Evangélicos progressistas, graças a Deus

Publicado em 28 de abril de 2015

Por Fernanda Lelles, para o Socialista Morena

 

De acordo com o último Censo, realizado em 2010, 22,2% dos brasileiros são evangélicos –ou 42,3 milhões de pessoas. Achar que todos eles pensam igual ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ou aos pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia é uma generalização sem sentido. Mas e constatar que alguns deles pensam igual a… você?

Leia os depoimentos de cinco evangélicos que desafiam o senso comum sobre temas polêmicos como drogas, homossexualidade e aborto. Que bom.

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Wanderson Alves, 23 anos, assistente administrativo, fiel da Igreja Universal do Reino de Deus

 

Política – “Os políticos da bancada evangélica não me representam. Eles vendem esse discurso, mas o evangélico não é uma unidade, então quando dizem que evangélico vota em evangélico, estão tentando convencer pessoas ingênuas. Não consigo associar o cristianismo a discursos de ódio e de violência; o cristianismo é o oposto disso e o que eles fazem vai contra o que está na Bíblia. Cristo não excluiu ninguém, muito pelo contrário.”

Homossexualidade – “Se o estado é laico, por que os gays não podem ter os mesmos direitos dos heterossexuais? O que muda na vida de um cristão se um casal homossexual se une? Se eles se amam, são adultos, como eu posso me opor a isso? Há casais gays que têm uma conduta muito melhor dos que se dizem cristãos. Quem sou eu pra julgar? O que torna a pessoa homossexual ainda é um grande mistério, não dá pra dizer que um filho de casal gay vai ser gay, não é a convivência que vai fazer alguém ser gay.”

Drogas – “Conheço pessoas que acabaram com a vida delas por causa das drogas, mas vejo a maconha como algo mais leve. Acho hipócrita liberar o álcool e o cigarro, que faz mais mal, e não a maconha. A partir do momento que liberar, o tráfico vai cair.

Igreja – “No começo, tive conflitos ao me deparar com essas ideias que me pareciam muito lógicas, mas iam contra a minha fé. Refleti e aprendi a separar. Quando você vai lendo e refletindo, vê que são coisas separadas. Tento discutir estes temas sociais dentro da igreja, e às vezes alguém fala: ‘não, isso aí vai contra’. Mas quando você apresenta argumentos, as pessoas refletem. Acho que temos de incentivar as pessoas a estudar, é muito importante ter pessoas com pensamento crítico dentro da igreja.”

Aborto – “A gente tem que sair em defesa das mulheres que morrem em clínicas de aborto, não dá mais pra ignorar isso. As pessoas dizem que defendem a vida, mas que vida é essa que vai existir sem que a mãe tenha condições? Se ela cresce à margem, vai ser quem rouba a carteira no sinal, e aí o mesmo cidadão contra o aborto quer condenar esse adolescente à cadeia, como querem fazer agora com a redução da maioridade penal. Se o próprio Deus envia seu filho para amar a todos, por que eu, mero mortal, faria exatamente o contrário? Não vejo amor em mandar uma criança de 16 anos pra mesma penitenciária que adultos, o que vai fazê-la sair de lá mais criminosa em vez de recuperá-la.”

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(Foto: Mario Ohashi)

 

Cristiano Machado, 36 anos, pastor da Igreja do Armazém, em Curitiba, e autor do blog Crentassos

 

Igreja – “A premissa da igreja é a pluralidade das ideias. Desde o começo, quando Lutero se levantou, tinha treta entre eles. A coisa mais nociva a que qualquer pessoa cristã pode aderir é a mentalidade do tele-evangelista. O neopentecostalismo toma a lógica que, se evoluir financeiramente, você seria abençoado. Se você é cristão, não pode ser pobre.”

Direitos humanos – “Em se tratando de direitos, não coloco a Bíblia à frente dos direitos de ninguém. Não posso, através de uma perspectiva teológica, impor algo a alguém.”

Pastores – “Um bom pastor vai lutar pela liberdade do indivíduo. A igreja do Malafaia não prega liberdade, prega qualquer outra coisa. É uma teologia antibíblica, não tem suporte na Bíblia. Ele pode ser representante da igreja dele, onde prega um monte de bobagens. Mas se apoderar do pensamento evangélico é uma arrogância muito grande.”

Pecado – Nem os LGBTs são homogêneos nem os cristãos. O texto bíblico fala que não são os sãos que precisam de médicos, e sim os doentes. E algumas pessoas lêem como se nós, cristãos, fôssemos os médicos… Pra mim todo mundo é pecador, eu sou pecador, o homossexual é pecador, o capitalista é pecador. O cristianismo é uma religião inclusiva, surge com mulheres, pobres e escravos. Hoje é como se homossexuais fossem uma segunda classe para essas igrejas. Como eu não vou receber esses caras na minha igreja? Claro que vou! Em termos teológicos, você vê alguns momentos em que Paulo se opõe à homossexualidade, Moisés também cita que a homossexualidade é pecado. Eu compreendo, mas não sei explicar por que é pecado. Por outro lado, todo mundo é pecador, o homossexual é pecador porque o pecado é da natureza do ser humano. Logo, se recebo o homossexual na minha igreja, mas não posso integrá-lo na igreja quer dizer que o meu pecado é menor que o dele por eu ser heterossexual? O que me faz menos pecador que ele? Se o Feliciano pode subir no púlpito e pregar, por que um homossexual não poderia?

Drogas – “Não bebo e não uso drogas, nunca fumei maconha na minha vida. No entanto, acho que o valor primário do cristianismo é a autonomia. E não considero maconha necessariamente uma droga, o problema dela é o mesmo do álcool, do açúcar. Conheço várias pessoas que usam e não têm problemas, da mesma forma que pastores chegam em casa e tomam um copo de vinho para relaxar. Pode fazer mal para a saúde, assim como açúcar faz, assim como comer muita carne. Legalizar é o caminho para minimizar o problema do tráfico.”

Direita X Esquerda – “Eu gosto demais do Jean Willys, ele não deve gostar de mim porque sou crente, mas se eu fosse ele também iria odiar os crentes… Me considero de esquerda, mas não estou filiado a nenhum partido, porque tendo a ter uma visão anarquista das coisas, acho o partidarismo apaixonado um problema, tanto à direita quanto à esquerda.”

Aborto – “Tendo a ser favorável, mas ainda tenho algumas reservas. Acho que ninguém é a favor do aborto, mas acho que ele deve ser tolerado em algumas situações, sobretudo porque tem mulher morrendo. E o aborto já está legalizado no Brasil, só que pra quem tem dinheiro. Quem morre é menina de favela, ou de família conservadora, então sou inclinado a acreditar que é um mal menor descriminalizar o aborto.”

Gays – “O maior mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas, e semelhante a ele é ame ao próximo como a ti mesmo. Como que ama a Deus? Amando o próximo. Jesus fez com que as pessoas se arrependessem de apedrejar a mulher. A sociedade não vê isso porque a maioria dos evangélicos não faz mais isso. Jesus sempre esteve ao lado dos oprimidos, e sem utilizar de violência. Meu sonho é que um dia as pessoas olhem pra mim e olhem pra cruz (indica a que carrega no pescoço) e pensem, esse cara é de bem. Tem um bairro aqui em Curitiba que tem vários travestis e eu passo e sempre penso: ‘Se um dia passar skinhead e bater nesses caras, será que eles vão correr pra igreja?’ Queria que todos pudessem ver as igrejas como um lugar de refúgio, de proteção, que eles pensassem imediatamente ‘não acredito no Deus desses caras, mas vou pra lá porque a minha vida é importante para eles’.”

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Mayara de Oliveira, 19 anos, membro da Igreja Presbiteriana Filadélfia e uma das administradoras da página Cristãos de Esquerda

 

Aborto – “Todas as vezes que tentei falar sobre aborto gerou uma polêmica enorme, então a gente tem que ver pelo ponto de vista racional. A vida começa a partir do final da formação do sistema nervoso, ou seja, a partir dos três meses. Ninguém quer fazer aborto ou acha legal fazer aborto, as pessoas se colocam nessa posição por fragilidade, por não ter condições de criar as crianças e dar direito a vida, mas que vida, a sobrevida? Você deixa ela nascer porque diz que é a favor da vida, mas depois reduz a maioridade penal e assassina crianças na favela, como aconteceu com o menino de 10 anos no Morro do Alemão… São questões mais complexas do que apenas a religião. É uma hipocrisia da sociedade quando nós temos um número altíssimo de mulheres que morrem por aborto todos os anos, e na verdade quem vai morrer é a mulher da favela, não a rica que tem 6 ou 7 mil reais para pagar um procedimento seguro.”

Mulher – “As pessoas esquecem que todo livro tem o impacto cultural da época, temos que saber adaptar isso de acordo com o nosso tempo. Não adianta a gente querer continuar com ideais machistas, oprimindo as mulheres dentro da igreja, impedindo elas de exercer qualquer cargo de liderança. Elas ficam com as crianças, limpam a igreja, mas nunca podem estar à frente, acho que dentro da igreja isso é um dos maiores problemas. A intenção é empoderar as jovens para que elas se conscientizem do quanto isso é uma posição machista da igreja. Temos que desmistificar a mulher submissa, dar autonomia para ela saber que pode se separar, sim, se for abusada dentro de casa. Deus nunca quis que ninguém sofresse. O marido, na verdade, é para ser um complemento na vida da mulher e não mais uma forma de opressão.”

Casamento gay – “Sou a favor do casamento homossexual porque é um direito civil. As pessoas esquecem que as igrejas não vão ser obrigadas a fazer casamento dentro dos templos. O direito é civil, a partir do momento que você opta por estar com outra pessoa você tem o direito de partilhar plano de saúde, herança. É um direito. Acho extremamente complicado querer colocar o dedo na cara do outro, Deus vê a todos com os mesmos olhos, não acreditamos no Deus que pune, no Deus carrasco, Deus ama a todos na mesma medida. A homossexualidade acaba sendo uma coisa muito mais pública do que o cara que é casado e bate na esposa. Existe todo esse medo porque muita coisa do patriarcado se mantém porque o casamento mantém os interesses econômicos. A homossexualidade acaba para essas pessoas soando como ameaça, porque o casamento pode tanto ser uma base pra uma vida boa e estável quanto para manter as estruturas do patriarcado capitalista.”

Fobias – “Sou a favor da PL 122 para criminalizar a homofobia, mas acho que a vivência de racismo é diferente da homofobia. Não acredito em ‘cristofobia’, mas, no meio da esquerda, quando as pessoas descobrem que sou evangélica, um pouco depois de descobrir que sou de esquerda, rola um estranhamento. Então é sempre bom explicar e desconstruir os preconceitos. Acho que rola um estranhamento pelo estereótipo, mas não acredito que seja um preconceito.”

Políticos – “As pessoas não percebem o quanto a igreja é invasiva até ela querer intervir no que você vai vestir, no que vai assistir, se pode assistir ou não à novela… Jesus não gastaria tempo preocupado com o que está passando na TV quando há tantas outras urgências na nossa comunidade. Com o estado laico, é totalmente equivocado termos uma bancada que se diga evangélica, sou contra se candidatarem usando o nome de pastor, sou contra pastores que usam o púlpito como palanque. Eles se dizem contra o estado islâmico, mas querem uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) dizendo que todo o poder emana de Deus. Isso é tão perigoso quanto, abre brecha para perseguições religiosas, abre espaço pra equívocos grandes. O estado é laico e temos que nos preocupar em garantir a liberdade religiosa de qualquer povo.”

Drogas – Sou a favor da descriminalização das drogas, acredito que as drogas são a principal causa do genocídio do povo negro dentro das favelas, e o problema não afeta diretamente o traficante grande, afeta os mais vulneráveis. Não são os riquinhos universitários que vão ser pegos em flagrante e vão tomar tiro da PM. Proibimos há tanto tempo e não tem dado certo, então sou a favor sim da legalização, porque ninguém tem que morrer pelo tráfico.”

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Marina Jacob, 24 anos, advogada, trabalha como pesquisadora na FGV e frequenta a Igreja Batista

 

Aborto – “Foi muito importante para mim ter contato com outras pessoas que estavam debatendo se o aborto é certo ou não à luz da Bíblia. Durante a faculdade, comecei a ter informações que não tinha, comecei a ver que é um problema de saúde pública. Na Idade Média, o aborto era permitido, acreditava-se que até 40 dias o feto não tinha alma. Hoje leio a Bíblia e vejo que não está claro que Deus diz que existe uma alma antes de nascer. A Bíblia não diz que a vida começa na concepção e, ainda que começasse, também não diz que a mulher é obrigada a carregar aquela gestação. Métodos contraceptivos são narrados na história do Velho Testamento.”

Mulher – “Quando a gente tenta conversar sobre o papel da mulher no casamento, muitos conservadores dizem que a mulher é a responsável por cuidar da casa, mas em nenhum lugar da Bíblia está escrito isso.”

Gays – “Conheço feministas cristãs que são lésbicas e estão na igreja tentando desconstruir que a homossexualidade seria pecado. Por mais que a Bíblia diga que pecado é pecado, não entendo como alguém pode se pronunciar radicalmente contra o casamento gay e não se posicionar contra mentira, corrupção etc. Me irrita muito a militância evangélica contra o homossexual, desgasta o relacionamento dos gays com os evangélicos. Foi tanta opressão, tanto absurdo dito por vários pastores, que hoje a gente é visto com desconfiança pelas pessoas. Algumas questões como beijo gay dentro da igreja eu não acho bacana, porque ali é lugar de culto, mas ao mesmo tempo os pastores estão fazendo cultos no Congresso, onde não é lugar de culto. Existem pessoas achando que vai rolar uma censura na igreja (com a lei anti-homofobia), e quem faz esse terrorismo são os próprios líderes religiosos. Como cristã, não entendo o porquê dessa militância heterossexual dentro da igreja. A gente não prega a heterossexualidade, a gente prega Jesus.

Adoção – “Sou super a favor da adoção por casais homossexuais. Não existe uma justificativa para negar. Para adotar, a pessoa precisa provar um milhão de coisas, inclusive estabilidade no relacionamento, então os argumentos contra não tem nada a ver.”

Drogas – “Pra mim a descriminalização das drogas é algo não religioso e acho que a igreja não deveria se meter. Na minha igreja é um tema sensível porque temos um grupo de apoio a dependentes químicos, lá tem muito adolescente que começou com maconha e, como frequentava a biqueira, acabou indo para as drogas pesadas. Tenho dificuldades em entender a legalização de todas as drogas, as pessoas que eu via usando maconha na faculdade eram muito diferentes das que vejo aqui na zona Leste. Acho o movimento muito elitista, porque só pensa em quem está usando e não no garoto aviãozinho. Acho que a legalização da maconha deve acontecer e ser controlada.”

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Julio César de Faria, estudante, 22 anos, da Igreja Congregação Cristã do Brasil

 

Política – “Não vejo problema quando um religioso se envolve com política, seja de maneira direta (se candidatando a cargos eletivos) ou indireta (militando por partidos). O problema é querer transportar os dogmas internos da religião para o restante da sociedade. O regimento interno de uma igreja sempre tem seu direito assegurado pela lei, então é no mínimo incoerente que tais pastores queiram impor suas regras às liberdades alheias.”

Aborto – Sou a favor. Por razões científicas, inclusive. O aborto não é feito deliberadamente como se acha comumente. Há diversos estudos apontando que o começo da vida não se dá imediatamente à fecundação. Sem contar na questão de proteção à vida da mulher que recorre ao aborto clandestino. E outra, onde se libera o aborto, o número de adesão costuma cair bastante, justamente por haver todo um acompanhamento psicológico.

Família – “Minha família entra em conflito constante comigo por essas questões. Eu sempre evito algo mais polêmico em casa, mas tento ser o mais paciente possível e costumam parar pra me ouvir quando eu argumento contra as opiniões deles. Todos nós frequentamos a mesma igreja há aproximadamente 25 anos, mas sempre tive uma inclinação maior à crítica do que o restante da minha família. Nós sempre moramos em bairros periféricos e com 11 anos fui estudar em uma cidade diferente, em um bairro mais nobre, e comecei a conviver com diferenças que não encontrava no meu bairro, com conflitos de classe e de etnia que eu não via em casa. Acho que isso colaborou para que eu entendesse que sempre alguém terá algum privilégio em cima de outra pessoa.”

Direita X Esquerda – “Moro em Diadema, mas desde cedo andei por diversos bairros com melhores condições econômicas, na maioria das vezes para estudar. E via meu pai, que trabalhava sem descanso, de domingo a domingo, mas não tinha as mesmas condições que muitos dos pais dos meus colegas, e achava muito estranho, que o esforço não podia ser o único elemento do sucesso financeiro. Sou de esquerda, muito de esquerda.”

Casamento gay – Não há um único motivo para ir contra a vontade de duas pessoas que se amam ficarem juntas. Minha religião não é o mundo. E eu, particularmente, não concordo com todos os pontos defendidos pelos representantes da minha religião, questões filosóficas, eu diria. Mesmo antes de entrar em contato com certos conceitos, não achava certo que todo o mundo fosse medido pelos olhos da minha religião. Quando se entra no campo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, se digo que a lei não pode discriminar essas pessoas, o contra-argumento mais utilizado é que ‘Deus não gosta de gays, Deus fez Adão e Eva, gays vão para o inferno e não podemos aceitar isso’. É até meio incoerente dizer que Deus não gosta de alguém, né? Como pode o símbolo máximo do amor e da caridade não gostar de alguém, seja lá pelo motivo que for?

 

(Essa é a primeira reportagem de colaboradores que publico nessa nova fase independente. Se você quer ler mais textos assim, assine o blog!)

 

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A direita está certa: devemos imitar os EUA. E legalizar maconha, casamento gay e aborto

Publicado em 5 de agosto de 2014
(Marcha pró-aborto nos EUA. O aborto é legalizado no país desde 1973. Foto: Peter Keegan)

(Marcha pró-aborto nos EUA. O aborto é legalizado no país desde 1973. Foto: Peter Keegan)

Os reacionários brasileiros adoram os Estados Unidos. Costumam passar, inclusive, as férias em Miami o que corrobora seu profundo mau gosto, já que o país é imenso e tem dezenas de outras cidades mais interessantes. Para a direita tupiniquim, os EUA são a Terra Prometida, onde jorra leite e mel. A economia deles é fantástica, a educação, a saúde, o cinema… Eles admiram até a junk food, aquela comida péssima que fez os índices de obesidade irem à estratosfera por lá. Enfim, se dependesse dos reaças, o Brasil imitaria o Tio Sam em tudo. Tudo mesmo? Será?

Claro que não! Existem conquistas dos norte-americanos que a direita brasileira faz tudo para esconder de você. Quando se trata destes assuntos, eles preferem mirar o Irã, o Afeganistão ou qualquer nação islâmica radical onde as mulheres andam de burca e onde tudo é proibido em nome de Deus. A Terra Prometida dos reaças, na verdade, é um mix de Estados Unidos por fora e país fundamentalista por dentro. Uma miragem para enganar trouxa.

Imagine se a reaçada brasileira, que adora macaquear os EUA, iria querer que nós imitássemos, por exemplo, a lei de aborto norte-americana. A obscura direita nativa, que em toda eleição tenta criar celeuma em torno do aborto, prefere ocultar do povo que, na terra de George Bush e Barack Obama, pode-se interromper a gravidez legalmente em absolutamente TODOS os 50 Estados desde 1973. A interrupção pode ser feita até a 22ª semana de gestação e, em 17 Estados, o atendimento ao aborto é realizado pelo serviço público de saúde. Nos demais, em clínicas particulares.

O aborto, além de ser um direito e uma escolha da mulher, é uma questão de saúde pública. Centenas de mulheres morrem anualmente por causa de abortos mal-sucedidos no Brasil, porque, é claro, eles continuam a ocorrer mesmo proibidos por lei. E o número de abortos com a legalização, ao contrário do que a direita costuma dizer, vem caindo a cada ano nos EUA. Segundo um estudo divulgado em março deste ano, o total de abortos praticados nos EUA caiu para o mesmo patamar de antes da decisão da Suprema Corte, em 1973 (leia aqui).

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Outra coisa que nós poderíamos imitar dos gringos: 23 Estados e o Distrito de Colúmbia, onde está situada a capital, Washington, já aprovaram leis descriminalizando o porte de pequenas quantidades de maconha; 22 Estados permitem o seu uso medicinal; e dois deles, Colorado e Washington, legalizaram a maconha inclusive para o uso recreativo.

Um dos argumentos patéticos da direita burra (ups, pleonasmo) contra a legalização da maconha e contra até se discutir abertamente este tema é que existem “assuntos mais importantes” para se tratar. Nada mais falso. A proibição da maconha sustenta o tráfico de drogas e aumenta a criminalidade. Quer assunto mais urgente do que reduzir a violência? Só para se ter uma ideia, em Denver, no Colorado, os crimes caíram em 10,6% apenas cinco meses após a legalização da maconha no Estado.

A legalização da maconha nos EUA também está quebrando o narcotráfico no país vizinho, o México. Outro aspecto importantíssimo: com a legalização, as cadeias dos EUA, as mais populosas do mundo, não vão lotar de meninos negros levados em cana apenas porque fumavam um baseado, como ocorre hoje. O próprio presidente Barack Obama denunciou: “Garotos de classe média não são presos por fumar maconha. Garotos pobres são. E há mais garotos afro-americanos e latinos entre os pobres e com menos condições de se defender para evitar penas duras”. A criminalização da juventude pobre e negra por causa da maconha também ocorre no Brasil. Mas a direita não está nem aí.

Um terceiro item para imitarmos dos norte-americanos: o casamento gay. O governo federal, 21 Estados e o Distrito de Colúmbia reconheceram legalmente a validade dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em junho deste ano, o presidente Barack Obama estendeu todos os benefícios federais do matrimônio tradicional aos casais gays. Isso inclui as leis de imigração: estrangeiros casados com gays norte-americanos passaram a ter o direito de permanecer no país, como acontece com os heterossexuais.

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(Obama e Michelle recepcionam o casal gay Jim Darby e Patrick Bova durante a recepção do Orgulho LGBT na Casa Branca, em junho. Foto: Pete Souza)

O mais interessante é que Obama nem sempre pensou assim. Seu pensamento sobre o casamento gay evoluiu a partir de 2012, quando declarou publicamente: “Em certo momento eu concluí que para mim é importante ir em frente e afirmar que casais do mesmo sexo devem ter o direito de se casar legalmente”. Em junho, durante uma recepção para gays e lésbicas na Casa Branca, Obama disse: “Se nós somos de fato criados iguais, então a maneira que amamos outra pessoa também deve ser igual”.

Portanto, faço aqui um reconhecimento: a direita está certa! Vamos copiar os Estados Unidos já. Eles são realmente um modelo para nós.

UPDATE: em 26 de junho, a Suprema Corte dos EUA aprovou o casamento gay em todo o país.

 

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Meus heróis morreram de Aids

Publicado em 1 de dezembro de 2013

O poeta e cantor Cazuza (1958-1990). Foto: Flavio Colker

Em uma de suas canções mais conhecidas, Ideologia (1988), o cantor Cazuza dizia que seus heróis tinham morrido de overdose. Referia-se a ídolos como Jimi Hendrix, Janis Joplin ou Jim Morrison, todos mortos precocemente pelo uso excessivo de drogas. “Meus heróis morreram de overdose” é uma frase muito forte e verdadeira, mas não para mim. Muitos dos meus “heróis”, pessoas que admirei na vida, que foram modelos de rebeldia, coragem e inteligência, não morreram de overdose. Morreram de Aids. E Cazuza foi um deles.

A Aids entrou na minha vida aos 17 anos, no primeiro ano da faculdade de jornalismo. Era uma época livre, aquela, na Salvador dos anos 1980. Meninos e meninas provavam beijar-se, muitos garotos experimentavam pintar os olhos, a boca. Era proibido proibir. De repente veio a Aids e parou tudo. O Brasil e o mundo retrocederam cem anos em termos sexuais e morais, porque a Aids não era como o câncer, era uma doença que trazia consigo o preconceito; quando surgiu, era anunciada pelos conservadores como um verdadeiro castigo que os céus haviam mandado aos “pecadores”.

Sempre tive muitos amigos homossexuais. Posso dizer, inclusive, que as pessoas que exerceram maior influência intelectual e artística sobre mim são gays. Eu os adoro. E logo a Aids contaminaria um destes amigos queridos, pintor, que morreu, infelizmente, um ou dois anos antes de surgir o coquetel de remédios que mantém o vírus sob controle. Havia tanto desconhecimento sobre a doença neste primeiro momento, que as pessoas tinham medo até de compartilhar talheres e pratos com os infectados. Imaginem que crueldade.

Com o tempo, se foi vendo e informando as pessoas que a Aids não se contagia no vento, tampouco pelo beijo ou pelo abraço, mas sim por relações sexuais sem proteção; pela transfusão de sangue contaminado; pelo compartilhamento de seringas e agulhas; e durante a gravidez e a amamentação (o que já é possível reverter). Nada a ver, portanto, com “pecado”, isso é ignorância pura.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Aids ainda é um dos problemas de saúde mais graves em todo o mundo, sobretudo nos países mais pobres. Existem hoje cerca de 35,3 milhões de pessoas infectadas com o vírus –3,34 milhões delas, crianças. O HIV continua a ser o agente infeccioso mais mortífero do planeta: desde que a doença apareceu, calcula-se que 36 milhões de pessoas tenham morrido em decorrência da Aids. No ano passado foram 1,6 milhão.

Neste 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids, quero homenagear todas as vítimas desta doença nas figuras destas pessoas especiais. Alguns dos que aparecem aqui não são homossexuais e foram contaminados de outras formas que não a sexual. O cartunista Henfil e seu irmão Betinho, por exemplo, eram hemofílicos e contraíram o HIV em transfusões. Mas isso não importa. O que importa é que todos eles eram seres humanos incríveis, gênios que foram levados desta vida, a maioria absurdamente cedo, por uma doença brutal. Saúdo todos eles e digo que sinto saudades.

P.S.: Não deixe que a Aids atrapalhe sua liberdade sexual: use camisinha.

(Clicando nos nomes dos meus heróis, você pode ler entrevistas e reportagens que selecionei sobre cada um deles, em texto e em vídeo.)

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), autor da “História da Sexualidade”. Foto: Bruce Jackson

O cantor e compositor Renato Russo (1960-1996)

O cartunista Henfil (1944-1988), que lutou pela volta da democracia no Brasil. Foto: Aguinaldo Ramos/JB

O sociólogo Betinho (1935-1997), que denunciou a fome em nosso país, era irmão de Henfil. Foto: Dadá Cardoso/Ibase

O músico, escritor e ativista norte-americano Gil Scott-Heron (1949-2011), autor da inspiradora frase: “A revolução não será televisionada”

A linda atriz Sandra Bréa (1952-2000), ídola de infância de muitas meninas no Brasil nos anos 1970

O artista plástico e ativista norte-americano Keith Haring (1958-1990). Foto: Tseng Kwong Chi

(Um link bacana sobre Keith Haring aqui)

O escritor de ficção científica russo radicado nos EUA Isaac Asimov, autor de “Eu, Robô”. Pintura de Rowena Morrill

O músico e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997)

O cantor Freddie Mercury (1946-1991). Foto: Steve Wood

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