Como o tempo na cadeia mudou a versão dos delatores contra Lula

Publicado em 23 de abril de 2017
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(Tan bárbara la seguridad como el delito. Francisco de Goya, 1778-1818)

Em junho do ano passado, a Folha de S.Paulo noticiou que a delação do executivo Léo Pinheiro, ex-presidente e sócio da OAS condenado a 16 anos de prisão, “travou” porque ele inocentara o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, segundo o jornal, o executivo falou que “as obras que a OAS fez no apartamento tríplex do Guarujá (SP) e no sítio de Atibaia (SP) foram uma forma de a empresa agradar a Lula, e não contrapartidas a algum benefício que o grupo tenha recebido”. Ou seja, não havia crime. E Sergio Moro recusou a delação.

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Aos 65 anos e com saúde frágil, Léo Pinheiro foi preso em novembro de 2014 na Operação Juízo Final, a 7ª fase da Lava-Jato. Em 2015, ganhou prisão domiciliar com tornozeleira, mas foi condenado a 16 anos de prisão por Moro e voltou à cadeia em Curitiba em setembro de 2016, duas semanas após sua delação ser rejeitada. Em novembro, sua pena seria aumentada pelo TRF-4 para 26 anos de prisão. Esta semana, em nova delação, Léo mudou vários detalhes do depoimento que havia sido recusado pelo juiz da Lava-Jato.

Curiosamente, todos os “novos” detalhes da delação do executivo da OAS se encaixam à perfeição na narrativa da Força Tarefa contra Lula. Não existem até hoje, como todo mundo sabe, provas de ilegalidades cometidas pelo ex-presidente, apenas as “convicções” dos procuradores. Mas, segundo Léo Pinheiro diz agora, as provas não existem “porque Lula mandou destruir”. O executivo coloca o próprio advogado de Lula na conversa em que o ex-presidente lhe teria ordenado a destruição de documentos.

As únicas “provas” que Léo apresentou, divulgadas com estardalhaço pela imprensa no sábado, 22 de abril: o registro de que dois carros em nome do Instituto Lula passaram pelo sistema automático de cobrança de pedágio a caminho do Guarujá entre 2011 e 2013 (uma vez a cada 365 dias), sem que, no entanto, se comprove que iriam para o apartamento; e registros de emails onde aparece o nome do executivo na agenda de Lula, além de telefonemas trocados com ele. Só.

Em outubro de 2016, outra delação fora recusada pela Força-Tarefa por não incriminar Lula. Moro rejeitou o depoimento de Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht. O principal ponto de discórdia foi Alexandrino ter afirmado que as benfeitorias feitas pela empresa baiana no sítio frequentado por Lula em Atibaia foram “um agrado” e não uma contrapartida por contratos com o governo federal. Este detalhe muda tudo, porque receber presentes de empreiteiras não é algo que vá lustrar a biografia de Lula, mas receber propina é crime.

O executivo foi preso em 2015, na 14ª fase da Lava Jato, a Erga Omnes. Foi solto quatro meses depois e condenado a 15 anos de prisão por Moro em março do ano passado. Em sua nova delação, na semana passada, e diante da possibilidade de ser preso novamente, Alexandrino resolveu implicar não Lula, mas seu filho, Luis Cláudio: disse que a Odebrecht o ajudou a tentar criar uma liga de futebol americano no Brasil. Novamente, não há comprovação de nenhuma ilegalidade. Alexandrino também revelou que a empresa dava uma mesada de 5 mil reais para o irmão de Lula, frei Chico.

O que fez o depoimento dos dois delatores mudar tanto? Ninguém quer mofar na cadeia, isto é certo. Estar preso É uma tortura, nem precisa de outras. Ainda mais quando podem se beneficiar de uma delação premiada e ter a pena fabulosamente reduzida. Mas chama a atenção, em ambos os casos, a recusa da Força-Tarefa em aceitar a delação inocentando Lula. Em uma delas o delator está mentindo: na primeira (que inocentava Lula) ou na segunda (que tenta incriminá-lo)?

Também chama a atenção o fato de, mesmo tendo devassado a vida do ex-presidente inteirinha, suas contas bancárias e até mesmo suas ligações telefônicas pessoais e de sua mulher (vazando-as, inclusive), os investigadores da Lava-Jato não terem encontrado nenhuma prova contra Lula e ainda dependerem de delação para conseguir a façanha de condená-lo. É de se questionar a lisura e o equilíbrio de uma investigação onde se investiga menos do que se pressiona por delações, e com o objetivo de comprometer membros de apenas um partido, quando todos estão envolvidos, como se comprovou com a lista divulgada pelo ministro Fachin.

Os advogados de Lula foram mais diretos e apontaram a fabricação de uma “mentira”, uma versão “acordada com o MPF” para que a delação fosse aceita. “A versão fabricada de Pinheiro foi a ponto de criar um diálogo –não presenciado por ninguém– no qual Lula teria dado a fantasiosa e absurda orientação de destruição de provas sobre contribuições de campanha, tema que o próprio depoente reconheceu não ser objeto das conversas que mantinha com o ex-presidente”, disseram os advogados em nota.

A defesa também divulgou um texto em que acusa a Força-Tarefa de fazer pressão sobre o executivo para “fabricar” a delação comprometendo Lula. “Na condição de réu, Léo Pinheiro tem o direito constitucional de mentir para se proteger. Como testemunha, no entanto, ele está proibido de mentir”, advertem os advogados.

Para a mídia, aliada de Moro no processo, o principal objetivo –danificar ainda mais a imagem do ex-presidente para inviabilizá-lo como candidato em 2018– foi atingido. Inventada ou real, a frase que Léo Pinheiro disse ter ouvido de Lula já foi transformada em verdade absoluta pela imprensa “imparcial”: está estampada na capa da revista Veja como “prova” de que o ex-presidente, primeiro lugar nas pesquisas, está “acabado”.

 

 

 

 

 

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Ao abraçar o caixa 2, o PT aniquilou o sonho de ganhar eleição apenas com ideias

Publicado em 15 de abril de 2017
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(“Feito de povo”. Cartaz de Lula em 1989)

“O meu partido é um coração partido” (Cazuza)

Não acredito em metade dessas delações premiadas. Em primeiro lugar, porque o delator é um criminoso e não se deve confiar em criminosos. E as delações me parecem amarradinhas demais para serem verdadeiras. Tudo se encaixa, perceberam? A delação de Emílio Odebrecht sobre Lula, por exemplo, “confirma” a reforma no sítio de Atibaia, o suposto tráfico de influência junto ao BNDES, o “pedido” de Hugo Chávez para fazer o porto de Cuba… Como se fizesse parte de um roteiro previamente traçado.

Já em relação a Michel Temer, Marcelo Odebrecht limpa a barra do presidente ao dizer que o então candidato a vice “levantou-se da mesa” onde jantavam justo no momento em que iam discutir uma doação de 10 milhões de reais ao PMDB. Ou seja, não viu nada. Que conveniente para quem está se submetendo neste momento a um julgamento no TSE junto com Dilma, não?

Mas, verdadeiras ou falsas, as delações confirmam aquilo que todo mundo sabia: que o julgamento do mensalão não foi suficiente para acabar com o caixa 2 nas eleições brasileiras, que a “forma de financiamento” continuou acontecendo adoidado, em todos os partidos (tem até um candidato que era do PSOL no rolo). O caixa 2 é uma prática institucionalizada nas campanhas políticas, como disse Emílio Odebrecht em um dos trechos mais aparentemente espontâneos de seu depoimento. E o PT se refestelou nela, não há sombra de dúvidas.

Para os eleitores de esquerda, mais uma vez se dar conta disso não é bem uma surpresa, mas o aniquilamento de um sonho. Cada vez que lemos que o PT precisou recorrer a caixa 2 para se eleger, um panda morre no mundo ideal do esquerdista. Quer dizer que não era possível ganhar sem tanto dinheiro, apenas movidos pela força das ideias? Quer dizer que o trabalhador chegou ao poder somente porque se aliou aos donos da grana, à elite que tanto criticamos? Ou era isso ou nunca o PT tiraria milhões da miséria? Tenho cá minhas dúvidas.

Não estou dizendo aqui que teríamos de virar as costas para quem dá emprego aos trabalhadores. A classe produtiva faz parte da sociedade e é preciso sempre saber lidar com ela. Mas é dura de engolir, para um cidadão de esquerda, a aproximação excessiva de Lula com a Odebrecht e seu dono. O mesmo Lula que denuncia, com tanta propriedade, o egoísmo e a ganância de nossas elites. Por acaso a Odebrecht não faz parte da elite?

Hoje sabemos, segundo seu próprio dono, que a empreiteira baiana atuava de forma corruptora no país (e em outros) há pelo menos 30 anos. Aliar-se a uma empresa com este perfil só reforça a acusação de que, para o PT, os fins justificam os meios. Não, Emílio Odebrecht não é o “bom burguês”, um cara rico preocupado com a desigualdade social, com as injustiças, um patriota que se aliou a Lula. É só um empreiteiro interessado em negócios, em ganhar muito dinheiro, e Lula deixou-se iludir.

Não acredito e nunca vou acreditar que Lula tenha se utilizado de nada ilícito para enriquecer. Não fez nada diferente, por exemplo, do que Fernando Henrique Cardoso fez – e esta constatação não alivia em nada, é incômoda para nós. Mas o PT deve reconhecer que iludiu o povo ao dizer que fazia um governo “do trabalhador”. Não era. Era um consórcio entre um líder carismático de centro-esquerda com a elite construtora do país. A aliança feita com o PMDB incluía não só apoio político no Congresso mas herdar toda a simpatia pelas empreiteiras que os peemedebistas e os demais partidos sempre nutriram. Lula, de quem as empreiteiras fugiam como o diabo da cruz em 1989, virou o amigo delas.

No poder, o PT perdeu a oportunidade de estabelecer uma relação de fato republicana com as empresas que realizam as grandes obras no Brasil, em vez de se unir aos que se utilizavam delas para se manter no comando. Traiu, sim, as expectativas de seu eleitorado mais consciente. Mostrou que só é possível governar se for se unindo aos maiores crápulas da política e do empresariado. Uma facada nas costas dos que acreditavam e acreditam na força das palavras, dos ideais, para construir um país melhor para todos. “Não, precisa de milhões para pagar o marqueteiro.” Ora, esta postura destrói os sonhos dos jovens de que outro mundo é possível.

Espero que desta tragédia nacional saia a lição de que, se a esquerda quer de fato chegar ao poder, tem um serviço ainda mais hercúleo pela frente, trabalho de formiguinha para construir uma alternativa à direita que se fortalece. O PT preferiu o atalho e foi devorado pelo lobo mau. Pior: juntou-se a ele.

 

 

 

 

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The playba revolution. Ou: o fim da consciência de classe

Publicado em 12 de abril de 2017
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(Mauricinho Macri, Doria, Donald Trump e Henrique Capriles, atrás)

Fotomontagem: Magnesio Design

Há poucos dias, em entrevista à repórter Eliane Trindade na Folha de S.Paulo, o apresentador Luciano Huck falou que é hora de sua geração “ocupar os espaços de poder”. Sem tucanês, a palavra “geração” na frase de Huck deveria ser substituída por “galera”. O que o apresentador, no fundo, pensa e deseja é que está na hora de gente como ele assumir o poder: quarentões e cinquentões bem nascidos, em geral homens, que estudaram nos melhores colégios e universidades e tiveram todas as oportunidades na vida. Em resumo, playboys. Ou, mais carinhosamente, playbas.

Mas Huck está enxergando mal: os playbas já estão no poder. Nos últimos anos, gente com o perfil de Huck, Aécio Neves e João Doria Jr. tem se mostrado o maior contraponto à esquerda nas Américas. Na Argentina, Mauricio Macri é o protótipo do playba que trabalhou nas empresas da família (riquíssima) antes de entrar para a política. Idêntico perfil tem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo maior “feito” como empreendedor foi herdar tudo e colocar o nome “Trump Incorporation” no império imobiliário do papai. Como Doria, todos têm um talento todo especial para se autopromover.

Os playbas estão representados na Venezuela por Leopoldo López e Henrique Capriles; no Uruguai por Lacalle Pou; e na Bolívia por Samuel Doria Medina. Em comum, têm o fato de serem brancos, herdeiros diretos da elite latino-americana, com passagens por universidades conceituadas nos EUA e Europa, gostarem de se vestir bem e adorarem falar em meritocracia, embora a ascensão profissional não lhes tenha custado muito suor na testa além de nascer com um sobrenome vistoso (Aécio Neves que o diga).

No Brasil, junta-se aos playbas clássicos o perfil dos burocratas do setor público com salários estratosféricos e privilégios trabalhistas que fizeram e fazem deles, cada vez mais, uma casta em relação à população em geral. Jovem, engravatado, impregnado do jargão jurídico, os playbas do funcionalismo têm seus mais indiscutíveis representantes na turma da Lava-Jato: Sergio Moro, Deltan Dallagnol (o do Power Point de Lula) e Roberson Pozzobon (o das “convicções”).

Tem também a categoria dos mini-playbas: o MBL, formado por filhinhos de papai que nunca trabalharam na vida, mas que conseguiram se transformar em influência para uma parcela da juventude inimiga dos estudos e que só sabe repetir clichês neoliberais, sem base em dados científicos. “Pagamos impostos demais”, “o Estado atrapalha”, “sem CLT o trabalhador ganhará mais dinheiro”… O pior é que colou.

É inegável que os playbas estão em ascensão e que seu discurso está encontrando ressonância em uma parcela significativa da população. Para a esquerda, o mais preocupante, porém, é que esteja ganhando um espaço crescente entre os pobres. A pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo na periferia de São Paulo confirma: o jovem pobre, do sexo masculino, se espelha no playba. Deseja ser playba. Por isso o discurso de Doria chegou até eles de forma tão poderosa.

Os pesquisadores da Fundação entrevistaram pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos em todas as faixas de idade e de ambos os sexos. Algumas das respostas mostram que a esquerda precisa estar mais atenta para o fenômeno dos playbas sobretudo porque o discurso deles contra o Estado, de “meritocracia”, “empreendedorismo” e “ascensão individual” está sendo largamente repetido entre os jovens.

É frustrante para a esquerda se dar conta que em 13 anos de PT não se tenha logrado ampliar a consciência de classe entre os mais pobres. Pelo contrário, ela parece estar em franco processo de extinção, não só aqui como em outros países da América Latina. Como é possível que, após 10 anos com a esquerda governando, quase a metade dos equatorianos, por exemplo, possa ter se sentido seduzida pelo discurso de um banqueiro?

Na periferia paulistana, segundo a pesquisa, a noção de consciência de classe simplesmente inexiste.

Trabalhador e patrão são iguais, quase “colegas”.

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O discurso da “meritocracia” colou…

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…assim como o de que o Estado é “inimigo” do cidadão.

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Público é ruim, privado é bom.

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E lutar por direitos é “mimimi”.

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Apenas o “ódio ao PT” estimulado pela mídia não justifica nem explica esta adesão de parte significativa da juventude da periferia ao ideário dos ricos, sua dissociação do meio onde cresceram, mesmo porque o fenômeno é internacional: pobres elegeram Trump, pobres elegeram Doria. Como foi que ser playboy virou um objetivo na vida de tanta gente? Quando é que tanta gente mal nascida passou a olhar com tanto desprezo sua própria classe, ao ponto de desejar lhe virar as costas e se diferenciar dela o quanto antes?

Para a cientista política Lucia Avelar, pesquisadora do Instituto Cesop da Unicamp, o perfil do tecnocrata veio a calhar em um momento em que os políticos vivem uma fase de baixa. “O sujeito apolítico, competente, que no fundo quer despolitizar a política, é uma estratégia de marketing que casa com o momento de desencanto com a política”, diz. Ela também percebe esse descolamento dos moradores da periferia de suas origens, sobretudo entre os brancos. “O branco das classes mais baixas, pouco educado, tem aspirações de mobilidade, de status mais alto, não quer se misturar com gente da sua própria classe, querem ser ‘desiguais’, se diferenciar dos outros. ‘Tem gente pior do que eu, que vive debaixo da ponte’.”

Este é um dado, aliás, que também aparece na pesquisa da Fundação Perseu Abramo, e confirma que a consciência de classe deu lugar à rejeição às origens.

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Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, o espantoso seria o contrário. “Em toda a sociedade há um modelo a ser seguido pelos outros, que é o modelo dos mais ricos, dos mais poderosos, da nobreza nos tempos medievais. O poder é um espetáculo. E sendo um espetáculo, os principais atores são aqueles que são mais prestigiados”, diz. “Numa sociedade de forte consumo, o consumo tem um atrativo gigantesco.”

Enquanto a esquerda vê os playbas como fúteis, vazios, cafonas, sem estofo, e assim os subestima, eles se tornaram uma meta para uma massa que vai muito além da “elite” que o PT sempre criticou, enquanto, paradoxalmente, fazia a inclusão pelo consumo –uma das causas para esse desejo tão fundo de ser playboy, segundo Janine Ribeiro e Lúcia Avelar. “A vitória política numa sociedade democrática depende de conseguir hegemonia na sociedade. Em 2001 e 2002, o PT tinha conseguido isso. Havia uma indignação generalizada contra a pobreza, a miséria. Há um vídeo incrível do Duda Mendonça que mostra gente saindo de uma festa e quando aparece o rapaz de barba e bolsa dizendo ‘ se você se sente mal ao ver isso, em algum ponto você é petista, mesmo que não saiba'”, lembra JanineRibeiro.

“Foi uma tacada de gênio, o PT conseguiu fazer a conquista dessa imagem. Foi ganhando eleições, mas rapidamente perdeu essa hegemonia. Quando a direita conseguiu colocar a corrupção contra o PT, isso significou que a causa ética, que era a marca registrada do PT, foi embora. Não é que o PT foi corrupto tanto quanto dizem, mas esqueceu de lutar pela causa ética. Preferiu a inclusão da miséria, mas encarada de forma pragmática, pouco ideológica”, continua. “E, a partir de 2005, 2006, começa uma troca de hegemonia no país, e foi num crescendo. A hegemonia mudou de lado, e é um pacote inteiro: o combate à corrupção, identificada enganosamente com o PT, e o combate aos programas sociais que vem pela valorização do mérito.”

Em minha opinião, as esquerdas têm se equivocado não por priorizar o coletivo –é assim que tem de ser, claro–, mas por não prestar a devida atenção, ao mesmo tempo, ao indivíduo (leia mais aqui). O que a pesquisa Fundação Perseu Abramo mostra com clareza é que o cidadão periférico, assim como os de classe média, deseja ser “self made man”, crescer por si próprio e se tornar, ele mesmo, patrão. A esquerda deixou a “nova classe trabalhadora” pensar que, ao empreender, se situa automaticamente à direita, o que não é verdade.

Nada mais caro à esquerda do que a imagem de uma pessoa que saiu do nada e chegou a ser “alguém” na vida. Tanto é que há uma distopia: as periferias querem empreender, mas estão mirando em exemplos de “empreendedores” que não o são, de self made men que não o são, já que seus ídolos na verdade nunca deram duro na vida, trilharam o caminho mais fácil até o sucesso. Afinal, saíram com muito mais vantagem do ponto de partida, embora encham a boca para falar em meritocracia.

A boa notícia para o campo progressista é que Lula ainda continua representando um referencial neste sentido. A má notícia é: e quando não houver mais Lula?

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