Luther King: de perseguido por ser “comunista” a garoto-propaganda de camiseta reaça

Publicado em 4 de abril de 2017
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(A camiseta onde o MBL compara o vereador Fernando Holiday a Martin Luther King)

De 1963 até seu assassinato há 49 anos, em 4 de abril de 1968, Martin Luther King Jr. foi perseguido e investigado pelo FBI sob a acusação de ser “comunista” e de ter atividades “antiamericanas”. Ideologicamente situado à esquerda do Partido Democrata, o reverendo King passou a vida tendo que desmentir a todo momento ser comunista, embora nunca tenha demonstrado publicamente simpatia pelos soviéticos. A desculpa do governo dos Estados Unidos para espioná-lo durante anos foi sua amizade com um homem que teria ligações com o Partido Comunista Americano.

Todas as falsas “descobertas” do FBI eram fornecidas a repórteres com a intenção de desacreditar King. As fitas com todas as gravações feitas com ele só viriam à tona em 2002. Em 2014, o jornal The New York Times revelou na íntegra uma carta de 1964 em que o FBI chamava o reverendo de “besta do mal” e lhe fazia toda sorte de insultos racistas, inspirado pelo chefão da agência, J. Edgard Hoover, para quem King era “o mais notável mentiroso da nação”.

A carta vinha acompanhada de uma fita onde os agentes o chantageavam com gravações de supostos casos extra-conjugais. A intenção, o reverendo disse a amigos, era fazer com que ele se matasse. “Há algo que você tem de fazer, já sabe o que é. Não se pode crer em Deus e agir assim”, dizia um trecho. Quatro anos depois, King seria assassinado em circunstâncias que permanecem suspeitas.

Em 1965, bem no clima “escola sem partido” da direita brasileira atual, o reverendo teve de se explicar a jornalistas por ter ido a um colégio no Tennessee acusado de ser uma “escola de treinamento de comunistas”. Em cartazes espalhados pelo Alabama durante as marchas pelos direitos humanos de Selma a Montgomery, em 1965, Martin Luther King aparece sentado na tal escola, que ele defendeu como um local apoiado por “grandes norte-americanos”, a exemplo da ex-primeira-dama Eleanor Roosevelt.

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(Foto: William Lovelace)

Mas afinal: Martin Luther King era ou não comunista? Não, não era. King tinha várias discordâncias com Marx, a quem leu com atenção, mas preferia Cristo enquanto ideal de revolucionário. “Li O Capital e o Manifesto Comunista anos atrás, quando era aluno de faculdade. E muitos movimentos revolucionários do mundo nasceram como resultado daquilo que Marx discutiu. A grande tragédia é que a cristandade não conseguiu ver que ela tinha a prerrogativa revolucionária. Não é preciso recorrer a Marx para aprender a ser um revolucionário. Eu não me inspirei em Karl Marx; inspirei-me num homem chamado Jesus.”

De fato, 20 anos antes, o jovem Martin Luther King fez algumas anotações sobre a leitura de Marx e do Manifesto. “Durante os feriados de Natal de 1949, decidi passar meu tempo de folga lendo Karl Marx para tentar entender a atração que o comunismo exerce sobre muitas pessoas. Pela primeira vez examinei cuidadosamente O Capital e o Manifesto Comunista. Também li alguns trabalhos interpretativos sobre o pensamento de Marx e Lenin. Ao ler esses textos comunistas, extraí certas conclusões que até hoje têm me acompanhado como convicções.”

O resultado de suas leituras foi que, por um lado, King desprezava parte do pensamento de Marx e sobretudo no que os regimes ditos comunistas se transformaram, mas admirava, e muito, as ideias da doutrina em relação aos pobres e a justiça social. “Apesar do fato de que minha reação ao comunismo foi e é negativa, e de eu o considerar basicamente maligno, há aspectos em que o considero desafiador. Com todos os seus pressupostos e métodos perversos, o comunismo surge como um protesto contra as agruras dos desprivilegiados. O comunismo, em teoria, enfatizava uma sociedade sem classes e uma preocupação com a justiça social (…). O cristão deveria sentir-se sempre instigado por qualquer protesto contra o tratamento injusto em relação aos pobres.”

E prosseguia: “Marx levantou algumas questões fundamentais. Desde minha adolescência, eu tinha uma preocupação profunda com o abismo entre a riqueza supérflua e a pobreza abjeta, e minha leitura de Marx me tornou mais consciente desse abismo. (…) Além disso, Marx tinha revelado o perigo do motivo lucro como base única de um sistema econômico: o capitalismo corre sempre o perigo de inspirar os homens a se preocuparem mais em ganhar a vida do que em construir uma vida. Tendemos a avaliar o sucesso de acordo com nossos salários ou com o tamanho de nossos carros, e não pela qualidade de nosso serviço à humanidade e de nossa relação com ela.”

Todo o oposto do que a direita defende. Assim como o pacifismo de King é a antítese da defesa do armamento da população que fazem os que querem lucrar com camisetas trazendo sua efígie, na falta de ídolos bacanas para chamar de seus. O reverendo se inspirava em Gandhi. “A satisfação intelectual e moral que não conseguira obter do utilitarismo de Bentham e Mill, dos métodos revolucionários de Marx e Lenin, da teoria do contrato social de Hobbes, do otimismo da ‘volta à natureza’ de Rousseau, da filosofia do super-homem de Nietzsche, encontrei na filosofia da resistência não violenta de Gandhi.”

Martin Luther King conclui de suas leituras que não gosta do marxismo, mas tampouco do capitalismo. “Minha leitura de Marx também me convenceu de que a verdade não está nem no marxismo nem no capitalismo tradicional. (…) O capitalismo do século 19 não conseguiu ver que a vida é social e o marxismo não conseguiu, nem consegue ver, que a vida é individual e pessoal”.

Se vivesse hoje em dia, certamente o reverendo seria um eleitor de Bernie Sanders e de seu “socialismo democrático”, como antevê, escrevendo para sua futura esposa, Coretta, em 1952: “Eu sou muito mais socialista em minha teoria econômica do que capitalista. No entanto, não sou tão oposto ao capitalismo que não possa ver seus relativos méritos.”

Imaginem o que Martin Luther King diria ao ver seu rosto estampado em camisetas vendidas por um bando de reacionários brasileiros, comparado a um vereador negro que atenta contra a liberdade de pensamento nas escolas de São Paulo? Morreria de novo, de desgosto.

Pior é saber que tem trouxa que paga 50 reais numa porcaria dessas.

Leia mais em A Autobiografia de Martin Luther King, Clayborne Carson (org.), editora Zahar, 480 págs., R$69,90.

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Miruna, filha de Genoino: “A grande mídia parecia sentir prazer em nos sufocar”

Publicado em 19 de fevereiro de 2017
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(José Genoino, a mulher, Rioco Kayano, e os filhos Ronan e Miruna. Foto: arquivo pessoal)

Entre 1981, o ano em que Miruna nasceu, e 2005, ano em que estourou o escândalo do mensalão, o cearense José Genoino Guimarães Neto foi um político de esquerda respeitado por todo mundo, até mesmo pelos adversários. A partir de 1982, quando foi eleito deputado federal pelo PT pela primeira vez, Genoino se tornaria um dos mais brilhantes e habilidosos parlamentares que o Congresso já conheceu. Para Miruna, era ainda o herói a quem escutava, embevecida, contar que, quando menino, percorria a pé 14 quilômetros por dia, sob o sol inclemente do sertão de Quixeramobim, para poder estudar.

Depois do mensalão, tudo mudou. Genoino, um político reconhecidamente honesto que jamais acumulara bens além da casa simples em que vive até hoje, em São Paulo, seria tratado como um pária, um ladrão, um corrupto. E sua família, assediada e perseguida por uma imprensa feroz e sádica em sua sanha antipetista. Antigos bajuladores de Genoino na imprensa viraram-lhe as costas e se calaram, cúmplices do linchamento. Nenhum dos repórteres que cobriam a Câmara no auge do petista como parlamentar foi capaz de se solidarizar, de defendê-lo da injustiça de uma condenação a seis anos e 11 meses de prisão apenas por ter assinado, como presidente do PT, um empréstimo quitado e declarado à Justiça eleitoral.

“Antes de magoar minha família como um todo, esta atitude da imprensa magoou demais meu pai, porque ele não esperava este tratamento unilateral, sem espaço para a verdade, com tanta manipulação”, diz Miruna. “Ele rememorava toda a luta na ditadura por uma imprensa livre, dedicou-se totalmente a atender esta imprensa, mas, quando precisou, foi achincalhado. Para nós, da família, a grande mídia foi responsável por grandes traumas em nosso dia a dia. Não respeitaram meus filhos, na época com 5 e 6 anos de idade, não respeitaram nossa privacidade, riam de nós, pareciam sentir prazer em nos sufocar. Muito triste ter vivido isso.”

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(Trecho do primeiro texto de Miruna, de 2012, após a condenação do pai)

A educadora, primogênita de Genoino, vai lançar, em março, o livro Felicidade Fechada, onde transmite a visão dos familiares do petista sobre uma das maiores injustiças da história recente do país. Além do depoimento dela, são reproduzidas as cartas que enviou ao pai durante os nove meses em que ele ficou encarcerado na prisão da Papuda, em Brasília. Rejeitado por várias editoras, o livro se tornou possível graças a uma “vaquinha” virtual que Miruna fez no ano passado, arrecadando quase 100 mil reais para a edição.

É uma obra delicada, onde o olhar carinhoso da filha aparece em primeiro plano, sem lugar para rancor, mágoa ou vingança. Os capítulos são ilustrados com pássaros bordados em um pano por dezenas de mãos amigas, uma ideia da mãe de Miruna, Rioco, para homenagear o amado, como uma Penélope da era moderna que espera a volta de seu Ulisses. Foi este tecido que Genoino amarrou no pescoço ao se entregar à Polícia Federal para ser preso, em novembro de 2013. A “capa” do herói de Miruna virou a capa do livro.

“Nessa história, não vou falar de dados e informações. Não vou ficar explicando que meu pai é inocente, porque os empréstimos que ele assinou foram registrados na Justiça Eleitoral e já foram pagos pelo PT e aceitos pelo Tribunal de Justiça Eleitoral. Isso foi relatado e é verdade. Não vou dizer que não existiam provas que o condenassem. E vou tentar não ficar aqui soando como uma magoada, repetindo que o acontecido foi um tribunal de exceção. Não pretendo falar de tudo, porque quero contar a verdade desde dentro, desde quem viveu cada momento, desde quem cresceu sendo criada por um pai exemplar, que se tornou um avô iluminado e que jamais roubou nada de ninguém, nem deixou de seguir os princípios de justiça e igualdade que sempre o guiaram”, adverte, na introdução.

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(Genoino com a filha Miruna aos 2 anos de idade. Foto: arquivo pessoal)

No livro aparecem poucos nomes. Relator do mensalão no Supremo e principal algoz de Genoino, o ex-ministro Joaquim Barbosa, por exemplo, surge como “o relator”. Miruna explica que preferiu assim porque seu pai sempre aconselhou os familiares a não “fulanizar” o processo. “Alguns nomes específicos ficaram fortes neste percurso? Sim. Mas não foram estes nomes que decidiram, foi um movimento grande. Foi a grande imprensa, foi a opinião pública, que acreditou, foi o STF como um todo, não um juiz. Por isso colocar nomes só fica alimentando a fulanização e nosso foco é no processo, como um todo, que foi injusto.”

Miruna também evitou escrever sobre as decepções que a família deve ter sofrido ao longo do processo. “Meu livro não trata de vingança, não trata de ‘toma lá dá cá’, algo que meu pai sempre nos ensinou a abominar. Meu livro trata de vida. Da vida de pessoas reais, com suas vidas, e que tiveram de se unir para enfrentar a injustiça. Meu livro quer deixar um registro para meus filhos, e a geração deles, e as posteriores, de que José Genoino é inocente. E isso é o mais importante, não as decepções.”

Um dos momentos mais tocantes é quando a família, reunida após um almoço descontraído com amigos, recebe, de repente, a notícia de que Genoino será preso.

“Foi quando o telefone do meu pai tocou. Ele mudou sua expressão, foi falando e se levantando, e nós não conseguíamos falar. Ele desligou e disse: ‘Saiu o papel. Chegou a hora pessoal’. Voltar àquele momento é algo muito difícil, porque não existem palavras que possam mostrar para quem está aqui comigo agora, acompanhando essa espécie de memória, o que sentimos naquele momento. No começo, todos nos abraçamos ao meu pai, mas ele não nos abraçava por muito tempo, apenas segurava nos nossos braços e dizia, ‘Vamos, vamos’. Depois, cada um foi para um lado… Eu não sei bem dos meus irmãos, mas minha mãe foi a única que não deu espaço para si mesma e começou a organizar tudo o que meu pai precisava levar, suas roupas e seus pertences. Meu irmão, tão parecido que é com a minha mãe, prático quando é preciso, subiu correndo para o quarto e começou a colocar em um papel os horários dos remédios do meu pai, que recentemente tinha tido uma confusão na forma de tomar e estava sendo medicado com a ajuda do filho. Eu chorei e gritei. Muito. E forte. (…) Com a mala pronta, esperando o advogado, meu pai foi para a cozinha e disse: ‘Vamos lá pessoal, é uma injustiça, mas eu estou forte, vamos lá, vamos começar logo com isso’. Meu pai não aguentava mais a tortura de esperar e mostrava que já que era para viver a injustiça, que começasse logo de uma vez.”

Para visitar Genoino na Papuda, sua mulher e os três filhos (há ainda Mariana, de outra relação do petista) tinham que se submeter a uma humilhação extra: vestir-se completamente de branco, dos sapatos às roupas íntimas.

“Minha primeira visita ao presídio da Papuda, localizado em Brasília, começou bem cedo, quando saí de São Paulo para vir para cá, e continuou ontem cedo quando nos levantamos e vestimos todos, eu, minha mãe, meu irmão e meu cunhado, roupas brancas dos pés à cabeça. Cueca branca, calcinha branca, sutiã branco, sem bojo, calça branca, camiseta branca, chinelo branco. Tudo branco. Exatamente igual à roupa que os presos precisam usar: branco. Desde que soube que isso era assim, pensei e busquei todo tipo de explicação para essa obrigatoriedade imposta aos familiares e apesar de já ter ouvido todo tipo de ideias, só penso em uma coisa: marcar as famílias. Marcar e humilhar as famílias com a mesma vestimenta que qualquer preso do CIR-Papuda precisa usar para cumprir sua pena, mostrar, a quem quer que seja e saiba, que quem veste branco tem um familiar preso, com toda a carga emocional que isso significa. Mulheres, homens, velhos, crianças, bebês, todos de branco”, escreve.

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(Ronan, Miruna e Rioco esperam para visitar Genoino na Papuda em 2013. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Causa indignação ler o relato de Miruna sobre a extrema agressividade de repórteres e fotógrafos no contato com a família do então deputado federal, e a forma como a imprensa se portou diante do problema de coração que ele teve durante o processo.

“Todo este processo foi duro, mas a maior ferida de todas, a ferida que nunca cicatrizará, é aquela causada pela revolta e indignação por terem conseguido, mídia e pessoas covardes, colocar em dúvida a real condição de saúde do meu pai. Quem dera ele nunca tivesse tido a dissecção da aorta. Estaria sem a domiciliar, sem nós, mas estaria com o coração forte. Quem dera ele não necessitasse cuidados médicos por conta da coagulação de seu sangue; ele estaria comendo mal, mas não teria a ameaça de um AVC. Quem dera não tivéssemos que passar por juntas médicas, que olhavam meu pai como um enganador de sua própria condição de saúde.”

Pergunto a Miruna como é o estado de espírito de José Genoino hoje, fora da prisão, seu cotidiano…

– Ele também pretende escrever um livro?

– Meu pai é um homem com imensa capacidade de se reinventar e como filha me orgulho profundamente disso. Hoje ele se dedica a conversas sobre sua paixão, que é a política, e a sociedade democrática e justa, com grupos de amigos e pessoas que queiram ouvi-lo, refletir com ele. Está estudando, pois isso é algo que ele jamais deixou de lado e está se dedicando muito à família, em especial aos netos, fazendo com eles o que não pôde fazer por mim e por meus irmãos por conta da política. E sim, quando chegar o momento meu pai vai falar, vai contar a sua verdade e sua história.”

– Como vocês estão acompanhando a nova prisão de Zé Dirceu e a Lava-Jato?

– Nós sentimos muito esta prisão do Zé Dirceu e somos totalmente solidários a ele e sua família por toda a arbitrariedade a qual ele já foi e continua sendo submetido. A Lava-Jato nos preocupa pela quantidade de novas formas e processos jurídicos que mostram que precisamos repensar esta relação mídia e justiça, pois certamente quem é citado não consegue nunca mais se livrar desta marca, já tem seu nome jogado nas manchetes, sua casa invadida, e isso é uma injustiça por si só, ser condenado antes de ser julgado com imparcialidade.

– Você diz no livro que aguarda Justiça. Que tipo de Justiça ainda poderia ser feita?

– Um novo julgamento deste processo todo. Que sejam analisadas as provas, e não os “achismos”, as situações de “ele deveria saber”. Que um dia se prove que meu pai nunca cometeu crime algum. Sua história não é de dinheiro, mas sim de luta por seus ideais, de forma democrática e humana.

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Livro: Felicidade Fechada

Autora: Miruna Genoino

Editora: Cosmos

Quanto: 65 reais, 266 págs.

Lançamento: 16 de março, 20 h, no Espaço ViaTV – rua José Piragibe, 366, Butantã, São Paulo-SP.

 

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Dicas literárias para um Natal vermelho (quinta edição)

Publicado em 6 de dezembro de 2016

É batata: como todo ano tem Natal, todo ano também tem a lista de livros e HQs do Socialista Morena! Porque se é para gastar dinheiro nesta época do ano, que se gaste com livros. Confira aquiaqui, aqui e aqui as listas dos anos anteriores. Você encontra outras dicas literárias do blog também na tag #literatura.

São obras que li ou que estão na minha própria lista de desejos… Lembre-se de voltar a visitar este post: estas dicas serão atualizadas até janeiro. Porque ler nas férias é tudo de bom, não é?

LANÇAMENTOS

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À Sombra do Poder – O jornalista e cientista político Rodrigo de Almeida foi secretário de Imprensa de Dilma Rousseff justamente nos 13 meses que antecederam o golpe. Seu relato é, portanto, de quem assistiu de perto e de dentro a queda da presidenta reeleita com o voto de 54 milhões de brasileiros em 2014. Com uma narrativa envolvente, Rodrigo conta o que viu e como Dilma reagiu a tudo. Traz também perfeitas alfinetadas ao papel da imprensa no período: as recriações feitas pelos jornais não resistem à realidade de quem viu tudo com os próprios olhos. Como o autor não é petista de carteirinha, a narrativa ganha pontos por ser bastante independente, embora cause estranheza no leitor de esquerda que o livro trate Dilma o tempo inteiro como “presidente” e não “presidenta”, como ela preferia ser chamada. Leya, 224 págs., R$39,90.

angelacapa

Mulheres, Raça e Classe – Obra mais importante da “pantera negra” norte-americana Angela Davis, este livro, publicado nos EUA em 1981, nunca havia sido traduzido no Brasil até agora. O momento é ideal: é inegável a força que têm tido os coletivos de mulheres e de negros na luta contra os golpistas e fascistas instalados em nosso país. No livro, a autora aborda a forma como todas estas lutas estão interrelacionadas: a luta anticapitalista, a luta antirracista, a luta feminista. Nada mais atual diante da eleição de Donald Trump nos EUA e do crescimento de uma extrema-direita igualmente misógina, homofóbica, racista e classista no Brasil. Prefácio de Djamila Ribeiro e tradução de Heci Regina Candiani. Boitempo, 248 págs., R$54.

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A História Não Contada dos Estados Unidos – Escrito a quatro mãos pelo cineasta Oliver Stone e pelo historiador Peter J. Kuznick, o livro atravessa um século para dar a versão não-oficial sobre a trajetória da nação mais poderosa do planeta. O real significado da batalha contra o nazismo, a criação da guerra fria, as agressões dos EUA a outras países, a tradição de espionar o mundo: está tudo lá. Para quem quer ter uma visão da história norte-americana bem distante da que nos é contada pelos arautos do império e pela mídia hegemônica, um livro considerado pelo jornal britânico The Guardian como “o livro de história mais instigante, revelador e intelectualmente provocativo dos últimos anos”. A versão em documentário pode ser vista abaixo, com legendas em português. Tradução de Carlos Szlak. Faro Editorial, 360 págs., R$49,90.

cova312

Cova 312 – Vencedora do prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário este ano, a jornalista Daniela Arbex conta a história real de como, em 1967, as Forças Armadas torturaram e mataram o jovem militante político Milton Soares de Castro, forjaram seu suicídio e sumiram com seu corpo. Daniela não só reconstitui o calvário do rapaz de 26 anos, de seus amigos e familiares, como dá uma incrível contribuição à História: descobre onde estavam seus restos mortais, na anônima Cova 312 que dá título ao livro. Geração, 344 págs., R$39,90.

toureando

Toureando o Diabo  O romance, escrito por Clara Averbuck e ilustrado por Eva Uviedo, foi inteiramente financiado pelos leitores. Camila, personagem central de Máquina de Pinball, livro de estreia de Clara, de 2002, reaparece revirando (e revendo) seus cadernos do passado, cujas anotações são belamente ilustradas por Eva. O livro está à venda exclusivamente na loja das autoras, onde também podem ser comprados desenhos originais. 146 págs., R$50.

cuenca

Descobri que Estava Morto  Um belo dia, o escritor J.P. Cuenca descobre que havia morrido: um cadáver fora identificado com sua certidão de nascimento em um edifício invadido no bairro carioca da Lapa. A história surreal acabou virando filme dirigido e estrelado pelo próprio autor este ano: A Morte de J.P.Cuenca. Para quem, como eu, é fascinado por autobiografias farsescas ou ficções da vida real. Tusquets, 240 págs., R$39,90.

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O Que É Que Ele Tem? – Li este livro de uma sentada, numa visita à livraria. Trata-se do relato autobiográfico da cantora Olívia Byington sobre seu filho mais velho, João, que tem a síndrome de Apert, uma condição rara que causa má formação do crânio, mãos e pés. É um relato doce, tocante e forte, onde a autora evita a auto-piedade e adota um tom mais realista (e, inclusive, bem humorado) para lidar com a questão. A orelha do livro é do irmão de João e também filho de Olívia, o cronista e humorista Gregório Duvivier. Objetiva, 184 págs., R$34,90.

CLÁSSICOS

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Casa Grande & Senzala – É preciso sempre voltar a Gilberto Freire como quem recorre a uma Bíblia. Cada vez que eu leio este livro, enxergo novas nuances e descubro outras histórias. Impressionante. Na atual releitura, vejo detalhes sobre a dominação do homem sobre a mulher no Brasil colonial e sobre a escravidão que tinham me escapado das primeiras vezes. Uma das obras fundamentais para conhecer a história de nosso país, sempre, ao lado de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Global, 728 págs., R$58.

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Viva o Povo Brasileiro  Publicado pela primeira vez em 1984, o romance de João Ubaldo Ribeiro se tornou um clássico imediato, ao recontar a história do Brasil durante 400 anos (de 1647 a 1977), no estilo picaresco que marcou a obra do autor. Situado na ilha de Itaparica, terra natal de João Ubaldo, o recôncavo baiano funciona como uma espécie de metáfora do Brasil inteiro, neste épico que perpassa os principais acontecimentos históricos de nosso país, desde a invasão holandesa à ditadura militar. Alfaguara, 672 págs., R$74,90.

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Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes  Para conhecer a história de Fidel Castro por ele mesmo, nada melhor do que esta biografia escrita pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet, resultado de mais de 100 horas de entrevista com o líder da revolução cubana morto este ano. Fidel conta a Ramonet sua trajetória, desde a educação jesuíta de filho de latifundiário até a transformação em guerrilheiro, e dá sua versão sobre as maiores polêmicas de sua vida, como a perseguição a homossexuais e a dissidentes do regime. Apresentação de Fernando Morais e tradução de Emir Sader. Boitempo, 624 págs. (esgotado). No sebo Estante Virtual por R$45.

HQs

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O Enterro das Minhas Ex  Um dos muitos gibis escritos e desenhados por mulheres que li este ano. O quadrinho feminino está cada vez mais em evidência, e a francesa Anne-Charlotte Gauthier é uma das garotas em ascensão numa área antes dominada pelos homens. Nesta HQ, no tom confessional que tem marcado os quadrinhos feitos por mulheres, ela recorre os primeiros anos de sua vida como lésbica, desde a infância à adolescência, com humor e delicadeza. Tradução de Fernando Scheibe. Nemo, 160 págs., R$39,90.

hiphop

Hip Hop Genealogia  Este gibi luxuoso conta nada mais, nada menos do que a história do hip hop em quadrinhos, com o traço incrível de Ed Piskor, herdeiro de Robert Crumb e que ficou famoso por sua parceria com o legendário roteirista Harvey Pekar (American Splendor). Lançado originalmente em 2013, a graphic novel ganhou o Eisner Award, o mais importante prêmio dos quadrinhos, e entrou para a lista dos mais vendidos do New York Times. A caprichada edição brasileira tem prefácio do rapper Emicida e tradução e comentários de Mateus Potumati. Veneta, 128 págs., R$99,90.

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Reportagens – Joe Sacco é o nome que você precisa conhecer quando se trata de reportagens no formato de histórias em quadrinhos. Este gibi reúne suas principais matérias na Palestina, Índia, Iraque e Chechênia. Sobre os chechenos, Sacco é taxativo em responsabilizar o presidente russo Vladimir Putin pela tragédia do país desde que se tornou o braço direito de Boris Ieltsin, na década de 1990. Também chocante seu relato entre os “intocáveis” de Kushinagar, situados no último degrau da sociedade de castas indiana. Tradução Érico Assis. Companhia das Letras, 200 págs., R$49,90.

INFANTIS

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Minimaginário de Andersen  Coletânea de histórias clássicas do dinamarquês Hans Christian Andersen, belamente ilustrada por Salmo Dansa. Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia, Os Sapatinhos Vermelhos, Patinho Feio e Polegarzinha integram o volume adaptado por Katia Canton, que conta ainda com o mais triste conto infantil de todos os tempos, em minha opinião: A Pequena Vendedora de Fósforos. Companhia das Letrinhas, 190 págs., R$44,90.

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Ode a Uma Estrela  O poeta chileno Pablo Neruda delicia os pequenos e os adultos com a delicada (e poética) história do homem que roubou uma estrela do céu. Escrito em 1957, o poema-ficção de Neruda foi traduzido pelo também poeta Carlito Azevedo, com ilustrações da espanhola Elena Odriozola. CosacNaify, 24 págs. (a editora fechou, mas encontrei no sebo Estante Virtual a partir de R$26,30).

 

 

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