Bolsonaro afirma que Jean Wyllys fará “visita íntima” a Lula na prisão. E é aplaudido

Publicado em 16 de março de 2016
gaycation

(Na The Advocate: “o maior homofóbico do Brasil”)

Há alguns dias, veio à tona um trecho da série protagonizada pela atriz Ellen Page, Gaycation, no Rio de Janeiro. No episódio, a atriz tem um encontro para lá de “vergonha alheia” com Jair Bolsonaro, o expoente da extrema-direita brasileira que se tornou a liderança inconteste das manifestações contra o governo no último domingo. Como a atriz é uma celebridade e foi indicada ao Oscar por Juno em 2007, o deputado ganhou fama fora do país. Péssima, claro. Um mico internacional para o Brasil.

Na mais conceituada revista para o público gay nos Estados Unidos, The Advocate, Bolsonaro foi pintado como “o maior homofóbico do Brasil”. O confronto entre o líder bufão do protesto e a atriz de Hollywood é descrito pela publicação como “o mais desconfortável dos 45 minutos do episódio” –e isso que a maior atração do programa é a entrevista de Page com um ex-policial que afirma matar homossexuais em série. A conversa com o deputado é descrita ponto a ponto pela revista como algo bizarro, fora do tempo, com Bolsonaro inclusive dizendo gracinhas para a garota, ainda que ela tenha afirmado na cara dele, para começo de conversa, que é lésbica.

No sábado 12, o diário espanhol El Pais publicou um perfil de Bolsonaro chamando-o de “Donald Trump brasileiro”. Nos EUA como aqui, um representante da extrema-direita tenta chegar ao poder utilizando um discurso simplório, pouco articulado, que apela aos lados mais obscuros dos ditos “cidadãos de bem”: supremacia racial, intolerância religiosa, ódio aos pobres e homofobia. O jornal lembra que Bolsonaro só cresceu porque foi alimentado pela imprensa brasileira. “A mídia tem sido, efetivamente, um dos principais palanques de Bolsonaro”, diz o texto.

A repórter do El Pais destaca a “fama internacional” que o deputado do PSC ganhou ao ser entrevistado por Ellen Page, e conta que a atriz saiu de seu gabinete se lamentando, após enfrentar a tese de Bolsonaro de que é possível “curar” crianças da homossexualidade… batendo nelas.

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(El Pais: polêmico deputado de extrema-direita)

Tem um vídeo em que o deputado expõe sua “pedagogia”:

No site The Intercept, Glenn Greenwald, o jornalista que revelou a espionagem norte-americana sobre cidadãos e outros governos ao mundo, o parlamentar brasileiro é descrito como “o mais misógino e detestável político eleito no mundo democrático”. A publicação conta como Bolsonaro chamou a colega Maria do Rosário, do PT, de “vagabunda”, e declarou que “não a estupraria porque não merece”. O deputado já foi condenado em segunda instância a pagar 150 mil reais de indenização à deputada.

intercept

O próprio Jair Bolsonaro rejeita a fama de homofóbico. “Essa coisa de homofobia é um rótulo que colocaram em mim. Não tenho nada contra homossexual, minha briga foi e continua sendo contra o material escolar (o kit anti-homofobia, que ele apelidou de “kit gay”). Nada contra homossexual, cada um é feliz do jeito que entender”, disse ao jornal Gazeta do Povo ao lançar sua pré-candidatura à presidência no Paraná, no início do mês.

Provavelmente Bolsonaro não deve considerar ser homofobia dizer que o ex-presidente Lula irá receber “visita íntima” do deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, se for preso. Wyllys, assumidamente homossexual, é alvo cotidiano do deputado reaça. O blog publica com exclusividade um vídeo gravado na manifestação de direita em Brasília, no domingo, em que o deputado discursa em cima de um carro de som dizendo exatamente estas palavras. E é aplaudido pela plateia que pretende “melhorar” o Brasil tirando o PT do poder.

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(Seguidores de Bolsonaro na manifestação do dia 13 em Brasília. Diga-me com quem andas… Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Como uma pessoa tão despreparada, intolerante e preconceituosa pode ser parlamentar? Não é quebra de decoro atingir assim um colega? Cadê a comissão de Ética da Câmara? Perceba que um assessor puxa o braço de Bolsonaro, dando um toque, quando ele repete a barbaridade. O trecho foi OMITIDO da publicação feita pelo valentão no Facebook.

Chama a atenção também o funcionamento da mente do deputado. Que tipo de pervertido pode passar os dias imaginando políticos adversários transando? Freud explica. E os seguidores de Bolsonaro? O  problema deles é mesmo política ou é outra coisa? Quem, em sã consciência, pode pensar em entregar o Brasil a uma criatura retrógrada, arcaica dessas?

Assista:

O episódio completo de Gaycation sobre o Rio pode ser visto aqui.

 

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O estranho complexo de inferioridade dos “superiores”

Publicado em 5 de novembro de 2015

complexo

Se tem uma coisa que eu não entendo na gritaria contra as cotas e os direitos LGBTs e femininos é um mal disfarçado complexo de inferioridade embutido nela. Volta e meia leio comentários do tipo: “os negros não estão lutando por direitos iguais, eles querem ser SUPERIORES a nós”; “as mulheres não querem ter direitos iguais, elas querem MANDAR nos homens”; “os homossexuais não estão lutando contra a intolerância, o que eles pretendem é implantar uma DITADURA gay!” Qual o problema com este pessoal? Do que eles têm medo, afinal?

Será que os racistas temem que, com oportunidades iguais, os negros se mostrem mais capazes do que os brancos? Será que os homofóbicos temem que gays e lésbicas, com direitos iguais, se mostrem mais eficientes do que os heteros? Será que os machistas temem que o mundo descubra que as mulheres, com salários iguais, são melhores profissionais do que os homens? Só alguém com um baita complexo de inferioridade pode pensar assim. E é curioso vindo de gente que se acha tão “superior”. Quem não tem competência não se estabelece!

A liberdade de escolher quem amar dos LGBTs deve incomodar muita gente, mesmo, mas me espanta ver alguns se queixarem de que o objetivo de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros é implantar uma “ditadura”. Ora, essa ditadura já existe e exclui quem tem uma orientação sexual diversa desde o princípio dos tempos. Uma pessoa precisa ter sérios problemas de auto-estima para achar que quando os homossexuais exigem o fim do preconceito estão, na verdade, querendo ameaçar direitos de quem os possui de sobra.

A autonomia da mulher de decidir com quem se deita ou o tipo de roupa que quer usar também deve incomodar muitos machistas que pensam ter o domínio sobre os corpos femininos. O hilário é que estes homens, para tentar desesperadamente manter essa dominação, dizem que a mulher está lutando… para passar a ter este domínio sobre eles! Por isso chamam de “feminazis” as mulheres que sabem muito bem quais são seus direitos, que são donas do próprio destino e que não se deixam submeter. Como se eles fossem as “vítimas” e não elas. Aliás, que medinho que as “feminazis” dão a vocês, hein?

O mesmo acontece com os negros: enquanto eles estavam quietinhos trabalhando como serviçais na casa grande, os racistas não se sentiam incomodados. Racismo, aliás, era só “uma piada de salão”, brincadeirinha, gente. “No Brasil não existe racismo”, decretou o porta-voz dos senhores de engenho televisivos. Agora que os negros lutam contra ter seus direitos ceifados em virtude da cor da pele, o racismo velado veio à tona na forma de temor de que eles queiram revanche. Como assim os negros querem “mandar”, se há 500 anos quem manda é você, cara-pálida?

Botem seu complexo de inferioridade no saco e fiquem tranquilos. Nós, as “minorias”, não estamos lutando para ser hegemônicos. Não somos como vocês, supremacistas. Queremos que TODOS sejam iguais. Não é bizarro? Ao mesmo tempo que racistas, machistas e homofóbicos detêm o poder, mostram-se inseguros de perdê-lo para pessoas que lutam por IGUALDADE. Ou será que, lá no fundo, eles não se sentem tão “superiores” assim?

 

 

 

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Bolsomitômanos e Revoltados Online na Câmara: barbaridades, clichês e zoeira

Publicado em 27 de outubro de 2015
(O deputado Marco Feliciano faz serviço de sopro no pixuleco de Lula)

(O deputado Marco Feliciano faz serviço de sopro no pixuleco de Lula. Fotos: Lúcio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados)

Convidados a comparecer à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que apura os crimes na internet, o chefão dos Revoltados Online, Marcello Reis, e a advogada Beatriz Kicis se cercaram de uma claque barulhenta de cerca de 70 pessoas para fazer exatamente o que fazem na internet: dizer barbaridades, disparar clichês contra a esquerda e zoar qualquer opinião divergente.

Pouco antes de a audiência começar, jovens de 20 e poucos anos ligados aos Revoltados Online e ao Movimento Brasil Livre conversavam animadamente com os deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, com quem tiravam selfies. Bolsonaro fazia piadas machistas, citando “Kid Bengala” e coisas do gênero. Incrivelmente, as moças do grupo riam. Não se sabia ainda se Jean Wyllys, do PSOL, autor do convite, iria comparecer. Ele não foi.

“A ‘menina’ ainda não chegou”, disse Marcello a um correligionário, se referindo ao deputado, que é ativista homossexual. “A ‘noiva’ sempre chega atrasada”, disse outro membro do grupo. “Deve estar se maquiando”, falou Bolsonaro. Risos. Feliciano, de topete alisado e com mechas loiras, tentava decifrar a frase de Simone de Beauvoir que caiu na prova do ENEM, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. “Então mulher existe ou não existe?”, dizia. Risos.

Alguns meninos do grupo, todos brancos (à exceção de Fernando Holiday, que chegou no final), usavam cabelos compridos, com rabo de cavalo, e brincos – moderninhos na aparência, conservadores na essência. Resolvi perguntar a Bolsonaro o que ele, que preza tanto pela “masculinidade”, achava dos penteados de seus fãs. “O que vale é se ele vai olhar pro lado, se está defendendo ideologia de gênero ou não. Isso aí é moda. Tá pensando que eu sou tão quadrado assim?”

“Ideologia de gênero”, aliás, é o novo mantra dos reaças. Beatriz Kicis, que tem vídeos no youtube ao lado de seu ídolo, o pseudofilósofo Olavo de Carvalho, só fala nisso. “A doutrinação ideológica é feita desde o primário. Tem até banheiro com ideologia de gênero! O que é isso? Onde estamos?”, disse Beatriz, fazendo metáforas ao estilo dona-de-casa. “É a mesma receita de Cuba e da Venezuela, é o mesmo bolo que vai sair daí. Desarmam a população, sexualizam as crianças, tiram a autoridade dos pais com essas leis da palmada, criam pequenos comunistas! Estamos perto de virar uma Venezuela!”

Essa é outra obsessão de Beatriz, a “transformação” do Brasil em um país “comunista”, “totalitário”. Para ela, a luta contra a corrupção não é tão importante, “mas a corrupção servindo de meio para o Estado totalitário” que acusa o PT de estar instalando por aqui. “Vou continuar lutando contra o Foro de São Paulo de manhã, de tarde, de noite e de madrugada!”, discursou, para delírio geral.

Neste momento, o deputado Sandro Alex, do PPS paranaense, sub-relator da CPI, fez questão de se certificar se os Revoltados estavam de fato online. “Estão transmitindo pela internet?” Sim, estavam. Era a vez de Marcello Reis falar. Ele contou que criou o canal em 2000, para, afirma, “rastrear pedófilos”, após a filha ter sido vítima de abuso. “Depois de 2010 é que os seguidores começaram a levar para a política. Eu não era politizado”, disse.

Em seguida, defendeu-se por ter postado no Facebook uma acusação infundada contra o deputado petista Paulo Pimenta, acusando-o de ser proprietário da boate Kiss, que pegou fogo matando 242 pessoas em 2013. “Foi outro administrador que colocou no ar, eu estava viajando. Excluí o post depois de 5 minutos e até podia ter pedido desculpas, mas o deputado me chama de neonazista só porque sou desprovido de cabelo”, pilheriou. Gargalhadas da claque. Curiosamente, Marcello voltou a atribuir a “outro administrador” da página os demais conteúdos polêmicos, como a defesa do uso de armas de fogo.

Para mostrar que é “vítima” do ódio, o líder dos Revoltados Online exibiu um áudio onde é chamado de “filho de uma puta soviética”. “Recebo milhares de ameaças de petistas todos os dias”, afirmou. No entanto, ao ser questionado pelo deputado Esperidião Amin sobre o autor dos xingamentos, Marcello se contradisse. “Não, esse daí não é petista.” Nas considerações finais, ele começou a inflar um boneco de Lula em plena mesa, no que foi impedido pela segurança, mas logo contou com o auxílio de Feliciano e dos Bolsonaros, pai e filho, para o serviço de sopro.

(Bolsonaro pai e Bolsonaro filho com a boca no pixuleco)

(Bolsonaro pai e Bolsonaro filho com a boca no pixuleco)

Não fosse pelo deputado Paulo Pimenta, que estava presente, os Revoltados sem causa ficariam sem o contraditório. Pimenta afirmou que Marcello Reis não é apenas o líder de um grupo anti-corrupção na política. “Estou convencido que se trata de uma organização que já cometeu um conjunto de crimes graves, inclusive tirar dinheiro de pessoas inocentes”, acusou. “Eu o processei, mas até hoje a Justiça não conseguiu notificá-lo porque ele muda de endereço.”

A claque de bolsomitômanos “defensores da liberdade de expressão” não permitia que o deputado falasse, gritando, vaiando e emitindo sons como “Hummmm”. O mesmo aconteceu quando Alice Portugal, do PCdoB baiano, usou o microfone. Com Bolsonaro, ao contrário, urravam: “Mito! Mito!”

Triste dia para a Câmara: o circo terminou com o grupo pulando como hooligans no plenário da Comissão e entoando um “hino antibolivariano”. O que tinha de ser esclarecido não ficou: afinal, o que fazem os Revoltados Online nas redes é só “liberdade de expressão”? Julgue você mesmo no vídeo abaixo.

Detalhe: após a audiência, o grupo se dirigiu para o gabinete da presidência da Casa. Sim, os “anticorrupção” continuam apoiando Eduardo Cunha.

 

 

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