conversation

Tradução: Mauricio Burigo*

No início deste ano escrevi sobre uma série de escritos amargos de Woody Guthrie que eu havia descoberto enquanto fazia pesquisa para um livro sobre o compositor de baladas.

Os ataques eram dirigidos contra um homem que Guthrie havia apelidado de seu “pior inimigo”: Fred C. Trump, o senhorio do complexo de apartamentos Beach Haven no Brooklyn, onde a família Guthrie morou de 1950 a 1952. Guthrie abominava particularmente a linha de cor (referência à linha imaginária delimitando espaços para pretos e brancos nos EUA) de facto do projeto habitacional. (“Beach Haven se parece com o céu/ Onde nenhum negro vem vagar!/ Não, não, não! Velho Trump!/ O velho Beach Haven não é meu lar!”).

Neste verão, Judy Bell –a infatigável guardiã das canções de Guthrie na gravadora independente TRO-Essex– contou-me que havia encontrado em seus arquivos uma folha datilografada com a letra de uma canção de Guthrie. Embora seja outra praga lançada ao pai de Donald Trump, a descoberta chega no momento em que um recente artigo de fôlego do New York Times detalha a “longa história de preconceito racial” nas propriedades construídas e possuídas pelo Império Trump.

“Trump me transformou num vagabundo”

Como tantas outras canções folk memoráveis, a diatribe de sete versos de Guthrie é desavergonhadamente simples, repetitiva e formulada. Descreve o ultraje do compositor acerca dos aluguéis cobrados de forma exploradora num projeto habitacional feito com dinheiro público, destinado a veteranos de guerra como ele próprio:

Mister Trump made a tramp out of me;
    Mister Trump has made a tramp out of me;
    Paid him alla my bonds and savin's
    To move into his Beach Haven;
    Yes, Trump has made a tramp out of me.

(O sr. Trump me transformou num vagabundo; O sr. Trump me transformou num vagabundo; Paguei ele com tudo que é título e poupança para me mudar para o Beach Haven; Sim, Trump me transformou num vagabundo.)

Guthrie foi certeiro quanto à exploração de Fred Trump. Ele pode ter sido inclusive econômico em detalhes: os milhões que Trump ganhava dos pagamentos de aluguel; os 5% embolsados do custo da empreitada de Beach Haven; o valor de US$ 3,7 milhões em fundos federais para edificação tomados de empréstimo, desnecessários, que foram destinados à construção. Mas Guthrie sabia por instinto que um negócio sujo estava se desenrolando em Beach Haven.

Sua canção reflete, também, o que o estudioso de música popular Edward Comentale chamou de “filão divagante, engraçado”, de Guthrie: uma retórica constrangida e estilizada em alto grau, caracterizada por “uma aceitação da pobreza e até do desamparo, em oposição às estruturas de orgulho e poder”.

Well, well, Trump, you made a tramp out of me;
    Well, well, Trump, you made a tramp out of me;
    You charge me so much it just ain't human,
    I've got to try to live with president Truman;
    Yess, Trump, you made a tramp out of me.

(Ora, ora, Trump, você me transformou num vagabundo; Ora, ora, Trump, você me transformou num vagabundo; Você me cobra tanto que isso simplesmente não é humano, Vou tentar morar com o presidente Truman; Ééé, Trump, você me transformou num vagabundo.)

Em última análise, tudo isso demonstra algo muito mais grave. Oferece um vislumbre da mente de um homem que recebera um diagnóstico desalentador dos médicos do Hospital Estadual do Brooklyn, em 3 de setembro de 1952, enquanto ainda vivia em Beach Haven: “PSICOSE ASSOCIADA A ALTERAÇÕES NO SISTEMA NERVOSO COM CORÉIA DE HUNTINGTON”.

Por fim havia uma explicação para o que fora um padrão de comportamento alarmante e desorientador para Guthrie: tontura constante, que ele e outros tomavam por alcoolismo; acessos súbitos, fora do comum, de violência verbal e física; uma desinibição sexual elevada, com frequência embaraçosa; e a deformidade e aberração gradual de seus escritos –o que seu biógrafo Joe Klein chama “anarquia linguística”, e que “se estendeu até ao seu endereço (Beach Haven, em New York City, tornou-se ‘Bitch Haven’ em ‘New Jerk Titty’)”.

O período em Beach Haven, que se mostrara tão auspicioso no seu princípio (com mais espaço de convivência para a família, alguns royalties modestos pelas composições de Guthrie, e uma oportunidade para que sua esposa Marjorie abrisse uma escola de dança moderna), acabou após dois anos, com o fim do casamento de Guthrie e episódios alternados de hospitalização, encarceramento e vagabundagem.

Beach Haven: uma cidade segregacionista

É claro que não foi Fred Trump que “transformou” Guthrie num “vagabundo”. No entanto, é igualmente claro que Guthrie veio a associar o nome “Trump” à sua decadência.

Mesmo que estivesse sendo despojado de suas próprias faculdades neurológicas e expressivas, ele escreveu de “Witchy Haven” (“Refúgio das Bruxas”) ao seu amigo íntimo, ativista e infiltrado na Ku Klux Klan, Stetson Kennedy, sobre o “Velho Sr. Trump” e “sua cambadinha de puxa-sacos” que o impediam de fazer “um centímetro sequer de trabalho para pregar ou montar ou consertar a espelunca”.

E escreveu sobre algo ainda pior: a “linha de cor” de Fred Trump.

“Além de não ser capaz de desfrutar um dia sequer de vida normal ou natural aqui no projeto de edifícios do Sr. Trump por conta de cerca de 99 cláusulas no seu velho maldito contrato de inquilino, descubro que estou residindo no centro insuportável de uma cidade segregacionista (jimcrow town, no original) para onde nenhuma família negroide tem ainda permissão de se mudar e viver livremente”.

Guthrie lamentava que ele e a esposa fossem forçados a criar seus filhos “sujeitos ao fedor e ranço de caveira e ossos do ódio racial, jimmycrack Krow” (trocadilho com Jim Crow, as leis segregacionistas dos EUA).

Daí o derradeiro tiro de Guthrie em seu senhorio:

Humm humm, Trump, you made a tramp out of me;
    Hummm, humm, Trump, you made a tramp out of me;
    You robbed my wife and robbed my kids,
    Made me stay drunk and to hit the skids;
    Yepsir, Trump, you made a tramp out of me.

(Hum, hum, Trump, você me transformou num vagabundo; Hum, hum, Trump, você me transformou num vagabundo; Você roubou minha mulher e roubou minhas crianças, Me fez ficar bêbado e desandar; Sim, senhor, Trump, você me transformou num vagabundo”.)

(Woody Guthrie hospitalizado em 1958. Foto: Lou Gordon/Woody Guthrie Publications)

(Woody Guthrie hospitalizado em 1958. Foto: Lou Gordon/Woody Guthrie Publications)

No fim de setembro de 1952, Guthrie caiu na estrada sozinho, rumo à Califórnia, em parte para ajustar-se à realidade do seu diagnóstico. Marjorie ficou para que se dirigisse ao escritório de Trump com uma solicitação de suspensão do contrato. Depois de não receber resposta, escreveu ao agente de Trump em Beach Haven em 4 de dezembro de 1952:

“Meu marido, após meses de hospitalização e exames, foi declarado incurável e está sofrendo de uma doença fatal conhecida como Coréia de Huntington. Temos três crianças pequenas e, como agora sei que somente eu serei responsável por elas, acho que seria impossível para mim continuar morando em meu apartamento, cujo aluguel agora se tornará um sacrifício e tanto… Creio que devo sair dentro de uma semana”.

Até esta data, os arquivos não mostram qualquer evidência de uma resposta, favorável ou não. Em seguida, Marjorie e suas três crianças –Arlo, Joady e Nora– deixaram Beach Haven e mudaram-se para Howard Beach, Queens.

As letras de Guthrie repercutem hoje

Não é surpreendente que os escritos de Beach Haven de Guthrie tivessem atraído tanta atenção na corrida eleitoral à presidência em 2016. Um esclarecimento histórico precisa ser feito. O jornalista David Cay Johnston, por exemplo, escreve em seu novo livro, The Making of Donald Trump, que Guthrie “pensava em colocar as políticas de aluguel de Trump em uma canção que intitulou Old Man Trump“.

Na verdade, Guthrie nunca escreveu uma canção chamada Old Man Trump. Johnston usou o título porque foi uma condição da licença de direito autoral concedida pela família Guthrie. Neste meio tempo, a canção com esse nome recentemente gravada e divulgada por Ryan Harvey, Tom Morello e Ani DiFranco, é uma mistura feita por Harvey com fragmentos de versos tirados de três fontes de arquivos separados (publicados pela primeira vez em The Conversation em janeiro de 2016). Guthrie tampouco usou a expressão “Trump’s tower” (“Torre de Trump”), como Harvey e seus colegas cantam; Harvey explicou que foi decisão sua “inserir uma referência do tempo presente”.

Os escritos de Beach Haven de Guthrie vieram a público em uma hora em que sua gravadora, TRO-Essex, em parceria com o espólio de Woody Guthrie, está travando uma batalha quanto aos direitos autorais do hino mais celebrado de Guthrie, This Land Is Our Land.

Como explicou Nora Guthrie: “nosso controle desta canção não tem nada a ver com ganho financeiro… Tem a ver com protegê-la de Donald Trump, protegê-la da Ku Klux Klan, protegê-la de todas as forças malignas lá fora”.

Trump possui um considerável histórico de se apropriar sem autorização de canções para a sua campanha, para grande indignação dos seus compositores. Mas, olhando mais além da campanha presidencial: ainda que os escritos de Beach Haven passassem batidos, e ouvíssemos, de qualquer maneira, This Land Is Our Land sendo tocada dentro dos elevadores da Trump Tower ou nas sedes dos clubes de campos de golfe de Trump, não existiria um instrumento científico que pudesse medir a velocidade com que Woody Guthrie se reviraria no túmulo.

VAQUINHA POSTERIOR: todas as doações feitas para esta reportagem nos próximos dias, por Paypal ou depósito em conta, serão encaminhadas ao tradutor Mauricio Burigo. Se você gostou, apoie!

 

 

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As letras que Woody Guthrie, ídolo de Bob Dylan, fez sobre o império racista dos Trump

Publicado em 7 de fevereiro de 2017
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(Woody Guthrie em 1943 com sua guitarra “Esta máquina mata fascistas”)

Esta semana, quando Lady Gaga entoou This Land is Your Land na final do Superbowl, o nome do compositor Woody Guthrie (1912-1967), maior ídolo de Bob Dylan, voltou a ser lembrado. A letra da canção, composta em 1940, é uma ode antifascista e se tornou uma espécie de “hino alternativo” dos Estados Unidos. “Esta terra foi feita para mim e você”, diz o refrão da canção, em um recado claro como água contra a política xenófoba de Donald Trump.

Mas citar Woody Guthrie neste momento é ainda mais provocador quando se sabe que o compositor folk foi inquilino do pai do presidente, Fred, e denunciou em canções e escritos as práticas racistas da imobiliária dos Trump, que chegou a ser processada por se recusar a receber negros. É hilário descobrir como os Trump, ídolos da neodireita defensora do “estado mínimo”, ficaram milionários graças a subsídios públicos no pós-guerra…

A história é sensacional e foi revelada por Will Kaufman, professor de Literatura e Cultura Norte-Americana na Universidade de Lancashire. Leiam, o blog traduziu para vocês. Lembrando que o artigo contém “vaquinha posterior” ao final, para pagar o tradutor Mauricio Burigo.

(Clique aqui para ler a segunda parte desta reportagem.)

***

Woody Guthrie, Old Man Trump e os alicerces de um império imobiliário racista

Por Will Kaufman, no The Conversation

Tradução: Mauricio Burigo*

Em dezembro de 1950, Woody Guthrie assinou o contrato de aluguel de um novo apartamento no Brooklyn, em Nova York. Mesmo agora, mais de meio século depois, esse documento insípido provoca uma reação de surpresa tardia.

Embaixo de todo o jargão legal está a assinatura do homem que compôs This Land Is Your Land (“Esta Terra É Sua Terra”), o mais retumbante apelo por uma partilha igual para todos na América. Abaixo dela, está a assinatura do pai de Donald Trump, Fred. Nenhum outro par poderia parecer mais improvável.

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(Guthrie, Donald e seu pai, Fred. Montagem por Nick Lehr/The Conversation)

O inquilinato de dois anos de Guthrie num dos prédios de Fred Trump e seu relacionamento com o magnata imobiliário dos bairros mais afastados de Nova York produziram alguns dos escritos mais ácidos de Guthrie, os quais descobri numa viagem recente aos Arquivos Woody Guthrie em Tulsa, Oklahoma. Tais escritos nunca foram publicados antes; deveriam ser, pois eles colocam de maneira clara o compositor de baladas nacional da América contra os alicerces racistas do império imobiliário de Trump.

Recordar tais alicerces torna-se mais relevante diante das proclamações racialmente carregadas de Donald Trump, que em 2015 anunciou: “Meu legado tem suas raízes no legado de meu pai”.

Um defensor da igualdade

No tempo em que se mudou para o novo apartamento, Guthrie já havia percorrido uma longa estrada desde o racismo casual de sua juventude em Oklahoma.

Havia aprendido, ao longo do caminho, que o norte não detinha qualquer pretensão especial de esclarecimento racial. Havia escrito canções tais como The Ferguson Brothers Killing, em que condenava o assassinato sem hesitação dos desarmados Charles e Alfonso Ferguson pela polícia em Freeport, Long Island, em 1946, depois que o café de um terminal de ônibus se recusara a atender os dois jovens negros.

Em Buoy Bells from Trenton, denunciou o extravio da Justiça no caso dos chamados “Trenton Six” –negros condenados por assassinato em 1948 por um júri inteiro de brancos num julgamento manchado por perjúrio oficial e evidências forjadas.

E, em 1949, ficou ombro a ombro com Paul Robeson, Howard Fast e Pete Seeger contra as mobilizações racistas e anticomunistas de Peekskill, Nova York, em 1949, onde o racismo norte-americano, em sua face mais horrorosa, inspirou 21 canções da sua pena (uma delas, My Third Thousand, foi gravada por Billy Bragg e Wilco).

Um refúgio habitacional do pós-guerra –para brancos

Nos anos do pós-guerra, com o retorno de centenas de milhares de recrutas a Nova Iorque, habitações públicas acessíveis haviam se tornado uma prioridade urgente.

Na maioria dos casos, projetos habitacionais de baixo custo haviam sido relegados a empresas públicas estatais e municipais sem um tostão. Mas quando a Federal Housing Authority (FHA, Agência Federal de Habitação) interveio de modo decisivo para distribuir empréstimos e subsídios federais para blocos de apartamentos urbanos, um dos primeiros empreiteiros na fila, de olho em tirar partido da grande oportunidade, era Fred Trump. Ele fez fortuna não apenas através da construção de projetos habitacionais públicos, mas também cobrando os aluguéis deles.

Quando Guthrie assinou seu contrato de aluguel pela primeira vez, é improvável que estivesse a par dos bastidores obscuros da construção da sua nova casa, o monumental complexo habitacional que Trump apelidou de “Beach Haven” (“Paraíso da Praia”).

Trump seria investigado por um comitê do Senado dos EUA em 1954 por explorar contratos públicos até às últimas consequências, inclusive superfaturando os custos de construção do seu Beach Haven no montante de US$ 3,7 milhões.

O que Guthrie descobriu demasiado tarde foi a adoção entusiástica de Trump à regra da FHA para que se evitasse “utilizações desarmônicas de habitações” –ou, como a biógrafa de Trump, Gwenda Blair propõe, “uma frase eufemística para ‘vender casas em áreas de brancos para negros’”. Como salienta Blair, tais “cláusulas restritivas” eram comuns entre os projetos da FHA –uma traição aos planos do New Deal que deram luz à agência.

A linha de cor do ‘Velho Trump’

Apenas um ano morando em Beach Haven, Guthrie –ele próprio um veterano–, já estava lamentando a intolerância que impregnava sua nova vizinhança, branca como um lírio, a qual gostava de chamar “Bitch Havens”.

Nos seus cadernos, imaginava uma trama para estraçalhar a linha de cor e transformar o complexo de Trump numa cornucópia diversa, com “uma face de cada cor brilhante, gargalhando e caçoando nestas velhas janelas sombrias e vazias, que choramingam em segredo”. Imaginava-se evocando em versos livres whitmanescos a “guria negra que caminha contra este vento de proa /agarrada à sua bolsa e ao seu casaco de pele”:

I welcome you here to live. I welcome
    you and your man both here to Beach Haven to love in any
    ways you please and to have some kind of a decent place to
    get pregnant in and to have your kids raised up in. I'm
    yelling out my own welcome to you.

(Dou-lhes as boas-vindas para que vivam aqui. Dou a ambos, a você e a seu homem, as boas-vindas aqui em Beach Haven para se amarem de quaisquer maneiras que quiserem e terem um tipo de lugar decente para se engravidar e criar seus filhos. Estou gritando minhas próprias boas-vindas a vocês.)

Para Guthrie, Fred Trump personificava toda a malignidade dos códigos racistas que continuavam a colocar habitações decentes –tanto públicas como privadas– fora de alcance para tantos dos seus concidadãos:

I suppose
    Old Man Trump knows
    Just how much
    Racial Hate
    he stirred up
    In the bloodpot of human hearts
    When he drawed
    That color line
    Here at his
    Eighteen hundred family project ....

(Eu suponho/ Que o Velho Trump saiba/ Quanto/ Ódio Racial/ Ele instigou/ No pote de sangue dos corações humanos/ Quando traçou/ Aquela linha de cor/ Aqui no seu/ Projeto de mil e oitocentas famílias…)

E como que para não deixar dúvida alguma acerca da culpabilidade pessoal de Trump em perpetuar o estado dos negros americanos enquanto refugiados internos –estrangeiros na própria terra estrangeira–, Guthrie retrabalhou sua típica balada estilo Dust Bowl, “I Ain’t Got No Home”, que foi transformada num ataque virulento contra o seu senhorio:

Beach Haven ain't my home!
    I just cain't pay this rent!
    My money's down the drain!
    And my soul is badly bent!
    Beach Haven looks like heaven
    Where no black ones come to roam!
    No, no, no! Old Man Trump!
    Old Beach Haven ain't my home!

(O Beach Haven não é meu lar!/ Eu mal posso pagar este aluguel!/ Minha grana desceu pelo ralo! E minha alma está terrivelmente curvada!/ Beach Haven se parece com o céu/ Onde nenhum negro vem vagar!/ Não, não, não! Velho Trump!/ O velho Beach Haven não é meu lar!)

Em 1979, 12 anos depois que Guthrie havia sucumbido ao destino mortal da Doença de Huntington, o repórter do Village Voice Wayne Barrett publicou uma exposição em duas partes sobre o império imobiliário de Fred e Donald Trump. Barrett dedicou atenção especial aos casos instaurados contra os Trump em 1973 e 1978 pela Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça dos EUA. Uma acusação importante era a de que “a conduta racialmente discriminatória de agentes dos Trump” havia “criado um impedimento substancial ao pleno usufruto de oportunidades iguais”. A evidência mais condenatória viera dos próprios empregados dos Trump. Como resume Barrett:

“De acordo com os autos do tribunal, quatro superintendentes ou corretores confirmaram as solicitações enviadas ao escritório central [dos Trump] para aceitação ou rejeição eram classificadas por raça. Três porteiros eram instruídos a desencorajar negros que viessem procurar apartamentos quando o gerente estava fora, seja alegando não haver vagas, seja fazendo subir os aluguéis. Um superintendente disse que era instruído a mandar candidatos a locatários negros ao escritório central, enquanto aceitava solicitações de brancos no próprio local. Outro agente de aluguel disse que Fred Trump o instruíra a não alugar para negros. Além disso, o agente disse que Trump queria ‘diminuir o número de inquilinos negros’ que já estavam no empreendimento ‘encorajando-os a instalar-se em habitações noutra parte’.”

Guthrie havia escrito que supremacistas brancas como os Trump estavam “muito à frente de Deus” porque

God dont
    know much
    about any color lines.

(Deus não/ sabe muito/ sobre qualquer linha de cor.)

Dificilmente Guthrie estivesse pretendendo que isso soasse como um elogio. Mas os Trumps –pai e filho, semelhantemente– podem muito bem ter sido arrogantes o bastante para ver desta forma. Afinal, se você se acha “muito à frente de Deus” em qualquer tipo de corrida, então o que mais Deus deve ser exceto, ora, “um perdedor”? E sabemos o que Donald Trump pensa sobre os perdedores.

Uma coisa é certa: Woody Guthrie não tinha tempo algum para o “Velho Trump”.

Só podemos imaginar o que pensaria do seu herdeiro.

VAQUINHA POSTERIOR: todas as doações feitas para esta reportagem nos próximos dias, por Paypal ou depósito em conta, serão encaminhadas ao tradutor Mauricio Burigo. Se você gostou, apoie!

 

 

 

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