Dicas literárias para um Natal vermelho (quinta edição)

Publicado em 6 de dezembro de 2016

É batata: como todo ano tem Natal, todo ano também tem a lista de livros e HQs do Socialista Morena! Porque se é para gastar dinheiro nesta época do ano, que se gaste com livros. Confira aquiaqui, aqui e aqui as listas dos anos anteriores. Você encontra outras dicas literárias do blog também na tag #literatura.

São obras que li ou que estão na minha própria lista de desejos… Lembre-se de voltar a visitar este post: estas dicas serão atualizadas até janeiro. Porque ler nas férias é tudo de bom, não é?

LANÇAMENTOS

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À Sombra do Poder – O jornalista e cientista político Rodrigo de Almeida foi secretário de Imprensa de Dilma Rousseff justamente nos 13 meses que antecederam o golpe. Seu relato é, portanto, de quem assistiu de perto e de dentro a queda da presidenta reeleita com o voto de 54 milhões de brasileiros em 2014. Com uma narrativa envolvente, Rodrigo conta o que viu e como Dilma reagiu a tudo. Traz também perfeitas alfinetadas ao papel da imprensa no período: as recriações feitas pelos jornais não resistem à realidade de quem viu tudo com os próprios olhos. Como o autor não é petista de carteirinha, a narrativa ganha pontos por ser bastante independente, embora cause estranheza no leitor de esquerda que o livro trate Dilma o tempo inteiro como “presidente” e não “presidenta”, como ela preferia ser chamada. Leya, 224 págs., R$39,90.

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Mulheres, Raça e Classe – Obra mais importante da “pantera negra” norte-americana Angela Davis, este livro, publicado nos EUA em 1981, nunca havia sido traduzido no Brasil até agora. O momento é ideal: é inegável a força que têm tido os coletivos de mulheres e de negros na luta contra os golpistas e fascistas instalados em nosso país. No livro, a autora aborda a forma como todas estas lutas estão interrelacionadas: a luta anticapitalista, a luta antirracista, a luta feminista. Nada mais atual diante da eleição de Donald Trump nos EUA e do crescimento de uma extrema-direita igualmente misógina, homofóbica, racista e classista no Brasil. Prefácio de Djamila Ribeiro e tradução de Heci Regina Candiani. Boitempo, 248 págs., R$54.

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A História Não Contada dos Estados Unidos – Escrito a quatro mãos pelo cineasta Oliver Stone e pelo historiador Peter J. Kuznick, o livro atravessa um século para dar a versão não-oficial sobre a trajetória da nação mais poderosa do planeta. O real significado da batalha contra o nazismo, a criação da guerra fria, as agressões dos EUA a outras países, a tradição de espionar o mundo: está tudo lá. Para quem quer ter uma visão da história norte-americana bem distante da que nos é contada pelos arautos do império e pela mídia hegemônica, um livro considerado pelo jornal britânico The Guardian como “o livro de história mais instigante, revelador e intelectualmente provocativo dos últimos anos”. A versão em documentário pode ser vista abaixo, com legendas em português. Tradução de Carlos Szlak. Faro Editorial, 360 págs., R$49,90.

cova312

Cova 312 – Vencedora do prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário este ano, a jornalista Daniela Arbex conta a história real de como, em 1967, as Forças Armadas torturaram e mataram o jovem militante político Milton Soares de Castro, forjaram seu suicídio e sumiram com seu corpo. Daniela não só reconstitui o calvário do rapaz de 26 anos, de seus amigos e familiares, como dá uma incrível contribuição à História: descobre onde estavam seus restos mortais, na anônima Cova 312 que dá título ao livro. Geração, 344 págs., R$39,90.

toureando

Toureando o Diabo  O romance, escrito por Clara Averbuck e ilustrado por Eva Uviedo, foi inteiramente financiado pelos leitores. Camila, personagem central de Máquina de Pinball, livro de estreia de Clara, de 2002, reaparece revirando (e revendo) seus cadernos do passado, cujas anotações são belamente ilustradas por Eva. O livro está à venda exclusivamente na loja das autoras, onde também podem ser comprados desenhos originais. 146 págs., R$50.

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Descobri que Estava Morto  Um belo dia, o escritor J.P. Cuenca descobre que havia morrido: um cadáver fora identificado com sua certidão de nascimento em um edifício invadido no bairro carioca da Lapa. A história surreal acabou virando filme dirigido e estrelado pelo próprio autor este ano: A Morte de J.P.Cuenca. Para quem, como eu, é fascinado por autobiografias farsescas ou ficções da vida real. Tusquets, 240 págs., R$39,90.

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O Que É Que Ele Tem? – Li este livro de uma sentada, numa visita à livraria. Trata-se do relato autobiográfico da cantora Olívia Byington sobre seu filho mais velho, João, que tem a síndrome de Apert, uma condição rara que causa má formação do crânio, mãos e pés. É um relato doce, tocante e forte, onde a autora evita a auto-piedade e adota um tom mais realista (e, inclusive, bem humorado) para lidar com a questão. A orelha do livro é do irmão de João e também filho de Olívia, o cronista e humorista Gregório Duvivier. Objetiva, 184 págs., R$34,90.

CLÁSSICOS

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Casa Grande & Senzala – É preciso sempre voltar a Gilberto Freire como quem recorre a uma Bíblia. Cada vez que eu leio este livro, enxergo novas nuances e descubro outras histórias. Impressionante. Na atual releitura, vejo detalhes sobre a dominação do homem sobre a mulher no Brasil colonial e sobre a escravidão que tinham me escapado das primeiras vezes. Uma das obras fundamentais para conhecer a história de nosso país, sempre, ao lado de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Global, 728 págs., R$58.

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Viva o Povo Brasileiro  Publicado pela primeira vez em 1984, o romance de João Ubaldo Ribeiro se tornou um clássico imediato, ao recontar a história do Brasil durante 400 anos (de 1647 a 1977), no estilo picaresco que marcou a obra do autor. Situado na ilha de Itaparica, terra natal de João Ubaldo, o recôncavo baiano funciona como uma espécie de metáfora do Brasil inteiro, neste épico que perpassa os principais acontecimentos históricos de nosso país, desde a invasão holandesa à ditadura militar. Alfaguara, 672 págs., R$74,90.

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Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes  Para conhecer a história de Fidel Castro por ele mesmo, nada melhor do que esta biografia escrita pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet, resultado de mais de 100 horas de entrevista com o líder da revolução cubana morto este ano. Fidel conta a Ramonet sua trajetória, desde a educação jesuíta de filho de latifundiário até a transformação em guerrilheiro, e dá sua versão sobre as maiores polêmicas de sua vida, como a perseguição a homossexuais e a dissidentes do regime. Apresentação de Fernando Morais e tradução de Emir Sader. Boitempo, 624 págs. (esgotado). No sebo Estante Virtual por R$45.

HQs

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O Enterro das Minhas Ex  Um dos muitos gibis escritos e desenhados por mulheres que li este ano. O quadrinho feminino está cada vez mais em evidência, e a francesa Anne-Charlotte Gauthier é uma das garotas em ascensão numa área antes dominada pelos homens. Nesta HQ, no tom confessional que tem marcado os quadrinhos feitos por mulheres, ela recorre os primeiros anos de sua vida como lésbica, desde a infância à adolescência, com humor e delicadeza. Tradução de Fernando Scheibe. Nemo, 160 págs., R$39,90.

hiphop

Hip Hop Genealogia  Este gibi luxuoso conta nada mais, nada menos do que a história do hip hop em quadrinhos, com o traço incrível de Ed Piskor, herdeiro de Robert Crumb e que ficou famoso por sua parceria com o legendário roteirista Harvey Pekar (American Splendor). Lançado originalmente em 2013, a graphic novel ganhou o Eisner Award, o mais importante prêmio dos quadrinhos, e entrou para a lista dos mais vendidos do New York Times. A caprichada edição brasileira tem prefácio do rapper Emicida e tradução e comentários de Mateus Potumati. Veneta, 128 págs., R$99,90.

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Reportagens – Joe Sacco é o nome que você precisa conhecer quando se trata de reportagens no formato de histórias em quadrinhos. Este gibi reúne suas principais matérias na Palestina, Índia, Iraque e Chechênia. Sobre os chechenos, Sacco é taxativo em responsabilizar o presidente russo Vladimir Putin pela tragédia do país desde que se tornou o braço direito de Boris Ieltsin, na década de 1990. Também chocante seu relato entre os “intocáveis” de Kushinagar, situados no último degrau da sociedade de castas indiana. Tradução Érico Assis. Companhia das Letras, 200 págs., R$49,90.

INFANTIS

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Minimaginário de Andersen  Coletânea de histórias clássicas do dinamarquês Hans Christian Andersen, belamente ilustrada por Salmo Dansa. Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia, Os Sapatinhos Vermelhos, Patinho Feio e Polegarzinha integram o volume adaptado por Katia Canton, que conta ainda com o mais triste conto infantil de todos os tempos, em minha opinião: A Pequena Vendedora de Fósforos. Companhia das Letrinhas, 190 págs., R$44,90.

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Ode a Uma Estrela  O poeta chileno Pablo Neruda delicia os pequenos e os adultos com a delicada (e poética) história do homem que roubou uma estrela do céu. Escrito em 1957, o poema-ficção de Neruda foi traduzido pelo também poeta Carlito Azevedo, com ilustrações da espanhola Elena Odriozola. CosacNaify, 24 págs. (a editora fechou, mas encontrei no sebo Estante Virtual a partir de R$26,30).

 

 

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Os pais dos desenhos animados são quase todos idiotas –mas os homens nem ligam

Publicado em 14 de outubro de 2016
gumball

(A família de Gumball: a mãe Nicole e as crianças Anais, Gumball e Darwin; além do pai, Ricardo, dormindo)

Se tem uma coisa que me intriga é como não incomoda os homens que praticamente todos os pais dos desenhos animados sejam completos imbecis. Imaginem se fizessem isso com as mulheres: se todas as mães dos desenhos que nossos filhos assistem fossem burras, preguiçosas, desastradas e inúteis. Ia ser uma gritaria danada das feministas, com razão. Mas os homens aparentemente nem ligam de ser retratados de forma depreciativa, um anti-exemplo para as crianças em termos de figura masculina. Por que será?

Quem acompanha a nova safra de desenhos sabe do que estou falando. O caso mais recente de “pai idiota” é Ricardo, de O Incrível Mundo de Gumball, desenho superdivertido do canal Cartoon Network. Sim, Ricardo é amoroso e doce com os filhos Gumball, Darwin e Anais. Mas, ao mesmo tempo, é infantilizado até na voz, uma criança a mais da qual a mãe, Nicole, tem de cuidar. E não é por que Nicole trabalha fora e Ricardo toma conta das crianças que o torna um mané, mas o fato de ele ser uma pessoa adulta sem nenhum discernimento ou responsabilidade –por sinal, Ricardo aparece quase sempre dormindo no sofá, com a baba escorrendo pelo canto da boca, enquanto cuida delas.

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Um clássico do “pai idiota” dos desenhos animados é, claro, Homer Simpson. Todo mundo já conhece a peça, famosa por dizer a frase “quando eu cheguei já estava assim” para se defender das burradas que apronta. Homer é um péssimo pai, capaz de esgoelar o filho Bart quando ele, na verdade, repete suas molecagens. Não sabe nem sequer como se chama a filha mais nova, Maggie. Homer é tão idiota que virou parâmetro para o jornalismo da rede Globo: em 2005, o professor Laurindo Leal Filho revelou que o Jornal Nacional só transmite o que “os Homers”, como o telespectador médio do noticiário global era definido por William Bonner, é capaz de entender.

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O mais interessante é que, em contraponto ao pai inútil, todas as mães são sensatas, inteligentes e responsáveis. Nicole, a mãe de Gumball, tem que estar sempre de olho no marido e por isso vive estressada. Sem Marge, a mulher de Homer, provavelmente os Simpsons já teriam sido presos e as crianças, dadas para adoção. E não são só os pais e maridos que são idiotas: a maior parte das figuras masculinas dos desenhos animados seguem os instintos enquanto as mulheres usam o cérebro. Anais, de Gumball, é a inteligente da casa; Lisa, de os Simpsons, idem. Clarêncio, o Otimista, coitado, é quase naïf; o Titio-Avô é um adorável paspalhão.

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A estrela-do-mar Patrick é talvez o personagem mais burrinho dos desenhos animados; o próprio Bob Esponja, protagonista do desenho, não é lá estes gênios todos, né? Já o esquilo Sandy Bochechas é espertíssima, luta karatê e é uma grande inventora.

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É preciso lembrar que nem sempre as séries televisivas e os desenhos animados retrataram os homens como idiotas. Taí o número absurdo de super-heróis do sexo masculino que não me deixa mentir. Houve uma involução. Na minha primeira infância, as famílias das séries que eu assistia na TV eram formadas por pais e mães igualmente inteligentes e sensatos. Lembro de Perdidos no Espaço e Elo Perdido, sitcoms familiares dos anos 1970.

Ao que tudo indica, esta tendência de transformar o elemento masculino no idiota da turma começou com Al Bundy (Ed O’Neill), do seriado Married… with Children (Um Amor de Família no Brasil), de 1987, transmitido pela mesma Fox dos Simpsons, que estrearia dois anos depois, em 1989. O beberrão Bundy, além de tudo, é machista, ao contrário de Homer. Mas é um idiota igual –um idiota hilário, mas idiota.

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Será que estes pais imbecilizados dos desenhos não terão alguma influência sobre esta geração de jovens do sexo masculino imbecilizados que vemos nas redes sociais? Meninos que só se preocupam em “zoar”? Não sei. Mas estes pais da ficção são inegavelmente significativos da paternidade, ou Homer não teria vencido uma pesquisa em 2012 no Reino Unido como “melhor exemplo de pai” (além de pai “mais embaraçoso” e “mais engraçado”).

Outra pesquisa feita em 2013 pelo site britânico Netmums revelou que 93% dos pais acham que a programação infantil não representa os pais da vida real. “Programas de televisão, livros e propaganda que depreciam os pais estão arruinando a percepção das crianças sobre a paternidade”, diz o site. Quase metade dos pais pesquisados (46%) dizem que desenhos animados como Peppa Pig, Simpsons e até mesmo os Flintstones mostram os pais como preguiçosos ou estúpidos.

“Cerca de um terço dos pais (28%) acham que isso é ‘uma forma sutil de discriminação contra os pais’, enquanto 18% foram mais incisivos, dizendo que esta programação faz as crianças acreditarem que os pais são ‘inúteis’ desde a mais tenra idade e que seria ‘um escândalo’ se isso fosse feito contra as mães.”

Não é verdade? Por que será que os pais não reclamam? Vejo tantos homens evoluindo como pais, se dedicando a modificar o papel que o pai sempre teve na família, mas não vejo preocupação deles sobre o conteúdo dos desenhos que seus filhos assistem como certamente aconteceria fosse com as mulheres. Será que acham que é só “engraçado”? Será que faz parte do perfil masculino não se importar com este tipo de coisa? A impressão que eu tenho é de que os homens não gostam de parar para pensar sobre si mesmos. Ou será que os homens possuem uma capacidade maior de rir de si próprios do que as mulheres?

Gostaria de ouvir algumas opiniões.

Um novo estudo, conduzido por Savannah Keenan, pesquisadora da Brigham Young University, nos Estados Unidos, mostra que 40% dos sitcoms para pré-adolescentes da Disney apresentam a figura paterna de forma depreciativa, “de maneira ridícula ou risível”. A cada 3,24 minutos um pai age como idiota nestes programas. A dúvida da pesquisadora é a mesma que a minha: será que estes programas não estão afetando a forma como as crianças do sexo masculino veem seus pais e consequentemente a eles mesmos?

“Nós sabemos como os pais são representados negativamente pela mídia”, disse Savannah em entrevista ao blog da BYU. “Mas não temos muitas pesquisas sobre como estes programas afetam na vida real o comportamento e as atitudes das crianças. Acho que a coisa mais importante que precisamos saber agora é: como isto está afetando nossos filhos? Se os programas de televisão estão retratando os pais como incompetentes –especialmente quando estão direcionados a um grupo em idade tão sensível quanto os pré-adolescentes– o que estas crianças vão pensar sobre seus próprios pais?”

 

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Mulheres invadem um dos últimos clubes do Bolinha: o mundo das histórias em quadrinhos

Publicado em 21 de julho de 2016
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(Da graphic novel L’Inscription, de Chantal Montellier)

Quando a francesa Chantal Montellier começou a se dedicar profissionalmente às histórias em quadrinhos, lá pelos idos de 1972, foi como se colocasse os pés na porta de um dos últimos “clubes do Bolinha” do mundo da arte. Entre as raras exceções naquele ambiente predominantemente masculino estava sua contemporânea Claire Bretécher, que desenhava, na revista de quadrinhos Pilote e na semanal Le Nouvel Observateur uma personagem com o nada lisonjeiro nome de Cellulite, “essencialmente preocupada por seus quilos a mais”, espeta Chantal, autora de uma versão de O Processo, de Franz Kafka, em HQ (Veneta).

“O aparecimento de meus quadrinhos distópicos e com engajamento político teve o efeito de uma bomba. Muitos se sentiram incomodados com minha existência e com o que eu produzia. Algumas reações foram violentas e sofri muitos ataques, para não falar do ostracismo. O mundo das histórias em quadrinhos não é apenas um ambiente machista e sexista, é também muito reacionário”, detona.

O feminismo sem papas na língua de Chantal faria dela, ao longo dos anos, persona non grata em alguns festivais de quadrinhos da França. Não à toa, a quadrinista de 68 anos esteve à frente do protesto contra o Festival de Angouléme, em janeiro deste ano. Os organizadores do festival, um dos mais importantes do mundo, foram acusados de machismo por fazer uma lista de 30 indicados ao Grand Prix sem absolutamente nenhuma mulher. Em 43 edições, aliás, somente uma ganhou o prêmio: a francesa Florence Cestac, em 2000.

Chantal chama Angouléme de Angoul’men. “É lamentável que o festival esteja com séculos de atraso e nas mãos de pessoas que, movidas por interesses sórdidos, impedem que cresça e se torne verdadeiramente inclusivo”, diz. Esta semana, a desenhista comemorou uma vitória. O ministério da Cultura francês anunciou que irá promover uma reforma “de envergadura” na direção do festival. Primeira medida em relação ao Grand Prix: a adoção de paridade homens/mulheres tanto na comissão de seleção quanto no júri.

Nos últimos anos, as histórias em quadrinhos, que andaram em baixa após o boom dos anos 1980, voltaram a ganhar espaço no mercado editorial e as mulheres vieram com uma força inédita. Algumas se tornaram bestsellers, como a série autobiográfica da franco-iraniana Marjane Satrapi, Persépolis, que ganhou versão para o cinema em 2007, vencedor do prêmio do júri no festival de Cannes daquele ano.

Fun Home, da norte-americana Alison Bechdel, foi adaptada para um musical da Broadway ganhador de cinco prêmios Tony, inclusive o de Melhor Musical, no ano passado. A quadrinista dá nome ao “teste de Bechdel”, para catalogar filmes não-sexistas: se tem duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja homem, passa. Boa parte das obras de Hollywood falhou no teste.

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(Fun Home, Alison Bechdel)

Muitas destas autoras estrangeiras podem ser lidas em português. A editora Nemo, por exemplo, tem trazido algumas boas novidades, como a norte-americana Julia Wertz (Entre Umas e Outras), as francesas Pénélope Bagieu (Uma Morte Horrível)  e Margaux Motin (Placas Tectônicas) e a equatoriana radicada na Colômbia Power Paola (Vírus Tropical).

Cada uma com seu jeito de desenhar e de narrar. Julia se preocupa menos com o traço e mais com a história. Seu delicioso humor autodepreciativo lembra Peter Bagge (Ódio) e de fato ela diz ter bastante influência do criador de Buddy Bradley, que inclusive escreveu o prefácio da série com a qual estourou, The Fart Party Volume I (traduzindo: A Festa do Peido!!!).

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(Entre Umas e Outras, de Julia Wertz)

Pénélope parece docinha, mas é aparência: a protagonista Zoé, com seus olhos enormes de cervo desprotegido e jeitinho de Amélie Poulain, engana. Mas o final é surpreendente.

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(Uma Morte Horrível, de Pénélope Bagieu)

Vírus Tropical, de Power Paola, traz toda a carga dramática da latinidade numa história de mulheres, mãe, irmãs, filhas. Um bildungsroman (romance de formação) feminino, em quadrinhos.

(Vírus Tropical, de Power Paola)

(Vírus Tropical, de Power Paola)

Margaux Motin é a mais girlie das quatro, mas também muito engraçada.

(Placas Tectônicas, de Margaux Motin)

(Placas Tectônicas, de Margaux Motin)

Delas, só Pénélope escolheu a ficção. As outras três quadrinistas, como muitas das mulheres que publicaram HQs recentemente, têm em comum uma narrativa mais autobiográfica do que ficcional, ao contrário do que se vê nos machíssimos gibis de super-heróis. O que me provocou a vontade de fazer a mesma pergunta a todas as mulheres quadrinistas com quem eu conversei: afinal, existe um jeito “feminino” de fazer quadrinhos e um jeito “masculino”?

“Mulheres e homens não possuem o mesmo sexo nem o mesmo lugar na sociedade nem a mesma história nem as mesmas possibilidades de se realizar, então não podem ter o mesmo imaginário”, diz Chantal. “Parece que as mulheres criadoras preferem quadrinhos de não-ficção, mas isto está mudando, com a aparição de mais quadrinhos de ficção feitos por elas. Eu acho que a maioria das mulheres simplesmente não se identifica com os quadrinhos de superheróis, mas todos os outros gêneros lhes interessam. E isto irá continuar a se expandir à medida que mais tipos de quadrinhos aparecerem, então não isso não será assunto a ser questionado”, opina Julia Wertz.

“Isso da ‘narrativa feminina ser mais autobiográfica’ é a maior falácia que eu escuto, e escuto mais vezes do que eu gostaria”, dispara a cearense Sirlanney Nogueira, criadora da página Magra de Ruim, com mais de 170 mil seguidores no facebook. “Quem fala isso deve desconhecer toda a obra do Henry Miller, do Bukowski, do Jonh Fante e toda a literatura beatnik, só para citar alguns. Mas se você divide o mundo na concepção binária ‘masculino vs. feminino’, temos algo para falar sobre o delicado, as cores, os temas mais comuns do ‘universo feminino’ que estão ausentes no que comumente chamamos de ‘universo masculino’. Se for assim, Alphonse Mucha é uma mulher! Com todas aquelas flores… E não só ele como também a Art Nouveau inteira seria feminina… O que  eu  quero dizer é que esses conceitos que geralmente colocam a ‘literatura feminina’, ou ‘quadrinhos femininos’ como um subgênero, são muito equivocados.”

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(Magra de Ruim)

Power Paola: “Creio que cada vez há menos diferença. Conheço muitos homens desenhistas que poderiam dizer que seu desenho é feminino e que utilizam temas autobiográficos ou pessoais. Eu já não vejo muitas diferenças, sobretudo nos quadrinhos que leio”.

Outro assunto que tampouco gera unanimidade entre as mulheres quadrinistas é o incômodo de algumas feministas com o traço “objetificador” de gênios dos quadrinhos do sexo masculino, como o italiano Milo Manara, alvo de protestos em 2014 por desenhar uma Mulher Aranha com um bumbum “excessivamente” voluptuoso –Manara, no entanto, foi um dos primeiros a se levantar contra a exclusão de mulheres quadrinistas em Angouléme, e pediu para que seu nome fosse excluído da lista de indicados ao Grand Prix. Haveria certo exagero nas críticas aos desenhistas homens e a forma como sensualizam as figuras femininas em sua obra?

“Com certeza isso existe, mas eu não ligo, me parece um sinal da imaturidade deles e eu brinco a respeito. Também não acredito em ficar patrulhando cada pequena coisa em termos de politicamente correto”, diz Julia. “Pode ser que muitos homens desenhem as mulheres enfatizando seu corpo, mas para mim não é esse o problema e sim quando os personagens femininos caem em estereótipos e clichês de como as mulheres somos, e isso eu vejo tanto em desenhistas mulheres como em homens”, opina Power Paola.

“Quando li a declaração do Manara, eu ri pra não chorar”, rebate a gaúcha Fabiane Langona, autora da Chiquinha. “Qualquer um que não seja cego pode claramente perceber. Existem diversas formas de enfatizar o corpo feminino. Uma é colocando a mulher numa posição apenas objetificada (algo que pessoalmente chamo/generalizo como quadrinhos para fins masturbatórios) e outra é tratando o mesmo com uma suave realidade: pelos, gorduras, sangue. Essa é a ênfase que procuro dar. A ênfase em um feminino sem esse véu de divindade e perfeição. O feminino que eu enxergo. Claro, com suas belezas, mas com sua escrotidão. Proporcionais.”

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(Desenho da Chiquinha)

Sirlanney concorda. “É notória a desumanização da mulher nas HQs da grande indústria. Elas são o tempo todo representadas como presas sexuais. Essa objetificação e julgamento a partir da aparência pretendem tirar nossa complexidade e valores como seres humanos, para prevalecer o poder do homem sobre nossos corpos”, diz. “Os caras reclamam e dizem que é exagero e que também tem os corpos idealizados pelos quadrinhos de super heróis. Mas a verdade é que se você pegar o Manara, por exemplo, o homem está livre de qualquer idealização física, enquanto ele perpetua a humilhação da mulher e o abuso físico como uma arte erotizada.”

Fabiane torce o nariz até mesmo para a própria “ausência” da mulher na história da história em quadrinhos. “Não acho que as mulheres ‘demoraram’ para fazer quadrinhos e me entristece demais esta visão. As mulheres realmente demoraram para fazer quadrinhos ou historicamente foram mantidas anônimas e isoladas como parte de um padrão sociocultural onde a arte produzida por homens sempre obteve maior visibilidade e respeito?”, questiona.

Ela exemplifica com o fato de, durante a primeira metade do século 20, grande parte das autoras de histórias em quadrinhos usarem pseudônimos masculinos ou andróginos para evitar a rejeição aos seus trabalhos e alavancarem as vendas. “June Mills, criadora da Miss Fury, assinava com uma versão de seu nome do meio, Tarpé, isso em 1941. Marjorie Buell, criadora da extremamente popular Little Lulu (Luluzinha entre nós), assinava como Marge. Só fui descobrir, com alegria extrema, que tratava-se de uma moça autora depois de adulta”, diz Fabiane. Quem diria, a criadora do “clube do Bolinha” era mulher!

Outra boa lembrança de Chiquinha é Nair de Tefé (1886-1981), primeira cartunista brasileira e considerada uma das pioneiras em todo o mundo, que usava um pseudônimo ambíguo: seu nome ao contrário, Rian. Muita gente pensava que era um homem… “Ainda com foco no Brasil, posso citar a grande artista-musa-heroína-modernista Pagú, que em 1931 já havia se arriscado no universo dos quadrinhos. Sua personagem, chamada Kbelluda (o nome em si já é maravilhoso!), trazia acidez e humor também focado na política da época.”

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(Tira de Pagu)

Seja como for, é inegável que as mulheres quadrinistas vêm ganhando cada vez mais visibilidade, o que se traduz também em espaços específicos para elas, como o site Lady’s Comics, mantido por três amigas fãs de quadrinhos justamente para divulgar a produção feminina, tanto nova quanto antiga. “No ano passado lançamos o primeiro volume da revista RISCA! para resgatar e reafirmar a multiplicidade de traços, mulheres, lutas políticas e produções de autoras da década de 1960, registrando essas autoras em impresso para fixar na memória das pessoas que quadrinho não é apenas para o público masculino, hetero e branco ou apenas infantil. É para todos”, diz Samanta Coan, uma das criadoras do site, que hoje funciona como coletivo. A internet tem sido uma aliada preciosa: muitas meninas publicam suas HQs primeiro online e depois migram para o papel.

As garotas do Lady’s Comics produziram um pequeno documentário bem bacaninha com esta nova cena de mulheres quadrinistas no Brasil no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Belo Horizonte, em 2015. São dezenas de novas autoras, impressionante.

Perguntei à Mariamma Fonseca, do Lady’s Comics, se ela acha que o universo das histórias em quadrinhos é machista. “O mundo é. Não seria diferente nas HQs.”

Mas está mudando.

 

 

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