O encontro de Dom Paulo Evaristo Arns e Fidel Castro no céu

Publicado em 14 de dezembro de 2016
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(Porta Pura Lempuyang, na Indonésia)

Dom Paulo avistou de longe a estrela vermelha no quepe verde-oliva do grandalhão que o esperava no portão.

– Bem-vindo, Paulo!

– Ah, queridíssimo Fidel, não me admira vê-lo por aqui…

Fidel Castro gargalha.

– Olha que fizeram muitos memes e piadas comigo ardendo no fogo do inferno e competindo com o Satanás em pessoa.

– Imagina, todos sabemos com quanto heroísmo e sacrifício o povo de seu país conseguiu resistir às agressões externas e erradicar a miséria, o analfabetismo e os problemas sociais crônicos. Pecado, para mim, é que alguém no Brasil ainda esteja sem terra após 500 anos. A igreja sempre apoiou o MST e sempre vai apoiá-los, enquanto não houver justiça e melhor distribuição da terra. Até hoje nunca houve justiça social no Brasil.

– Ah, amigo Paulo, sinto tanto ter vindo para cá sem concluir a promessa de cortar a barba quando tivesse feito o governo que sonhei para Cuba… Falta muito ainda para que minha ilha chegue de fato ao socialismo. Estou cada vez mais convencido de que as ideias socialistas são as ideias do futuro. O futuro qual vai ser, o capitalismo? O capitalismo é uma selva. É o homem inimigo do homem, o homem roubando o homem. Só um regime superior a este pode levar a sermos como irmãos, como uma família. Olha só, pareço um cristão falando! Mas, diga-me: e do Brasil, que notícias você traz?

– Você sabe que eu sempre quis ser lembrado como um amigo do povo. E deixei minha pátria triste com o que estava acontecendo por lá: um governo ilegítimo ameaçando o futuro justamente do povo mais pobre e sofrido. Quem não ama o povo não tem religiosidade verdadeira. O pobre, meu caro Fidel, é a moeda de Deus. E o que ameaçam fazer com os velhos, acabando com a aposentadoria! Como eles vão viver? Como vão comprar remédios? Como vão se sustentar e manter uma certa dignidade para dizer: ‘O Brasil é a minha pátria’? O idoso brasileiro ainda não recebeu da nação o respeito que merece. Que Deus nos preserve de males semelhantes àqueles que tivemos de suportar durante a ditadura militar. Mas sou otimista: acredito que toda crise é momento de mudanças qualitativas. E a nossa turma, anda por aqui? Niemeyer, Paulo Freire, Helder, Darcy, Galeano, o Gabo?

– Todos. De vez em quando nos sentamos em uma nuvem para fumar um charuto –Galeano, como bom uruguaio, prefere porros– e discutir a existência de Deus, com o próprio. O velho barbudo não se cansa de tirar onda com Oscar, que era ateu mas construiu igrejas para o catolicismo, sendo que o todo-poderoso, na verdade, sempre gostou mais do candomblé…

– Hahaha. Você também tinha uma grande ligação com a santería que eu sei… Achei inclusive uma pena que nas suas conversas com o Frei Betto sobre religião vocês tenham abordado e falado tanto do catolicismo e do cristianismo, a religião dos conquistadores, e não da religião dos escravos. Você é mesmo filho de Oduduá, como dizem lá em Cuba?

– Respeito todas as religiões, ainda que não siga nenhuma delas. Compreendo que os seres humanos busquem uma explicação para sua existência, desde os mais ignorantes até os mais sábios. Mas fui um homem das ciências até o fim. O que me preocupa não é a religião de cada um, mas que as sociedades de consumo capitalistas, em sua fase neoliberal e imperialista, estejam levando o mundo a um beco sem saída, onde as mudanças climáticas e o custo crescente dos alimentos conduzam milhões de pessoas aos piores índices de pobreza.

– É, não vai faltar assunto para conversar com você, velho amigo.

– Temos toda a eternidade, camarada.

*Diálogo imaginário com frases reais de Fidel Castro e Dom Paulo Evaristo Arns.

 

 

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Los Barbudos e a partida de beisebol mais comunista da História

Publicado em 28 de novembro de 2016
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(Fidel, o arremessador. Fotos: Joe Scherschel)

Reza a lenda que, se tivesse sido contratado pelos Washington Senators aos 15 anos, Fidel Castro teria se tornado um astro do beisebol e sua vida seria outra. Um “olheiro”, Joe Cambria, teria visto o adolescente Fidel jogar em Havana e, impressionado com a “bola de curva” (curveball) do arremessador, o convidara para jogar profissionalmente nos Estados Unidos. O jovem preferiu continuar estudando e se tornou o revolucionário comunista cuja trajetória se interrompeu na última sexta, 25 de novembro, aos 90 anos.

O mito do Fidel beisebolista se tornou tão poderoso que, em 1964, um ex-jogador profissional, Don Hoak, chegou a publicar um artigo contando como enfrentara o imberbe Fidel numa partida entre estudantes em Havana que jamais aconteceu. Em uma reportagem feita para a Harper’s Magazine em 1989, Castro’s Curveball, o jornalista J. David Truby sustenta a história do “olheiro” como verdadeira, afirmando que Fidel foi “seriamente considerado para jogar nos Senators”.

Truby revela ainda que Fidel deixou os dirigentes do New York Giants estupefatos ao recusar uma oferta de 5 mil dólares da época para jogar no time. Talvez o garoto tenha pressentido que havia um destino mais importante para ele neste mundo –liderar uma revolução, quem sabe?

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(Fidel e Camilo Cienfuegos)

Nenhum destes relatos ficou comprovado. A “reportagem” de David Truby, hoje tida como inventada, acabou de fato romanceada por Tim Wendel na novela homônima Castro’s Curveball, de 1999. Entrevistado pela ABC em 1991, o próprio Fidel Castro avaliou, sem falsa modéstia, que havia sido um jogador de beisebol “bastante bom”, mas que não teria chance nos grandes times. “Eu provavelmente estaria engraxando sapatos em Nova York”, disse.

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(Camilo e Fidel, animados na chegada)

O que, sim, é história é que Fidel Castro foi a vida inteira louco por beisebol e, seis meses após a revolução que acabou com a ditadura de Fulgêncio Baptista, ele e seus camaradas organizariam um jogo de beisebol em Havana: Los Barbudos contra a Polícia Nacional. No estádio del Cerro, hoje chamado Latinoamericano, os guerrilheiros luziam uniformes com o nome do time. Camilo e Fidel seriam os lançadores de cada uma das equipes, mas à última hora Cienfuegos apareceu com o uniforme dos Barbudos. “Não fico contra Fidel nem em um jogo de bola”, explicou, fortalecendo outra lenda: a de que o comandante odiava perder e era daqueles capazes de fugir com a bola e o taco.

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(O jovem Raúl Castro na arquibancada)

Havia mais de 26 mil pessoas no estádio, a maior audiência já vista até então. As grandes estrelas eram Camilo e Fidel. Para nós, brasileiros, as regras e jogadas soam todas muito complicadas, mas o que se sabe é que a tal maestria de Fidel não deu as caras, pelo menos não naquela partida. Segundo os relatos sobre a partida, ambos se saíram razoavelmente bem, mas nem tanto; e o jogo terminou em 3 a 0 para os policiais. Há quem diga, porém, que a lenda do Fidel craque de beisebol nasceria naquela noite.

Tão perto e tão longe dos Estados Unidos, o beisebol continuou sendo o esporte nacional de Cuba após a revolução e muito pela promoção que Fidel fazia do esporte. “Assim como a terra, a pelota voltou para o povo”, disse Fidel em 1962, ao inaugurar a Série Nacional de Beisebol. “A bola não é criação ianque, os primeiros habitantes de Cuba já jogavam, com o nome de Batos. Este é um triunfo da bola livre sobre a bola escrava. Nossos atletas deixaram de ser mercadoria para converter-se em jogadores. Algum dia, quando os ianques se decidirem a coexistir com nossa pátria, o que terão sem dúvida que fazer, também os venceremos no beisebol, e então se poderá comprovar a superioridade do esporte revolucionário sobre o esporte explorado.”

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(El comandante comandando)

Apesar de ter acabado com o esporte profissional na ilha, o que para os detratores “destruiu” o beisebol cubano, para outros foi justamente com o fim do profissionalismo que ele alcança sua época de ouro. “A verdade é que o auge do beisebol cubano se alcançou na segunda metade do século 20 —uma era pó-revolução e não pré-revolução”, defende o historiador do beisebol Peter C. Bjarkman neste interessante artigo. “Fidel Castro e suas políticas de amadorismo foram no fundo responsáveis, durante os anos 1960 e 1970, por reconstruir o esporte de Doubleday e Cartwright na ilha e convertê-lo em uma vitrine de patrióticas competições amadoras. O resultado direto dessas duas décadas e das outras três que se seguiram seria um dos mais fascinantes circuitos de beisebol no mundo.”

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(Camisa 19, Fidel Castro)

Algumas dezenas de astros cubanos, porém, fugiram para o profissionalismo (e os dólares) dos EUA neste meio tempo. Só em 2015, fala-se que mais de 100 jogadores de beisebol de Cuba pediram asilo em terras norte-americanas. A última das fugas aconteceu em fevereiro deste ano, quando os irmãos Yulieski e Lourdes Gurriel, de 31 e 22 anos, respectivamente, duas das principais figuras do esporte em Cuba, desertaram na República Dominicana, abandonando a concentração após a equipe ser eliminada da Série do Caribe.

No mês seguinte, os irmãos chegaram a Miami, e, em julho, Yulieski foi contratado pelos Houston Astros por cinco anos e 47,5 milhões de dólares. Seu irmão Lourdes está jogando no Toronto Blue Jays, no Canadá, com um contrato de sete anos e 22 milhões de dólares.

Fidel e os Barbudos jogaram apenas uma vez, mas o comandante continuou batendo uma bolinha de vez em quando. Em novembro de 1999, o barbudo-mor participou de mais uma partida histórica: um embate entre Cuba e Venezuela, outro país aficionado ao beisebol, só com veteranos. Fidel dirigia o time cubano e Hugo Chávez era o lançador do venezuelano. Vejam Chávez arremessando e rebatendo. Todo um astro.

Mas, como treinador, Fidel se saiu bem melhor do que como jogador: o time de Cuba ganhou da Venezuela por 5 a 4. Chávez mostrou fair play. “Venezuela e Cuba ganharam. Este jogo aprofundou nossa amizade.”

 

 

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Morre Fidel, o penúltimo de uma geração que ensinou ao mundo que era possível se rebelar

Publicado em 26 de novembro de 2016
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(Pausa na revolução para ler. Foto: Andrew St. George)

Não sou fã incondicional de Fidel Castro. Consigo ver seus erros e admirá-lo pelos seus acertos. Fidel foi uma das figuras históricas mais importantes de todos os tempos. Com ele, se vai o penúltimo de uma geração que ensinou ao mundo que era possível se rebelar contra o sistema, que era possível não ficar calado, de cabeça baixa, se resignando com as injustiças, com a miséria, com a fome. Penúltimo porque ainda resta Raúl, seu irmão e parceiro, coadjuvante de uma história em que Fidel foi um dos indiscutíveis protagonistas.

Quais foram os erros? Para mim, o maior deles foi, como em quase todas as experiências de socialismo real, confundir socialismo com falta de democracia. Quase todas: no Chile de Salvador Allende nunca se censurou ou executou ninguém por discordar do regime. Mas durou pouco.

O grande equívoco de Fidel e dessa geração de comunistas, em que pese seu brilhantismo, foi achar que é possível todo mundo pensar do mesmo jeito. Deste erro se originaram todos os demais: os fuzilamentos, a perseguição aos homossexuais, a censura. É impossível, num país, estado ou cidade, que todos os cidadãos pensem da mesma maneira. É impossível haver um lugar onde todo mundo seja socialista (e a recíproca é verdadeira). Não é natural no ser humano a ausência de divergência.

E os acertos de Fidel? O maior deles foi representar, ao longo de 60 anos, um colossal contraponto a um império gigantesco e a uma concepção hegemônica de mundo, e apenas com palavras. Por isso discursos tão longos: o verbo sempre foi sua principal arma contra os inimigos. Ao contrário dos Estados Unidos, Cuba jamais invadiu país algum, só se defendeu. Envia médicos a outros países, não soldados. Fidel escapou de 638 tentativas de assassinato, das maneiras mais absurdas possíveis: desde plantar uma mulher para seduzi-lo e envenená-lo até um charuto explosivo.

Para conhecer Fidel e o porquê de ele inspirar gerações a combater as desigualdades e a injustiça no mundo, o melhor a fazer é olhar menos para o Fidel dos primeiros anos da revolução e mais para o Fidel derradeiro: ler os artigos que ele escrevia para o Granma, órgão oficial do Partido Comunista cubano. Ali está toda a filosofia dos seus últimos anos sobre a terra.

Fidel evoluiu muito como ser humano e foi capaz de reconhecer alguns erros do passado, como em relação aos homossexuais. “Foi um momento de grande injustiça e fomos nós que fizemos isso”, disse ao diário mexicano La Jornada em 2010. Era, ao final da vida, um estudioso das ciências, um homem interessado em medicina tradicional e nas plantas medicinais, na agricultura orgânica, na questão climática e ambiental e, claro, na crise do capitalismo.

O mundo fica pior sem Fidel Castro. Não porque fosse perfeito, mas porque representava, paradoxalmente, o que reprimiu durante tantos anos entre os seus conterrâneos: uma voz dissonante em um mundo onde se quer impor o pensamento único de que acumular é o verdadeiro sentido da vida, sem se importar em destruir tudo no caminho. Com erros e acertos, passará à História como um homem valente que lutou a vida inteira por algo que parece em extinção: ideais. Um revolucionário até o fim.

Algumas frases dos últimos textos de Fidel Castro:

“Embora muitas pessoas no mundo sejam enganadas pelos órgãos de informação, quase todos em mãos dos privilegiados e dos ricos, que publicam estas imbecilidades, as pessoas acreditam cada vez menos nelas. Ninguém gosta de ser enganado.”

“Os povos aprendem e a resistência cresce frente às crises do capitalismo, que se repetem cada vez com maior frequência; nenhuma mentira, repressão ou novas armas poderá impedir a derrocada de um sistema de produção crescentemente desigual e injusto.”

“A América Latina e o Caribe, em seu conjunto, dispõem de terra, água e recursos energéticos sem necessidade de promover a produção de gás de xisto mediante fratura hidráulica como fazem os Estados Unidos, com riscos provados para a própria saúde dos cidadãos desse país.”

“Tenho ideias do que se pode e deve ensinar a uma criança. Considero que a falta de educação é o maior dano que lhe podem fazer.”

“Considero que lhe faltou altura ao discurso do Presidente dos Estados Unidos quando visitou o Japão, e lhe faltaram palavras para escusar-se pela chacina de centenas de milhares de pessoas em Hiroshima, apesar de que conhecia os efeitos da bomba. Foi igualmente criminal o ataque a Nagasaki, cidade que os donos da vida escolheram ao acaso. É por isso que resulta preciso martelar sobre a necessidade de preservar a paz, e que nenhuma potência se tome o direito de matar milhões de seres humanos.”

“Lutar pela paz é o dever mais sagrado de todos os seres humanos, quaisquer que sejam suas religiões ou país de nascimento, a cor de sua pele, sua idade adulta ou sua juventude.”

“A saúde física e mental, e o espírito de solidariedade são normas que devem prevalecer, ou o destino do ser humano, este que conhecemos, perder-se-á para sempre. Os 27 milhões de soviéticos que morreram na Grande Guerra Pátria fizeram-no também pela humanidade e pelo direito a pensar e a ser socialistas, ser marxistas-leninistas, ser comunistas, e a sair da pré-história.”

“Cada dia podemos aprender algo novo. Ajudar os demais e ajudar-nos no possível a nós mesmos.”

“A esmagadora vitória de 1959, podemos afirmá-lo sem sombra de chauvinismo, converteu-se em exemplo do que uma pequena nação, lutando por si própria, pode fazer também pelos outros.”

“Eu respeito todas as religiões embora não sejam professadas por mim. Os seres humanos procuram uma explicação da sua existência, desde os mais ignorantes até os mais sábios.”

“Ninguém que seja honesto concordará jamais com os atos terroristas, mas, acaso o Presidente dos Estados Unidos tem o direito de julgar e o direito de matar; a se converter em tribunal e ao mesmo tempo em carrasco e levar a cabo tais crimes, em um país e contra um povo situado no lado oposto do planeta?”

“As multinacionais ianques jamais vão renunciar ao controle das terras, das águas, das minas, dos recursos naturais de nossos países.”

“Verdade, compatriotas, que o capitalismo é coisa maravilhosa! Se calhar somos os culpados de que cada cidadão não tenha um submarino particular na praia.”

“Marxistas e cristãos sinceros, dos quais conheci muitos; independentemente de suas crenças políticas e religiosas, deviam e podiam lutar pela justiça e pela paz entre os seres humanos.”

 

 

 

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