Aos meus leitores

Publicado em 9 de janeiro de 2017
(Greta Garbo em Ninotchka, de 1939)

(Greta Garbo em Ninotchka, de 1939)

Há quase dois anos, anunciei a independência do blog e, desde então, tenho conseguido realizar o sonho de fazer jornalismo honesto e progressista, tendo como único patrão os leitores. Neste ano que passou, foi possível concretizar o primeiro e maior dos objetivos: garantir que o blog se sustente a si próprio e a mim, ainda que modestamente, graças às assinaturas.

Em 2017, o blog irá avançar para uma segunda etapa, e se transformará num pequeno site de notícias com viés de esquerda. Para que isso se concretize, o Socialista Morena passará a republicar matérias de blogs afins, além de traduções de conteúdos estrangeiros com copyright livre (creative commons). Como não é possível continuar fazendo tudo sozinha, pretendo contar com o apoio de um estagiário. Logo, logo, anuncio a seleção para os estágios, que terão certificado e remuneração específica.

Com as novidades, o visual do blog também será modificado para dar uma cara de “portal” ao conteúdo, com novas editorias somadas às atuais. O site continuará a privilegiar ideias em vez dos fatos do dia a dia, mas as notícias cotidianas terão mais espaço neste novo formato, com um olhar progressista sobre os acontecimentos do momento: o Socialista Morena irá “explicar” a notícia para que o leitor possa “entendê-la” do ponto de vista da esquerda, não apenas lê-la.

Ao contrário da mídia comercial, todos os conteúdos continuarão abertos aos leitores, independentemente de serem assinantes ou não. Como a premissa máxima do Socialista Morena é compartilhar conhecimento, função social do jornalismo esquecida por nossos jornais, o futuro site não colocará empecilhos financeiros para acessar os textos. Nada de paywall, este blog é para todos. Assina quem pode, porque acha importante e deseja que continue existindo. Subverte-se, assim, a lógica capitalista do jornalismo onde só pode ler quem compra/assina.

Ninguém sabe como as novas mídias sobreviverão com a internet –nem mesmo a velha mídia sabe se irá sobreviver… A fórmula de financiamento pelos leitores foi a que escolhi e tem dado certo. Como antes se assinavam jornais e revistas, agora assinam-se mídias digitais. É mera mudança de hábito, mas com uma diferença fundamental: com tanta oferta, tenho certeza que as pessoas só assinarão veículos com os quais se sintam representados. E isto a velha mídia brasileira já não tem a oferecer a uma parte substanciosa da sociedade que não é de direita, como se posicionam todos os jornais, TVs e revistas.

O “modelo de negócio” das mídias progressistas não se inspira em empresas familiares cujos herdeiros exploram jornalistas e apoiam golpes de Estado no país há 100 anos, mas nas experiências horizontais que vêm surgindo pelo mundo, onde todos os jornalistas são de fato colegas, remunerados de forma igualitária. Estou convencida de que, juntos, podemos construir estas novas mídias e fazer por nós mesmos a democratização dos meios de comunicação que os coronéis midiáticos nunca permitiram que acontecesse no Brasil.

Se você acredita, curte e quer apostar no futuro do Socialista Morena, assine o blog.

 

 

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Glenn Greenwald: “Snowden é a pessoa mais feliz que eu conheço na vida”

Publicado em 12 de dezembro de 2016
glennsnowden

(Os reais Snowden e Greenwald no quarto de hotel em Hong Kong no documentário CitizenFour; e o ator Zachary Quinto como Greenwald no filme de Oliver Stone)

Para um repórter brasileiro, o filme Snowden, de Oliver Stone, em cartaz nos cinemas, traz uma sensação a mais: uma pontinha de inveja causada pelo fato de que estamos, há décadas, praticando um jornalismo chinfrim por aqui. Ver na tela grande Glenn Greenwald, a documentarista Laura Poitras e o chefe do escritório em Washington do jornal britânico The Guardian, Ewen MacAskill, em um quarto de hotel em Hong Kong, na China, com o “espião” Edward Snowden, tendo em mãos um super-furo, traz uma espécie de nostalgia de um jornalismo que, em nosso país, nunca existiu.

De 1990 até agora, talvez a reportagem mais globetrotter feita por um jornalista brasileiro tenha sido a entrevista com o finado Paulo César Farias, o tesoureiro de Fernando Collor, que Xico Sá conseguiu localizar no porão de uma cadeia em Bancoc, na Tailândia, para a Folha de S.Paulo. Imaginem Xico com as possibilidades de hoje, acompanhado de um documentarista, transmitindo ao vivo pela internet. Mas a questão não é de falta de tecnologia: este tipo de reportagem não se faz mais porque os proprietários de jornais são absurdamente muquiranas.

Ao longo dos anos, com a suposta crise nos meios de comunicação causada pela internet, em vez de rever seu modelo de negócio, as empresas jornalísticas simplesmente cortaram as reportagens. Cortaram em termos de custos, como quem corta na carne (porque a reportagem é a alma desta profissão). Quando pisca o sinal vermelho nas redações, o primeiro que eles cortam são: os melhores profissionais; e as viagens para fazer reportagens especiais. Acho que se pintasse um Snowden na vida de um jornalista brasileiro hoje a direção iria mandar entrevistá-lo pelo telefone, para economizar.

A reportagem de Glenn Greenwald com Ed Snowden, o denunciante da espionagem norte-americana sobre os países do mundo, resgata o que de mais grandioso já houve no jornalismo, histórias que não estarão no dia seguinte embrulhando o peixe porque são inesquecíveis. Jornalisticamente falando, um furo no mesmo patamar do caso Watergate, de Bob Woodward e Carl Bernstein. Só não derrubou um presidente porque o sistema não permitiu.

Oliver Stone cria exatamente esta atmosfera de “furo do século” em seu filme, sobretudo nas cenas que se passam no quarto de hotel. Snowden evolui de coxinha fã de Ayn Rand a sabotador de uma nação poderosa e da pretensão dela de controlar os destinos e as vidas dos cidadãos de todo um planeta. Os paralelos com 1984, de George Orwell, e seu Big Brother, são inevitáveis: Ed Snowden, está claro, poderia ter sido o chefão da polícia do pensamento, mas desertou. Também inevitável a compreensão de que já estamos dentro da matrix.

Na sessão que assisti em Brasília, uma sessão normal, Snowden foi aplaudido ao final. Aparentemente, os brasileiros marcaram opção “b” para a pergunta feita no subtítulo que deram por aqui: Traidor ou Herói? Fiquei muito curiosa em conhecer a opinião de Greenwald sobre o filme e o entrevistei para o blog por email.

Socialista Morena  O que você achou do filme? Oliver Stone o consultou para o roteiro?

Glenn Greenwald – Gostei mais do filme do que esperava. É difícil fazer um filme sobre a vida de Snowden, porque muito do que ocorreu se passou internamente, dentro dele, mas o filme faz um grande trabalho mostrando o que o levou às suas grandes decisões. Eu e Oliver nos conhecemos desde antes dos acontecimentos com Snowden, e realmente conversamos durante o processo. Mas, como outro estúdio e outros produtores compraram os direitos do meu livro para fazer um filme, não pude ter nenhum envolvimento neste projeto.

SM – Como foi se ver retratado na tela grande? Achei que o jeito do ator Zachary Quinto lembra muito o seu, “reconheci” na hora…

GG  O que mais me surpreendeu ao assistir este filme foi me dar conta de como eu reagi emocionalmente a muitas das cenas. Quando elas de fato aconteceram, não tive o tempo ou a energia para reagir em termos emocionais, porque o nível de estresse era alto e tínhamos muito a fazer. E ver isto dramatizado foi a primeira oportunidade que tive para reagir de verdade. Acho que Zach é inteligente e um grande ator. Ele fez um bom trabalho, apesar de ser difícil julgar quando é você que está sendo interpretado. Acho que alguns dos comportamentos dele foram um tanto exagerados eu não cuspo ou grito nem mesmo quando tenho desentendimentos!, mas isto capturou bem como estavam altas as temperaturas naquele momento.

SM – É uma história trepidante, sobretudo com vocês em Hong Kong naquele quarto de hotel. Foi assim mesmo? O filme é fiel à realidade?

GG – O documentário que foi feito sobre a nossa viagem de trabalho em Hong Kong, CitizenFour, que ganhou o Oscar, era um pouco mais realista sobre o que aconteceu quando nós todos estivemos no quarto de hotel juntos, porque o documentário mostrou a filmagem real do que estava acontecendo. Algumas partes de Snowden foram dramatizadas, mas as partes em Hong Kong foram bastante fiéis ao que realmente aconteceu.

SM – O jornal britânico The Guardian de fato hesitou em publicar a história? Houve um momento em que você pensou em soltar a reportagem por sua conta, como mostra o filme?

GG  Naquela época, eu estava superansioso para ver as reportagens no ar imediatamente em parte porque eu achei que nós estaríamos mais seguros quando elas viessem à tona; em parte porque eu sabia que nós não teríamos Snowden por muito tempo e queríamos que ele visse estas histórias publicadas; e em parte porque eu achava que o público tinha o direito de saber. Então eu estava muito sensível a qualquer atraso ou medo por parte do Guardian. Na época, achei que estávamos demorando muito, e ameacei publicar os documentos e as matérias por minha conta. Vendo em retrospectiva, eles na verdade foram bastante rápidos! Estavam sendo um tanto cautelosos, mas mostraram também muita disposição em publicar. Foi só o estresse do momento e minha impaciência que me fizeram querer que fossem mais rápidos.

SM – Vi críticas muito adversas sobre Snowden. A pior delas foi justamente a do Guardian… Você acha que tem alguma relação com a versão do filme sobre o jornal?

GG – O filme foi baseada em um livro de um repórter do Guardian que na verdade nunca encontrou ou nem mesmo falou com Snowden, então este foi um motivo de crítica. Mas eu acho que o filme conseguiu captar a maior parte dos acontecimentos, graças, em grande parte, ao fato de Oliver ter passado muitas horas entrevistando diretamente Snowden para o filme. 

SM – Tem uma frase no filme que me impressionou muito: “As pessoas preferem segurança do que liberdade”. Você concorda?

GG – Eu acho que o medo humano é uma força muito poderosa, e os governos autoritários frequentemente exploram isso para justificar seu poder crescente. Se você convence as pessoas que suas vidas dependem de submissão, elas irão concordar com quase tudo. Mas o desejo por liberdade e privacidade é um instinto humano muito poderoso também. É um pouco mais difícil conseguir que as pessoas se preocupem com isso, mas eu acho que a maior parte dos humanos almeja privacidade e liberdade e não quer que elas sejam eliminadas, até mesmo em nome do medo de coisas como terrorismo.

SM – Na sessão que assisti em Brasília, fiquei surpresa ao ver a plateia aplaudir no final. Você acha que, para o mundo, Snowden é de fato um herói, daí os aplausos?

GG – Snowden é esmagadoramente considerado herói na maioria dos países. É provável que isto seja particularmente verdadeiro no Brasil, porque nós escrevemos grandes histórias aqui sobre os EUA e o Reino Unido espionando as instituições brasileiras e a população como um todo. Acho também que os brasileiros são mais sensíveis ao tipo de invasão norte-americana exposta nestas matérias. Nunca ouvi nada além de cumprimentos vindo de brasileiros enquanto eu estava contando essa história no Fantástico e em outros jornais e revistas. Daí porque, em minha opinião, a maioria dos brasileiros vêem Snowden tão favoravelmente: ele lhes mostrou como os EUA estavam invadindo sua privacidade e sua soberania.

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(A trupe completa: Poitras, Snowden, MacAskill e Greenwald no filme de Oliver Stone)

SM – A história tem um “happy end”. Snowden é hoje um homem feliz, realizado?

GG  Snowden é provavelmente a pessoa mais feliz que conheço na minha vida. É uma coisa estranha para se dizer já que ele não pode sair da Rússia, e sabe que, se o fizesse, seria imediatamente capturado pelos EUA e colocado na prisão por muitas décadas. Mas ele pode colocar a cabeça no travesseiro toda noite e saber que teve um corajoso ato de consciência na busca do que acredita. Isto traz um monte de paz. O fato de que ele é livre para participar do debate que ajudou a desencadear com entrevistas, palestras, artigos é ainda melhor.

SM – E você? Sua vida melhorou após revelar ao mundo que os EUA o espionava?

GG – Quando eu entrei no jornalismo, 11 anos atrás, foi para realizar exatamente este tipo de reportagens. Há vários custos e perigos envolvidos em fazer matérias assim, mas também vários benefícios. A maior recompensa é saber que eu fiz o que um jornalista deveria: informar o mundo jogando luz sobre o que os mais poderosos estão fazendo. Saber disso me traz uma enorme alegria.

 

 

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O cinismo da mídia: PATROCINAM o golpe e agora CRIMINALIZAM manifestantes pró-Dilma

Publicado em 2 de setembro de 2016
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(Deborah Fabri, atingida pela PM no protesto em São Paulo. Foto: Mel Coelho/Mamana Foto Coletivo)

Os três jornalões em estado pré-falimentar se uniram para atacar os manifestantes que, em todo o país, estão indo às ruas para protestar pacificamente contra o golpe parlamentar que arrancou do cargo uma presidente da república legitimamente eleita. Repetem assim o papel sujo que tiveram em 1964 de não só promover o golpe como legitimá-lo, criminalizando a oposição. Qual será a próxima etapa? A Folha emprestar veículos para transportar jovens aos porões da tortura?

As palavras se repetem nos textos furibundos dos jornalões, que soam como ameaça aos indignados que desejam ocupar as ruas. “Baderna”, “vandalismo”, dizem sobre os protestos em São Paulo, que já duram quatro dias. Quanta diferença no tratamento que davam às manifestações verde-e-amarelas contra Dilma Rousseff durante os dois anos que duraram seu segundo mandato! Antes, eram “atos cívicos”, “festa da democracia”. Agora viraram “coisa de vagabundos”.

O governo de São Paulo, que nos protestos da burguesia paulistana anti-Dilma liberou as catracas do metrô para quem nunca antes utilizara transporte coletivo, age de forma oposta com os manifestantes contra o governo golpista de Michel Temer. Está dificultando o acesso das periferias às zonas centrais e decidiu simplesmente proibir que os manifestantes se reúnam na avenida Paulista no domingo. A ordem no palácio dos Bandeirantes, isto está claro, é reprimir os movimentos contra o governo. E reprimir com violência.

Todos os relatos sobre a manifestação de anteontem em São Paulo coincidem que a caminhada vinha pacífica pela Consolação até que a Polícia Militar começou a jogar bombas de gás lacrimogêneo nos participante. Não por acaso, os policiais paulistas estiveram até outro dia sob o comando de Alexandre de Moraes, que saiu da secretaria de segurança de Alckmin direto para o ministério da Justiça de Temer. E a PM de Moraes se mostra pouco preparada para atirar com balas de borracha: miram na cabeça das pessoas, quando o correto seria mirar abaixo do pescoço, de preferência nas pernas, a uma distância de mais ou menos 20 metros, ou pode ser fatal.

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(Reprodução: facebook do fotógrafo Sérgio Silva)

Foi assim que um fotógrafo perdeu um olho nas manifestações de junho de 2013, ao tomar um balaço de borracha no olho, à queima-roupa –e a polícia ainda foi inocentada de lhe pagar indenização. No dia 31, no protesto em São Paulo, uma garota de 19 anos, estudante universitária, teve o olho ferido por estilhaços e também corre o risco de ficar cega. Dois fotógrafos foram presos sem motivo e um deles teve o equipamento inteiramente destruído. Um advogado em Caxias do Sul foi agredido por policiais após a manifestação ter se dispersado. Revoltado, o filho dele acabou dando um chute na cabeça de um dos policiais. Violência gera violência.

Depois de patrocinar o golpe contra Dilma, agora a mídia chapa-branca clama por “pacificação”, a mesma que foi incapaz de promover após as eleições em 2014. Ora, para temos paz seria preciso que a imprensa condenasse com veemência a violência policial e mais ainda, que exigisse dos comandantes da PM orientar seus subordinados no sentido de proteger os manifestantes, exatamente como atuou em relação aos que faziam selfies na Paulista com fardados –em vez de mandar descer o sarrafo, que sem sombra de dúvidas é a ordem emitida aos policiais ao se dirigirem aos protestos desde que derrubaram Dilma.

(Se você é um dos que perguntam por que nos protestos de direita não acontecem confrontos, esta é a resposta: porque em relação à direita, a ordem recebida é tratar os manifestantes como príncipes. Para a esquerda, sobram tiro, porrada e bomba.)

Ao invés disso, os jornalões estimulam a PM a ser violenta com os manifestantes. Repare nas palavras escolhidas pelo Estadão, o panfleto reacionário dos Mesquita, em seu editorial. “Cabe às autoridades constituídas reprimir a baderna e impedir que a desordem se torne rotina. É preciso saber distinguir o legítimo e democrático direito a manifestação no espaço público da baderna que atenta contra o direito da população de viver seu cotidiano em paz. No primeiro caso, o poder público tem o dever de oferecer aos cidadãos a garantia de se manifestar pacificamente. No segundo, tem a obrigação de impedir a ameaça potencial ou a ação daqueles que infringem a lei. A baderna nas ruas, longe de ser uma forma legítima e democrática de manifestação popular, é um grave atentado ao direito fundamental que os cidadãos, o povo, têm de viver em paz.”

A Folha vai além e, sob pretexto de mirar os black blocs, chama os manifestantes pró-Dilma de “fascistas”, como se os fascistas de verdade não fossem os que marchavam em favor do golpe nas ruas ou os que estão aboletados como colunistas no próprio jornal. “Grupelhos extremistas costumam atrair psicóticos, simplórios e agentes duplos, mas quem manipula os cordéis? O que pretendem tais pescadores de águas turvas? Quem financia e treina essas patrulhas fascistoides? Está mais do que na hora de as autoridades agirem de modo sistemático a fim de desbaratá-las e submeter os responsáveis ao rigor da lei.”

O Globo, em tom de ameaça, mira os simpatizantes do bolivarianismo em editorial intitulado Para Que Nunca Mais Haja Impeachment. “O fortalecimento não é apenas das cláusulas da responsabilidade fiscal, mas da Constituição como um todo, para desaconselhar de vez projetos bolivarianos como o do lulopetismo. Serve de aviso geral à nação.” Cinicamente, o pasquim dos Marinho afirma que não houve ruptura institucional no país, ignorando as ruas em chamas. “É de notável ineditismo, na América Latina, o fato de esses incidentes institucionais no país serem contornados sem as rupturas clássicas na região.”

É mais curiosa ainda a súbita condenação pelos jornais das manifestações de rua no país quando se sabe que, nos últimos anos, a imprensa brasileira tem apoiado e promovido protestos violentos na vizinha Venezuela –e criticado duramente o governo de Nicolás Maduro por reprimi-los. Agora que as manifestações contra o governo ressurgem no Brasil por parte da esquerda, a mídia decadente quer carimbá-las como “baderna” ou “desordem”. Mentira. Nada mais natural que os ânimos estejam acirrados, afinal há golpistas e golpeados, e estes têm todo o direito de estarem bastante zangados com o que ocorreu com Dilma.

O país caminha a passos rápidos para a convulsão social. A esquerda brasileira não aceita que corruptos patrocinados pela mídia tenham deposto uma mandatária honesta. Temos todo o direito de nos manifestar cotidianamente contra um governo que não reconhecemos como legítimo. Não adianta a imprensa burguesa tentar culpar Dilma ou Lula pelas manifestações contra Temer. Não se pode reverter os fatos e passar a culpar as vítimas. A mídia é co-partícipe deste golpe e, já que ela considera o governo de Temer legítimo, tem a obrigação de reconhecer que protestos contra ele também o são. Ao pintar manifestantes de esquerda como párias, é a imprensa, e não Lula ou Dilma, quem incita o ódio.

Ao referendar a violência policial contra manifestantes, a mídia só reforça a impressão de grande parte da imprensa internacional, a de que o Brasil passou por um processo de impeachment às margens da legalidade –não se pode esquecer que a mesma OEA que condenou Maduro também condenou o processo de impeachment de Dilma. A repressão fortalece o sentimento de que vivemos sob um regime TEMERário onde se manifestar livremente contra o governo é proibido, da mesma forma que sempre criticaram no Irã ou em Cuba. Alguém aí falou em ditadura?

UPDATE: agora o blogueiro da Veja pede PRISÃO do líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), Guilherme Boulos. Aqui.

UPDATE 2: o caquético jornal dos Mesquita volta à carga contra os manifestantes, contra Dilma e contra o PT. Leia.

 

 

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