João Doria, pai do prefeito de SP, também era chamado “João Dólar” (só que pela direita)

Publicado em 25 de abril de 2017
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(O deputado João Doria com o filho criança. Foto: arquivo pessoal)

O pai do prefeito de São Paulo, o deputado federal João Doria, detestava, como o filho, ser chamado de “João Dólar”. Mas, ao contrário do Júnior, teve mais savoir-faire e transformou o limão numa limonada: em vez de proibir que o chamassem assim (como fez o prefeito), registrou a alcunha na Justiça Eleitoral da Bahia. Também ao contrário do filho liberal, Doria pai, um nacionalista que foi cassado pela ditadura na semana seguinte ao golpe, não recebeu o epíteto de gente da esquerda e sim da direita anticomunista que tanto combateu como parlamentar.

Em agosto do ano passado, João Doria Jr. recorreu à Justiça e conseguiu que o Facebook excluísse o perfil “João Dólar”, uma sátira ao estilo burguês, coxinha, do então candidato a prefeito. Não satisfeito, Doria pediu multa de 5 mil reais para o criador da página por tê-lo “ofendido”. O que talvez nem o prefeito saiba é que, coincidência das coincidências, o apelido está em sua família há mais de 50 anos. E se disseminou ao ponto de, em 1962, João Agripino da Costa Doria, candidato a deputado federal pela Bahia, pedir ao Tribunal Regional Eleitoral que aceitasse como seus os votos que porventura aparecessem com o nome “João Dólar” nas cédulas eleitorais, na época escritas à mão.

Aliado de João Goulart, Doria pai atribuía a difusão do apelido a parlamentares que se beneficiaram da “generosidade” do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), organização conservadora anticomunista vinculada à CIA que preparou o terreno para o golpe de 1964. Financiado com dinheiro de governos e multinacionais estrangeiras, o Ibad irrigou com milhões de dólares os candidatos de direita e os jornais que aderiram ao movimento em favor do golpe, como O Globo. Um exemplo foi o financiamento do livro O Assalto ao Parlamento, do tcheco Jan Kozak, para alertar do “perigo vermelho” –e que o jornal de Roberto Marinho distribuiu a seus leitores em fascículos.

O deputado federal João Doria seria um dos artífices da CPI que investigou a organização, que acabaria fechada por corrupção por Jango em agosto de 1963. Os cinco parlamentares que estavam à frente da comissão (além de Doria, Rubens Paiva, José Aparecido, Eloy Dutra e Benedito Cerqueira) seriam todos cassados pela ditadura já no AI-1 (Ato Institucional Número 1), em 9 de abril de 1964. Em 1977, o ex-embaixador norte-americano Lincoln Gordon reconheceria o financiamento de parlamentares pelos Estados Unidos.

Doria era tão nacionalista que, em seguida, chegou a propor outra CPI, para investigar as publicações estrangeiras que invadiam o país no período antes do golpe, para proteger a opinião pública “de fatos e conceitos nem sempre condizentes com os legítimos interesses nacionais”. Esta, porém, não deu em nada.

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(O Semanário, 25 a 31/07/1963)

Nascido em Salvador, na Bahia, em 1919, João Agripino da Costa Doria era jornalista e fez carreira como publicitário na Standard, no Rio, antes de se mudar para São Paulo e abrir sua própria agência, a Doria Associados. Em 1960, retornou a seu Estado natal para se candidatar a deputado federal pelo PDC (Partido Democrata Cristão) e conquistou a vaga de suplente. Em 1963, assumiu o cargo de deputado e se incorporou à Frente Parlamentar Nacionalista, de apoio a Jango. Situado à esquerda no PDC, atuava em dobradinha com ninguém menos que Plínio de Arruda Sampaio.

Foi na campanha a deputado que o apelido “João Dólar” surgiu, e se espalhou graças a línguas ferinas como a do falecido coronel da política baiana Antonio Carlos Magalhães. Se ACM Neto é cotado como candidato a vice de Doria numa provável candidatura à presidência, seu avô e o pai do prefeito eram adversários figadais e chegaram a ir às vias de fato em uma sessão da Câmara em que, em seu estilo característico, o Malvadeza o fustigou com a alcunha. Doria sênior precisou ser contido pelos colegas para não dar uns sopapos em ACM, que o acusava de ter se beneficiado de “favores governamentais” no governo Juscelino Kubitschek.

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(Jornal Folha de S.Paulo, 27/02/1964)

Dias depois, uma nota maldosa na coluna Radar Político do jornal Folha de S.Paulo, muito provavelmente tendo ACM como fonte, revelava que o deputado do PDC havia se irritado com o apelido sem razão, já que havia registrado também o nome “João Dólar” ao se candidatar à Câmara Federal.

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(Folha, 07/03/1964)

O próprio João Doria foi à tribuna, dias depois, para explicar a razão pela qual pediu o registro da alcunha, e seu discurso é uma pérola do anedotário político brasileiro, além de espantosamente similar ao percurso do filho. Nele, Doria pai explica não ser verdade que havia feito a campanha mais cara da história do Estado, como diziam seus detratores (daí o apelido) e que havia pago parte dos custos da eleição com recursos próprios –exatamente como fez o tucano Doria em 2014. A fala do pai, inclusive, parece ter sido escrita pelo filho.

“O senhor está fazendo uma consagração dos meus métodos publicitários, porque a publicidade foi baratíssima para os efeitos que causou. Vossa excelência está honrando minha condição de profissional de propaganda”, disse Doria pai, naquela sessão do longínquo ano de 1964, ao ser aparteado pelo deputado João Mendes, um dos acusados de receber dinheiro do Ibad. “Eu levantei os recursos com meu crédito pessoal. Com um total de cinco milhões e com os recursos técnicos da minha empresa, com esta atuação empresária que eu tenho, com meus auxiliares, com meus técnicos de rádio, com meus técnicos de televisão, eu produzi toda a minha campanha.”

O linguajar de marqueteiro profissional talvez seja uma das poucas semelhanças, ideologicamente falando, entre o “Dólar” pai e o filho. Naquele mesmo discurso, João Doria mostra deplorar o apelido por desnudar a intenção de seus adversários de transformá-lo, diante da opinião pública, num entreguista dos interesses nacionais –algo que para João Doria Jr., entusiasta do capital estrangeiro, não teria a menor importância.

“O que significa chamar um parlamentar de João Dólar? Significa que o nobre deputado Antonio Carlos Magalhães quis assim demonstrar que eu era ou teria sido um agente de capitais estrangeiros”, discursa João Doria, com indignação. “O nobre deputado Padre Godinho, com a verve que lhe é habitual, achou que ofensa para mim seria chamar-me João Cruzeiro, moeda desvalorizada, moeda pobre, pois no parecer dele, chamar-me de João Dólar, moeda forte, moeda conversível, moeda respeitada, diante da qual muitos se ajoelham, se curvam e se vendem, não deveria constituir motivo de ofensa para mim. Lamento discordar. O epíteto de João Dólar me foi atirado justamente por parte daqueles que ao dólar se venderam, justamente pelos verdadeiros joão-dólar, alguns dos quais militando, inclusive, na área partidária do nobre deputado Antonio Carlos Magalhães.”

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(Ata da sessão de 03/10/1963)

Segundo João Doria pai, quando percebeu que o apelido já estava disseminado pela Bahia e que corria o risco de perder votos de eleitores menos instruídos que achavam que seu nome era mesmo “João Dólar”, resolveu assumir e pediu o registro da corruptela ao TRE. “Constato, com impressionante frequência, que ponderável número de pessoas nas ruas e nos lares humildes de nossa capital que desejam sufragar minha candidatura, sub-repticiamente influenciados por essa propaganda adversária, já não mais pronunciam meu nome na forma correta e original, mas adotando o apelido infamante na condição de ser este o meu nome verdadeiro”, escreveu, no requerimento ao tribunal.

É fascinante observar as coincidências entre a trajetória do pai no Congresso Nacional pré-golpe com a do filho, só que ao contrário. Enquanto Doria quer se firmar como o candidato anti-Lula e anti-esquerda, seu pai estava ao lado dos esquerdistas, com os nacionalistas; enquanto Doria dá corda para o macarthismo do movimento Escola Sem Partido, seu pai denunciava o macarthismo da tribuna; e enquanto Doria apoia e é apoiado pelo MBL (Movimento Brasil Livre), seu pai atacava as organizações juvenis de direita financiadas pelo Ibad para desestruturar a UNE (União Nacional dos Estudantes).

“Nos meios estudantis, insinuaram-se os agentes da Adep (Ação Democrática Popular, braço do Ibad) para comprar ‘líderes’ universitários a peso de ouro e dividir a classe pela intromissão de entidades espúrias como o Movimento Estudantil Democrático (MED), a Frente da Juventude Democrática e outras associações agitadoras e provocadoras, responsáveis por vários e lamentáveis incidentes nos últimos congressos da UNE”, denunciou João Doria pai em outubro de 1963, em um longo e histórico discurso em que apontava a perseguição aos comunistas no Brasil e o fascismo infiltrado nas Forças Armadas.

“Para esses estrategistas do anti-comunismo, saudosistas de Hitler e Mussolini, o combate à ideologia marxista reclama o emprego de métodos totalitários opostos, mas equivalentes. São os síndicos da liberdade, os falencistas da democracia, os pioneiros do terror ideológico do macarthismo e do neofascismo no Brasil. Arautos da enganosa teoria do mal necessário: ressuscitar os inimigos mortais de ontem para derrotar os mortais inimigos de hoje”, disse o Doria do passado, como se estivesse falando do Brasil atual. João Dólar, ops, Doria, deveria olhar mais para a história política do seu pai.

 

 

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Para inglês ver: como a imprensa brasileira ajudou a prolongar o tráfico de escravos

Publicado em 7 de março de 2017
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(Navio Negreiro por Rugendas)

Por Charles Nisz*

A expressão “para inglês ver” tem uma origem triste. Ela surgiu por causa de uma lei promulgada em 7 de novembro de 1831, cujo texto proibia o tráfico escravista. Com penas fortes, a lei pretendia extinguir o fluxo de escravos africanos para o Brasil. No entanto, por causa da pressão dos senhores de escravos, ajudados pela imprensa, a lei não conseguiu cumprir seu objetivo e virou letra morta. Uma norma “para inglês ver” –quem mais pressionava o Brasil pelo fim do tráfico escravista era a Inglaterra.

O livro Imprensa e escravidão – política e tráfico negreiro no Império do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850), de Alain El Youssef, mestre em História pela FFLCH/USP, mostra o ativo papel da imprensa brasileira na manutenção da escravidão de negros africanos no Brasil. Nosso país foi o último do hemisfério ocidental a abolir o escravismo, somente 58 anos depois da promulgação da lei que extinguia o tráfico negreiro. De quebra, demonstra como desde sempre nossa imprensa representou ativamente os interesses das classes privilegiadas. Para quem acha que o apoio à ditadura militar foi a única mancha na história da imprensa brasileira, o livro é um choque.

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Pouco antes de 1830, houve uma intensificação do tráfico negreiro, pois havia uma real intenção dos Regentes em abolir a importação de escravos. De acordo com Youssef, quando a lei foi aplicada, o tráfico minguou e estava em nível residual no início da década de 1830. O ponto de virada se deu por volta de 1835. A imprensa brasileira teve papel fundamental na retomada do tráfico escravista. Ou seja, diferentemente do que prega a historiografia oficial, a lei não foi feita para acalmar a pressão inglesa sobre o Brasil, mas ela foi sabotada aqui dentro.

De acordo com o historiador paulista, os jornais eram muito conectados com o Parlamento –então localizado no Rio de Janeiro– e funcionavam como caixa de ressonância e também como balões de ensaio das ideias discutidas na Câmara dos tempos imperais. Youssef exemplifica essa mudança com um artigo de Diogo Antônio Feijó, publicado em 25 de dezembro de 1834, no qual o regente do Brasil defende abertamente a volta do tráfico de escravos. Essa defesa tinha como objetivo agradar aos fazendeiros e pavimentar sua posse na Regência no ano seguinte, explica o historiador.

Acabar com o tráfico envolvia mexer nos interesses econômicos dos fazendeiros. Por volta de 1830, a cafeicultura estava em expansão na parte fluminense do Vale do Paraíba. O Brasil logo se tornaria o maior produtor mundial de café e a utilização de mão de obra escrava era fundamental para manter a lucratividade do negócio. Para sustentar esse modelo, era necessário fazer pressão no Parlamento e a imprensa foi o meio pelo qual os cafeicultores silenciaram o discurso abolicionista existente no fim dos anos 1820. Similar ao que os jornais fazem hoje em defesa do modelo do agronegócio e contra os índios…

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(Crianças africanas em navio negreiro apreendido pelos ingleses após 1831)

Uma das estratégias utilizadas foi o discurso anglofóbico. Para convencer a opinião pública da necessidade do escravismo, usou-se a estratégia de que a Inglaterra estaria interferindo na economia e na política brasileiras. Veja este trecho, publicado no jornal Sete d’Abril em 03 de novembro de 1835, no qual os lobistas do tráfico acusam os abolicionistas de receber dinheiro inglês: “Governos estrangeiros, profundamente convencidos de que os produtos de suas colônias não podem concorrer nos mercados com os brasileiros, e que não há outro meio senão encarecer a estes pelo alto preço de braços livres em vastos, férteis e não povoados Estados, têm resolvido remunerar os que promoverem a extinção da escravatura no Brasil com a quantia de 50:000$000 de réis (…)”.

A eficácia desse discurso passou por uma estreita articulação entre imprensa e Parlamento. Especialmente dos deputados ligados às regiões do Vale do Paraíba em SP e RJ e do sul de MG. Articulados num grupo liderado pela “Trindade Saquarema” (Honório Hermeto Carneiro Leão, Paulino Soares de Sousa e Joaquim José Rodrigues Torres) e por Bernardo Vasconcelos, esses parlamentares fizeram ferrenha oposição àqueles que se posicionavam contra o comércio de africanos e a escravidão, e silenciando o restante, como Evaristo da Veiga, principal voz a favor do fim do tráfico negreiro na década de 1830, diz Youssef.

Sob a influência dessa máquina de propaganda, a sociedade começou a ficar mais simpática à manutenção do tráfico escravista –um negócio extremamente rentável aos mercadores de escravos e aos fazendeiros brasileiros. Representações (uma versão pioneira dos atuais abaixo-assinados) eram enviadas das Câmaras Municipais ao Parlamento. Diante de tal “pressão”, muito estimulada pelos artigos de Vasconcelos no jornal conservador O Sete de Abril, as autoridades trataram de fazer da lei de 1831 apenas letra morta.

Tal situação se tornava ainda mais forte pelo fato de que muitos dos deputados eram também senhores de engenho. Era como se Marcelo Odebrecht fosse parlamentar e pudesse agir diretamente para que a legislação beneficiasse sua empreiteira. Deste modo, os fazendeiros conseguiram adiar por pelo menos 20 anos que a lei contra o tráfico negreiro tivesse efetividade plena. O tráfico só acabaria de fato em 1850, com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós.

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(Charge de Angelo Agostini de 1881 mostra político “liberal” da época utilizando escravo como cavalo)

Podemos especular várias consequências trazidas por esse prolongamento do tráfico negreiro. O primeiro deles é econômico. O capital que propiciou o desenvolvimento industrial do Sudeste surgiu desse modelo econômico. Talvez tivéssemos um Brasil menos centralizado no Sul-Sudeste caso a abolição tivesse acontecido antes de 1889. O escravismo resistiu com um discurso conservador parecido com o que defende o fim dos direitos trabalhistas na imprensa dos dias de hoje: “É preciso pagar menos para ser competitivo com os mercados internacionais”.

A segunda consequência diz respeito à própria unidade nacional, diz Youssef. O sufocamento das revoltas imperiais foi bancado com o dinheiro advindo desse modelo de produção escravista. “Esses fazendeiros tinham um projeto de Estado que dependia da manutenção desse estado de coisas”, sublinha o historiador da FFLCH.

O atraso na revogação do tráfico negreiro também influiu na maneira como o Brasil percebe a escravidão e o racismo. Um dos discursos mais veiculados na metade do século XIX por esses jornais conservadores é que o escravismo brasileiro seria menos perverso que o norte-americano. Se por milagre conseguisse a liberdade, um ex-escravo brasileiro adquiria direitos de cidadão, coisa que não acontecia em terras ianques. Assim sendo, não havia por que os negros reclamarem –está aí uma das origens do mito da nossa democracia racial.

Foi justamente a Guerra Civil norte-americana que abalou de modo definitivo o escravismo brasileiro. Os EUA eram a grande potência escravista mundial –o algodão norte-americano abasteceu a indústria fabril europeia no século XIX. Com o fim da guerra da Secessão, em 1870, não era mais possível ser escravista no Ocidente.

Ironicamente, quem primeiro percebeu essa mudança de pensamento foi Dom Pedro II. O velho imperador passa a defender a Lei do Ventre-Livre. O monarca lia com atenção as cartas enviadas pelo embaixador do Brasil nos EUA. Por conta do crescimento das cidades e início do trabalho fabril, na década de 1880, o discurso abolicionista volta a ganhar força –quase 50 anos depois da promulgação de lei de 1831.

“Essa polarização entre discurso conservador e progressismo sempre existiu em São Paulo”, sublinha Youssef. Hoje, ela se reflete na sucessiva alternância entre petistas e tucanos na cadeira de prefeito do Palácio Anchieta. Mas um traço é comum nesses quase 200 anos de História: o caráter conservador da imprensa. Assim como nas Diretas Já, os jornais cariocas (então o centro econômico do país) foram abolicionistas de véspera: só defenderam essas medidas aos 45 minutos do segundo tempo. “O discurso conservador domina a nossa imprensa, raramente uma medida progressista é defendida nos jornais”, sumariza Youssef.

 

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Back in the USSR: como os soviéticos trocaram Lenin por Lennon (& Paul & George & Ringo)

Publicado em 5 de março de 2017
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(Cortesia Leslie Woodhead)

Trinta anos atrás, em julho de 1987, o beatle Paul McCartney resolveu gravar um álbum exclusivamente para seus fãs na União Soviética. Segundo disse Paul na época, era no país comunista que estavam muitos dos seus “seguidores mais leais”. E isso que os Beatles, assim como todos os grandes ídolos do rock and roll, eram tidos como inimigos do regime e seus discos, vendidos apenas no mercado negro. Lançado no ano seguinte, o álbum CHOBA B CCCP (“Back in the USSR”, em russo) foi um sucesso e acabou por dar um empurrãozinho a Mikhail Gorbachev em sua Glasnost, a abertura política que culminaria no fim da URSS em 1991.

CHOBA B CCCP (pronuncia-se Snova Vess-ESS-ESS-er) traz 13 faixas de puro rock raiz interpretadas por McCartney, como Lucille, Summertime e Kansas City. A capa, desenhada pela mulher de Paul, Linda, com a estrela vermelha sobre o rosto do beatle e seu nome em cirílico, é hoje um clássico. O disco foi um dos primeiros vinis de música pop prensados pela gravadora estatal Melodiya, e as 400 mil cópias se esgotaram rapidamente, disputadas por ávidos beatlemaníacos soviéticos e também por colecionadores estrangeiros. No Ocidente, o álbum só sairia após a URSS acabar.

Em janeiro de 1989, Paul teria uma conversa pelo rádio com os fãs da URSS através do serviço russo da BBC, autorizada a transmitir de Moscou a partir de 1987. Calcula-se que 17 milhões de pessoas o ouviram e mais de 300 puderam falar com ele pelo telefone, apesar do alto custo das ligações. McCartney se recusou a responder sobre as ligações entre rock e política, mas dedicou o álbum à Glasnost e à Perestroika, a reestruturação econômica de Gorbachev.

Era mais fácil para os líderes comunistas manterem os jovens afastados das grifes e da Coca-Cola do que do rock and roll. Embora não fosse permitida sua venda, os álbuns dos principais nomes do rock mundial cruzavam a cortina-de-ferro contrabandeados e eram comercializados às escondidas, em becos escuros, como drogas. Os soviéticos também ouviam os hits ocidentais clandestinamente, sobretudo através da Rádio Luxembourg, e descobriram uma maneira de prensar discos em chapas de raio X descartadas pelos hospitais, que eles chamavam de “costelas” ou “música de osso”. A revolução rocker que germinava nos subterrâneos da URSS não podia ser detida nem pela KGB.

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(Foto: Dmitry Rozhkov)

Às vésperas da derrocada comunista, o espectro do rock and roll rondava não só a União Soviética, mas todos os países do Leste Europeu. Submetidos a 70 anos de músicas folclóricas russas, os jovens estavam fartos de dança cossaca e sedentos por sacudir o quadril com o ritmo de Chuck Berry abertamente, livremente. A juventude começa a ocupar as ruas primeiro pelo rock, como uma forma de dizer “não” ao sistema. Exatamente como nós.

Bruce Springsteen fez o primeiro show de rock da Alemanha Oriental em 1988, botando os guris do mundo comunista para cantar a plenos pulmões Born in the USA. Um ano e quatro meses depois, o muro caiu.

No ano anterior, em 1988, com o festival Rock Summer, que ficou conhecido como Glasnost Rock, a Estônia reunira mais de 20 artistas ocidentais como o britânico Public Image Ltd.(PIL) e roqueiros do país diante de um público de 150 mil pessoas. O processo de emancipação da Estônia foi tão intrincado com a música que é chamado de Singing Revolution (Revolução Cantada), título de um documentário de 2007.

Em março de 1989, o Greenpeace lançou em Moscou o álbum Breakthrough (Rainbow Warriors no resto do mundo) com 25 superastros, entre eles Annie Lennox, Peter Gabriel, The Edge do U2, David Byrne do Talking Heads e Chrissie Hynde, dos Pretenders. O disco vendeu 500 mil cópias em um só dia e 3 milhões no total, com renda revertida para o grupo.

Mas não houve show, só autógrafos. A intenção original do Greenpeace era botar para quebrar, mas alguém lá de cima do Politburo disse “não”, contou The Edge à revista oficial da banda irlandesa, Propaganda. “O Greenpeace veio então com a ideia do disco e não demorou cinco minutos para que disséssemos ‘sim'”, comentou o guitarrista do U2 à revista da banda, que ficou surpreso com o que encontrou em Moscou.

“A Rússia era ao mesmo tempo muito mais livre em algumas áreas e muito mais restrita em outras do que eu imaginava. Andamos por onde quisemos. Tínhamos nossos guias –estudantes que falavam inglês–, mas eu pensava que seríamos vigiados por toda parte. Mas outras coisas eram quase impossíveis, como fazer chamadas telefônicas, achar um restaurante, este tipo de coisa que, suponho, a Rússia não teve interesse ou o ímpeto de conseguir. Conseguir um táxi era praticamente impossível.”

Em agosto do mesmo ano a turma do hard rock teve mais sorte: o Moscow Music Peace Festival reuniu na capital do império comunista bandas como Skid Row, Mötley Crüe, Bon Jovi e Ozzy Osbourne no Estádio Lenin, para mais de 100 mil fãs vermelhos do bom e velho rock and roll.

Mas nada se igualou aos Beatles. A teoria de que foram os quatro de Liverpool os grandes impulsionadores da queda do comunismo vem fascinando beatlemaníacos do mundo inteiro há quase uma década, desde que o jornalista britânico Leslie Woodhead lançou, pela BBC, o documentário How the Beatles Rocked The Kremlin, em 2009. No filme, assim como no livro homônimo de 2013, Woodhead sustenta que nada foi mais poderoso na implosão da União Soviética do que os Beatles.

A história do documentarista por si só daria um filme. Em 1962, ainda como estagiário em uma TV local de Manchester, Woodhead fez algumas imagens de quatro garotos desconhecidos tocando num porão de Liverpool chamado… The Cavern Club. Sim, é ele o autor das primeiras imagens conhecidas dos Beatles.

Em seguida, Woodhead foi trabalhar como informante britânico nos países da cortina-de-ferro. Nos anos 1980, quando fazia documentários na União Soviética, sua vida novamente se cruza com os Beatles: começou a ouvir dos locais histórias sobre como a banda tinha ajudado a dinamitar o comunismo. Muito antes de Paul McCartney lançar seu “disco russo”, os soviéticos haviam sido ganhos para a causa roqueira, principalmente após a saída de Nikita Khruschev do poder, quando o país mergulhou numa cafonália sem fim até a ascensão de Gorbachev.

No documentário de Woodhead (clique aqui para assistir no youtube, é genial), o especialista russo em rock and roll Artemy Troitsky lembra que, no início dos anos 1960, era cool ser comunista em todo o mundo e a URSS tinha seus próprios pop stars: Yuri Gagarin, o primeiro homem a chegar no espaço, em 1961, os barbudos revolucionários cubanos e o próprio Nikita. Despojados destes ídolos, a partir de 1964 a juventude soviética passou a admirar e a se espelhar naqueles garotos que faziam música a 2500 quilômetros dali, em Liverpool, na Inglaterra.

“A música soviética era totalmente quadrada, não-cool, os cantores tinham o corte de cabelo errado e cantavam como se participassem de um congresso do Brejnev. A cultura soviética era totalmente sem sex appeal. Era tudo muito rígido, limitado. Não havia nada brilhante nem livre nem funky nem sexy”, diz Troitsky (curiosamente, seu nome lembra Trotsky e o estilo, idem). “O Ocidente tinha instituições enormes, que gastaram milhões de dólares para destruir o sistema soviético, mas tenho certeza que o impacto destas instituições estúpidas foi muito, muito menor do que o impacto dos Beatles.”

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O documentarista e escritor Leslie Woodhead falou com exclusividade ao blog.

Socialista Morena  Os Beatles aparecem em seu documentário, assim como no livro, como uma paixão intensa para a juventude soviética. Sua tese é que esta paixão foi capaz de balançar a ideologia deles, de colocar dúvidas em suas mentes. Qual força foi mais poderosa em atingir os corações e mentes soviéticos, a música, as letras ou o estilo dos Beatles?

Leslie Woodhead – Eu acho que o estilo e a música dos Beatles representaram liberdade e energia juvenil para os garotos soviéticos dos anos 1960, tudo aquilo que eles não podiam achar na cultura jovem oficial. O sentimento de prazer com a música –’uma luz brilhante em uma vida triste’, como um dos meus entrevistados falou– era mais importante do que as letras, que a maioria da juventude não podia entender. O fato de os Beatles e sua música serem odiados e proibidos pelo governo os fez ainda mais desejados pelos jovens. Quando a jovem geração soviética se deu conta de que a música dos Beatles era alegre e que eles eram divertidos e fofos, perceberam que a propaganda oficial contra o Ocidente era uma mentira e confirmaram que foram enganados pelo Estado. Os Beatles foram vitais em acender a fagulha da rebelião em todo o Leste europeu.

SM – Qual foi o efeito do álbum soviético de Paul McCartney naquele momento?

LW – O disco foi disputadíssimo em todo o bloco soviético. No meu livro eu descrevo como os marinheiros mercantes russos venderam aqueles álbuns raros nos portos ocidentais, onde ele não podia ser comprado, por uma fortuna. Alguns ganharam dinheiro suficiente para comprar um carro! Mas naquela época muitos jovens soviéticos já tinham seus próprios discos dos Beatles e o álbum de Paul foi apenas uma parte daquele momento anti-soviético do final dos 1980. Paul escolheu aquelas canções antigas porque eram fáceis de gravar rapidamente e porque não teria problemas de copyright como seria se gravasse canções originais dos Beatles.

SM – Vi algumas frases atribuídas a Gorbachev sobre os Beatles. Ele realmente falou sobre eles?

LW – Sim, Gorbachev realmente disse que os Beatles tiveram um papel importante em mudar a União Soviética e ajudar a Glasnost.

SM – No entanto, não consigo ver os Beatles como “anticomunistas”. Eles parecem para mim mais como “pró-liberdade” e “antitotalitaristas”, você não acha?

LW – Sim, eu concordo. Os Beatles como grupo não eram diretamente políticos e suas músicas certamente não eram “anticomunistas”. Acho que foi o espírito livre das canções deles que realmente ajudaram a produzir mudança e, como um dos meus entrevistados disse em St. Petesburgo, ‘varreram os fundamentos do totalitarismo’.

Quando a repressão ao rock começou a acabar, já na era Gorbachev, até mesmo o “cantor oficial” do sistema, Joseph Kobzon, fazia covers das canções dos Beatles… O primeiro beatle a pisar em solo russo foi Ringo Starr, em 1998. Paul McCartney só faria seu tão esperado show em Moscou em 2003, mais de 15 anos após o disco soviético. Ainda na chegada, o cantor e a segunda mulher, Heather Mills, ouviram dos oficiais de aduana o mesmo que Woodhead ou qualquer um que visita o país ouve: que os russos aprenderam inglês ouvindo os Beatles.

O casal foi recebido no Kremlin por ninguém menos que o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Paul tocou Let It Be ao piano para Putin, a quem descreveu ao jornal The Guardian na época como “fabuloso”.

Putin não prometeu aparecer no histórico show da Praça Vermelha. Mas então, subitamente, eis que rola uma movimentação na platéia de mais de 100 mil pessoas… Paul finge que não vê o presidente chegando com sua entourage e segue cantando.

A apoteose, é claro, vem quando sir Paul McCartney canta Back in The USSR, gravado pela primeira vez no Álbum Branco, em 1968. Ao fundo, pôsteres com as imagens de Stalin, Lenin e do passado soviético no telão –ao mesmo tempo em que bandeiras comunistas se agitam na plateia.

O fim desta história que ainda não acabou é irônico. Uma das provocações dos rebeldes ucranianos em 2013 era colar o nome “Lennon” em cima das placas das avenidas “Lenin” espalhadas pelas grandes cidades do país. Em março do ano passado, finalmente uma rua do mais anti-comunista dos países da antiga república soviética mudou de nome: deixou de ser “rua Lenin” para ser “rua Lennon”. Vão-se algumas estátuas, erguem-se outras. Lenin says goodbye, Lennon says hello.

 

 

 

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