Miruna, filha de Genoino: “A grande mídia parecia sentir prazer em nos sufocar”

Publicado em 19 de fevereiro de 2017
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(José Genoino, a mulher, Rioco Kayano, e os filhos Ronan e Miruna. Foto: arquivo pessoal)

Entre 1981, o ano em que Miruna nasceu, e 2005, ano em que estourou o escândalo do mensalão, o cearense José Genoino Guimarães Neto foi um político de esquerda respeitado por todo mundo, até mesmo pelos adversários. A partir de 1982, quando foi eleito deputado federal pelo PT pela primeira vez, Genoino se tornaria um dos mais brilhantes e habilidosos parlamentares que o Congresso já conheceu. Para Miruna, era ainda o herói a quem escutava, embevecida, contar que, quando menino, percorria a pé 14 quilômetros por dia, sob o sol inclemente do sertão de Quixeramobim, para poder estudar.

Depois do mensalão, tudo mudou. Genoino, um político reconhecidamente honesto que jamais acumulara bens além da casa simples em que vive até hoje, em São Paulo, seria tratado como um pária, um ladrão, um corrupto. E sua família, assediada e perseguida por uma imprensa feroz e sádica em sua sanha antipetista. Antigos bajuladores de Genoino na imprensa viraram-lhe as costas e se calaram, cúmplices do linchamento. Nenhum dos repórteres que cobriam a Câmara no auge do petista como parlamentar foi capaz de se solidarizar, de defendê-lo da injustiça de uma condenação a seis anos e 11 meses de prisão apenas por ter assinado, como presidente do PT, um empréstimo quitado e declarado à Justiça eleitoral.

“Antes de magoar minha família como um todo, esta atitude da imprensa magoou demais meu pai, porque ele não esperava este tratamento unilateral, sem espaço para a verdade, com tanta manipulação”, diz Miruna. “Ele rememorava toda a luta na ditadura por uma imprensa livre, dedicou-se totalmente a atender esta imprensa, mas, quando precisou, foi achincalhado. Para nós, da família, a grande mídia foi responsável por grandes traumas em nosso dia a dia. Não respeitaram meus filhos, na época com 5 e 6 anos de idade, não respeitaram nossa privacidade, riam de nós, pareciam sentir prazer em nos sufocar. Muito triste ter vivido isso.”

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(Trecho do primeiro texto de Miruna, de 2012, após a condenação do pai)

A educadora, primogênita de Genoino, vai lançar, em março, o livro Felicidade Fechada, onde transmite a visão dos familiares do petista sobre uma das maiores injustiças da história recente do país. Além do depoimento dela, são reproduzidas as cartas que enviou ao pai durante os nove meses em que ele ficou encarcerado na prisão da Papuda, em Brasília. Rejeitado por várias editoras, o livro se tornou possível graças a uma “vaquinha” virtual que Miruna fez no ano passado, arrecadando quase 100 mil reais para a edição.

É uma obra delicada, onde o olhar carinhoso da filha aparece em primeiro plano, sem lugar para rancor, mágoa ou vingança. Os capítulos são ilustrados com pássaros bordados em um pano por dezenas de mãos amigas, uma ideia da mãe de Miruna, Rioco, para homenagear o amado, como uma Penélope da era moderna que espera a volta de seu Ulisses. Foi este tecido que Genoino amarrou no pescoço ao se entregar à Polícia Federal para ser preso, em novembro de 2013. A “capa” do herói de Miruna virou a capa do livro.

“Nessa história, não vou falar de dados e informações. Não vou ficar explicando que meu pai é inocente, porque os empréstimos que ele assinou foram registrados na Justiça Eleitoral e já foram pagos pelo PT e aceitos pelo Tribunal de Justiça Eleitoral. Isso foi relatado e é verdade. Não vou dizer que não existiam provas que o condenassem. E vou tentar não ficar aqui soando como uma magoada, repetindo que o acontecido foi um tribunal de exceção. Não pretendo falar de tudo, porque quero contar a verdade desde dentro, desde quem viveu cada momento, desde quem cresceu sendo criada por um pai exemplar, que se tornou um avô iluminado e que jamais roubou nada de ninguém, nem deixou de seguir os princípios de justiça e igualdade que sempre o guiaram”, adverte, na introdução.

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(Genoino com a filha Miruna aos 2 anos de idade. Foto: arquivo pessoal)

No livro aparecem poucos nomes. Relator do mensalão no Supremo e principal algoz de Genoino, o ex-ministro Joaquim Barbosa, por exemplo, surge como “o relator”. Miruna explica que preferiu assim porque seu pai sempre aconselhou os familiares a não “fulanizar” o processo. “Alguns nomes específicos ficaram fortes neste percurso? Sim. Mas não foram estes nomes que decidiram, foi um movimento grande. Foi a grande imprensa, foi a opinião pública, que acreditou, foi o STF como um todo, não um juiz. Por isso colocar nomes só fica alimentando a fulanização e nosso foco é no processo, como um todo, que foi injusto.”

Miruna também evitou escrever sobre as decepções que a família deve ter sofrido ao longo do processo. “Meu livro não trata de vingança, não trata de ‘toma lá dá cá’, algo que meu pai sempre nos ensinou a abominar. Meu livro trata de vida. Da vida de pessoas reais, com suas vidas, e que tiveram de se unir para enfrentar a injustiça. Meu livro quer deixar um registro para meus filhos, e a geração deles, e as posteriores, de que José Genoino é inocente. E isso é o mais importante, não as decepções.”

Um dos momentos mais tocantes é quando a família, reunida após um almoço descontraído com amigos, recebe, de repente, a notícia de que Genoino será preso.

“Foi quando o telefone do meu pai tocou. Ele mudou sua expressão, foi falando e se levantando, e nós não conseguíamos falar. Ele desligou e disse: ‘Saiu o papel. Chegou a hora pessoal’. Voltar àquele momento é algo muito difícil, porque não existem palavras que possam mostrar para quem está aqui comigo agora, acompanhando essa espécie de memória, o que sentimos naquele momento. No começo, todos nos abraçamos ao meu pai, mas ele não nos abraçava por muito tempo, apenas segurava nos nossos braços e dizia, ‘Vamos, vamos’. Depois, cada um foi para um lado… Eu não sei bem dos meus irmãos, mas minha mãe foi a única que não deu espaço para si mesma e começou a organizar tudo o que meu pai precisava levar, suas roupas e seus pertences. Meu irmão, tão parecido que é com a minha mãe, prático quando é preciso, subiu correndo para o quarto e começou a colocar em um papel os horários dos remédios do meu pai, que recentemente tinha tido uma confusão na forma de tomar e estava sendo medicado com a ajuda do filho. Eu chorei e gritei. Muito. E forte. (…) Com a mala pronta, esperando o advogado, meu pai foi para a cozinha e disse: ‘Vamos lá pessoal, é uma injustiça, mas eu estou forte, vamos lá, vamos começar logo com isso’. Meu pai não aguentava mais a tortura de esperar e mostrava que já que era para viver a injustiça, que começasse logo de uma vez.”

Para visitar Genoino na Papuda, sua mulher e os três filhos (há ainda Mariana, de outra relação do petista) tinham que se submeter a uma humilhação extra: vestir-se completamente de branco, dos sapatos às roupas íntimas.

“Minha primeira visita ao presídio da Papuda, localizado em Brasília, começou bem cedo, quando saí de São Paulo para vir para cá, e continuou ontem cedo quando nos levantamos e vestimos todos, eu, minha mãe, meu irmão e meu cunhado, roupas brancas dos pés à cabeça. Cueca branca, calcinha branca, sutiã branco, sem bojo, calça branca, camiseta branca, chinelo branco. Tudo branco. Exatamente igual à roupa que os presos precisam usar: branco. Desde que soube que isso era assim, pensei e busquei todo tipo de explicação para essa obrigatoriedade imposta aos familiares e apesar de já ter ouvido todo tipo de ideias, só penso em uma coisa: marcar as famílias. Marcar e humilhar as famílias com a mesma vestimenta que qualquer preso do CIR-Papuda precisa usar para cumprir sua pena, mostrar, a quem quer que seja e saiba, que quem veste branco tem um familiar preso, com toda a carga emocional que isso significa. Mulheres, homens, velhos, crianças, bebês, todos de branco”, escreve.

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(Ronan, Miruna e Rioco esperam para visitar Genoino na Papuda em 2013. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Causa indignação ler o relato de Miruna sobre a extrema agressividade de repórteres e fotógrafos no contato com a família do então deputado federal, e a forma como a imprensa se portou diante do problema de coração que ele teve durante o processo.

“Todo este processo foi duro, mas a maior ferida de todas, a ferida que nunca cicatrizará, é aquela causada pela revolta e indignação por terem conseguido, mídia e pessoas covardes, colocar em dúvida a real condição de saúde do meu pai. Quem dera ele nunca tivesse tido a dissecção da aorta. Estaria sem a domiciliar, sem nós, mas estaria com o coração forte. Quem dera ele não necessitasse cuidados médicos por conta da coagulação de seu sangue; ele estaria comendo mal, mas não teria a ameaça de um AVC. Quem dera não tivéssemos que passar por juntas médicas, que olhavam meu pai como um enganador de sua própria condição de saúde.”

Pergunto a Miruna como é o estado de espírito de José Genoino hoje, fora da prisão, seu cotidiano…

– Ele também pretende escrever um livro?

– Meu pai é um homem com imensa capacidade de se reinventar e como filha me orgulho profundamente disso. Hoje ele se dedica a conversas sobre sua paixão, que é a política, e a sociedade democrática e justa, com grupos de amigos e pessoas que queiram ouvi-lo, refletir com ele. Está estudando, pois isso é algo que ele jamais deixou de lado e está se dedicando muito à família, em especial aos netos, fazendo com eles o que não pôde fazer por mim e por meus irmãos por conta da política. E sim, quando chegar o momento meu pai vai falar, vai contar a sua verdade e sua história.”

– Como vocês estão acompanhando a nova prisão de Zé Dirceu e a Lava-Jato?

– Nós sentimos muito esta prisão do Zé Dirceu e somos totalmente solidários a ele e sua família por toda a arbitrariedade a qual ele já foi e continua sendo submetido. A Lava-Jato nos preocupa pela quantidade de novas formas e processos jurídicos que mostram que precisamos repensar esta relação mídia e justiça, pois certamente quem é citado não consegue nunca mais se livrar desta marca, já tem seu nome jogado nas manchetes, sua casa invadida, e isso é uma injustiça por si só, ser condenado antes de ser julgado com imparcialidade.

– Você diz no livro que aguarda Justiça. Que tipo de Justiça ainda poderia ser feita?

– Um novo julgamento deste processo todo. Que sejam analisadas as provas, e não os “achismos”, as situações de “ele deveria saber”. Que um dia se prove que meu pai nunca cometeu crime algum. Sua história não é de dinheiro, mas sim de luta por seus ideais, de forma democrática e humana.

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Livro: Felicidade Fechada

Autora: Miruna Genoino

Editora: Cosmos

Quanto: 65 reais, 266 págs.

Lançamento: 16 de março, 20 h, no Espaço ViaTV – rua José Piragibe, 366, Butantã, São Paulo-SP.

 

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Dicas literárias para um Natal vermelho (quinta edição)

Publicado em 6 de dezembro de 2016

É batata: como todo ano tem Natal, todo ano também tem a lista de livros e HQs do Socialista Morena! Porque se é para gastar dinheiro nesta época do ano, que se gaste com livros. Confira aquiaqui, aqui e aqui as listas dos anos anteriores. Você encontra outras dicas literárias do blog também na tag #literatura.

São obras que li ou que estão na minha própria lista de desejos… Lembre-se de voltar a visitar este post: estas dicas serão atualizadas até janeiro. Porque ler nas férias é tudo de bom, não é?

LANÇAMENTOS

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À Sombra do Poder – O jornalista e cientista político Rodrigo de Almeida foi secretário de Imprensa de Dilma Rousseff justamente nos 13 meses que antecederam o golpe. Seu relato é, portanto, de quem assistiu de perto e de dentro a queda da presidenta reeleita com o voto de 54 milhões de brasileiros em 2014. Com uma narrativa envolvente, Rodrigo conta o que viu e como Dilma reagiu a tudo. Traz também perfeitas alfinetadas ao papel da imprensa no período: as recriações feitas pelos jornais não resistem à realidade de quem viu tudo com os próprios olhos. Como o autor não é petista de carteirinha, a narrativa ganha pontos por ser bastante independente, embora cause estranheza no leitor de esquerda que o livro trate Dilma o tempo inteiro como “presidente” e não “presidenta”, como ela preferia ser chamada. Leya, 224 págs., R$39,90.

angelacapa

Mulheres, Raça e Classe – Obra mais importante da “pantera negra” norte-americana Angela Davis, este livro, publicado nos EUA em 1981, nunca havia sido traduzido no Brasil até agora. O momento é ideal: é inegável a força que têm tido os coletivos de mulheres e de negros na luta contra os golpistas e fascistas instalados em nosso país. No livro, a autora aborda a forma como todas estas lutas estão interrelacionadas: a luta anticapitalista, a luta antirracista, a luta feminista. Nada mais atual diante da eleição de Donald Trump nos EUA e do crescimento de uma extrema-direita igualmente misógina, homofóbica, racista e classista no Brasil. Prefácio de Djamila Ribeiro e tradução de Heci Regina Candiani. Boitempo, 248 págs., R$54.

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A História Não Contada dos Estados Unidos – Escrito a quatro mãos pelo cineasta Oliver Stone e pelo historiador Peter J. Kuznick, o livro atravessa um século para dar a versão não-oficial sobre a trajetória da nação mais poderosa do planeta. O real significado da batalha contra o nazismo, a criação da guerra fria, as agressões dos EUA a outras países, a tradição de espionar o mundo: está tudo lá. Para quem quer ter uma visão da história norte-americana bem distante da que nos é contada pelos arautos do império e pela mídia hegemônica, um livro considerado pelo jornal britânico The Guardian como “o livro de história mais instigante, revelador e intelectualmente provocativo dos últimos anos”. A versão em documentário pode ser vista abaixo, com legendas em português. Tradução de Carlos Szlak. Faro Editorial, 360 págs., R$49,90.

cova312

Cova 312 – Vencedora do prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário este ano, a jornalista Daniela Arbex conta a história real de como, em 1967, as Forças Armadas torturaram e mataram o jovem militante político Milton Soares de Castro, forjaram seu suicídio e sumiram com seu corpo. Daniela não só reconstitui o calvário do rapaz de 26 anos, de seus amigos e familiares, como dá uma incrível contribuição à História: descobre onde estavam seus restos mortais, na anônima Cova 312 que dá título ao livro. Geração, 344 págs., R$39,90.

toureando

Toureando o Diabo  O romance, escrito por Clara Averbuck e ilustrado por Eva Uviedo, foi inteiramente financiado pelos leitores. Camila, personagem central de Máquina de Pinball, livro de estreia de Clara, de 2002, reaparece revirando (e revendo) seus cadernos do passado, cujas anotações são belamente ilustradas por Eva. O livro está à venda exclusivamente na loja das autoras, onde também podem ser comprados desenhos originais. 146 págs., R$50.

cuenca

Descobri que Estava Morto  Um belo dia, o escritor J.P. Cuenca descobre que havia morrido: um cadáver fora identificado com sua certidão de nascimento em um edifício invadido no bairro carioca da Lapa. A história surreal acabou virando filme dirigido e estrelado pelo próprio autor este ano: A Morte de J.P.Cuenca. Para quem, como eu, é fascinado por autobiografias farsescas ou ficções da vida real. Tusquets, 240 págs., R$39,90.

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O Que É Que Ele Tem? – Li este livro de uma sentada, numa visita à livraria. Trata-se do relato autobiográfico da cantora Olívia Byington sobre seu filho mais velho, João, que tem a síndrome de Apert, uma condição rara que causa má formação do crânio, mãos e pés. É um relato doce, tocante e forte, onde a autora evita a auto-piedade e adota um tom mais realista (e, inclusive, bem humorado) para lidar com a questão. A orelha do livro é do irmão de João e também filho de Olívia, o cronista e humorista Gregório Duvivier. Objetiva, 184 págs., R$34,90.

CLÁSSICOS

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Casa Grande & Senzala – É preciso sempre voltar a Gilberto Freire como quem recorre a uma Bíblia. Cada vez que eu leio este livro, enxergo novas nuances e descubro outras histórias. Impressionante. Na atual releitura, vejo detalhes sobre a dominação do homem sobre a mulher no Brasil colonial e sobre a escravidão que tinham me escapado das primeiras vezes. Uma das obras fundamentais para conhecer a história de nosso país, sempre, ao lado de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Global, 728 págs., R$58.

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Viva o Povo Brasileiro  Publicado pela primeira vez em 1984, o romance de João Ubaldo Ribeiro se tornou um clássico imediato, ao recontar a história do Brasil durante 400 anos (de 1647 a 1977), no estilo picaresco que marcou a obra do autor. Situado na ilha de Itaparica, terra natal de João Ubaldo, o recôncavo baiano funciona como uma espécie de metáfora do Brasil inteiro, neste épico que perpassa os principais acontecimentos históricos de nosso país, desde a invasão holandesa à ditadura militar. Alfaguara, 672 págs., R$74,90.

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Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes  Para conhecer a história de Fidel Castro por ele mesmo, nada melhor do que esta biografia escrita pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet, resultado de mais de 100 horas de entrevista com o líder da revolução cubana morto este ano. Fidel conta a Ramonet sua trajetória, desde a educação jesuíta de filho de latifundiário até a transformação em guerrilheiro, e dá sua versão sobre as maiores polêmicas de sua vida, como a perseguição a homossexuais e a dissidentes do regime. Apresentação de Fernando Morais e tradução de Emir Sader. Boitempo, 624 págs. (esgotado). No sebo Estante Virtual por R$45.

HQs

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O Enterro das Minhas Ex  Um dos muitos gibis escritos e desenhados por mulheres que li este ano. O quadrinho feminino está cada vez mais em evidência, e a francesa Anne-Charlotte Gauthier é uma das garotas em ascensão numa área antes dominada pelos homens. Nesta HQ, no tom confessional que tem marcado os quadrinhos feitos por mulheres, ela recorre os primeiros anos de sua vida como lésbica, desde a infância à adolescência, com humor e delicadeza. Tradução de Fernando Scheibe. Nemo, 160 págs., R$39,90.

hiphop

Hip Hop Genealogia  Este gibi luxuoso conta nada mais, nada menos do que a história do hip hop em quadrinhos, com o traço incrível de Ed Piskor, herdeiro de Robert Crumb e que ficou famoso por sua parceria com o legendário roteirista Harvey Pekar (American Splendor). Lançado originalmente em 2013, a graphic novel ganhou o Eisner Award, o mais importante prêmio dos quadrinhos, e entrou para a lista dos mais vendidos do New York Times. A caprichada edição brasileira tem prefácio do rapper Emicida e tradução e comentários de Mateus Potumati. Veneta, 128 págs., R$99,90.

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Reportagens – Joe Sacco é o nome que você precisa conhecer quando se trata de reportagens no formato de histórias em quadrinhos. Este gibi reúne suas principais matérias na Palestina, Índia, Iraque e Chechênia. Sobre os chechenos, Sacco é taxativo em responsabilizar o presidente russo Vladimir Putin pela tragédia do país desde que se tornou o braço direito de Boris Ieltsin, na década de 1990. Também chocante seu relato entre os “intocáveis” de Kushinagar, situados no último degrau da sociedade de castas indiana. Tradução Érico Assis. Companhia das Letras, 200 págs., R$49,90.

INFANTIS

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Minimaginário de Andersen  Coletânea de histórias clássicas do dinamarquês Hans Christian Andersen, belamente ilustrada por Salmo Dansa. Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia, Os Sapatinhos Vermelhos, Patinho Feio e Polegarzinha integram o volume adaptado por Katia Canton, que conta ainda com o mais triste conto infantil de todos os tempos, em minha opinião: A Pequena Vendedora de Fósforos. Companhia das Letrinhas, 190 págs., R$44,90.

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Ode a Uma Estrela  O poeta chileno Pablo Neruda delicia os pequenos e os adultos com a delicada (e poética) história do homem que roubou uma estrela do céu. Escrito em 1957, o poema-ficção de Neruda foi traduzido pelo também poeta Carlito Azevedo, com ilustrações da espanhola Elena Odriozola. CosacNaify, 24 págs. (a editora fechou, mas encontrei no sebo Estante Virtual a partir de R$26,30).

 

 

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Ode ao burguês: parece PSTU, mas é Mário de Andrade

Publicado em 14 de novembro de 2016
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(“Direitos Humanos”, Kukryniksy)

Quando, na Semana de Arte Moderna de 1922, Mário de Andrade (1893-1945) declamou o poema Ode ao Burguês, os industriais e cafeicultores da época se sentiram insultados. O poeta chegou a ser vaiado pelos convidados, alguns dos quais tinham contribuído financeiramente para a realização da semana e não engoliram a crítica. Reparem que as palavras “Ode ao” soam como “ódio”…

Embora nunca tenha se aproximado do Partido Comunista, Mário era simpático ao socialismo (“Minha maior esperança é que se consiga um dia realizar no mundo o verdadeiro e ignorado Socialismo. Só então o homem terá o direito de pronunciar a palavra ‘civilização’”) e chegou a defender os comunistas em um artigo de 1930. “Está se dando aqui no Brasil um movimento em torno da palavra Comunismo que é dum ridículo perfeitamente idiota”, escreveu.

Suas palavras soam tão atuais nestes tempos de neomacarthismo quanto esse poema de 95 anos atrás. Parece ter sido escrito por alguém do PSTU, né? Ainda mais quando se observa a força que até hoje tem no país um cão de guarda dos privilégios burgueses como a Fiesp, capaz de derrubar uma presidenta eleita com um discurso anticorrupção enquanto um de seus membros sonega bilhões. O poema também me recorda o prefeito eleito de São Paulo, João Doria, e seu similar norte-americano, Donald Trump. Leiam.

***

Ode ao Burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
“– Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar… – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

 

 

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