Como o Macarthismo perseguiu professores (exatamente como quer o Escola Sem Partido)

Publicado em 14 de junho de 2017
("Quão vermelha é a escolinha vermelha?)

(“Quão vermelha é a escolinha vermelha? É hora dos pais americanos saberem os fatos!”)

Há uma história pouco contada dentro da histeria anticomunista que tomou conta dos Estados Unidos entre 1947 e 1956, a chamada “caça às bruxas” ou Macarthismo: a perseguição, pelo senador Joseph McCarthy e seus discípulos, aos professores do país. Em março de 1952, a Suprema Corte norte-americana atestou a constitucionalidade da Lei Feinberg, aplicada no Estado de Nova York desde 1949. De acordo com a lei, as escolas públicas estavam proibidas de contratar professores “subversivos” e poderia demitir todos os docentes que julgassem “comunistas”.

Após o Supremo dar seu aval à lei, que contrariava frontalmente a primeira emenda da Constituição norte-americana, vários outros estados a adotaram, perseguindo e demitindo professores apontados como “subversivos”. Na maioria dos Estados, os docentes contratados por instituições educacionais públicas depois desta data eram obrigados a assinar um juramento atestando que não eram nem nunca foram comunistas.

Por 6 votos a 3, os juízes da Suprema Corte consideraram, como noticiou o New York Times na época, que “o Estado tem o direito constitucional de proteger as mentes imaturas das crianças nas escolas públicas da propaganda subversiva, sutil ou não, disseminada por aqueles para quem elas olham buscando informação, autoridade e liderança”.

Qualquer semelhança com o que diz o movimento Escola Sem Partido no Brasil de 2017 não é mera coincidência: “É fato notório que professores e autores de livros didáticos vêm-se utilizando de suas aulas e de suas obras para tentar obter a adesão dos estudantes a determinadas correntes políticas e ideológicas; e para fazer com que eles adotem padrões de julgamento e de conduta moral –especialmente moral sexual– incompatíveis com os que lhes são ensinados por seus pais ou responsáveis”.

Na prática, a Corte Suprema norte-americana avalizou o que já estava ocorrendo em todo o país com a “caça às bruxas” promovida pelos macarthistas em escolas e universidades: professores eram dedurados, submetidos a interrogatório e perdiam seus empregos. A paranoia anticomunista na educação havia começado em 1946, com a formação do Conselho Nacional para a Educação Americana, uma organização que tinha como finalidade “erradicar o socialismo, o comunismo e todas as formas de marxismo das escolas e universidades da América, e estimular a educação americana”, seja lá o que isto signifique.

Um ano antes de a lei Feinberg ser considerada constitucional, em fevereiro de 1951, o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, instado por governadores de estados como Delaware e Illinois, decidira passar a espionar professores das escolas públicas e universidades do país para que os políticos não precisassem passar pelo “constrangimento” de serem acusados de perseguir docentes. Se os governadores fossem municiados confidencialmente, argumentaram, poderiam se proteger das acusações. A partir daí, o FBI teve carta branca para expandir a espionagem que fazia sobre os artistas hollywoodianos, intelectuais e políticos também ao professorado e demais funcionários públicos dos EUA.

“Em 30 de abril de 1951, uma conferência de executivos do FBI recomendava fazer uma purga de professores nas escolas públicas, porque ‘o contato diário dos professores com os pupilos cria uma ligação próxima e faz os professores controlarem efetivamente o pensamento das crianças e então insidiosamente impregnar suas mentes com o pensamento do partido Comunista’. Hoover deu sua aprovação escrevendo: ‘OK, H.’ na recomendação. O diretor acreditava que os subversivos estavam ’em ação em todas as instituições educacionais, desde o jardim da infância até a universidade'”, diz a introdução do historiador Kenneth O’Reilly, da Universidade do Alasca, para o catálogo dos documentos sobre a perseguição aos professores.

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(“Decência, honra, sinceridade:  ideias idiotas!” “É hora de todos os pais americanos terem um interesse maior em nossas escolas e uma mão mais ativa em moldar as mentes de suas crianças”)

Ao contrário do que Hoover pensava, a opinião pública não ficaria do lado da caça aos professores, mas a mídia, sim. Os estudiosos do tema dizem que somente um jornal do país, o Denver Post, teve um papel diferente. Como acontecia (e os “defensores da democracia” criticavam) na União Soviética de Stalin, colegas e alunos eram encorajados a denunciar os professores quando viam algum sinal de que eram “traidores” da pátria e “antiamericanos”, forma como o senador McCarthy e os adeptos de sua caça às bruxas chamavam os comunistas. Em vez dos fuzilamentos dos regimes totalitários, o que acontecia era o estrangulamento econômico do professor, que era demitido e não conseguia mais emprego em lugar algum.

Havia julgamentos públicos espetaculosos (“show trials”) de professores acusados de comunismo em prefeituras, salões comunitários, acampamentos militares, em escolas e presídios. A pergunta era a mesma: “Você é atualmente ou já foi membro do partido Comunista?” Milhares de professores e funcionários públicos perderam seus empregos no período, muitos chegaram a ser presos. Livros foram banidos ou queimados, como na distopia de Fahrenheit 451, o clássico da ficção científica de Ray Bradbury. E não é difícil imaginar quantas injustiças foram cometidas em nome de “salvar as criancinhas do perigo vermelho”.

("Então você lê, hein?" Cartum de Herblock no Washington Post, 1949)

(“Então você lê livros, hein?” Cartum de Herblock no Washington Post, 1949)

Em fevereiro do ano passado, o Boston Globe contou a história de como a loucura anticomunista do macarthismo destruiu a vida de uma professora na cidadezinha de Wayland, Massachusetts, em 1954. De nada adiantou Anne Hale afirmar, em um pronunciamento público, que era uma defensora da Constituição e da democracia, apesar de ter sido membro do Partido Comunista norte-americano na juventude. Foi demitida e perseguida a vida inteira. Só foi reintegrada à escola pública pela Justiça em 1968, 14 anos depois, quando se encontrava doente. Morreu antes de reassumir, aos 60 anos, vítima de um tumor no cérebro.

No ano em que foi afastada de sua querida escola, Anne não teve o direito nem de se despedir dos alunos. Deixou uma carta dizendo:

Queridas crianças,

Sua família irá dizer a vocês que pessoas diferentes possuem diferentes ideias sobre como o país deve ser governado. tenho trabalho há longo tempo da melhor maneira que conheço para assegurar que ‘a liberdade e a justiça para todos’ sobre a qual falamos toda manhã estará sempre conosco e que irá melhorar. aqueles que não concordam comigo dizem coisas duras.

Lembrem apenas destas coisas, que eu sei que vocês sabem: eu amo meu país e amo vocês.

Professores de universidades conceituadas, como Harvard e o MIT, também sofreram perseguições. Organizações estudantis que estudavam o marxismo foram fechadas e estudantes expulsos. Em 1949, a Universidade de Washington demitiu três professores acusados de “comunismo”, após um processo de investigação sobre 11 docentes, mesmo sem o Comitê de Atividades Antiamericanas ter conseguido provar que “doutrinavam” os alunos. Os três professores nunca puderam retornar à academia.

Hoover, o diretor do FBI, ordenou a seus agentes em todo o país que montassem dossiês sobre “pessoas subversivas” em pelo menos 54 universidades. Em 1953, a caça aos comunistas havia se estendido a Harvard, considerada um “reduto vermelho” por McCarthy, mas a universidade reagiu fortemente em defesa de sua longa tradição de liberdade acadêmica. O Conselho de Educação havia publicado, em 1949, uma lista dos Red-Ucators at Harvard, que citava 76 nomes, entre eles o do economista keynesiano John Kenneth Galbraith.

Um dos citados, o professor associado de Física Wendell H. Furry, denunciado por um colega como participante de um suposto grupo secreto de comunistas em Harvard, foi convocado a testemunhar diante do Comitê de Atividades Antiamericanas, mas preferiu permanecer calado. Ele foi defendido pelo próprio reitor da universidade, Nathan M. Pusey, que não aceitou os pedidos de McCarthy para que Furry fosse demitido, e também pelo Nobel de Física de 1952, seu colega de Harvard Edward M. Purcell. “É um homem que está subvertendo e pervertendo as mentes da juventude americana”, disse o senador sobre o professor.

McCarthy conseguiu pressionar instituições inteiras ao tirar as isenções fiscais de todas as entidades filantrópicas que tivessem “comunistas ou simpatizantes do comunismo em sua folha de pagamentos”. O resultado é que muitos destes centros simplesmente fecharam as portas.

(O professor Keyishian e seu alvo de T.S.Elliot nos anos 1960. Arquivo pessoal)

(O professor Keyishian e seu alvo de T.S.Elliot nos anos 1960. Foto: arquivo pessoal)

No início dos anos 1960, um grupo de professores da Universidade de Búfalo, no Estado de Nova York, se recusou a assinar o juramento sobre ser ou não ser comunista e decidiu apelar à Suprema Corte. Encabeçados pelo professor de Letras Harry Keyishian, os docentes ganharam a causa e a lei Feinberg, que proibia a contratação de comunistas, foi finalmente considerada inconstitucional em janeiro de 1967, por um placar apertado de 5 a 4.

O caso, que ficaria conhecido como Keyishian vs. Board of Regents, é considerado o mais importante em defesa da liberdade acadêmica da história do Direito norte-americano.  Após a reversão na Justiça, todos os professores que perderam seus empregos em virtude da perseguição macarthista foram readmitidos e tiveram sua aposentadoria assegurada.

50 anos depois que esta tragédia acabou, tentam ressuscitá-la no Brasil com o nome de Escola Sem Partido. O projeto de lei que regulamenta esta aberração está em discussão no Congresso, mas a caça às bruxas já está acontecendo: alunos estão gravando professores em sala de aula para acusá-los sabe-se lá de quê nas redes sociais; o vereador de direita paulistano Fernando Holiday invade escolas para assediar e constranger professores; coordenadores escolares recebem denúncias por e-mail acusando professores de serem “gays ou esquerdistas”; e uma professora de Santa Catarina está sendo processada na Justiça por uma aluna reaça por dar um curso sobre feminismo.

Se esta lei for aprovada, imaginem o que não fará às nossas escolas e à liberdade de expressão dos professores. O projeto em apreciação na Câmara deixa explícito que, como aconteceu nos EUA na década de 1950, abrirá caminho à deduragem e às perseguições de esquerdistas. “As secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato”, diz o texto do famigerado projeto da Escola Sem Partido. É o neomacarthismo demonstrando que a direita brasileira caminha para trás.

 

 

 

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João Doria, pai do prefeito de SP, também era chamado “João Dólar” (só que pela direita)

Publicado em 25 de abril de 2017
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(O deputado João Doria com o filho criança. Foto: arquivo pessoal)

O pai do prefeito de São Paulo, o deputado federal João Doria, detestava, como o filho, ser chamado de “João Dólar”. Mas, ao contrário do Júnior, teve mais savoir-faire e transformou o limão numa limonada: em vez de proibir que o chamassem assim (como fez o prefeito), registrou a alcunha na Justiça Eleitoral da Bahia. Também ao contrário do filho liberal, Doria pai, um nacionalista que foi cassado pela ditadura na semana seguinte ao golpe, não recebeu o epíteto de gente da esquerda e sim da direita anticomunista que tanto combateu como parlamentar.

Em agosto do ano passado, João Doria Jr. recorreu à Justiça e conseguiu que o Facebook excluísse o perfil “João Dólar”, uma sátira ao estilo burguês, coxinha, do então candidato a prefeito. Não satisfeito, Doria pediu multa de 5 mil reais para o criador da página por tê-lo “ofendido”. O que talvez nem o prefeito saiba é que, coincidência das coincidências, o apelido está em sua família há mais de 50 anos. E se disseminou ao ponto de, em 1962, João Agripino da Costa Doria, candidato a deputado federal pela Bahia, pedir ao Tribunal Regional Eleitoral que aceitasse como seus os votos que porventura aparecessem com o nome “João Dólar” nas cédulas eleitorais, na época escritas à mão.

Aliado de João Goulart, Doria pai atribuía a difusão do apelido a parlamentares que se beneficiaram da “generosidade” do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), organização conservadora anticomunista vinculada à CIA que preparou o terreno para o golpe de 1964. Financiado com dinheiro de governos e multinacionais estrangeiras, o Ibad irrigou com milhões de dólares os candidatos de direita e os jornais que aderiram ao movimento em favor do golpe, como O Globo. Um exemplo foi o financiamento do livro O Assalto ao Parlamento, do tcheco Jan Kozak, para alertar do “perigo vermelho” –e que o jornal de Roberto Marinho distribuiu a seus leitores em fascículos.

O deputado federal João Doria seria um dos artífices da CPI que investigou a organização, que acabaria fechada por corrupção por Jango em agosto de 1963. Os cinco parlamentares que estavam à frente da comissão (além de Doria, Rubens Paiva, José Aparecido, Eloy Dutra e Benedito Cerqueira) seriam todos cassados pela ditadura já no AI-1 (Ato Institucional Número 1), em 9 de abril de 1964. Em 1977, o ex-embaixador norte-americano Lincoln Gordon reconheceria o financiamento de parlamentares pelos Estados Unidos.

Doria era tão nacionalista que, em seguida, chegou a propor outra CPI, para investigar as publicações estrangeiras que invadiam o país no período antes do golpe, para proteger a opinião pública “de fatos e conceitos nem sempre condizentes com os legítimos interesses nacionais”. Esta, porém, não deu em nada.

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(O Semanário, 25 a 31/07/1963)

Nascido em Salvador, na Bahia, em 1919, João Agripino da Costa Doria era jornalista e fez carreira como publicitário na Standard, no Rio, antes de se mudar para São Paulo e abrir sua própria agência, a Doria Associados. Em 1960, retornou a seu Estado natal para se candidatar a deputado federal pelo PDC (Partido Democrata Cristão) e conquistou a vaga de suplente. Em 1963, assumiu o cargo de deputado e se incorporou à Frente Parlamentar Nacionalista, de apoio a Jango. Situado à esquerda no PDC, atuava em dobradinha com ninguém menos que Plínio de Arruda Sampaio.

Foi na campanha a deputado que o apelido “João Dólar” surgiu, e se espalhou graças a línguas ferinas como a do falecido coronel da política baiana Antonio Carlos Magalhães. Se ACM Neto é cotado como candidato a vice de Doria numa provável candidatura à presidência, seu avô e o pai do prefeito eram adversários figadais e chegaram a ir às vias de fato em uma sessão da Câmara em que, em seu estilo característico, o Malvadeza o fustigou com a alcunha. Doria sênior precisou ser contido pelos colegas para não dar uns sopapos em ACM, que o acusava de ter se beneficiado de “favores governamentais” no governo Juscelino Kubitschek.

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(Jornal Folha de S.Paulo, 27/02/1964)

Dias depois, uma nota maldosa na coluna Radar Político do jornal Folha de S.Paulo, muito provavelmente tendo ACM como fonte, revelava que o deputado do PDC havia se irritado com o apelido sem razão, já que havia registrado também o nome “João Dólar” ao se candidatar à Câmara Federal.

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(Folha, 07/03/1964)

O próprio João Doria foi à tribuna, dias depois, para explicar a razão pela qual pediu o registro da alcunha, e seu discurso é uma pérola do anedotário político brasileiro, além de espantosamente similar ao percurso do filho. Nele, Doria pai explica não ser verdade que havia feito a campanha mais cara da história do Estado, como diziam seus detratores (daí o apelido) e que havia pago parte dos custos da eleição com recursos próprios –exatamente como fez o tucano Doria em 2014. A fala do pai, inclusive, parece ter sido escrita pelo filho.

“O senhor está fazendo uma consagração dos meus métodos publicitários, porque a publicidade foi baratíssima para os efeitos que causou. Vossa excelência está honrando minha condição de profissional de propaganda”, disse Doria pai, naquela sessão do longínquo ano de 1964, ao ser aparteado pelo deputado João Mendes, um dos acusados de receber dinheiro do Ibad. “Eu levantei os recursos com meu crédito pessoal. Com um total de cinco milhões e com os recursos técnicos da minha empresa, com esta atuação empresária que eu tenho, com meus auxiliares, com meus técnicos de rádio, com meus técnicos de televisão, eu produzi toda a minha campanha.”

O linguajar de marqueteiro profissional talvez seja uma das poucas semelhanças, ideologicamente falando, entre o “Dólar” pai e o filho. Naquele mesmo discurso, João Doria mostra deplorar o apelido por desnudar a intenção de seus adversários de transformá-lo, diante da opinião pública, num entreguista dos interesses nacionais –algo que para João Doria Jr., entusiasta do capital estrangeiro, não teria a menor importância.

“O que significa chamar um parlamentar de João Dólar? Significa que o nobre deputado Antonio Carlos Magalhães quis assim demonstrar que eu era ou teria sido um agente de capitais estrangeiros”, discursa João Doria, com indignação. “O nobre deputado Padre Godinho, com a verve que lhe é habitual, achou que ofensa para mim seria chamar-me João Cruzeiro, moeda desvalorizada, moeda pobre, pois no parecer dele, chamar-me de João Dólar, moeda forte, moeda conversível, moeda respeitada, diante da qual muitos se ajoelham, se curvam e se vendem, não deveria constituir motivo de ofensa para mim. Lamento discordar. O epíteto de João Dólar me foi atirado justamente por parte daqueles que ao dólar se venderam, justamente pelos verdadeiros joão-dólar, alguns dos quais militando, inclusive, na área partidária do nobre deputado Antonio Carlos Magalhães.”

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(Ata da sessão de 03/10/1963)

Segundo João Doria pai, quando percebeu que o apelido já estava disseminado pela Bahia e que corria o risco de perder votos de eleitores menos instruídos que achavam que seu nome era mesmo “João Dólar”, resolveu assumir e pediu o registro da corruptela ao TRE. “Constato, com impressionante frequência, que ponderável número de pessoas nas ruas e nos lares humildes de nossa capital que desejam sufragar minha candidatura, sub-repticiamente influenciados por essa propaganda adversária, já não mais pronunciam meu nome na forma correta e original, mas adotando o apelido infamante na condição de ser este o meu nome verdadeiro”, escreveu, no requerimento ao tribunal.

É fascinante observar as coincidências entre a trajetória do pai no Congresso Nacional pré-golpe com a do filho, só que ao contrário. Enquanto Doria quer se firmar como o candidato anti-Lula e anti-esquerda, seu pai estava ao lado dos esquerdistas, com os nacionalistas; enquanto Doria dá corda para o macarthismo do movimento Escola Sem Partido, seu pai denunciava o macarthismo da tribuna; e enquanto Doria apoia e é apoiado pelo MBL (Movimento Brasil Livre), seu pai atacava as organizações juvenis de direita financiadas pelo Ibad para desestruturar a UNE (União Nacional dos Estudantes).

“Nos meios estudantis, insinuaram-se os agentes da Adep (Ação Democrática Popular, braço do Ibad) para comprar ‘líderes’ universitários a peso de ouro e dividir a classe pela intromissão de entidades espúrias como o Movimento Estudantil Democrático (MED), a Frente da Juventude Democrática e outras associações agitadoras e provocadoras, responsáveis por vários e lamentáveis incidentes nos últimos congressos da UNE”, denunciou João Doria pai em outubro de 1963, em um longo e histórico discurso em que apontava a perseguição aos comunistas no Brasil e o fascismo infiltrado nas Forças Armadas.

“Para esses estrategistas do anti-comunismo, saudosistas de Hitler e Mussolini, o combate à ideologia marxista reclama o emprego de métodos totalitários opostos, mas equivalentes. São os síndicos da liberdade, os falencistas da democracia, os pioneiros do terror ideológico do macarthismo e do neofascismo no Brasil. Arautos da enganosa teoria do mal necessário: ressuscitar os inimigos mortais de ontem para derrotar os mortais inimigos de hoje”, disse o Doria do passado, como se estivesse falando do Brasil atual. João Dólar, ops, Doria, deveria olhar mais para a história política do seu pai.

 

 

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Para inglês ver: como a imprensa brasileira ajudou a prolongar o tráfico de escravos

Publicado em 7 de março de 2017
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(Navio Negreiro por Rugendas)

Por Charles Nisz*

A expressão “para inglês ver” tem uma origem triste. Ela surgiu por causa de uma lei promulgada em 7 de novembro de 1831, cujo texto proibia o tráfico escravista. Com penas fortes, a lei pretendia extinguir o fluxo de escravos africanos para o Brasil. No entanto, por causa da pressão dos senhores de escravos, ajudados pela imprensa, a lei não conseguiu cumprir seu objetivo e virou letra morta. Uma norma “para inglês ver” –quem mais pressionava o Brasil pelo fim do tráfico escravista era a Inglaterra.

O livro Imprensa e escravidão – política e tráfico negreiro no Império do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850), de Alain El Youssef, mestre em História pela FFLCH/USP, mostra o ativo papel da imprensa brasileira na manutenção da escravidão de negros africanos no Brasil. Nosso país foi o último do hemisfério ocidental a abolir o escravismo, somente 58 anos depois da promulgação da lei que extinguia o tráfico negreiro. De quebra, demonstra como desde sempre nossa imprensa representou ativamente os interesses das classes privilegiadas. Para quem acha que o apoio à ditadura militar foi a única mancha na história da imprensa brasileira, o livro é um choque.

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Pouco antes de 1830, houve uma intensificação do tráfico negreiro, pois havia uma real intenção dos Regentes em abolir a importação de escravos. De acordo com Youssef, quando a lei foi aplicada, o tráfico minguou e estava em nível residual no início da década de 1830. O ponto de virada se deu por volta de 1835. A imprensa brasileira teve papel fundamental na retomada do tráfico escravista. Ou seja, diferentemente do que prega a historiografia oficial, a lei não foi feita para acalmar a pressão inglesa sobre o Brasil, mas ela foi sabotada aqui dentro.

De acordo com o historiador paulista, os jornais eram muito conectados com o Parlamento –então localizado no Rio de Janeiro– e funcionavam como caixa de ressonância e também como balões de ensaio das ideias discutidas na Câmara dos tempos imperais. Youssef exemplifica essa mudança com um artigo de Diogo Antônio Feijó, publicado em 25 de dezembro de 1834, no qual o regente do Brasil defende abertamente a volta do tráfico de escravos. Essa defesa tinha como objetivo agradar aos fazendeiros e pavimentar sua posse na Regência no ano seguinte, explica o historiador.

Acabar com o tráfico envolvia mexer nos interesses econômicos dos fazendeiros. Por volta de 1830, a cafeicultura estava em expansão na parte fluminense do Vale do Paraíba. O Brasil logo se tornaria o maior produtor mundial de café e a utilização de mão de obra escrava era fundamental para manter a lucratividade do negócio. Para sustentar esse modelo, era necessário fazer pressão no Parlamento e a imprensa foi o meio pelo qual os cafeicultores silenciaram o discurso abolicionista existente no fim dos anos 1820. Similar ao que os jornais fazem hoje em defesa do modelo do agronegócio e contra os índios…

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(Crianças africanas em navio negreiro apreendido pelos ingleses após 1831)

Uma das estratégias utilizadas foi o discurso anglofóbico. Para convencer a opinião pública da necessidade do escravismo, usou-se a estratégia de que a Inglaterra estaria interferindo na economia e na política brasileiras. Veja este trecho, publicado no jornal Sete d’Abril em 03 de novembro de 1835, no qual os lobistas do tráfico acusam os abolicionistas de receber dinheiro inglês: “Governos estrangeiros, profundamente convencidos de que os produtos de suas colônias não podem concorrer nos mercados com os brasileiros, e que não há outro meio senão encarecer a estes pelo alto preço de braços livres em vastos, férteis e não povoados Estados, têm resolvido remunerar os que promoverem a extinção da escravatura no Brasil com a quantia de 50:000$000 de réis (…)”.

A eficácia desse discurso passou por uma estreita articulação entre imprensa e Parlamento. Especialmente dos deputados ligados às regiões do Vale do Paraíba em SP e RJ e do sul de MG. Articulados num grupo liderado pela “Trindade Saquarema” (Honório Hermeto Carneiro Leão, Paulino Soares de Sousa e Joaquim José Rodrigues Torres) e por Bernardo Vasconcelos, esses parlamentares fizeram ferrenha oposição àqueles que se posicionavam contra o comércio de africanos e a escravidão, e silenciando o restante, como Evaristo da Veiga, principal voz a favor do fim do tráfico negreiro na década de 1830, diz Youssef.

Sob a influência dessa máquina de propaganda, a sociedade começou a ficar mais simpática à manutenção do tráfico escravista –um negócio extremamente rentável aos mercadores de escravos e aos fazendeiros brasileiros. Representações (uma versão pioneira dos atuais abaixo-assinados) eram enviadas das Câmaras Municipais ao Parlamento. Diante de tal “pressão”, muito estimulada pelos artigos de Vasconcelos no jornal conservador O Sete de Abril, as autoridades trataram de fazer da lei de 1831 apenas letra morta.

Tal situação se tornava ainda mais forte pelo fato de que muitos dos deputados eram também senhores de engenho. Era como se Marcelo Odebrecht fosse parlamentar e pudesse agir diretamente para que a legislação beneficiasse sua empreiteira. Deste modo, os fazendeiros conseguiram adiar por pelo menos 20 anos que a lei contra o tráfico negreiro tivesse efetividade plena. O tráfico só acabaria de fato em 1850, com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós.

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(Charge de Angelo Agostini de 1881 mostra político “liberal” da época utilizando escravo como cavalo)

Podemos especular várias consequências trazidas por esse prolongamento do tráfico negreiro. O primeiro deles é econômico. O capital que propiciou o desenvolvimento industrial do Sudeste surgiu desse modelo econômico. Talvez tivéssemos um Brasil menos centralizado no Sul-Sudeste caso a abolição tivesse acontecido antes de 1889. O escravismo resistiu com um discurso conservador parecido com o que defende o fim dos direitos trabalhistas na imprensa dos dias de hoje: “É preciso pagar menos para ser competitivo com os mercados internacionais”.

A segunda consequência diz respeito à própria unidade nacional, diz Youssef. O sufocamento das revoltas imperiais foi bancado com o dinheiro advindo desse modelo de produção escravista. “Esses fazendeiros tinham um projeto de Estado que dependia da manutenção desse estado de coisas”, sublinha o historiador da FFLCH.

O atraso na revogação do tráfico negreiro também influiu na maneira como o Brasil percebe a escravidão e o racismo. Um dos discursos mais veiculados na metade do século XIX por esses jornais conservadores é que o escravismo brasileiro seria menos perverso que o norte-americano. Se por milagre conseguisse a liberdade, um ex-escravo brasileiro adquiria direitos de cidadão, coisa que não acontecia em terras ianques. Assim sendo, não havia por que os negros reclamarem –está aí uma das origens do mito da nossa democracia racial.

Foi justamente a Guerra Civil norte-americana que abalou de modo definitivo o escravismo brasileiro. Os EUA eram a grande potência escravista mundial –o algodão norte-americano abasteceu a indústria fabril europeia no século XIX. Com o fim da guerra da Secessão, em 1870, não era mais possível ser escravista no Ocidente.

Ironicamente, quem primeiro percebeu essa mudança de pensamento foi Dom Pedro II. O velho imperador passa a defender a Lei do Ventre-Livre. O monarca lia com atenção as cartas enviadas pelo embaixador do Brasil nos EUA. Por conta do crescimento das cidades e início do trabalho fabril, na década de 1880, o discurso abolicionista volta a ganhar força –quase 50 anos depois da promulgação de lei de 1831.

“Essa polarização entre discurso conservador e progressismo sempre existiu em São Paulo”, sublinha Youssef. Hoje, ela se reflete na sucessiva alternância entre petistas e tucanos na cadeira de prefeito do Palácio Anchieta. Mas um traço é comum nesses quase 200 anos de História: o caráter conservador da imprensa. Assim como nas Diretas Já, os jornais cariocas (então o centro econômico do país) foram abolicionistas de véspera: só defenderam essas medidas aos 45 minutos do segundo tempo. “O discurso conservador domina a nossa imprensa, raramente uma medida progressista é defendida nos jornais”, sumariza Youssef.

 

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