Reforma da Previdência é, além de tudo, machista (como tudo que vem de Temer)

Publicado em 20 de abril de 2017

(Aposentados e pensionistas se manifestam contra a reforma de Temer. Foto: Pillar Pedreira/Agência Senado)

Por Katia Guimarães*

Não bastasse atingir em cheio os mais pobres, a reforma da Previdência de Temer, como quase tudo que veio do governo dele até agora, é uma proposta machista, que aprofundará ainda mais o fosso entre homens e mulheres no mercado de trabalho. A reforma desconhece por completo a realidade da mulher brasileira, que sofre preconceito de gênero, ganha salários menores que os dos homens, trabalha mais horas do que eles e ainda tem de cumprir dupla ou tripla jornada.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, reunidos em um estudo realizado pelo Ipea desde 2004 em parceria com a ONU Mulheres, divulgado no mês passado, comprovam o cenário de desigualdade. As mulheres trabalham, em média, 7,5 horas a mais que os homens por semana. Em 2015, a jornada total média das mulheres era de 53,6 horas, enquanto a dos homens era de 46,1 horas. Em relação às atividades não remuneradas, mais de 90% das mulheres declararam realizar atividades domésticas –proporção que se manteve quase inalterada ao longo de 20 anos, assim como a dos homens (em torno de 50%).

O estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça apontou ainda que os homens brancos têm os melhores rendimentos, seguidos das mulheres brancas, dos homens negros e das mulheres negras. A diferença na taxa de desocupação entre os sexos também merece registro: em 2015, a feminina era de 11,6%, enquanto a dos homens atingiu 7,8%. No caso das mulheres negras, porém, a taxa de desocupação chegou a 13,3% (e 8,5% para homens negros). As casas brasileiras, cada vez mais, estão sendo chefiadas por mulheres –em 1995, eram 23%, vinte anos depois, esse número chegou a 40%.

Os dados corroboram a avaliação da bancada feminina de oposição na Câmara dos Deputados de que a reforma atingirá muito mais as mulheres, empobrecendo-as –sobretudo as negras. Para a deputada Maria do Rosário (PT-RS), “a reforma fortalece e aprofunda a feminização da pobreza”, uma vez que as mulheres acabarão se aposentando com uma renda menor.

Hoje, diante desse cenário, a mulher se aposenta por idade e não por tempo de contribuição. “Estão reconcentrando o dinheiro da Previdência nas mãos dos homens. Eles vão ter mais tempo de contribuição, já que as mulheres ficam mais tempo desempregadas. Elas raramente terão o tempo integral de contribuição e os seus salários são muito mais baixos”, critica Rosário.

O relatório da Previdência apresentado nesta quarta-feira, 19 de abril, na Câmara dos Deputados, expande o tempo de contribuição da mulher para 40 anos e combina com a idade mínima de 62 anos para o recebimento da aposentadoria integral. Para professoras e policiais, a idade sobe de 55 para 60 anos, para as trabalhadoras rurais, de 55 para 57 anos e para as servidoras públicas, vai de 55 para 62 anos. Para receber a aposentaria integral, o vencimento será calculado pela média de todos os meses, desde o início da contribuição.

“Isso é um desconhecimento do mercado de trabalho e da condição de vida das mulheres. Comparado com o texto original, você pode dizer que o relatório reduziu a idade, mas eu não vou comparar com o bode que foi retirado da sala, eu vou comparar com o que é hoje. E é inaceitável, seja do ponto de vista da exclusão, seja do ponto de vista do olhar da mulher”, reagiu a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

A deputada Érika Kokay (PT-DF) também condena a perversidade da reforma previdenciária ao atingir justamente a única política pública que ainda reconhece a desigualdade no mundo do trabalho para a mulher. “É como se a sociedade dissesse para a mulher: ‘ocupe o mercado de trabalho, mas garanta que seu filho jamais adoeça, garanta que sua casa esteja sempre limpa, que você esteja sempre disponível para o seu companheiro’. É como se as mulheres fossem submetidas a um nível de ditadura da perfeição que faz com que carreguem muita culpa, o que é um instrumento de dominação”, analisa.

O argumento dos defensores da reforma de que colocar a idade de aposentadoria da mulher próxima ou igual ao dos homens atende à revindicação do movimento feminista, como disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), causa indignação na experiente deputada Luiza Erundina (PSOL-SP). “Eles dizem: ‘o movimento feminista não luta por igualdade? Então vamos garantir’. É um deboche, fazem isso descaradamente”, critica.

Na avaliação de Erundina, todas as medidas adotadas desde o golpe e a destituição da presidenta Dilma Rousseff se inserem em uma realidade muito maior e preocupante. “É o desmonte do Estado brasileiro capítulo a capítulo da Constituição de 1988, de forma tão rápida que não dá tempo para a sociedade acompanhar. Qual a legitimidade que esse Congresso tem de votar em nome do povo, comprometendo o presente e o fututo?”, indaga.

Erundina enxerga a reforma da Previdência da mesma forma que as demais ações do governo Temer, que caminham para aumentar a desigualdade entre homens e mulheres, reduzir direitos da comunidade negra e LGBT e aprofundar o fosso entre a maioria excluída e a minoria privilegiada. “É uma visão de classe para favorecer quem controla a economia do país”, observa.

A oposição da Câmara conquistou uma vitória na comissão especial da reforma e conseguiu adiar a votação do relatório em duas semanas. Isso vai dar fôlego para o debate ganhar pressão da sociedade. “Ganhamos a chance de fazer a disputa na sociedade e de deixar aumentar a pressão social. O que nós precisamos é que a sociedade tenha mais espaço de pressão e tensionamento para que a gente derrote a reforma da previdência no plenário”, disse Jandira.

Vale lembrar que, nesse meio tempo, a oposição e os movimentos sociais têm duas datas para fazer mobilização em todo o país: a greve geral marcada para o dia 28 de abril e o 1º de maio, Dia do Trabalhador. A votação na comissão especial deverá ser iniciada no dia 2 de maio.

 

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Saiu do portal e matou a família

Publicado em 2 de janeiro de 2017
isamara

(Isamara e seu filho João Victor, os alvos do assassino machista)

Os mortos e feridos na chacina de Campinas são as primeiras vítimas fatais do ódio à esquerda estimulado pela mídia nos últimos anos. Para arrancar o PT do poder, revistas, jornais e emissoras de rádio e TV incentivaram o machismo, a misoginia, a homofobia, a raiva irracional a todo pensamento progressista. Alimentaram a besta.

A carta do assassino nada mais é do que uma colagem dos pensamentos toscos que lemos nos comentários dos portais noticiosos todos os dias, inspirados em (de)formadores de opinião aos quais a mídia deu espaço. Não há nada de surpreendente ali: à parte seus problemas pessoais e psicológicos, o atirador utiliza as mesmas palavras que a direita usa nas redes sociais cotidianamente para atingir “inimigos”, sobretudo mulheres, homossexuais e defensores dos direitos humanos.

Não é à toa que o assassino machista de Campinas apela à mesmíssima expressão para se referir tanto à mãe do seu filho quanto à presidenta Dilma: “vadia”. A palavra “vadia” aparece 12 vezes na carta. Este é o termo mais usado contra mulheres hoje no Brasil, arroz de festa nas redes sociais. Foi o primeiro insulto que recebi ao inaugurar o blog, em 2012, vindo de um roqueiro de direita que se sentiu incomodado por um texto meu –e ele recebeu em seguida o apoio de uma jornalista da Globo.

Contra Dilma, foram incontáveis as vezes em que ela foi chamada de “vadia” e outros termos homólogos a “prostituta” na internet e em cartazes nas manifestações verde e amarelas: “puta”, “vaca”, “vagabunda”, “quenga”. Em 2010, o cartunista Nani foi pioneiro no machismo contra Dilma ao mostrar a candidata “rodando a bolsinha” numa esquina; a charge foi divulgada pelo portal mais visitado, o UOL. Chamar uma mulher de “vadia”, seja ela anônima, jornalista ou presidenta da República virou algo normal, “liberdade de expressão”. No twitter e facebook, xingar mulher rende “likes”. Vão dizer que não? Se até deputados fazem isso e têm milhões de seguidores…

Quem inventou o ódio às feministas presente na carta do atirador de Campinas? Quem o disseminou? Nos programas pseudohumorísticos da televisão aberta e nas redes sociais, é considerado piada inofensiva chamar as feministas de “feminazis”, achincalhá-las noite e dia, demonizá-las. É inegável que, para atingir Dilma, a mídia naturalizou o desprezo às mulheres que se destacam e que lutam contra o machismo. Precisa assumir sua enorme responsabilidade na misoginia que insuflou.

O caso de Campinas infelizmente não é fato isolado. Enquanto a direita brada contra as feministas, todos os dias morrem mulheres vítimas de feminicídio no Brasil. Esta semana, um advogado de Vitória, no Espírito Santo, espancou uma faxineira na porta de casa e teve o desplante de “pedir desculpas”, como se fosse um mero esbarrão. Ficará quanto tempo preso? Em novembro, a sobrinha-neta do ex-presidente José Sarney foi estuprada e morta pelo próprio cunhado, dentro de casa.

Não precisa conferir as estatísticas, basta olhar os portais: todo dia uma mulher é agredida ou morta por ex e atuais companheiros. Desta vez os alvos foram mais numerosos, mas o assassino demonstra sua motivação misógina ao escrever que iria levar junto com ele “o máximo de vadias”. Das 12 vítimas fatais da chacina, nove são mulheres. Em março de 2015, Dilma foi criticada pelo maior jornal do país por sancionar a lei que torna o feminicídio crime hediondo. Em sua carta, o assassino de Campinas chama a lei Maria da Penha de “vadia da penha”.

A combinação de ódio com a defesa do armamento pessoal é literalmente explosiva, e conta com o apoio midiático. Na época do plebiscito, em 2005, a revista mais vendida do Brasil não hesitou em se posicionar, na capa, contra o desarmamento. Uma das bancadas da direita hidrófoba com mais poder dentro do Congresso, todo mundo sabe, é a da bala, formada por políticos que são financiados pela indústria do armamento –a mesma que produz balas de borracha para massacrar estudantes em protestos.

Diante das chacinas que se tornaram praticamente semanais no mundo “civilizado”, seguimos enxergando um uníssono culpado: o fanatismo religioso, esquecendo que todos os fanatismos são igualmente nocivos. O fanatismo político também é sangrento e este encontrou um poderoso eco nas grandes corporações midiáticas, capazes de construir e destruir governantes.

Este é um sentimento perigoso, o ódio. É muita irresponsabilidade para com o país disseminá-lo em nome do antipetismo, estamos alertando há anos. Quantas vezes escrevi aqui aquele provérbio espanhol, “cria cuervos y te sacarán los ojos”? O antipetismo desencaminhou o Brasil, estamos indo para um rumo tenebroso. O único limite para o ódio é o sangue.

E assim começamos 2017… Minha solidariedade às vítimas desta tragédia. Mas sabem o que é ainda mais triste? Saber que nos esgotos de onde o assassino saiu não faltará gente para aplaudi-lo.

 

 

 

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Os pais dos desenhos animados são quase todos idiotas –mas os homens nem ligam

Publicado em 14 de outubro de 2016
gumball

(A família de Gumball: a mãe Nicole e as crianças Anais, Gumball e Darwin; além do pai, Ricardo, dormindo)

Se tem uma coisa que me intriga é como não incomoda os homens que praticamente todos os pais dos desenhos animados sejam completos imbecis. Imaginem se fizessem isso com as mulheres: se todas as mães dos desenhos que nossos filhos assistem fossem burras, preguiçosas, desastradas e inúteis. Ia ser uma gritaria danada das feministas, com razão. Mas os homens aparentemente nem ligam de ser retratados de forma depreciativa, um anti-exemplo para as crianças em termos de figura masculina. Por que será?

Quem acompanha a nova safra de desenhos sabe do que estou falando. O caso mais recente de “pai idiota” é Ricardo, de O Incrível Mundo de Gumball, desenho superdivertido do canal Cartoon Network. Sim, Ricardo é amoroso e doce com os filhos Gumball, Darwin e Anais. Mas, ao mesmo tempo, é infantilizado até na voz, uma criança a mais da qual a mãe, Nicole, tem de cuidar. E não é por que Nicole trabalha fora e Ricardo toma conta das crianças que o torna um mané, mas o fato de ele ser uma pessoa adulta sem nenhum discernimento ou responsabilidade –por sinal, Ricardo aparece quase sempre dormindo no sofá, com a baba escorrendo pelo canto da boca, enquanto cuida delas.

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Um clássico do “pai idiota” dos desenhos animados é, claro, Homer Simpson. Todo mundo já conhece a peça, famosa por dizer a frase “quando eu cheguei já estava assim” para se defender das burradas que apronta. Homer é um péssimo pai, capaz de esgoelar o filho Bart quando ele, na verdade, repete suas molecagens. Não sabe nem sequer como se chama a filha mais nova, Maggie. Homer é tão idiota que virou parâmetro para o jornalismo da rede Globo: em 2005, o professor Laurindo Leal Filho revelou que o Jornal Nacional só transmite o que “os Homers”, como o telespectador médio do noticiário global era definido por William Bonner, é capaz de entender.

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O mais interessante é que, em contraponto ao pai inútil, todas as mães são sensatas, inteligentes e responsáveis. Nicole, a mãe de Gumball, tem que estar sempre de olho no marido e por isso vive estressada. Sem Marge, a mulher de Homer, provavelmente os Simpsons já teriam sido presos e as crianças, dadas para adoção. E não são só os pais e maridos que são idiotas: a maior parte das figuras masculinas dos desenhos animados seguem os instintos enquanto as mulheres usam o cérebro. Anais, de Gumball, é a inteligente da casa; Lisa, de os Simpsons, idem. Clarêncio, o Otimista, coitado, é quase naïf; o Titio-Avô é um adorável paspalhão.

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A estrela-do-mar Patrick é talvez o personagem mais burrinho dos desenhos animados; o próprio Bob Esponja, protagonista do desenho, não é lá estes gênios todos, né? Já o esquilo Sandy Bochechas é espertíssima, luta karatê e é uma grande inventora.

bobesponja

É preciso lembrar que nem sempre as séries televisivas e os desenhos animados retrataram os homens como idiotas. Taí o número absurdo de super-heróis do sexo masculino que não me deixa mentir. Houve uma involução. Na minha primeira infância, as famílias das séries que eu assistia na TV eram formadas por pais e mães igualmente inteligentes e sensatos. Lembro de Perdidos no Espaço e Elo Perdido, sitcoms familiares dos anos 1970.

Ao que tudo indica, esta tendência de transformar o elemento masculino no idiota da turma começou com Al Bundy (Ed O’Neill), do seriado Married… with Children (Um Amor de Família no Brasil), de 1987, transmitido pela mesma Fox dos Simpsons, que estrearia dois anos depois, em 1989. O beberrão Bundy, além de tudo, é machista, ao contrário de Homer. Mas é um idiota igual –um idiota hilário, mas idiota.

bundy

Será que estes pais imbecilizados dos desenhos não terão alguma influência sobre esta geração de jovens do sexo masculino imbecilizados que vemos nas redes sociais? Meninos que só se preocupam em “zoar”? Não sei. Mas estes pais da ficção são inegavelmente significativos da paternidade, ou Homer não teria vencido uma pesquisa em 2012 no Reino Unido como “melhor exemplo de pai” (além de pai “mais embaraçoso” e “mais engraçado”).

Outra pesquisa feita em 2013 pelo site britânico Netmums revelou que 93% dos pais acham que a programação infantil não representa os pais da vida real. “Programas de televisão, livros e propaganda que depreciam os pais estão arruinando a percepção das crianças sobre a paternidade”, diz o site. Quase metade dos pais pesquisados (46%) dizem que desenhos animados como Peppa Pig, Simpsons e até mesmo os Flintstones mostram os pais como preguiçosos ou estúpidos.

“Cerca de um terço dos pais (28%) acham que isso é ‘uma forma sutil de discriminação contra os pais’, enquanto 18% foram mais incisivos, dizendo que esta programação faz as crianças acreditarem que os pais são ‘inúteis’ desde a mais tenra idade e que seria ‘um escândalo’ se isso fosse feito contra as mães.”

Não é verdade? Por que será que os pais não reclamam? Vejo tantos homens evoluindo como pais, se dedicando a modificar o papel que o pai sempre teve na família, mas não vejo preocupação deles sobre o conteúdo dos desenhos que seus filhos assistem como certamente aconteceria fosse com as mulheres. Será que acham que é só “engraçado”? Será que faz parte do perfil masculino não se importar com este tipo de coisa? A impressão que eu tenho é de que os homens não gostam de parar para pensar sobre si mesmos. Ou será que os homens possuem uma capacidade maior de rir de si próprios do que as mulheres?

Gostaria de ouvir algumas opiniões.

Um novo estudo, conduzido por Savannah Keenan, pesquisadora da Brigham Young University, nos Estados Unidos, mostra que 40% dos sitcoms para pré-adolescentes da Disney apresentam a figura paterna de forma depreciativa, “de maneira ridícula ou risível”. A cada 3,24 minutos um pai age como idiota nestes programas. A dúvida da pesquisadora é a mesma que a minha: será que estes programas não estão afetando a forma como as crianças do sexo masculino veem seus pais e consequentemente a eles mesmos?

“Nós sabemos como os pais são representados negativamente pela mídia”, disse Savannah em entrevista ao blog da BYU. “Mas não temos muitas pesquisas sobre como estes programas afetam na vida real o comportamento e as atitudes das crianças. Acho que a coisa mais importante que precisamos saber agora é: como isto está afetando nossos filhos? Se os programas de televisão estão retratando os pais como incompetentes –especialmente quando estão direcionados a um grupo em idade tão sensível quanto os pré-adolescentes– o que estas crianças vão pensar sobre seus próprios pais?”

 

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